De Asa Quebrada!
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maioria dos amigos e amigas que me acompanham nessa jornada semanal de Crônicas & Agudas jamais viu ou participou de uma caçada de marrecões (Netta peposaca). Esse já foi o maior esporte dos viamonenses num tempo em que muitos cidadãos tinham uma arma de caça, espingarda, geralmente de cano duplo paralelo ou anos montados e principalmente no calibre 12, o mais poderoso. Alternativamente usavam os calibres 16 e 20. Os cartuchos de munição eram carregados com grânulos de chumbo com o tamanho selecionado pelo caçador. Eram comuns se municiarem, carregarem seus próprios cartuchos em casa. O senhor Osvaldo Mendelski, pai do conceituado jornalista Rogério Mendelski, tinha sua oficina onde carregava a munição e consertava armas dos amigos mais próximos. A caçada realizava-se nos campos alagados e banhados ou, ainda, nas restevas de arroz. A maioria dos marrecões eram aves migratórias, daí o nome de Marrecão da Patagônia. Uma ave belíssima, principalmente o macho com suas penas de azul noite cintilante, porte altivo, cabeça bem marcada por vermelho colorado. Diz-se ser a única ave que jamais para de bater asas voando tal qual um míssil.
Crônicas & Agudas
O caçador escondia-se atrás de folhagens (negaça) ou nas barrancas das taipas. Usava atrativos que os imitava (chamas) e um apito. Essas chamas eram colocadas numa água clara para serem melhor visualizadas e mais atraentes ao marrecão. O marrecão tem o ‘cruzo’, que é uma trajetória bem marcada pelos bandos, não voam aleatoriamente como bêbado em comício. O caçador precisa de sua habilidade para calcular a distância real e o ponto futuro para o correto tiro. Sempre se buscava o macho belo e impetuoso e o melhor tiro. As aves feridas deveriam ser novamente caçadas e mortas (tiro de misericórdia). Jamais se deveria deixar um marrecão sofrer lentamente na morte anunciada. Isso fazia o verdadeiro caçador parar a caçada (atirada) para buscar as aves feridas. O marrecão é um lutador excepcional, jamais se entrega. Tenta alçar voo, mas baleado, asa quebrada, cai novamente. Seu desespero é brutal vendo o caçador se aproximar e seu destino fatal estar ali. Aquele que não recebia o tiro fatal (de misericórdia?), morria com pancadas na cabeça com o bastão que o homem usa para caminhar nos alagados barrosos ou na coronha da espingarda.
Cr & Ag
Aquele olhar da mais bela ave para seu algoz (caçador) fez a desistência da prática para muitos que se tocaram profundamente e abandonaram as caçadas. As mortes eram por cotas que o governo estabelecia, mas alguns caçadores extrapolavam criminosamente pelo prazer de matar, pela orgia da matança, pela bestialidade orgulhosa da garganta alardeando “ser um baita caçador”. Praticamente não existem mais banhados e caçadores de marrecão e muito menos marrecões. Exterminados pelos caçadores e pelos venenos da agricultura, são luzes e sombras de uma vida que passou.
Essa paralização ou greve de caminhoneiros também foi auxiliar para os governantes terem a quem debitar sua incapacidade e criminosa administração. O brasileiro é, de longa data, uma ave de asa quebrada. Baleado nas suas necessidades essenciais. Dividido em cotas para o abate. Saíram dos banhados para o ar refrigerado dos gabinetes e do luxo dos resorts. Os matadores estão no grupo Nós, as presas e vítimas estão no grupo Eles! Ao contrário da ave de alma pura na natureza, somos incivilizados e cavamos digitalmente num terminal de voto os sete palmos que nos sepultarão. Centenas de milhares são abatidos no alagado fétido dos hospitais e postos sucateados, da insegurança quase absoluta, do pardieiro escolar, tantos mais, no “cruzo” com ou sem o atrativo das “chamas”. “O brasileiro é um forte”! – Como você entende isso?
2018 – 06 – 05 junho – De Asa Quebrada – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão