2016 – 05 – 03 Maio – Fantasmas e Assombrações – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
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Fantasmas e Assombrações!
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uem na sua infância não temeu algum fantasma dentro do armário, debaixo da cama, no porão ou perambulando pelo quintal? Ainda sobravam as estórias de alguma mula sem cabeça, do saci Pererê, de vampiros e de lobisomens. E orava-se para o anjo da guarda, para algum santo ou santa de nossa devoção católica e sem desprezo às simpatias albergadas nas tradições familiares. No entanto, o medo ali estava em ondas de frio e calor, no suor gelado como o suor da hora da morte. O medo que batucava nos dentes soltando alguma obturação não bem fixada e corroída pelas balas quebra-queixo. – Tape bem a cabeça com a coberta e reze para o anjinho da guarda! – acudia a mãe ou a vó zelosa. Minha mãe Dora sempre me recomendava o contrário: – Nunca tape a cabeça e fique sempre pronto para o que vier ou te assustar. Era difícil acatar esse conselho, de início. Mas logo os fantasmas foram perdendo seu poder e até seu glamour.
Crônicas & Agudas – Cr & Ag
As crianças têm uma atração especial pelo desafio, pelo perigo que ronda, pelo terror que espreita e pelos desfechos de heróis e de heroínas. Os contos tradicionais são assim recheados de terrores e tornaram-se mundiais com os séculos. E as antigas e novas versões de Chapeuzinho Vermelho e do Lobo Mau, por exemplo, vertem um simbolismo inarredável do crescimento e da evolução pessoal. Encarar bruxas e feiticeiros, alienígenas e monstros jurássicos trazem a diversão para uns e a fortuna para outros. Mas para todos é o descobrimento e a manipulação de universos de encantamento e novos entendimentos. Minha mãe e minha irmã Shirley eram exímias contadoras de estórias. Trouxe para os filhos e para os netos esse universo encantado e repleto de simbolismos e metáforas que espero que os ajude na vida.
Cr & Ag
O escritor e particularmente o cronista, meu caso, conto e interpreto estórias e histórias nesses vinte anos de colunas de jornal que tenho a honra de ser acompanhado por tantos leitores. Reais para uns, imaginárias para outros. Nenhum de nós vê o mundo com as mesmas cores, formas, odores, vibrações, enfim temos as perspectivas individuais e ricas do espírito. O contador de estória é uma figura ímpar e com enormes distinções em muitas culturas, como em muitos povos árabes. Sintam que até Gutemberg ao imprimir o primeiro livro, a Bíblia Sagrada, a escrita estava confinada aos poucos ‘iluminados’ e hermética para a maioria das pessoas. Sem precisar caçar ou pescar para comer, dispor de uma ‘simplória’ geladeira para guardar a comida e com as pessoas tendo a liberdade para criar e trabalhar naquilo que bem entendessem e vencer por seu esforço e talento, as pessoas dispuseram de mais tempo – palavra mágica! – para… conversar e contar histórias. No entanto, muito desprezado ainda.
Cr & Ag
Eis que assisto a uma mãe de trinta e quatro anos, mais ou menos assim: – Olha que a mula-sem-cabeça vem te pegar! Fica aqui com a mãe, cuidado que tu pode te perder correndo aí. A mula-sem-cabeça da Dilma já pegou a mamãe e vai te pegar também! Estávamos num aeroporto aguardando vôo para o mesmo destino. Descobri ao conversar com ela. Essa de Dilma e mula-sem-cabeça aguçou meu radar. Trabalhou quase doze anos numa empresa que fechou as portas no interior de São Paulo. Ela e o marido, desempregados. Voltavam para seu Estado natal. E abriu a dor de seu coração para a caótica situação que passava e muitos amigos e conhecidos. Escandalizada com a “roubalheira” e a “incompetência”. Para ela e sua filha pequena o bicho papão tem nome, sobrenome e família. Fantasmas, assombrações, bruxas e vampiros são reais. E pior, a desesperança que alguma oração ou simpatia vá tornar a vida da sua filha e de sua família melhor em longos anos. Assim, há muito mais o que temer nos monstros que nos assolam!