Gratidão! ….. Parte 1 de 2. Eds Olimpio. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 06 Outubro 2020.

 

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Gratidão!

Parte 1 – John e Bogga.

John é seu nome. Único sobrevivente de um acidente de avião na África que vitimou seus pais. Voltou para as terras altas da Escócia, mas na adolescência, depois de visitar seu tio paterno, em alguma região do Vale do Rift, encantou-se ainda mais e permaneceu na África. No gigantesco parque há uma unidade de saúde e escola com voluntários de todo planeta, semelhante ao MSF – Médicos sem Fronteiras. Durante uma expedição a uma aldeia distante, encontrou uma leoa morta por caçadores clandestinos e seu filhote prestes a ser despedaçado e devorado por hienas. Salvou o filhote e o tratou dos ferimentos. O leãozinho integrou-se à pequena comunidade. Mamava na cadela Bogga e brincava com seus filhotes. Recebia mamadeiras de leite de búfala pela manhã, antes de sair ao trabalho, e à noite quando retornava pelo John. Cresceu acompanhando as equipes de saúde e o John pelo parque.

O poder da testosterona do jovem macho se manifestava com certas irritabilidades. Durante uma excursão, sentiu-se atraído por uma família de leões. Ali despediu-se de seu pai e amigo humano. John sabia que o jovem leão teria que ganhar seu espaço e fazer sua família com o poder de sua natureza. É da vida!

Anos depois, John estava encurralado numa borda montanhosa durante terrível tempestade. Raios rasgavam o manto negro do firmamento, enquanto a chuva torrencial arrastava tudo ao seu caminho. Mesmo um homem cunhado na adversidade africana pode acidentar-se. John viu o solo ceder aos seus pés e rolou entre as pedras do barranco.

Imagens bailando desordenadas em sua mente ferida. Seu pai e sua mãe lhe surgiam em halos de luz que eram engolfados pela escuridão. Um leão enfrentando hienas em feroz e mortal combate. Novamente escuridão. O tempo escorria pelo vale. Eis que seus olhos sentem as agulhadas dos raios do sol africano e logo seu calor alfineta todo seu corpo. Perna quebrada. Fratura feia. Sangue coagulado em sua face e mãos. Cabeça ferida e entende o dilúvio de imagens que a concussão aportou. Início lentamente vai se apalpando e identificando seu ferimentos traduzidos e localizados pelas dores intensas.

Todo seu ser explode num temor ancestral, primitivo como naqueles homens da aurora dos tempos da humanidade sendo acossados e devorados por feras e predadores. Um gigantesco e impassível leão está deitado a poucos metros dos seus pés. O cenário se abre num flash e identifica hienas mortas e uma agonizante. Busca desesperado seu rifle, arrasta-se. A faca salta da sua cintura num reflexo desesperado. O enorme leão assiste enquanto lambe seus ferimentos de combate.

John encara a face do leão e estarrece ao notar que o leão tem a pálpebra esquerda semiaberta. Igual ao do filhote que ele salvou das hienas. Igual ao jovem que viveu com ele e as pessoas e animais da unidade no parque. Ele havia ficado com o nome de “filho da Bogga, a cadela”. Depois de sua morte, perpetuou nele o nome de Bogga.

Bogga?! Repetiu várias vezes. O poderoso animal levanta-se e lentamente se aproxima dele. Deita-se ao seu lado oferecendo a cabeça para o carinho que recebia. Afaga com um carinho dos corações libertos. Entende a situação. O leão manteve-o vivo, protegido de ser devorado pelas terríveis hienas. O rádio está perdido. Bebe a água empoçada nas pedras. Alcança o rifle e marca um perímetro que se violado pelas hienas ele atiraria. A noite se aproxima e o riso macabro e a dança das hienas se aproximando. Somente ele e Bogga. Seu amigo ruge. Ruge para os céus. Logo rugidos de leões surgem no horizonte. Vários leões se aproximam. Sua família chegou para o combate final. Sem mais munição para o rifle, com a faca esgoelada entre os dedos assiste uma cena inaudita. Entre as pedras, com o barranco às suas costas, Bogga e outros leões à sua frente. Uma barreira a lhe proteger. Os leões vencem. Os outros membros da família de Bogga surgem. Seus filhotes vem brincar com ele. John chora e ri. Sua mãe e seu pai voltam aos seus sentidos.

Quando a equipe de resgate o encontra, a cena inacreditável. John cercado por uma família de leões, filhotes nos seus braços e diversas hienas dilaceradas na arena de batalha.

John despede-se do amigo com lágrimas rolando de sua face e uma gratidão que somente a luz identifica.

Observação: Essa crônica continua na próxima edição do melhor jornal da região – Jornal Opinião de Viamão. A versão estendida do Autor estará no próximo livro.

 

2020 – 10 – 06 Outubro – Gratidão! John e Bogga – Eds Olimpio

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Médico do Trabalho! **********04 Outubro

 

MÉDICO do TRABALHO!

*** 04 Outubro

Med Trabalho - 04 Outubro

A Vida por um fio! Eds Olimpio. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 29 Setembro 2020.

2020- 01 - Jornal Opinião - Cabeçalho da Coluna para BLOG

A Vida por um fio!

Croché ou crochê? Minha mãe Dora dominava essa arte com maestria e seus trabalhos eram bem considerados. Costureira e dona de casa. Fazia croché para amigos, pois nunca vendeu, e para a sua fé que estampava na segunda grande igreja dessa terra riograndense. Nos últimos anos, nossa bela igreja tornou-se uma sombra, uma pálida imagem, arremedo da sua beleza anterior. Isso acontece quando o orgulho se transforma em dor.

Uma agulha curta com um gancho, como uma fisga na sua extremidade mais afilada, pesca os fios da linha e somando pontos vai moldando os arranjos variados e belos. Sua imagem com a linha e a agulha bailando entre seus dedos no avarandado de nossa casa beira-mar na Cidreira após o café da tarde sempre tão sortido de suas especiarias culinárias, vive no meu coração. Dote, habilidade que minha irmã Shirley aperfeiçoou e multiplicou.

A doença e uma teia de erros médicos deixaram minha mãe com menos de cinquenta anos com a vida por um fio. E o fio se rompeu. Essa expressão “a vida por um fio” tornou-se uma constante na vida do homem médico e cirurgião. Hoje, mais distante da frente de combate mortal, as imagens de enfermos ligados a fios e um tubo que penetra seu corpo para levar o oxigênio vital, invade nossos sentimentos e fere nossos sentidos.

Crônicas & Agudas

Quem já perdeu sabe avaliar e aquilatar a dor e o sofrimento alheio. Donde veio essa expressão que tanto traduz e assusta – a vida por um fio? Na mitologia grega, o início era o Caos absoluto, trevas e escuridão e numa sequência, que espelha outras filosofias e religiões, os deuses primordiais criaram e evoluíram, inclusive formando novas e poderosas divindades.

Ali estava Nix, a deusa primordial da noite e dela nasceram três filhas que “teceriam” o destino de humanos e deuses – Cloto, Láquesis e Átropos, as moiras. Manuseavam um tear, a Roda da Fortuna, composto de oito teares acoplados e em consonância. Cada uma delas tinha três auxiliares, divindades menores, e suas tarefas eram divididas – trabalho de equipe. Até Zeus, o poderoso “rei” dos deuses do Olimpio, era submisso às moiras (Parcas para os romanos).

Cr & Ag

Ali trançavam, teciam, elaboravam a trama vital da humanidade. Cada fio representava um ser, homem ou deus. No topo desse tear místico, a Roda da Fortuna, havia sereias que emitiam sons, sonoridades, cânticos que permeavam vibrando essa trama do tecido em que as vidas, as existências se cruzavam.

Lembra Ulisses e as sereias? Outras seguiam em paralelo, muitas distantes que em certo momento o fio era trazido para um local ao gosto delas. Vezes representadas como velhas horrorosas, outras como jovens belíssimas e eternamente virgens, dotadas do poder que ainda permeia as mulheres. Um fio adelgaçado – uma vida fraca e doentia. Um fio encorpado – opulência, riqueza. Um fio comprime outros – império e poder sobre outras pessoas. Um fio envelhecido – a vida que se esvai. Um fio que se rompe ou é cortado – morte!

Cr & Ag

Há semelhanças em todas as religiões da Terra. Místicos, médiuns e iniciados observam, sentem, visualizam cada corpo emanando uma energia única e há um elo, como um fio etéreo, pleno de energia e vibração que perpassa corpos. Origina-se de cada ser vivo. Cita-se que se destinam, tanto isolados como acoplados num cabo, muitos fios, de infinitas cores, a algum lugar superior (ou inferior).

A luz retorna à luz ou que se perde nas trevas e sucumbe nos planos inferiores da degradação das virtudes. Um fio! Um fio de vida! O fio ancestral. O novelo (fio da meada, o nó!) primordial comprimido e espalhado com a grande divisão universal (Big Bang?), persistindo fios que nos aproximam (amor e ódio).

Liames espirituais ou de energia (quântica?) mantém essa teia ou tecido sendo desenvolvido num tear infinito. Com ou sem as moiras, com ou sem livre arbítrio, mas nas encruzilhadas da vida, da existência…

O fio da vida e… A vida por um fio!

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2020 – 09 – 29 Setembro – A Vida por um Fio – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas

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Farmacêutico! Dia Internacional – 25 Setembro.

 

Farmacêutico - 25 Setembro

Momento ideal! Eds Olimpio. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 22 Setembro 2020.

 

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Momento ideal!

“A música suave acalenta as lágrimas que rolam pela face, enquanto a mão busca um pequeno lenço na bolsa. As luzes se concentram no alvo da homenagem derradeira e pétalas de rosa se desprendem do alto. Ave Maria é a mensagem da partitura. O veículo de passagem, lacrado desde o hospital, ascende, enquanto cortinas diáfanas o envolvem como um manto celestial. Somos poucos. Infinitamente menos que ali estariam noutra situação. Abraços fugazes e votos de consolo. Os rostos cobertos trazem máscaras úmidas do pranto continuado…”

Outra melodia do cotidiano nos diz: “Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor…” Nossa humanidade nos impele para postergar, deixar para depois, transferir para outra oportunidade. Alguns mais e outros menos. A peste chinesa, chamada de pandemia, se associou ao pandemônio e a fatalidade abriu suas portas, estendeu seu longos e gélidos braços, como tentáculos sinistros, trazendo para seu seio os planos, projetos, aspirações e ideais de tantos amigos e amigas, como de irmãos desconhecidos.

Crônicas & Agudas

O Tempo é um companheiro, tanto um amigo como um cobrador implacável. As divindades que habitam mitos e religiões não investem contra o tempo. Nem o desafiam. O tempo, se fosse um ser vivo, seria ancestral de todas as coisas. Podemos, tentamos ou até queremos regatear, negociar com Deus. Também com Lúcifer! Assim fazemos promessas e calculamos nossas atitudes e pensamentos, medimos nos preces e oferendas para num tempo recebermos nossos benefícios e propósitos. Entretanto, jamais alguém conseguiu pechinchar ou “vamos sentar para acertar nossos relógios” ou “o negócio é o seguinte, dá uma segurada que não quero morrer agora, pois ainda não fiz a viagem para Veneza”, por exemplo, com o Tempo. Talvez assim: “Tchê Tempo, vamos dar um tempo aí que blábláblá”. O tempo não arreda pé do seu… Tempo. Sua balada é firme. Seu trote, que ousamos medir em tic-tacs ou em sombras de relógios, é inexorável.

Crônicas & Agudas

Alguns, talvez perfeccionistas ou postergadores mórbidos, buscam o momento certo, o momento ideal para suas realizações e concretizar seus objetivos e intenções. Evidente que tudo irá se revestir, se blindar numa série consagradora de argumentos que visam sossegar o eu interior. Que luta, esperneia e berra – “pode não dar teeempooo”! Pois é, é mais ou menos assim que essa sinfonia, tantas vezes destrambelhada, se chama de vida. “A vida é curta” – para nós mortais. Para quem busca o momento ideal de trocar de casa-roupa-alimentação-cidade-carro-religião, para ilustrar ou começar, a vida jamais iria sucumbir a um vírus ou ao político corrupto  de plantão ou condenado. Acreditava que “quando chegar a hora certa, eu resolvo, eu faço”. Não resolveu e não fez. Sempre lastimamos. Sempre sofremos. A dor busca a solidariedade no coração humano, no afeto ilimitado do cão ou na divina e constante magia da restauração da natureza.

Crônicas & Agudas

O mais belo e puro ser que deambulou nas pedras e poeira desse planeta jamais nos mostrou que estamos aqui para sofrer, penar e causar a dor das pessoas que amamos ou até desconhecemos. Estamos aqui para evoluir na disciplina, no amor, na humildade e na gratidão. Somos livres para escolher nossos caminhos e curtir as incertezas das encruzilhadas. É a caminhada pelo entendimento e evolução. A jornada pessoal torna-se na jornada da vida de todos. O teu ou o meu momento ideal se concretize no agora. Deixar as belezas da existência ou abandonar as enfermidades do espírito para um tempo futuro, para um tempo que não nos pertence, para uma época ou um momento em que poderemos ser pranteados por partirmos muito antes daquilo que projetamos e arquitetamos?

Meu filho Eduardo traçou a essência dessa crônica pela sua percepção do “momento ideal” que vivemos ou que perdemos. E você, qual a sua impressão ou intuição?

2020 – 09 – 22 Setembro – Momento ideal – Eds Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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Viamão! Uma história não revelada. Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 14 Setembro 2020.

 

 

Viamão! Uma História Não Revelada!

 

Especial – Aniversário de Viamão.

 

Véspera de Natal. A tarde buscava o seu repouso diário em alguma coxilha desses campos sem fim do Rio Grande. O clima estava como o coração de muitos gaúchos – triste, melancólico. Há vários dias que um vento minuano, destemperado para essa época do ano, trazia rajadas de um frio cortante. As árvores perdiam o sorriso de suas flores primaveris. O Rio Grande sofria as mortes de uma guerra medonha em que irmão lutava contra irmão. Sangue derramando sangue fraterno. Novamente, não haveria risos de alegria e muito menos a paz em muitas das casas espalhadas em torno da monumental igreja.

 

A igreja construída por escravos e portugueses com paredes de tijolos e barro fundidos com as conchas trazidas do oceano há cerca de 100 km ao leste era o testemunho religioso de uma fé cristã. Sua face voltada para o norte como a pedir clemência ao império estabelecido no Rio de Janeiro. No entanto, suas costas viradas para o sul acompanhavam os animais que são fustigados pelo clima inclemente. Campos do Viamão ou Campos Açorianos, eram nomes dessa região.

 

Trincheiras abertas no perímetro externo do povoado ainda colecionavam defuntos por sepultar. Mas as maiores e piores trincheiras estavam nos corações. Logo o Minuano, um vento seco, abre passagem para seu irmão o vento sul e, sem alívio, uma garoa açoitava os que ainda ousassem permanecer na rua ou teimassem em estar com as portas de seus comércios abertas. Logo a senhora noite desceu seu véu negro sobre o povoado. Com dificuldade, lampejavam chamas bruxuleantes pelas frestas das pesadas portas e janelas. Algum fogo de chão denunciava o labor de galpões.

 

Uma figura trôpega e um cão. Um homem? Sim! Um homem e um cão. Seria mais um andarilho? Mendigos com a mente transtornada pelas batalhas vagavam pela região. Algum espião disfarçado? A criatura andrajosa bateu na primeira porta. Quando o dono atendeu, o candeeiro em sua mão iluminou uma face muito envelhecida e disforme. Deu um passo para trás e segurou o cabo da adaga em sua cintura. O mendigo queria um pouso e com certeza uma comida quente. Mas o homem o escorraçou. Ao que o cão, em defesa do amigo, cerrou os dentes e crispou o lombo. O medo, a feiura, a mutilação ou preconceitos obscenos teria isso causado?

 

O miserável andarilho tentou a casa seguinte. A recepção foi pior, pois um dos filhos do proprietário jogou-lhe os dejetos contidos num penico. Assim continuou, sempre com a mesma acolhida – enxotado. Restava-lhe a igreja. Arrastou seu corpo depauperado escadas acima. Encontrou a porta cerrada. Nem a casa que os homens haviam erguido em homenagem a Deus, o aceitava.

 

Voltando à rua enlameada, cinco cavaleiros irromperam. Estacando a montaria, o que parecia ser o chefe, ordenou-lhe que desaparecesse ou seria morto. Açoitando o cavalo mergulhou na escuridão chuvosa. Ao erguer os olhos, o andarilho vislumbrou que um dos cavaleiros havia ficado para trás. Era um lanceiro negro. O negro enfiou a mão na mala de garupa e retirou um pão e deu-lhe. Naquele instante em que as mãos do negro e do andarilho seguravam o pão, o lanceiro falou-lhe:

 

 Cristo esteja contigo! – e voltou a acompanhar  grupo.

 

O andarilho e o cão saíram do povoado e não muito longe dali encontraram uma enorme figueira. Buscou abrigo entre as suas raízes. A árvore centenária espalhava longos braços que envolviam uma rocha. Ali ele buscou refúgio da chuva, do vento frio e… de certas pessoas. Dividindo o pão com o fiel amigo, olhava para o céu.

 

As palavras do lanceiro negro ribombavam em sua cabeça. Eis que o vento cessa num relance. O céu para de chorar. As nuvens correm para outras paragens. E a lua surge como uma deusa ancestral que arrasta em seu manto uma miríade de estrelas. E o céu se ilumina. As poças d’água reluzem o pulsar do universo. O andarilho sente a luz penetrar por seus olhos. Sente a luz varar seus trapos e vibrar sua pele. Como a circular em seu corpo enfermiço.

 

O cão lambe amorosamente suas mãos. As chagas e os dedos mutilados ganham luminosidade.  Ele olha em direção ao povoado e agradece a um Deus que há muito havia renegado. Um Deus que lhe permitiu estar ali agora e não dormindo em sacos ou pelegos imundos em algum galpão. Seus olhos derramam grossas lágrimas e num choro arrancado do fundo de uma alma que julgava não ter mais, grita por um perdão já concedido pelo Criador. Seus pulmões vibram perdoando a quem mal lhe fez. Então, cai de joelhos. Convulsivamente chora e balbucia nomes e lugares. Súbito, olhando para o espelho d’água, distingue uma forma perfeita. Um homem jovem e sadio. Ali está refletida a imagem daquele que um dia foi ele. E ali ele sente como se uma energia divina saísse de seu coração, irradiando ao seu amigo cão e se espalhando pelo local, pelo povoado e como numa explosão de uma estrela de luz atingisse a todos.

 

Dia seguinte. Um lanceiro negro vasculha a periferia do povoado. À noite passada, houve uma explosão e, como por um encanto místico, todas as lamparinas, candeeiros e velas apagaram-se e acenderam-se sem que nenhuma mão humana os tocasse. Eis que escuta um uivo. Cavalga em direção aos uivos. Vê o cão do andarilho. O animal está como a lhe chamar. Freia o cavalo num sofrenaço. O cão desaparece entre as poderosas raízes da figueira. Os segundos parecem eternidades. O andarilho está ali morto. O cão repousa a cabeça no colo do companheiro e num último suspiro, entrega à guarda do corpo a outro amigo. Um homem escaldado nas piores adversidades da vida, com o coração a tamborilar insanamente em seu peito, sente os olhos marejarem e as pernas a tremerem. A mão esquerda do andarilho está colada à rocha e ali deixa uma marca. Como se uma mão em brasa fundisse o granito, marcando, tomando sua posse. Ali o andarilho foi sepultado. E também o seu cão. Logo a guerra terminou. As pessoas souberam do acontecido. E, por várias gerações, ali brotava um lírio selvagem e uma vertente de água cristalina, como um friso de lágrimas entre as raízes. E aos olhos e sentimentos do mundo, a mão gravada, esculpida, na rocha. Assim foi realmente forjado o nome desse povoado de Viamão, mas que por uma vergonha e culpa que rasgava o espírito dos habitantes, justificou o nome da região por outras maneiras.

 

 

Nota do Autor: Viamão – Rio Grande do Sul, minha cidade natal, considerada a primeira (ou segunda – outra controvérsia) capital do Estado tem na origem do seu nome uma fonte de mistérios. Atribuem uns que deriva da visão de rios visíveis do alto da torre da igreja que confluem formando "uma mão". Outra versão seria de uma família rica que residiu no local – os Viamont. Enfim, estórias e histórias são contadas. A verdadeira?

 

Observação: Esse texto é uma criação original de autoria de Edson Olimpio Silva de Oliveira – Médico, Cirurgião e Escritor. Publicada originalmente no Jornal Opinião de Viamão e no livro Crônicas & Agudas.

 

 

2020 – 09 – 15 Setembro – Viamão! Uma história não revelada – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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Reedição.

 

 

 

Deuses e Demônios! Parte 2 Final. Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 08 Setembro 2020.

 

 

Deuses e Demônios! – Parte 2

Desde eras imemoriais, o médico, mesmo curandeiro, carrega uma aura de competência e credibilidade acima dos demais mortais. Os mais poderosos imperadores e generais se cercavam dos mais hábeis e competentes médicos. A riqueza e o poder são fugazes sem a saúde. Do grego imortal Hipócrates, do romano Galeno, ao árabe Avicena, devassando o poder está Rasputin no império russo e chegamos ao Brasil da pandemia com pandemônio.

Durante mais de um ano o governo Bolsonaro contou com a empatia, esperteza, astúcia mortal e convincente do médico Mandetta. O Presidente obsidiado, como tantos pelo poder do médico em propaganda diária. O lado negro da força, Globo e asseclas com seus “especialistas e cientistas” refletia em Dráuzio Varela e ecoava no pré-carnaval – “uma gripezinha”. Antes do carnaval, início de fevereiro, governo federal decreta estado de calamidade, mas os governadores e prefeitos faziam “o maior carnaval de todos os tempos”. A peste chinesa, semeada e adubada pela podridão, pelo esterco jurídico dos supremos homens de preto, crescia. Pululava.

Crônicas & Agudas

Pensemos! Historicamente há médicos refratários, inacessíveis e agressivos às mudanças de rota. Milhares de anos nos separam da singela higiene das mãos ao tratar os pacientes. Incrível e real! É do perfil do líder, principalmente se tem ‘DNA militar’, jamais se acovardar ou dar sinais de fraqueza aos seus comandados. Duque de Caxias não se escondia nos gabinetes do império. Bento Gonçalves, herói farrapo, peleava de lança e adaga à frente de seus homens.

O destemor do líder e sua reação à morte invisível foi usada como argumento maligno. “Fiquem em casa até terem falta de ar, aí procurem os hospitais” – pregou Mandetta fantasiado com o jaleco do SUS e desfilava o bloco na rua diariamente. Quantos milhares morreram e ainda morrem por essa ordem nefasta de uma autoridade, um médico? “Não há tratamento comprovado”! – mas o líder eleito ousa desafiar e incita seu povo a se defender com as armas disponíveis, isto é, medicamentos.

Escaramuças e o núcleo macabro renascido do Inferno de Dante regurgita normas, perseguições e o odor de enxofre varre Brasília e infecciona no STF, viralizando pelo Brasil e seu povo.

Cr & Ag

O poder da credibilidade do médico trouxe cubanos sem comprovação legal de capacidade para atender ao povo brasileiro. Médicos se associaram nessa pantomina, talvez muitos desses que agora exijam todas as comprovações “legais” da hidroxicloroquina e outros remédios para tratar a peste chinesa. O paciente se submete ao poder da imagem e do nome. Lembra-se de  Roger Abdelmassih solto por Gilmar Mendes? Isso também é comum entre os religiosos, com a ampla pedofilia espraiada e descoberta.

O poder do homem sobre o homem – para o mal! A saída de Mandetta e Moro está para um descarrego, uma desobsessão, um exorcismo. O espiritismo e filosofias orientais buscam explicação, expiação e acalento na reencarnação. No aqui e agora, buscamos e necessitamos da Justiça real e a decantação, a filtragem da escória. Essa vida é curta, logo partiremos pelos caminhos naturais da existência ou pela malignidade metastática de entidades e criaturas.

Deixaremos para nossos descendentes um mundo de melhoria e purificação, de evolução e redenção para o milênio seguinte? O sentimento é de fracasso como espécie humana é comum? Talvez se associe ao sentimento daqueles que acreditam que desde a saída do Éden, somos seres de morte e devastação, da destruição do planeta e da vida com intervalos de luz e evolução. Bah! Assustador e real.

Cr & Ag

Ao redor de uma fogueira na caverna milenar, uma pessoa (cronista) atiçava o fogo com uma vara e  falava para iluminar a mente do grupo. O contador de histórias era a luz nas aldeias e cidades árabes e, como no cristianismo nos subterrâneos de Roma, estimulava, em contos e histórias, a reflexão, o entendimento sempre doloroso. Essas sementes ainda nos impelem à revisão de entendimento e novas rotas.

Jamais devemos esconder a cabeça e esperar a roda do tempo para consertar nossas falhas e ausências. Todos os livros sagrados da humanidade nos alertam e a razão, com disciplina, amor, humildade e gratidão, nos prepara e fornece as armas necessárias.

O mais terrível e letal porte de arma do médico não é o bisturi ou os ferros cirúrgicos. É a credibilidade e o poder da Medicina ser a necessária fonte da Saúde! – T. Jordans

 

 

 

 

 

2020 – 09 – 08 Setembro – Deuses e Demônios 2 – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas

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Deuses e Demônios! Parte 1 de 2 . Edson Olimpio Oliveira , Crônicas & Agudas . Jornal Opinião de Viamão . 01 Setembro 2020.

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Deuses e Demônios! – Parte 1 de 2

 

Depois do período de enclausuramento compulsório de final de março e abril, retornamos ao consultório. O pacientes temerosos chegam-se com queixas diversas. Entretanto, todos se lastimam da insônia, falta de sono, sono ruim, sonhos excessivos e carregados de apreensão. “Tem que dormir para crescer” – avós orientam suas filhas e noras novatas. “Sono é vida” na fala do sábio e do ébrio no botequim.

Vamos velejar ou remar um pouco nas águas do rio do tempo! “Está nos braços de Morfeu” (deus grego  mitológico dos sonhos). Seu pai Hypnos, filho de Zeus, era realmente o deus do sono. Essas entidades percorriam a Terra entrando pelo sono e sonho na vida dos humanos. O grego Asclépio (Esculápio romano) era o deus da Medicina. A Medicina da época incluía dormir nos templos, para que durante o sono fossem tratados pelas divindades, complementando a atividade dos médicos e seus auxiliares. Sono e saúde. Bom sono, boa saúde. E desconheciam a bioquímica corporal.

“Que teu remédio seja teu alimento e teu alimento seja teu remédio”, – Hipócrates!

 

Crônicas & Agudas

 

A Medicina e a química buscam substâncias que gerem sono. De álcool à drogas viciantes, a lista é longa. Novas “divindades” da farmacologia: diazepan (Valium), clonazepan (Rivotril), lorazepan (Lorax), segue o baile. Observe o “pan” ao final da palavra. Casualidade? Nada é casual.

Pã ou Pan dos gregos, Fausto dos romanos, um metamorfo (partes de animal/bode e homem) era o deus das florestas. Diabo também tem partes de bode! Apaixonou-se pela ninfa Sirinx. Num surto de libido, tesão selvagem, de espada em riste, bufando e babando no cavanhaque causou terror nas matas. Os bichos em pânico – macaco escalou o mais alto galho, o leão encostou a culatra na figueira… Sirinx desesperada gritava help, SOS e corria ofegante. À margem do rio, clamou auxílio das irmãs náiades. Transformada num caniço, num junco, que ao balouçar pela brisa emitia sons harmoniosos e belos. O desvairado bodão arriou a arma e a adrenalina, colheu o caniço e mais outros fazendo uma flauta, chamada Siringe.

Para o bem ou ao mal, o som da flauta ecoou pela floresta, desde então se teme atravessar matas à noite. Se escutar uma flauta, corra e proteja-se.

Siringe, a flauta de Pan, em forma de tubo, deu nome ao órgão de canto das aves, como papagaios. A anatomia médica deu esse nome a uma cavidade no sistema nervoso humano e a sua enfermidade – Siringomielia. Incrível como tudo está conectado! Seria de Pan, Pânico e Pandemônio? Discute-se.

 

Cr & Ag

 

Nossa sociedade ancora-se na civilização grega (helênica) e romana. Direito, engenharia, medicina… O médico ocidental presta um juramento ao diplomar-se – Juramento de Hipócrates! O maior legado de Hipócrates foi muito além da medicina, já que pouco interesse tinha ao tecnicismo. A moral, a ética, a honra, os princípios da retidão do caráter, consigo e com a natureza. Estuda-se assim na Deontologia.

Dessas eras a poucos séculos, as enfermidades estavam no desiquilíbrio de quatro humores naturais. “Fulano está de mal humor”! Isso vem daquela época. Qual o humor dos ministros do STF? O odor é fétido e o território é pantanoso e repleto de peçonha e monstruosidades.

Os ouvidos tem familiaridade com Platão e Sócrates – o filósofo executado com o veneno cicuta por não abdicar de seus princípios. Os livros do historiador e cronista Heródoto, como os poemas de Homero (de Ilíada até um “ato homérico”, grandioso) trazem a honra, a coragem, a dignidade, a moral e a ética e o valores humanos sempre em destaque, na base e na essência. Aos orientais há a filosofia de Confúcio e Buda.

 

Cr & Ag

 

Insônia e doença. Dormir e não acordar. Dormir e acordar em outro espaço – céu? Medo, até pavor. Incrustados em nosso espírito estão milhares de anos de humanidade e sobrevivência. O temor cresce, quando não se entende ou quem manda está de “humor ruim ou endemoniado”.

Nesses milhares de anos desbravando a terra e o mais profundo (calabouços?) da mente, do corpo e até da alma, estamos vencendo, evoluindo numa lei ancestral e inexorável, universal e independente das crenças e perversões. Amanhã é um novo dia. Outras lutas. O sol dentro de nós é poderoso. Sim! É alimentado pela chama divina. Entretanto colhemos aquilo que plantamos.

Convivemos com o que semeamos. Sempre o médico e o cronista te incitam, estimulam à reflexão e a reação!

 

2020 – 09 – 01 Setembro – Deuses e Demônios 1 de 2

Eds Olimpio – Crônicas & Agudas

Jornal Opinião de Viamão

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DIA DO BIÓLOGO!

 

03 DE SETEMBRO

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O Amanhecer e a Luz do Sol! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 25 Agosto 2020.

 

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O Amanhecer e a Luz do Sol!

Em algum tempo e lugar da humanidade, os humanos se acotovelavam numa caverna ou em qualquer esconderijo que oferecesse segurança para si e sua prole. Eis que num combate mortal com uma fera, homem e animal rolavam por um leito de palhas secas, seu braço alcançou uma pedra e com desespero mortal alçava seu braço em golpes possíveis. Num desses golpes de sobrevivência, há a colisão de pedra contra pedra e daí uma fagulha incendeia rapidamente as palhas.

A fera, temendo o fogo, largou-o ferido, mas vivo. Aquele pequeno grupo, que tanto temia o fogo dos céus, um mandado da divindades cruéis, acomodou e manteve a viva a chama salvadora. E a cultivou. E cada membro que se apartava do grupo, levava-a. Outros passaram a dominar o choque das pedras e colher as fagulhas, como o ‘fogo divino’. Jamais a escuridão seria tão aterradora e as feras assistiram o nascimento do poder do maior dos predadores de animais e de homens.

 

Cr & Ag

 

Milhares de anos e o aperfeiçoamento do domínio do fogo fez e faz a diferença entre a vida e a morte. Entretanto, apenas a luz do sol traz a segurança e o renascer de todas as criaturas. Temos o sono para recuperar as forças e a saúde, mas também para que as sombras da noite não escancarem nossos olhos e assombrem nosso espírito. Deus é Luz! O mal está nas trevas, nas sombras, na escuridão da natureza e da alma.

As grandes catástrofes envolveram trevas e ausência da luz solar. O meteoro em Yucatan trouxe uma noite invernal por décadas com a extinção dos dinossauros e da maioria da vida no planeta. O vulcão de Cracatoa fez noite com suas cinzas em grandes áreas. A luz de vários sóis da explosão atômica segue-se com sombras terríveis de uma noite radioativa e mortal. Imagine uma pandemia que exterminou 2/3 das pessoas na Europa – a peste negra. Fogueiras para afastar as sombras e purificar o ambiente.

 

Cr & Ag

 

A imaginação e o temor criaram as imagens mais aterradoras dos seres da noite. E o homem criou o remédio para dormir. Sono e morte são companheiros de muitos e temores de vários. Mas morrer dormindo pode ser uma benção que ‘afasta a dor e o sofrimento’ – há quem creia assim.

O ser humano e os animais aguardam o amanhecer. O raiar do sol com suas primeiras flechas douradas afastam o medo ancestral. Os pássaros cantam alegres. O animais caminham e se deslocam em busca de pastagens e alimentos e as fêmeas ascendem ao cio.

As flores abrem seus braços em pétalas luminosas e seu perfume nos encanta e seduz. Colhemos as mais belas fotografias, além dos nossos olhos, com máquinas e assim repartir com quem amamos.

 

Cr & Ag

 

O inverno mais gélido do século carrega em seu manto (ou seria mortalha?) os temores, as dores e o sofrimento da pandemia infecciosa e moral. Encarceramento e mordaça? Não pense, não desafie, não fale, obedeça!

Hoje, domingo, a temperatura está mais amena. O sol nos aninha, nos acolhe e aquece num calor radiante. Nenhuma nuvem no céu! As flores ejetam-se nos extremos dos galhos. Uma pomba solitária pousa no parapeito da janela, nem a pedra está fria. Os fiéis cantam empolgados nas duas igrejas que nos circundam.

A esperança da luz que afaste as sombras e as trevas malignas da enfermidade que devora principalmente os mais frágeis e debilitados. A esperança do fim ou alívio da longa noite de incertezas (e várias certezas!)…

O sol primaveril, ainda acuado pelo inverno do tempo e de almas malignas, traz a fé no retorno da vida dentro da ‘normalidade’ que a Inquisição permitir. Entendemos a adoração de tantos povos ancestrais ao Sol vital. Ansiamos pelo sol na natureza e pela Luz nos espíritos sofredores e nos empedernidos. Viva o amanhecer! Vivamos para o futuro.

 

 

2020 – 08 – 25 Agosto – O Amanhecer e a Luz do Sol

Eds Olimpio – Crônicas & Agudas

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