Negro José – Edson Olimpio Oliveira – Memória
03 set 2014 Deixe um comentário
em MEMÓRIA
Negro José!
A chuva inclemente, como um mandado divino, tentava lavar o sangue derramado numa guerra insana. Insana como qualquer guerra. Essa ainda era pior. Dizimou durante mais de uma década os sonhos de irmãos numa arena sem limites geográficos nítidos a não ser os marcados pelas patas dos cavalos, pelas rodas das carroças e carretas puxadas por bois e homens, pelas furnas cavadas pelos petardos da artilharia, pelas trincheiras transformadas em covas rasas abrigando mutilados e pelas covas plantadas quando tempo havia para sepultar os mortos… O inverno invadiu o mês de dezembro afugentando o verão tal qual uma carga de cavalaria rasgando a várzea barrenta. O frio e a chuva deprimiam ainda mais um povo que contava seus mortos e aguardava em vão o retorno de algum filho sobrevivente. Numa guerra não há vencedores, todos perdem. Alguns perdem mais. Outros perdem menos. Se é que seja possível medir a dor de almas dilaceradas.
Negro José. Esse era o nome com que era chamado por quem ainda tinha uma réstia de respeito. Para muitos era somente o Negro. Um dos caminhos de acesso ou saída de Viamão passava pela localidade onde está Gravataí. Ali estava uma muralha natural, o rio e o alagadiço pantanoso de suas margens. Ali um poderoso e rico estancieiro mantinha uma balsa e negros escravos para fazer a travessia segura. E para tal cobrava – a portagem. A guerra exigiu que fossem republicanos ou imperialistas. Deviam tomar lado. A família dividiu-se e com eles esboroou-se a riqueza. Os negros libertos foram formar ombros com os lanceiros negros. E o ainda jovem José, ficou cuidando da mãe e da irmã e principalmente em manter a travessia do rio sempre aberta.
A sua força física crescia e se comparava aos esforços dos bois que tracionavam as cordas da balsa. A todos os viajantes ele servia sem exigir nenhum pagamento. Entendia no corpo e na alma a miséria que banhava a terra. Dias e noites. Invernos e verões. Ali estava ele em plantão permanente para seu sagrado ofício. Conquistou o respeito necessário de homens que viam inimigos em qualquer sombra. Transportava militares, ricos e pobres, fugitivos e pessoas de todos os confins.
Numa noite, abrigava no galpão logo na barranca do rio um grupo de combatentes farrapos, quando chegou um pelotão de imperiais comandados por um emissário do imperador que trazia propostas de paz na bagagem. Deu-lhes pouso também, abrigando-os da tormenta infernal. Foi somente com sua coragem e dignidade aliadas a um corpo privilegiado pela natureza que impediu mortes em sua casa. Mas o embate trouxe-lhe um ferimento por estocada de adaga que penetrou em seu tórax. Daí em diante sua saúde nunca mais foi a mesma. Por ter salvado o emissário real que depois se soube ser parente do imperador, recebeu uma carta do império com sua alforria e de toda a família e ainda uma gleba de terras onde vivia. E foi mantendo vivo esse importante emissário que a paz foi encaminhada e alinhavada.
Nenhum de seus irmãos retornou para casa. A mãe morreu com o coração partido pelo sofrimento. A única irmã casou-se e foi morar na fronteira com o Uruguai. Ficaram ele e a esposa e as cicatrizes da guerra. A guerra findara no papel assinado, mas continuava em muitas mentes. Continuava transportando homens e animais e livrando-os dos atoleiros movediços e mortais que continuavam a engolir os audazes e afoitos.
Negro José recebeu um presente a longo tempo ansiado – a gravidez da esposa. O pulmão ferido respirava com muito mais ardor. Os novos dias corriam céleres. Suas largas risadas se misturavam com a música dos sinos diferentes colocados nos dois extremos seguros da travessia. A alegria retornou estrepitosa. Eis que certa noite a dama de negro veio ao seu humilde lar. A amada esposa sentia dores lancinantes e logo um jorro de sangue encharcou seu leito. Montou cavalo e foi em busca desesperada do médico ou da parteira. Encontrou a parteira. A velha acudiu-lhe com a máxima presteza. Os esforços desesperados não conseguiram salvar mãe e filho. O véu da morte cobriu sua vida. Somente a fé e o trabalho o mantinham vivo na triste solidão.
Persignava-se como sua mãe lhe havia ensinado desde criança e como sua esposa querida sempre fazia antes do sono. A tristeza reabriu a ferida de seu pulmão. Um sangue escuro tingia o seu escarro. Acessos de tosse cortavam suas noites e destruíam o descanso. Persistia em seu ofício a qualquer hora e em qualquer clima. A vida lhe fugia lentamente. A tuberculose corroia seu corpo e os músculos antes poderosos eram tragados pela moléstia. Definhava. Em curtos sonhos encontrava seus amores sepultos.
Negro José terminara uma oração ajoelhado perante um antigo crucifixo de madeira e bronze. Era noite de natal. No povoado próximo as casas tentavam se iluminar e as pessoas dirigiam-se à igreja para a Missa do Galo guiados pelos badalos da torre cristã. Havia chovido torrencialmente nas duas últimas semanas. Um vento frio extemporâneo cortava as faces e mãos descobertas. Ali estava ele em sua tarimba coberto com uns pelegos velhos. Batem à porta. Toc, toc, toc. Três pancadas leves e uma pausa. Novamente três pancadas e nova pausa. Seus ouvidos jamais pregaram peças confundindo o chamado de pessoas com o açoite do vento ou o rumor das folhagens. Levantou-se. Abriu a porta. Ali estava um menino de cerca de cinco a sete anos de idade. Pele alva. Cabelos negros encaracolados. Olhos claros, quase azuis. Andrajoso. O menino falou-lhe:
— Negro José, preciso passar para o outro lado.
Negro José sentia que a sua voz trazia algum tipo de sentimento ou mensagem que sua mente não conseguiu traduzir. Mas essa também nunca foi sua preocupação principal, precisava executar o seu ofício. A noite em breu só permitia escutar os ruídos dos sinos e da correnteza do rio alimentado pela chuvarada. Colocou o menino na canoa que usava para o transporte de pessoas isoladas e cabresteada por uma longa corda que ele tracionava com a força de seu corpo. O menino segurando o candeeiro que iluminava seu rosto sereno. Negro José fazia uma força descomunal para avançar cada metro de rio. Nem a balsa pesava tanto. Perguntava-se se seria a fraqueza da tísica ou da correnteza do rio. Jamais havia forcejado tanto.
As mãos calejadas de uma vida dedicada ao rio começaram a sangrar. Dores atrozes desciam pelos braços escorridos do seu sangue. Olhava o menino e dizia para si mesmo:
– Tenho que vencer, a vida dele depende de mim.
A tosse turvava-lhe mais a visão. Conseguiu chegar à outra margem. O alagamento no sarandizal ainda fazia restar mais uns dois quilômetros à segurança fora do pantanal traiçoeiro. Extenuado. Ofegante e sangrando. Teria que fazer o resto do caminho até o sino a pé. Paroxismos musculares jogaram sua face na lama. Levantou-se buscando energias derradeiras e colocando o menino abraçado às suas costas reiniciou a jornada. O céu abriu-se e uma estrela cintilante e solitária surgiu como a marcar o local do som do sino. Cada passo fazia suas pernas penetrarem mais fundo na água e na lama pegajosa. A criança às suas costas parecia pesar toneladas. O sino continuava a chamá-lo. A estrela limpava sua retina e buscava algum equilíbrio num velho bastão de angico. O sangue escorria das mãos do negro tingindo o bastão de rubro. Eis que um tapete prateado formado pela luz da estrela solitária abriu-se a sua frente na derradeira subida. O peso desapareceu. O menino pesava agora como qualquer outro menino. A luz iluminava pessoas que agrupadas esperavam a sua chegada.
– Quem seriam elas? – perguntava-se. Estranhamente não sentia mais qualquer dor. A estrela pareceu descer do céu.
Negro José escutou a voz do menino: – Negro José, vais conhecer o meu Pai e a minha Mãe.
— Eis meu Pai! Eis minha Mãe! – disse-lhe novamente o menino.
Negro José viu um senhor de longa barba branca e uma senhora muito bela envolta num manto prateado e logo vindo por detrás deles, com os braços abertos para abraçá-lo seus irmãos, sua mãe e sua amada esposa com seu filho nos braços.
Dia seguinte, Negro José foi encontrado morto com o velho crucifixo de madeira e bronze enrolado nas mãos ensangüentadas com dedos entrelaçados em posição de oração. Uma infinidade de pássaros o rodeava na terra e no céu. Um sarandi abriu-se em flores brancas e perfumadas. O local passou a ser conhecido como Passo dos Negros e o povoado como Aldeia dos Anjos, hoje Gravataí. E sempre que alguém necessita de uma travessia segura e faz uma prece aos céus, a mão forte de um negro surge para conduzi-lo.
Letras de Sangue – Edson Olimpio Oliveira – Memória 19 Novembro 2006
03 set 2014 Deixe um comentário
em MEMÓRIA
Novembro 19-2006 – Letras de Sangue – Poema – Edson Olimpio.
Letras de Sangue!
Por Edson Olimpio Silva de Oliveira
I
Sombras! Sombras de dor e morte rondam uma alma dilacerada.
Sombras! Sombras sussurram e agulham um coração gemente.
Sombras! Sombras ecoam palavras de ódio dela, minha amada.
Sombras! Sombras riscam na névoa torporosa um espírito plangente!
II
Ah! Como sempre te amei vibrando cada fibra do meu ser.
Ah! Ainda ouço teus risos iluminando presentes desejados.
Ah! Como sempre busquei satisfazer todos teus anseios.
Ah! Ainda ouço teu pranto e pérolas ardentes de teus olhos rolados.
Ah! Como sempre sepultei minh’alma para sempre te ter.
Ah! Ainda ouço o batuque num peito sofrido de amores alheios!
III
Amor! Amaste quem não te queria, num ciclo sem fim.
Amor! Buscaste prazer e luxo em leitos de cetim.
Amor! Amaste palavras vazias e carinhos pérfidos.
Amor! Buscaste companhia em corações perdidos!
IV
Rosas! Rosas rubras, perfeitas, perfumadas com o hálito do amor.
Espinhos! Espinhos coroam a beleza, mas tocados – vem a dor.
Rosas! Rosas brancas querem refletir pureza da alma apaixonada.
Espinhos! Espinhos são pensamentos, palavras, gestos tormentosos.
Rosas! Rosas douradas pelo sol da devoção que anseiam amor – mais nada.
Espinhos! Espinhos escrevem com tinta de rubis pranteados e dolorosos!
V
Sangue! Sangue é vida, é luz, é eternidade – recusaste!
Sangue! Sangue derramado de meus lábios e vertidos em escrita – recitei!
Sangue! Sangue que trocaste por mentiras e enganoso amor – encontraste!
Sangue! Sangue neste poema de letras escarlates – um dia muito te amei!
O Samba do Motoqueiro Doido – Edson Olimpio Oliveira – MEMÓRIA–Rir ainda é um bom remédio.
03 ago 2014 Deixe um comentário
em MEMÓRIA
A Moto na História ou o
Samba do Motoqueiro Doido!
A madrugada já nos espreitava. Mas o companheiro continuava com o caneco de cerveja sendo brandido como bandeira desfraldada na mão direita. A lua manhosa, tendo nuvens a adorná-la como cabeleira prateada, como que insistia em continuar roçando-se nas marolas do Rio da Plata.
—- E saibam vocês que a Era da Pedra Lascada tem esse nome porque não havia pneu que agüentasse naquela época. Os caras além de enfrentar os dinossauros, que seriam como as carretas e jamantas hoje, também já insistiam que trail ou trilha é diversão. Vê se pode, meu? – argumentava o companheiro.
Estufou o peito aspirando e nevando de branco a ponta do nariz com a espuma:
— E a moto também está nas Sagradas Escrituras. Deus já tinha feito o Paraíso, o Adão e a Eva. E para complicar tinha a Serpente sempre botando minhoca. A dupla só queria se distrair comendo maçãs. Então Deus fez a moto. Fez atrasado, pois quando chegou o rolo já estava feito e ainda acabou com a briga do Caim e do Abel sobre quem pilotaria nos finais de semana. Depois teve a transa da Motocicleta de Noé. Era uma moto anfíbia gigantesca que salvou do afogamento uma pá de bonecos e uns bichos e bichas. Ai começou a bichice na história. – reuniam-se curiosos em torno do ‘orador’ que continuava:
— Dizem que o Maluf e a ex-Suplicy até estão pensando numa semelhante para as inundações em Sampa. Ainda nas Escrituras tem o caso de um tal de Moisés que saiu do Egito e foi para a Palestina. Daí deu origem ao Rally dos Faraós, Paris-Dakar e outros. E por sinal despertou o ciúme na região daí vindo a briga entre judeus e palestinos até hoje. A moto foi muito importante na Grécia antiga, tinham uns caras que moravam num morro chamado Olimpo, aqui seriam favelados, que queriam motocicletas só para eles e aí deu aquela briga da Motocicleta de Tróia que teve depois um parente no Brasil, outro Ulisses. Mermão, teve até um rei, tal de Nabucodonosor ou Trabucodonosor que fez seus jardins suspensos na Babilônia para ter estacionamento para sua coleção de motocicletas protegidas do sol infernal.
— O cara baixou o espírito do velho Rui Barbosinha em duas rodas – exclamou um companheiro enquanto procurava algo nos bolsos do colete repleto de adereços.
— As provas de supercross começaram em Roma no velho Coliseu, cara. Quem perdesse era devorado pelos leões. Parecido com o esquema do leão do imposto de renda por aqui. E vocês sabem como o Brasil foi “inventado”? Os espanhóis e os portugas queriam descobrir um caminho para trazer as motos orientais para o ocidente e a desculpa era de namorar as índias. Então numa dessas viagens os carinhas chegaram à Bahia, onde aportaram com o consentimento do ACM e com o trato de colocarem uma fitinha do Senhor do Bom Fim no punho da moto. Ainda tem o caso do Dom Pedro que soltou o berro no riacho Ipiranga empinando uma Ténéré e nos liberando de Portugal que se adonava de nossas motos e de nossas mulatas. E por falar em mulata, a tal de lei Áurea foi a liberação total da motocicleta para todas as raças. Legal, heim? – empolgava-se o nosso companheiro.
E com os lábios revestidos da deliciosa espuma da cerveja portenha, o companheiro com os olhos em transe continuava:
— O tal de Hitler se ferrou na Rússia porque insistiu em usar moto street na neve. Além disso, a gasolina congelava nos tanques. E Pearl Harbor? A eterna briga de Harley e Indian contra a Suzuki, Honda, Kawasaki e Yamaha. Que pauleira, meu! E até novos países surgiram por causa das motos, mermão. O veterano Quintino do Rio das Ostras enriqueceu exportando esses bichos para a Ostrália. E a moto no futebol? O Garrincha tinha as pernas tortas de tanto andar de moto, meu. – passou o antebraço na boca. O suor brotava de seu pescoço parecendo drenar das veias dilatadas. Pensei que ia parar. Enganei-me. Continuou:
—E o Pelé criou o gol de motocicleta, consagrou-se e até hoje continua botando as bolas para dentro. Dizem que é o maior consumidor do remédio que propagandeia. Acreditem se quiserem. Sabem o Denílson do Penta? Toda aquela habilidade de drible foi conseguida pilotando como motoboy em São Paulo. Mas é a vida, meu. Cerveja é moto engarrafada. E se o “companheiro” Lula aproveitasse a barba, fizesse algumas tatuagens e pilotasse moto já seria presidente, ainda mais com o apoio dos mais de 10 milhões de bauzeiros, motoqueiros e motociclistas e mais cinco votos que cada um representa. Principalmente se contasse com a bênção do grande Pateta dos Abutres. E ainda fazendo a reforma motoagrária! Todos deveriam ter acesso à moto e tem gente com moto demais e outros sem nada. Os políticos deveriam criar um Programa de Apoio a Moto, financiamento em dez anos, sem juros e sem entrada, assim a fundo perdido tipo negócio de governo com bancos. Aí periga aparecer algum PC Farias ou Valdemar Dinis ou mensalão. Enquanto isso alguns curtem a motovirtual (alô Adams) que foi pra isso que inventaram a internet, pô meu!
Apesar da sonolência estar “capotando” a sua platéia agora restrita ao garçom e dois outros motociclistas, o homem continuava seu discurso, ou melhor, moto-discurso:
— Mermão, moto é a mulher que deu certo. Com todas as vantagens, meu. Só fala e berra quando a gente aperta o botão e dá partida. E sem sogra, nem cunhado. E dá mais uma aí, meu, vamos tomar a saideira que amanhã (hoje) temos um bom encontro para curtir e depois afinar nossas máquinas na estrada. – arrematou com os olhos avermelhados e vidrados.
E, segundo outro companheiro, existem dois tipos de seres humanos: os que amam motocicleta e os que ainda não sabem que amam. Em tempo, o motociclista autor do discurso acima ainda menciona que o garçom que atentamente lhe escutava, também é cantor de tangos e bailarino no Caminito e que quer a sua “autorização para fazer desse samba um gardelaço, isto é, um tango a la Gardel”. Pode? É difícil controlar o homem!
Medo de Dentista – Edson Olimpio Oliveira – original Setembro 2002
25 jul 2014 Deixe um comentário
em MEMÓRIA
Memória.
Os especiais de Memória são garimpados entre as milhares de Crônicas & Agudas já publicadas em jornal, livro ou revista. O leitor pode solicitar que o atenderemos sempre que possível. Increva-se na lista de recebimento mensal das coletâneas publicadas no Jornal Opinião de Viamão solicitando pelo e-mail edson.olimpio.7720@hotmail.com.
Estamos no Facebook.com/edsonolimpiooliveira.
Divirta-se com:
EDSON OLÍMPIO SILVA DE OLIVEIRA
O MEDO DE DENTISTA.
“Este é o local onde touro que é touro se ajoelha; macho que é macho se agacha e valente que é valente se lava suando como mulher parindo”.(T. Jordans).
Pois é, corajoso e intrépido leitor se há um local onde não existe valente é em consultório dentário. Tem criatura que até passa pela outra calçada só para não escutar o sibilar, o silvo sinistro daquela máquina, broca ou caneta de alta rotação, como é chamada pelos odontólogos. Ah, o barulhinho já nos deixa de cabelo em pé. Um arrepio gelado desce pelas costas e logo se manifesta com o sonoro: — Onde é o banheiro, moça? Tenho um amigo que diz: — Medo mesmo eu não tenho, o que eu tenho é receio da mão do dentista escorregar e me cortar a língua ao meio. Concordo que possa ser um medo real, pois falador como é, linguarudo como só ele, até que não faria mal tirar um meio metro. E o pessoal fica se entreolhando na sala de espera. Os pés parecem estar desacomodados dentro dos sapatos, pois não param nunca. Faltam bolsos para todas as mãos, alguns parecem ter umas cinco. Um outro está lendo a revista de forma invertida e ainda não se apercebeu. O rapaz alto, não tira o raibã, talvez para esconder alguma lágrima, apesar da namorada ficar lhe esfregando a mão e cochichando: — Calma, benzinho, só vai doer um pouquinho e se eu agüento tu também pode… E a sala de espera está cheia. E é fantástico quem está ali de sangue doce, ficar só assistindo. De repente, um grito: — AIAIIIIIIII! Um moreno forte, tipo Adilson Maguila perde o freio e sai derrubando uma velha porta a fora. No que é acompanhado por um rengo pálido. Pálido agora, pois ao chegar estava vermelho como gringo bebendo vinho em garrafão. Com o berro diminuiu quase a metade do povo.
Cada vez que o dentista abre a porta e chama o seguinte, um empurra a vez para o outro. Foi numa dessas que um carteiro perdeu dois dentes e fincou um pivô de ouro e não escapou da conta. Todos suspiram quando outro paciente entra. Estão como gado no brete. A única vantagem é saber que ainda não está na sua vez. A moça loira abana a mãe com uma revista: — Ela é meio nervosa e sempre ameaça desmaio quando a coisa fica preta; güenta aí um pouco, mãezinha, que vou buscar um guaraná pra ti tomar com um diazepam. Nisso sai um gordo com um lenço encharcado de sangue e cuspindo nos pés dos outros. A camisa está banhada de suor. O polegar segura um chumaço de algodão na boca: — To legal, o dentista é bom pacas, distraiu um queixal e não senti nada, queria pontear, mas não deixei, eu sou é macho. Durou pouco o regozijo. O homem amoleceu as pernas e emborcou derrubando os óculos do magrão. Nisso uma magrona que se escondia no canto, ao lado dos guarda-chuvas, arripiou-se, dizendo: — Estou com ameaça de gravidez e não posso fazer anestesia. E deitou o cabelo rua a fora. Levantava poeira com os chinelos. Nisso o cara lendo a revista virada, falou: — I, I, I, I, eee, eu tam-tam-tam-também mi-mi-mi vou a-a-a-aju-ju-dar e-e-ela. O desgraçado além de covarde ainda era gago.
Hoje, a situação é outra. Esses acima são fragmentos de memória de nossa infância e adolescência. Tudo agora é mais fácil. Tudo é moderno. Os cirurgiões-dentistas contam com aparelhos sofisticados. Até raio laser. Dentre em pouco, arrumaremos os dentes sem precisar abrir a boca. Tenho um amigo que se propõe a tratar os dentes dos pacientes pela Internet. Isso só para provar que dentista não trabalha só para boca aberta. É tudo com anestesia. Até anestesia geral. O indivíduo dorme e ao acordar está de boca nova. Dor, nem querendo. Nunca mais se ouviu a história do dentista calçar a criatura com o joelho no peito para tirar algum dente. Nem aquela do cidadão que sentou na cadeira e ao não saber qual o dente que doía, mandou tirar tudo ou até parar a dor. E dor de dente sempre foi algo terrível: — Muito pior que ganhar filho atravessado, — dizia a velha Benta. Teve um caso em Viamão do sujeito que se enforcou naquela figueira defronte a Escola Adventista por uma dor de dente. Era uma época danada. Mas ainda bem que vivemos em outros tempos. Mas somente uma coisa ainda não mudou: — alguns de nós continuamos com MEDO! Apesar dos dentistas serem essas criaturas fantásticas com suas brocas e raios maravilhosos…
Casa na praia – Alegria ou Castigo? – Memória – Crônicas & Agudas – Edson Olimpio Oliveira – Julho 2014
13 jul 2014 Deixe um comentário
em MEMÓRIA
MEMÓRIA
Série: Rir ainda é um bom remédio
Casa na Praia: Alegria ou Castigo?
Segundo o heróico Joãozinho Trinta: – Quem gosta de pobreza é rico, pobre gosta é de riqueza, do bom e do melhor…
Outro dia, escutando um esteticista capilar – nome politicamente correto do primitivo barbeiro – deparei-me com fragmentos da vida desse colunista e, quem sabe, de muitos de nós.
– Companheiro, tô preocupado. Tá chegando os dias das minhas férias e já tô perdendo até o sono. – Dizia-me.
– Esse baita verão! Um sol de rachar coco e eu ainda não criei coragem de ir para a orla. O litoral sabe? – Acrescentou.
– Mas sei que até compraste uma casa lá pela praia do Magistério… – Disse-lhe.
– Comprei mesmo. Esse vai ser o nosso segundo verão lá. É um rancho simples. Fiz mais um quarto pro guri e uma meia-água como garagem, churrasqueira e um banheirinho. Dá muito bem pra nós. Sabe como é depois que tu sai de um fusca, passa por um Chevete e estaciona com um Gol e já tem onde não pagar aluguel aqui em Viamão, a gente se prepara para um ranchinho na praia. É o sonho. Mas o verão passado foi um pesadelo, um inferno. – Sacudia a cabeça com a fronte encrespada.
Já imaginando desgraça, quis saber o que acontecera.
– Sabe como é família? E pobre o que mais tem é cachorro e família. É parente que tu nem conhece. Quer dizer, vai conhecer na praia. – concordei com a cabeça. Começou tendo que levar a sogra junto. A velha até que é legal, pois cozinha muito bem e cuida das crianças na praia. Sabe aquela tesão que dá na gente depois do almoço? A velha levava as crianças para a sorveteria para dar um tempo e sempre saía se rindo. Mas a coitada tem um problema de intestino. Pode comer coisa de rico, mas o que sai… O que sai… O banheiro, a casa e até os vizinhos ficam empestados. Manja carniça de bode? Muito, muuuito pior! E um dia, ao puxar a cordinha da descarga, a caixa ainda caiu na cabeça dela e teve que levar seis pontos no cocuruto. Mas ela é de menos. – o olhar perambulava pela sala.
– Teve um dia, um domingo, que tinha cinco carros e duas motos lá em casa. Nós somos de cinco e tinha vinte e três pessoas. Vinte e três, contei bem. Sabe o Zé, meu irmão, ainda trouxe a família do cunhado e um eletricista que é vizinho dele. Mas o eletricista trouxe um saco de carvão, cinco salsichão e 1 kg de costela seca. A mulher do cara era um dinossauro, no tamanho e na fome. A maioria só trouxe a boca e a bunda. Conseguiram cair dentro da fossa depois que um carro quebrou a laje e entupiram os dois banheiros. Dei uma prensa e fizemos uma vaquinha para comprar uma carne e uns tomates. Cerveja? Eu tinha um estoque guardado para todo verão. Tomaram tudo até às 11 da manhã. – era uma lamúria de dar dó.
– De tarde, tinha resto de melancia, uva e gente dormindo em tudo que era canto. A filha do Zé e o namorado se fecharam no quarto da velha e… A minha nega quase pediu divórcio, pois queriam que ela ficasse de empregada dessa gente toda e ela dizia que eu tinha que escorraçar esse povo. Mas eram parentes meus e dela. Se ela mandasse os dela eu mandaria os meus… Já não via a hora de chegar à noite e esse povo se arrancar. Chegou à noite. Uns foram mais cedo. Outros bem mais tarde para escapar do congestionamento da estrada. Aí quando outros queriam ficar para “ir na segunda bem cedo”, eu sacudi os arreios. Dei um esporro. Me fiz de doido e corri com as belezas. Alguns não voltaram, felizmente. Outros apareceram, infelizmente. E assim foram as férias na praia… – completou com a face sofredora e despediu-se.
Histórias & Estórias Médicas – Volume IX – 2012 – Participação de Edson Olimpio Oliveira.
22 jun 2014 Deixe um comentário
Viamão – uma história não revelada – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 22 Junho 2014
22 jun 2014 Deixe um comentário
em MEMÓRIA
Viamão!
Uma História Não Revelada.
Véspera de Natal. A tarde buscava o seu repouso diário em alguma coxilha desses campos sem fim do Rio Grande. O clima estava como o coração de muitos gaúchos – triste, melancólico. Há vários dias que um vento minuano, destemperado para essa época do ano, trazia rajadas de um frio cortante. As árvores perdiam o sorriso de suas flores primaveris. O Rio Grande sofria as mortes de uma guerra medonha em que irmão lutava contra irmão. Sangue derramando sangue fraterno. Novamente, não haveria risos de alegria e muito menos a paz em muitas das casas espalhadas em torno da monumental igreja.
A igreja construída por escravos e portugueses com paredes de tijolos e barro fundidos com as conchas trazidas do oceano há cerca de 100 km ao leste era o testemunho religioso de uma fé cristã. Sua face voltada para o norte como a pedir clemência ao império estabelecido no Rio de Janeiro. No entanto, suas costas viradas para o sul acompanhavam os animais que são fustigados pelo clima inclemente. Campos Açorianos era um dos nomes dessa região.
Trincheiras abertas no perímetro externo do povoado ainda colecionavam defuntos por sepultar. Mas as maiores e piores trincheiras estavam nos corações. Logo o minuano, um vento seco, abre passagem para seu irmão o vento sul e, sem alívio, uma garoa açoitava os que ainda ousassem permanecer na rua ou teimassem em estar com as portas de seus comércios abertas. Logo a senhora noite desceu seu véu negro sobre o povoado. Com dificuldade, lampejavam chamas bruxuleantes pelas frestas das pesadas portas e janelas. Algum fogo de chão denunciava o labor de galpões.
Uma figura trôpega e um cão. Um homem? Sim! Um homem e um cão. Seria mais um andarilho? Mendigos com a mente transtornada pelas batalhas vagavam pela região. Algum espião disfarçado? A criatura andrajosa bateu na primeira porta. Quando o dono atendeu, o candeeiro em sua mão iluminou uma face muito envelhecida e disforme. Deu um passo para trás e segurou o cabo da adaga em sua cintura. O mendigo queria um pouso e com certeza uma comida quente. Mas o homem o escorraçou. Ao que o cão em defesa do amigo, cerrou os dentes e crispou o lombo. O medo, a feiúra, a mutilação ou preconceitos obscenos teria isso causado?
O miserável andarilho tentou a casa seguinte. A recepção foi pior, pois um dos filhos do proprietário jogou-lhe os dejetos contidos num penico. Assim continuou, sempre com a mesma acolhida – enxotado. Restava-lhe a igreja. Arrastou seu corpo depauperado escadas acima. Encontrou a porta cerrada. Nem a casa que os homens haviam erguido em homenagem a Deus, o aceitava.
Voltando à rua enlameada, cinco cavaleiros irromperam. Estacando a montaria, o que parecia ser o chefe, ordenou-lhe que desaparecesse ou seria morto. Açoitando o cavalo mergulhou na escuridão chuvosa. Ao erguer os olhos, o andarilho vislumbrou que um dos cavaleiros havia ficado para trás. Era um lanceiro negro. O negro enfiou a mão na mala de garupa e retirou um pão e deu-lhe. Naquele instante em que as mãos do negro e do andarilho seguravam o pão, o lanceiro falou-lhe:
– Cristo esteja contigo! – e voltou a acompanhar grupo.
O andarilho e o cão saíram do povoado e não muito longe dali encontraram uma enorme figueira. Buscou abrigo entre as suas raízes. A árvore centenária espalhava longos braços que envolviam uma rocha. Ali ele buscou refúgio da chuva, do vento frio e… de certas pessoas. Dividindo o pão com o fiel amigo, olhava para o céu.
As palavras do lanceiro negro ribombavam em sua cabeça. Eis que o vento cessa num relance. O céu para de chorar. As nuvens correm para outras paragens. E a lua surge como uma deusa ancestral que arrasta em seu manto uma miríade de estrelas. E o céu se ilumina. As poças d’água reluzem o pulsar do universo. O andarilho sente a luz penetrar por seus olhos. Sente a luz varar seus trapos e vibrar sua pele. Como a circular em seu corpo doente.
O cão lambe amorosamente suas mãos. As chagas e os dedos mutilados ganham luminosidade. Ele olha em direção ao povoado e agradece a um Deus que há muito havia renegado. Um Deus que lhe permitiu estar ali agora e não dormindo em sacos ou pelegos imundos em algum galpão. Seus olhos derramam grossas lágrimas e num choro arrancado do fundo de uma alma que julgava não ter mais, grita por um perdão já concedido pelo Criador. Seus pulmões vibram perdoando a quem mal lhe fez. Então, cai de joelhos. Convulsivamente chora e balbucia nomes e lugares. Súbito, olhando para o espelho d’água, distingue uma forma perfeita. Um homem jovem e sadio. Ali está refletida a imagem daquele que um dia foi ele. E ali ele sente como se uma energia divina saísse de seu coração, irradiando ao seu amigo cão e se espalhando pelo local, pelo povoado e como numa explosão de uma estrela de luz atingisse a todos.
Dia seguinte. Um lanceiro negro vasculha a periferia do povoado. À noite passada, houve uma explosão e, como por um encanto místico, todas as lamparinas, candeeiros e velas apagaram-se e acenderam-se sem que nenhuma mão humana os tocasse. Eis que escuta um uivo. Cavalga em direção aos uivos. Vê o cão do andarilho. O animal está como a lhe chamar. Freia o cavalo. O cão desaparece entre as poderosas raízes da figueira. Os segundos parecem eternidades. O andarilho está ali morto. O cão repousa a cabeça no colo do companheiro e num último suspiro, entrega à guarda do corpo a outro amigo. Um homem escaldado nas piores adversidades da vida, com o coração a tamborilar insanamente em seu peito, sente os olhos marejarem e as pernas a tremerem. A mão esquerda do andarilho está colada à rocha e ali deixa uma marca. Como se uma mão em brasa fundisse o granito, marcando, tomando sua posse. Ali o andarilho foi sepultado. E também o seu cão. Logo a guerra terminou. As pessoas souberam do acontecido. E, por várias gerações, ali brotava um lírio selvagem e uma vertente de água cristalina, como um friso de lágrimas entre as raízes. E aos olhos e sentimentos do mundo, a mão gravada, esculpida, na rocha. Assim foi realmente forjado o nome desse povoado de Viamão, mas que por uma vergonha e culpa que rasgava o espírito dos habitantes, justificou o nome da região por outras maneiras.
Nota do Autor: Viamão – Rio Grande do Sul, minha cidade natal, considerada a primeira (ou segunda – outra controvérsia) capital do Estado tem na origem do seu nome uma fonte de mistérios. Atribuem uns que deriva da visão de rios visíveis do alto da torre da igreja que confluem formando "uma mão". Outra versão seria de uma família rica que residiu no local – os Viamont. Enfim, estórias e histórias são contadas. A verdadeira?
A Negra Paciência–Edson Olimpio Oliveira–Crônicas & Agudas–Série Especial Memória Negritude
08 jun 2014 Deixe um comentário
em MEMÓRIA
M E M Ó R I A
A Série Memória reapresenta textos publicados em crônicas, contos ou lendas do autor em antologias e em jornal.
A Negra Paciência!
Uma Saga de Amor.
Os dias se arrastavam no tranco das carretas pesadas dos mascates que faziam a festa daquela vila em torno da sua capela. Campos de Viamão era um de seus nomes. Um povoado como tantos outros perdidos na imensidão de terras em que as únicas cercas eram aquelas marcadas pelas patas dos cavalos e pelo aço das lâminas sedentas de sangue. O gado criava-se solto e as marcas de seus donos refletiam o seu poder e a sua riqueza. O Brasil português terminava em Laguna numa fronteira invisível aos conquistadores da terra. O inverno precoce já se anunciava naquele abril dum ano esquecido. O hálito gélido do minuano estava se alternando com dias sonolentos de um mormaço que afogueava os cães, fazia a peonada buscar uma sombra de figueira e deixava os escravos com o compromisso de abanar os mais abastados.
Paciência! Somente Paciência era o seu nome. Os negros e escravos não tinham sobrenome. Muitos nem conheciam seus pais. Mas todos conheciam seus donos. A negra Paciência acompanhava esta família a duas gerações. Não mais existiam escravos nesta casa ou nesta família, ao contrário de muitos outros estancieiros. Os seios fartos mostravam sua aptidão de ama de leite. E foi assim que amamentou seu atual patrão. No lugar do seu filho devorado por uma febre maldita e fatal, o leite continuou jorrando para alimentar aquela criança prematura que perdera a mãe em seu nascimento. Uma mãe sem filho. Um filho sem mãe. – Uma curiosa armadilha de deuses preocupados com as guerras e alheios à dor e ao sofrimento das criaturas. – dizia em tom solene aquele homem que um dia envergou a farda do império como cirurgião e agora devotava sua vida cuidando de gente e de gado nessas paragens tempestuosas..
A casa grande guardava dentro de suas grossas paredes a alegria e muito da dor de seus moradores. O fardo inexorável do tempo já lhe arqueava as costas. Na grande cozinha um fogão faminto por mais e mais lenha permanecia sempre aceso. Dias e noites. A qualquer hora aquela mulher estava ali em seu posto. – Parece que tu nunca dormes Paciência! – dizia-lhe o patrão. Somente um sorriso afetuoso trazia a resposta. A grande chaleira de ferro sempre com água quente. Vezes que tropeiros e viajantes buscavam pouso ou quando o patrão retornava das longas viagens, a negra Paciência parecia saber a hora da chegada, pois ali esperava com sua deliciosa comida quente. O seu coração sentia como se fosse avó daquelas duas crianças filhos do patrão. A ternura e o amor devotado era resultado de um espírito grandioso manifestado numa vida de amor e perdão.
A Páscoa se anunciava. A negra Paciência já fazia os doces, muitos doces para a festa que fazia do povoado um lugar mais alegre com os risos das crianças. – Cristo daí paz e amor a esta família e liberdade a todos os meus irmãos. Faça com que todos os patrões libertem seus escravos como fez meu antigo patrão. – orava ajoelhada fitando a cruz dourada colocada em oratório na cabeceira da mesa grande.
Tiros de mosquetão. Berros de garrucha. – Cristo nos ajude! – gritou instintivamente Paciência. Bandoleiros portugueses e espanhóis infestavam essa terra numa sina de roubar e matar. Como se isso não bastasse, violavam as mulheres e queimavam as casas. Gritos de dor e morte. O patrão e a peonada estavam nas lides de tropeada. Logo os empregados estavam mortos ou dominados. Correu para o quarto da patroa encontrando-a com armas à mão e as duas crianças acotoveladas num canto. Essa parte da casa tinha portas e janelas de madeira reforçada. A algazarra e os relinchos de cavalo cruzavam pelo pátio iluminado por tochas de fogo como num ritual macabro. Escutava-se que já estavam dentro da casa. A patroa ordena-lhe que abra o alçapão escondido sob um grande tapete no assoalho. Por ali desceria ao porão e por uma abertura dissimulada poderiam buscar auxílio e proteção na vila. Manda-a descer com as crianças. – Vem patroa! Vem patroa! Por Cristo e seus filhos vem… – não pode concluir a frase. Da janela arrombada um tiro de escopeta tingiu de rubro a longa camisola branca que a luz do candeeiro fazia a vida tornar-se espectro.
Paciência caiu escada abaixo. Com a agilidade de uma pantera negra acuada protegendo sua ninhada ergueu-se com as crianças nos braços. O peso da idade dera lugar ao fardo da responsabilidade e do amor. Esgueirou-se pela fresta de pedras e ganhou a companhia da lua correndo pelo mato. O fogo voraz que se alastrava pela casa lançava fagulhas que como estrelas da morte singravam o manto negro do firmamento.
– Alguém está fugindo! – gritou uma voz assassina.
– Traga-lo! – berrou um demônio castelhano que comandava a horda.
Um homem esporeou seu cavalo. Não deixavam testemunhas vivas. Paciência conhecia aqueles matos como a sua cozinha. Trilhas que levavam à vila e à igreja eram como as veias do dorso de suas mãos. A cavalo seria mais difícil segui-la. Sabia disso. A vila já saíra de seu torpor, pois alguém tocara o sino da capela e vislumbrava-se o fogo lambendo o céu. – Ele está perto! – pensava com o coração em desabalada carreira. Escutava o mato se quebrando e o fôlego das ventas demoníacas em seu encalço. Sabe que será alcançada logo. Então, num derradeiro esforço esconde os dois irmãos no oco da velha figueira. Cobre-os com a sua sobre-saia negra.
Ali está o predador maligno frente a frente com sua presa. E sem esperanças um raio de aço e morte desce sobre Paciência. E mais outro. A negra ajoelha-se e vislumbra seu algoz com a lua ancestral por testemunha. O maldito pouco pode saborear sua vitória. Estampidos e o cheiro da pólvora preta se acompanham de densa fumaça. Ele tomba mortalmente atingido pelo povo da vila que acudiu. A montaria dispara alucinada.
A fenda fatídica jorrando a rubra vida que se esvaía descia do pescoço ao meio dos seios. O sangue afogava-lhe a respiração e com os olhos arregalados e a mão apontava para o esconderijo da figueira. A mão! Enrolada na mão direita estendida em flecha estava o símbolo de sua fé – um crucifixo. As crianças foram salvas. Ninguém mais sobreviveu ao cruel assalto. Logo o pai encontrou os filhos.
A negra Paciência foi sepultada com honras de heroína ao lado da patroa. E ali naquele local onde seu sangue foi derramado, ali naquele local que se chamaria de Várzea de Dom Diogo – hoje Campo do Tamoio, verteu na manhã de Páscoa uma fonte de águas cristalinas. Logo foi chamada e conhecida – a Fonte da Paciência! Durante muito tempo as mães iam ali buscar a água que aliviava ou curava seus filhos orando pela proteção da Mãe-negra. Ali seus irmãos libertos construíram um arco de pedras em gruta como o oco da figueira protetora. Um útero de pedras para crianças renascidas, libertadas do abraço da Morte pelo Amor.
O tempo pode toldar o fluxo da memória de um povo. O amor e a gratidão, mesmo com o esquecimento dos fatos, ainda marcam o local da Fonte da Paciência – a fonte do amor da negra Paciência! Alguns corações desejam ver ali a negra protetora na lua de Páscoa esquecendo que seu amado Cristo transformou seu sangue numa fonte de vida e esperança, sem espectros!
Nota do Autor: Viamão, uma cidade histórica, lembrada por ter sido Capital do Rio Grande do Sul, cantada em verso e prosa como a Setembrina dos Farrapos, tem a segunda grande Igreja construída neste Estado. Aqui no Centro da cidade, à rua Luiz Rossetti ainda se vê a Fonte da Paciência. Abandonada. Destruída. Reconstruída várias vezes pelo humor dos que preservam o patrimônio e a memória de um povo. Felizmente ainda está ali!