A Negra e a Cobra! Eds Olimpio. Crônicas & Agudas. Setembro 2020.

 

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A Negra e a Cobra!

 

                                                           O caso relatado a seguir pode ser considerado mais uma dessas histórias fantásticas que preenchem os vazios das conversas entre avós e netos. Ou que faz as horas dolentes de noites quentes terem muito mais conteúdo. E que o suor não seja apenas do calor, seja aquele suor frio que fazem, ou já fizeram, as pessoas espiarem os cantos do quarto e, com o coração aos sobressaltos, horrorizar-se com qualquer sombra sob a cama ou a mover-se sorrateiramente.

                                 

                     A vida era muito dura, para todos naquela fazenda. E seus trabalhadores e proprietários traziam no corpo e na alma as suas cicatrizes. Tanto da labuta sem férias ou qualquer descanso, quanto das feridas que teimavam em não cicatrizar pela Revolução de ‘23.  Ali trabalhava e vivia, desde seu nascimento, uma negra de nome Domiciana.

 

Domiciana!

 Ao balanço de seus 20 anos, tornara-se uma mulher de poucas e necessárias palavras. Isso desde o trágico acidente que matara seu marido. Contam que durante uma doma, o bagual xucro como o vento pampiano, empinara e caíra de lombo, prensando o cavaleiro debaixo de si. Com a bacia quebrada e hemorragia interna, morrera lentamente com a cabeça no colo daquela mulher. Nunca a viram derramar uma lágrima. Diziam que as lágrimas tinham sido enterradas junto com o finado marido. Mas ele havia depositado em seu jovem ventre a semente daquele amor aquecido nos pelegos, nas noites em que o vento minuano era o milongueiro mais escutado nas revessas daquele pampa hostil e o amor bailava num sapateado naqueles corações apaixonados.

 

Ninguém engomava uma camisa como ela e os beijus que fazia na velha tafona eram inigualáveis.  Também era de suas mãos que saía um churrasco de charque com aipim assado nas brasas do fogo de chão, o prato predileta da Vó Quita, a matriarca da estância. 

 

O Parto!

 

Ganhara o filho:

Solita, mas com Deus! – completava fazendo o sinal da cruz com os dedos da mão unidos num toque final nos lábios e os olhos virados para algum ponto do céu distante.

 

Partejara no casebre de madeira no meio do laranjal e na revessa das taquareiras. Com o sal da gamela e a água do poço, abençoou e banhou o filho. Assim como sempre escutara da falecida mãe que havia feito consigo. Da mesma forma a sua avó… Uma tradição familiar dessas mulheres acostumadas a lidar com a dor e a solidão. A solidão essa companheira inseparável de corpos e corações.

                                   

                                 Sebastião!

           O negrinho, forte e vivo, chamou-se Sebastião, em homenagem ao seu pai. Mas logo ganhou o carinhoso apelido de Gorgulho pela esposa e as filhas do estancieiro, onde disputava o colo e a atenção, mais que potrilho de campeão.

                                

                                Domiciana, sempre após o café dos patrões, tomava o seu canecão de café com leite e canela, onde mergulhava sete pregos enferrujados – uma simpatia da Vó Quita – para o leite ficar mais forte. E o Gorgulho estalava os “beicinhos” ao mamar e espremer aqueles formidáveis e túrgidos seios.

 

Por volta do 6º mês de idade, o negrinho parou de ganhar peso e ficou meio “murcho”. Domiciana amanhecia com os peitos quase vazios. De início achavam que estava “secando o leite”. Ela não sabia o porquê, pois ele até:

 

– Mamava de madrugada! – sustentava com olhar espantado.

 

Realmente, escutavam o negrinho chorar e após acalmar-se em certo período da noite.

 

A família estava preocupada. Tentaram benzeduras, chás, simpatias e… Nada uncionava. Só faltava chamar o “doutor do povo”. Certa noite, Domiciana recolheu-se ao seu rancho meio febril.  O patrão ordenou ao peão Crescêncio que a cuidasse, se ouvisse algo que fosse acudi-la.

 

Na madrugada, Gorgulho chorava sem parar. Crescêncio, que já havia dormido com o pala por cobertura, saiu à rua e espiando por uma fresta da janela de correr do casebre, sentiu o seu tarimbado coração quase explodir de pânico.  – “Acordem todo mundo”! Acordou o patrão e foram todos, sob sua orientação, pé ante pé, espiar o que se sucedia.

                                     

                               A cobra!

                               Uma cena capaz de arrepiar ao mais valente e destemido. A luz bruxuleante e fugidia do candeeiro de querosene fazia o réptil visível agigantar-se nas sombras. Uma cobra. Uma cobra preta. Enorme. Enrolada num canto do travesseiro de palha. A mãe em sono febril. Delirante. O animal mamando na teta da negra agitada. Ao choro do negrinho, a cobra colocava o rabo em sua boca. Ele chupava a cauda parando de chorar. Depois de certo tempo, ao não sair leite, voltava a chorar.

 

Nas sombras malignas, o horror aumentava.

 

Arrombem a porta! – berrou o patrão a plenos pulmões.

 

Invadiram o rancho, matando a cobra. Após, em alarido, a peonada se reuniu na mangueira vendo aquele enorme réptil pendurado nos varais do alambrado. Escorria sangue, pouco e leite, muito, de sua cabeça parcialmente esmagada.

                                   

                 Daí, em diante, a saúde voltou para Domiciana e Gorgulho.

 

 

           A lenda. O causo. E o acontecido mais uma estória se tornou. Para muitos, somente uma lenda. Para quem viveu aqueles momentos, uma marca eterna, como a vida e os mistérios da natureza. Ainda hoje está enterrado na figueira secular daquela estância um facão com Gorgulho gravado no chifre da sua empunhadura. A árvore cresceu e abocanhou a lâmina profundamente. Ali está proteger as crianças e suas mães das serpentes.

 

 

A negra e a cobra!

Criação original.

Autor – Edson Olimpio Silva de Oliveira

Publicação no Jornal Opinião de Viamão e

na Trilogia Crônicas & Agudas.

 

 

http://www.edsonolimpio.com.br

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A Negra e a Cobra!
**     Uma lenda universal que verti para nossa região.
**     Na minha família é uma tradição contar estórias e histórias paras as crianças.
**     Conta-se a estória original e após faz-se modificações teatralizando, incluindo outros personagens infantis junto com meus netos, por exemplo. Desenvolvendo virtudes em cada um dos atores e no grupo. Sempre com final feliz.
**     Temos três netos e cada um contava a sua versão da estória com liberdade e incentivo para criar.
**     Crianças adoram temas assustadores, principalmente sendo vencedores e heróis.
**     Experimente assim com suas crianças (filhos, netos, sobrinhos, etc).

A Negra e a Cobra! Eds Olimpio. Crônicas & Agudas. Setembro 2020. Reedição.

 

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A Negra e a Cobra!

 

                              O caso relatado a seguir pode ser considerado mais uma dessas histórias fantásticas que preenchem os vazios das conversas entre avós e netos. Ou que faz as horas dolentes de noites quentes terem muito mais conteúdo. E que o suor não seja apenas do calor, seja aquele suor frio que fazem, ou já fizeram, as pessoas espiarem os cantos do quarto e, com o coração aos sobressaltos, horrorizar-se com qualquer sombra sob a cama ou a mover-se sorrateiramente.

                                 

                     A vida era muito dura, para todos naquela fazenda. E seus trabalhadores e proprietários traziam no corpo e na alma as suas cicatrizes. Tanto da labuta sem férias ou qualquer descanso, quanto das feridas que teimavam em não cicatrizar pela Revolução de ‘23.  Ali trabalhava e vivia, desde seu nascimento, uma negra de nome Domiciana.

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Domiciana!

 Ao balanço de seus 20 anos, tornara-se uma mulher de poucas e necessárias palavras. Isso desde o trágico acidente que matara seu marido. Contam que durante uma doma, o bagual xucro como o vento pampiano, empinara e caíra de lombo, prensando o cavaleiro debaixo de si. Com a bacia quebrada e hemorragia interna, morrera lentamente com a cabeça no colo daquela mulher. Nunca a viram derramar uma lágrima. Diziam que as lágrimas tinham sido enterradas junto com o finado marido. Mas ele havia depositado em seu jovem ventre a semente daquele amor aquecido nos pelegos, nas noites em que o vento minuano era o milongueiro mais escutado nas revessas daquele pampa hostil e o amor bailava num sapateado naqueles corações apaixonados.

 

Ninguém engomava uma camisa como ela e os beijus que fazia na velha tafona eram inigualáveis.  Também era de suas mãos que saía um churrasco de charque com aipim assado nas brasas do fogo de chão, o prato predileta da Vó Quita, a matriarca da estância. 

clip_image006O Parto!

Ganhara o filho:

Solita, mas com Deus! – completava fazendo o sinal da cruz com os dedos da mão unidos num toque final nos lábios e os olhos virados para algum ponto do céu distante.

 

Partejara no casebre de madeira no meio do laranjal e na revessa das taquareiras. Com o sal da gamela e a água do poço, abençoou e banhou o filho. Assim como sempre escutara da falecida mãe que havia feito consigo. Da mesma forma a sua avó… Uma tradição familiar dessas mulheres acostumadas a lidar com a dor e a solidão. A solidão essa companheira inseparável de corpos e corações.

                   

clip_image007                                 Sebastião!

           O negrinho, forte e vivo, chamou-se Sebastião, em homenagem ao seu pai. Mas logo ganhou o carinhoso apelido de Gorgulho pela esposa e as filhas do estancieiro, onde disputava o colo e a atenção, mais que potrilho de campeão.

                                

                                Domiciana, sempre após o café dos patrões, tomava o seu canecão de café com leite e canela, onde mergulhava sete pregos enferrujados – uma simpatia da Vó Quita – para o leite ficar mais forte. E o Gorgulho estalava os “beicinhos” ao mamar e espremer aqueles formidáveis e túrgidos seios.

 

Por volta do 6º mês de idade, o negrinho parou de ganhar peso e ficou meio “murcho”. Domiciana amanhecia com os peitos quase vazios. De início achavam que estava “secando o leite”. Ela não sabia o porquê, pois ele até:

 

– Mamava de madrugada! – sustentava com olhar espantado.

 

Realmente, escutavam o negrinho chorar e após acalmar-se em certo período da noite.

 

A família estava preocupada. Tentaram benzeduras, chás, simpatias e… Nada uncionava. Só faltava chamar o “doutor do povo”. Certa noite, Domiciana recolheu-se ao seu rancho meio febril.  O patrão ordenou ao peão Crescêncio que a cuidasse, se ouvisse algo que fosse acudi-la.

 

Na madrugada, Gorgulho chorava sem parar. Crescêncio, que já havia dormido com o pala por cobertura, saiu à rua e espiando por uma fresta da janela de correr do casebre, sentiu o seu tarimbado coração quase explodir de pânico.  – “Acordem todo mundo”! Acordou o patrão e foram todos, sob sua orientação, pé ante pé, espiar o que se sucedia.

clip_image008                     

                               A cobra!

                               Uma cena capaz de arrepiar ao mais valente e destemido. A luz bruxuleante e fugidia do candeeiro de querosene fazia o réptil visível agigantar-se nas sombras. Uma cobra. Uma cobra preta. Enorme. Enrolada num canto do travesseiro de palha. A mãe em sono febril. Delirante. O animal mamando na teta da negra agitada. Ao choro do negrinho, a cobra colocava o rabo em sua boca. Ele chupava a cauda parando de chorar. Depois de certo tempo, ao não sair leite, voltava a chorar.

 

Nas sombras malignas, o horror aumentava.

 

Arrombem a porta! – berrou o patrão a plenos pulmões.

 

Invadiram o rancho, matando a cobra. Após, em alarido, a peonada se reuniu na mangueira vendo aquele enorme réptil pendurado nos varais do alambrado. Escorria sangue, pouco e leite, muito, de sua cabeça parcialmente esmagada.

                   

                 Daí, em diante, a saúde voltou para Domiciana e Gorgulho.

 

 

           A lenda. O causo. E o acontecido mais uma estória se tornou. Para muitos, somente uma lenda. Para quem viveu aqueles momentos, uma marca eterna, como a vida e os mistérios da natureza. Ainda hoje está enterrado na figueira secular daquela estância um facão com Gorgulho gravado no chifre da sua empunhadura. A árvore cresceu e abocanhou a lâmina profundamente. Ali está proteger as crianças e suas mães das serpentes.

 

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A negra e a cobra!

Criação original.

Autor – Edson Olimpio Silva de Oliveira

Publicação no Jornal Opinião de Viamão e

na Trilogia Crônicas & Agudas.

 

 

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Farmacêutico! Dia Internacional – 25 Setembro.

 

Farmacêutico - 25 Setembro

Momento ideal! Eds Olimpio. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 22 Setembro 2020.

 

2020- 01 - Jornal Opinião - Cabeçalho da Coluna para BLOG

 

Momento ideal!

“A música suave acalenta as lágrimas que rolam pela face, enquanto a mão busca um pequeno lenço na bolsa. As luzes se concentram no alvo da homenagem derradeira e pétalas de rosa se desprendem do alto. Ave Maria é a mensagem da partitura. O veículo de passagem, lacrado desde o hospital, ascende, enquanto cortinas diáfanas o envolvem como um manto celestial. Somos poucos. Infinitamente menos que ali estariam noutra situação. Abraços fugazes e votos de consolo. Os rostos cobertos trazem máscaras úmidas do pranto continuado…”

Outra melodia do cotidiano nos diz: “Quem parte leva saudades de alguém que fica chorando de dor…” Nossa humanidade nos impele para postergar, deixar para depois, transferir para outra oportunidade. Alguns mais e outros menos. A peste chinesa, chamada de pandemia, se associou ao pandemônio e a fatalidade abriu suas portas, estendeu seu longos e gélidos braços, como tentáculos sinistros, trazendo para seu seio os planos, projetos, aspirações e ideais de tantos amigos e amigas, como de irmãos desconhecidos.

Crônicas & Agudas

O Tempo é um companheiro, tanto um amigo como um cobrador implacável. As divindades que habitam mitos e religiões não investem contra o tempo. Nem o desafiam. O tempo, se fosse um ser vivo, seria ancestral de todas as coisas. Podemos, tentamos ou até queremos regatear, negociar com Deus. Também com Lúcifer! Assim fazemos promessas e calculamos nossas atitudes e pensamentos, medimos nos preces e oferendas para num tempo recebermos nossos benefícios e propósitos. Entretanto, jamais alguém conseguiu pechinchar ou “vamos sentar para acertar nossos relógios” ou “o negócio é o seguinte, dá uma segurada que não quero morrer agora, pois ainda não fiz a viagem para Veneza”, por exemplo, com o Tempo. Talvez assim: “Tchê Tempo, vamos dar um tempo aí que blábláblá”. O tempo não arreda pé do seu… Tempo. Sua balada é firme. Seu trote, que ousamos medir em tic-tacs ou em sombras de relógios, é inexorável.

Crônicas & Agudas

Alguns, talvez perfeccionistas ou postergadores mórbidos, buscam o momento certo, o momento ideal para suas realizações e concretizar seus objetivos e intenções. Evidente que tudo irá se revestir, se blindar numa série consagradora de argumentos que visam sossegar o eu interior. Que luta, esperneia e berra – “pode não dar teeempooo”! Pois é, é mais ou menos assim que essa sinfonia, tantas vezes destrambelhada, se chama de vida. “A vida é curta” – para nós mortais. Para quem busca o momento ideal de trocar de casa-roupa-alimentação-cidade-carro-religião, para ilustrar ou começar, a vida jamais iria sucumbir a um vírus ou ao político corrupto  de plantão ou condenado. Acreditava que “quando chegar a hora certa, eu resolvo, eu faço”. Não resolveu e não fez. Sempre lastimamos. Sempre sofremos. A dor busca a solidariedade no coração humano, no afeto ilimitado do cão ou na divina e constante magia da restauração da natureza.

Crônicas & Agudas

O mais belo e puro ser que deambulou nas pedras e poeira desse planeta jamais nos mostrou que estamos aqui para sofrer, penar e causar a dor das pessoas que amamos ou até desconhecemos. Estamos aqui para evoluir na disciplina, no amor, na humildade e na gratidão. Somos livres para escolher nossos caminhos e curtir as incertezas das encruzilhadas. É a caminhada pelo entendimento e evolução. A jornada pessoal torna-se na jornada da vida de todos. O teu ou o meu momento ideal se concretize no agora. Deixar as belezas da existência ou abandonar as enfermidades do espírito para um tempo futuro, para um tempo que não nos pertence, para uma época ou um momento em que poderemos ser pranteados por partirmos muito antes daquilo que projetamos e arquitetamos?

Meu filho Eduardo traçou a essência dessa crônica pela sua percepção do “momento ideal” que vivemos ou que perdemos. E você, qual a sua impressão ou intuição?

2020 – 09 – 22 Setembro – Momento ideal – Eds Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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2020 - 01 - Cabeçalho inferior da Coluna para BLOG

Gaúcho e Médico!

 

2019 - 10 - 07 outubro - AD 76 com bandeira2020 - Caveira - Gaúcho2020 - Edson - GaúchoAD 76 2019 - EDSON com bandeira RSGaúcho de Cuia - 2017

Gaúcho 100 por 100!……….. Série 3

 

Gaúcho - 17 DomaGaúcho - 18Gaúcho - 19 - Por do Sol GuaíbaGaúcho - 20 - Gildinho e Thomas MachadoGaúcho - 21 - Jayme Caetano BraumGaúcho - 22 - Apparício Silva RilloGaúcho - 23 - Varlete CaetanoGaúcho - 24 - Veiga e Alfredo

Gaúcho 100 por 100! ……………Série 2

 

Gaúcho - 9Gaúcho - 10Gaúcho - 11Gaúcho - 12Gaúcho - 13 Fátima GimenezGaúcho - 14 TeixeirinhaGaúcho - 15 Nico Fagundes

Gaúcho 100 por 100! …….Série

 

Gaúcho - 1 - Paixão CortesGaúcho - 2Gaúcho - 3 - JacaréGaúcho - 4Gaúcho - 5Gaúcho - 6 - PrendaGaúcho - 7Gaúcho - 8

Viamão! Uma história não revelada. Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 14 Setembro 2020.

 

 

Viamão! Uma História Não Revelada!

 

Especial – Aniversário de Viamão.

 

Véspera de Natal. A tarde buscava o seu repouso diário em alguma coxilha desses campos sem fim do Rio Grande. O clima estava como o coração de muitos gaúchos – triste, melancólico. Há vários dias que um vento minuano, destemperado para essa época do ano, trazia rajadas de um frio cortante. As árvores perdiam o sorriso de suas flores primaveris. O Rio Grande sofria as mortes de uma guerra medonha em que irmão lutava contra irmão. Sangue derramando sangue fraterno. Novamente, não haveria risos de alegria e muito menos a paz em muitas das casas espalhadas em torno da monumental igreja.

 

A igreja construída por escravos e portugueses com paredes de tijolos e barro fundidos com as conchas trazidas do oceano há cerca de 100 km ao leste era o testemunho religioso de uma fé cristã. Sua face voltada para o norte como a pedir clemência ao império estabelecido no Rio de Janeiro. No entanto, suas costas viradas para o sul acompanhavam os animais que são fustigados pelo clima inclemente. Campos do Viamão ou Campos Açorianos, eram nomes dessa região.

 

Trincheiras abertas no perímetro externo do povoado ainda colecionavam defuntos por sepultar. Mas as maiores e piores trincheiras estavam nos corações. Logo o Minuano, um vento seco, abre passagem para seu irmão o vento sul e, sem alívio, uma garoa açoitava os que ainda ousassem permanecer na rua ou teimassem em estar com as portas de seus comércios abertas. Logo a senhora noite desceu seu véu negro sobre o povoado. Com dificuldade, lampejavam chamas bruxuleantes pelas frestas das pesadas portas e janelas. Algum fogo de chão denunciava o labor de galpões.

 

Uma figura trôpega e um cão. Um homem? Sim! Um homem e um cão. Seria mais um andarilho? Mendigos com a mente transtornada pelas batalhas vagavam pela região. Algum espião disfarçado? A criatura andrajosa bateu na primeira porta. Quando o dono atendeu, o candeeiro em sua mão iluminou uma face muito envelhecida e disforme. Deu um passo para trás e segurou o cabo da adaga em sua cintura. O mendigo queria um pouso e com certeza uma comida quente. Mas o homem o escorraçou. Ao que o cão, em defesa do amigo, cerrou os dentes e crispou o lombo. O medo, a feiura, a mutilação ou preconceitos obscenos teria isso causado?

 

O miserável andarilho tentou a casa seguinte. A recepção foi pior, pois um dos filhos do proprietário jogou-lhe os dejetos contidos num penico. Assim continuou, sempre com a mesma acolhida – enxotado. Restava-lhe a igreja. Arrastou seu corpo depauperado escadas acima. Encontrou a porta cerrada. Nem a casa que os homens haviam erguido em homenagem a Deus, o aceitava.

 

Voltando à rua enlameada, cinco cavaleiros irromperam. Estacando a montaria, o que parecia ser o chefe, ordenou-lhe que desaparecesse ou seria morto. Açoitando o cavalo mergulhou na escuridão chuvosa. Ao erguer os olhos, o andarilho vislumbrou que um dos cavaleiros havia ficado para trás. Era um lanceiro negro. O negro enfiou a mão na mala de garupa e retirou um pão e deu-lhe. Naquele instante em que as mãos do negro e do andarilho seguravam o pão, o lanceiro falou-lhe:

 

 Cristo esteja contigo! – e voltou a acompanhar  grupo.

 

O andarilho e o cão saíram do povoado e não muito longe dali encontraram uma enorme figueira. Buscou abrigo entre as suas raízes. A árvore centenária espalhava longos braços que envolviam uma rocha. Ali ele buscou refúgio da chuva, do vento frio e… de certas pessoas. Dividindo o pão com o fiel amigo, olhava para o céu.

 

As palavras do lanceiro negro ribombavam em sua cabeça. Eis que o vento cessa num relance. O céu para de chorar. As nuvens correm para outras paragens. E a lua surge como uma deusa ancestral que arrasta em seu manto uma miríade de estrelas. E o céu se ilumina. As poças d’água reluzem o pulsar do universo. O andarilho sente a luz penetrar por seus olhos. Sente a luz varar seus trapos e vibrar sua pele. Como a circular em seu corpo enfermiço.

 

O cão lambe amorosamente suas mãos. As chagas e os dedos mutilados ganham luminosidade.  Ele olha em direção ao povoado e agradece a um Deus que há muito havia renegado. Um Deus que lhe permitiu estar ali agora e não dormindo em sacos ou pelegos imundos em algum galpão. Seus olhos derramam grossas lágrimas e num choro arrancado do fundo de uma alma que julgava não ter mais, grita por um perdão já concedido pelo Criador. Seus pulmões vibram perdoando a quem mal lhe fez. Então, cai de joelhos. Convulsivamente chora e balbucia nomes e lugares. Súbito, olhando para o espelho d’água, distingue uma forma perfeita. Um homem jovem e sadio. Ali está refletida a imagem daquele que um dia foi ele. E ali ele sente como se uma energia divina saísse de seu coração, irradiando ao seu amigo cão e se espalhando pelo local, pelo povoado e como numa explosão de uma estrela de luz atingisse a todos.

 

Dia seguinte. Um lanceiro negro vasculha a periferia do povoado. À noite passada, houve uma explosão e, como por um encanto místico, todas as lamparinas, candeeiros e velas apagaram-se e acenderam-se sem que nenhuma mão humana os tocasse. Eis que escuta um uivo. Cavalga em direção aos uivos. Vê o cão do andarilho. O animal está como a lhe chamar. Freia o cavalo num sofrenaço. O cão desaparece entre as poderosas raízes da figueira. Os segundos parecem eternidades. O andarilho está ali morto. O cão repousa a cabeça no colo do companheiro e num último suspiro, entrega à guarda do corpo a outro amigo. Um homem escaldado nas piores adversidades da vida, com o coração a tamborilar insanamente em seu peito, sente os olhos marejarem e as pernas a tremerem. A mão esquerda do andarilho está colada à rocha e ali deixa uma marca. Como se uma mão em brasa fundisse o granito, marcando, tomando sua posse. Ali o andarilho foi sepultado. E também o seu cão. Logo a guerra terminou. As pessoas souberam do acontecido. E, por várias gerações, ali brotava um lírio selvagem e uma vertente de água cristalina, como um friso de lágrimas entre as raízes. E aos olhos e sentimentos do mundo, a mão gravada, esculpida, na rocha. Assim foi realmente forjado o nome desse povoado de Viamão, mas que por uma vergonha e culpa que rasgava o espírito dos habitantes, justificou o nome da região por outras maneiras.

 

 

Nota do Autor: Viamão – Rio Grande do Sul, minha cidade natal, considerada a primeira (ou segunda – outra controvérsia) capital do Estado tem na origem do seu nome uma fonte de mistérios. Atribuem uns que deriva da visão de rios visíveis do alto da torre da igreja que confluem formando "uma mão". Outra versão seria de uma família rica que residiu no local – os Viamont. Enfim, estórias e histórias são contadas. A verdadeira?

 

Observação: Esse texto é uma criação original de autoria de Edson Olimpio Silva de Oliveira – Médico, Cirurgião e Escritor. Publicada originalmente no Jornal Opinião de Viamão e no livro Crônicas & Agudas.

 

 

2020 – 09 – 15 Setembro – Viamão! Uma história não revelada – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

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Reedição.

 

 

 

MEDICINA GERIATRIA. 15 Setembro

Respeito. Admiração. Gratidão.

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