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Crônicas. Contos. Literatura. Jornalismo. Imagens e datas significativas.
12 out 2020 Deixe um comentário
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10 out 2020 1 comentário
Gratidão!
Parte 1 – John e Bogga.
John é seu nome. Único sobrevivente de um acidente de avião na África que vitimou seus pais. Voltou para as terras altas da Escócia, mas na adolescência, depois de visitar seu tio paterno, em alguma região do Vale do Rift, encantou-se ainda mais e permaneceu na África. No gigantesco parque há uma unidade de saúde e escola com voluntários de todo planeta, semelhante ao MSF – Médicos sem Fronteiras. Durante uma expedição a uma aldeia distante, encontrou uma leoa morta por caçadores clandestinos e seu filhote prestes a ser despedaçado e devorado por hienas. Salvou o filhote e o tratou dos ferimentos. O leãozinho integrou-se à pequena comunidade. Mamava na cadela Bogga e brincava com seus filhotes. Recebia mamadeiras de leite de búfala pela manhã, antes de sair ao trabalho, e à noite quando retornava pelo John. Cresceu acompanhando as equipes de saúde e o John pelo parque.
O poder da testosterona do jovem macho se manifestava com certas irritabilidades. Durante uma excursão, sentiu-se atraído por uma família de leões. Ali despediu-se de seu pai e amigo humano. John sabia que o jovem leão teria que ganhar seu espaço e fazer sua família com o poder de sua natureza. É da vida!
Anos depois, John estava encurralado numa borda montanhosa durante terrível tempestade. Raios rasgavam o manto negro do firmamento, enquanto a chuva torrencial arrastava tudo ao seu caminho. Mesmo um homem cunhado na adversidade africana pode acidentar-se. John viu o solo ceder aos seus pés e rolou entre as pedras do barranco.
Imagens bailando desordenadas em sua mente ferida. Seu pai e sua mãe lhe surgiam em halos de luz que eram engolfados pela escuridão. Um leão enfrentando hienas em feroz e mortal combate. Novamente escuridão. O tempo escorria pelo vale. Eis que seus olhos sentem as agulhadas dos raios do sol africano e logo seu calor alfineta todo seu corpo. Perna quebrada. Fratura feia. Sangue coagulado em sua face e mãos. Cabeça ferida e entende o dilúvio de imagens que a concussão aportou. Início lentamente vai se apalpando e identificando seu ferimentos traduzidos e localizados pelas dores intensas.
Todo seu ser explode num temor ancestral, primitivo como naqueles homens da aurora dos tempos da humanidade sendo acossados e devorados por feras e predadores. Um gigantesco e impassível leão está deitado a poucos metros dos seus pés. O cenário se abre num flash e identifica hienas mortas e uma agonizante. Busca desesperado seu rifle, arrasta-se. A faca salta da sua cintura num reflexo desesperado. O enorme leão assiste enquanto lambe seus ferimentos de combate.
John encara a face do leão e estarrece ao notar que o leão tem a pálpebra esquerda semiaberta. Igual ao do filhote que ele salvou das hienas. Igual ao jovem que viveu com ele e as pessoas e animais da unidade no parque. Ele havia ficado com o nome de “filho da Bogga, a cadela”. Depois de sua morte, perpetuou nele o nome de Bogga.
– Bogga?! Repetiu várias vezes. O poderoso animal levanta-se e lentamente se aproxima dele. Deita-se ao seu lado oferecendo a cabeça para o carinho que recebia. Afaga com um carinho dos corações libertos. Entende a situação. O leão manteve-o vivo, protegido de ser devorado pelas terríveis hienas. O rádio está perdido. Bebe a água empoçada nas pedras. Alcança o rifle e marca um perímetro que se violado pelas hienas ele atiraria. A noite se aproxima e o riso macabro e a dança das hienas se aproximando. Somente ele e Bogga. Seu amigo ruge. Ruge para os céus. Logo rugidos de leões surgem no horizonte. Vários leões se aproximam. Sua família chegou para o combate final. Sem mais munição para o rifle, com a faca esgoelada entre os dedos assiste uma cena inaudita. Entre as pedras, com o barranco às suas costas, Bogga e outros leões à sua frente. Uma barreira a lhe proteger. Os leões vencem. Os outros membros da família de Bogga surgem. Seus filhotes vem brincar com ele. John chora e ri. Sua mãe e seu pai voltam aos seus sentidos.
Quando a equipe de resgate o encontra, a cena inacreditável. John cercado por uma família de leões, filhotes nos seus braços e diversas hienas dilaceradas na arena de batalha.
John despede-se do amigo com lágrimas rolando de sua face e uma gratidão que somente a luz identifica.
Observação: Essa crônica continua na próxima edição do melhor jornal da região – Jornal Opinião de Viamão. A versão estendida do Autor estará no próximo livro.
2020 – 10 – 06 Outubro – Gratidão! John e Bogga – Eds Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
04 out 2020 Deixe um comentário
em Campanhas - Séries, JORNAL OPINIÃO - VIAMÃO
01 out 2020 Deixe um comentário
A Vida por um fio!
Croché ou crochê? Minha mãe Dora dominava essa arte com maestria e seus trabalhos eram bem considerados. Costureira e dona de casa. Fazia croché para amigos, pois nunca vendeu, e para a sua fé que estampava na segunda grande igreja dessa terra riograndense. Nos últimos anos, nossa bela igreja tornou-se uma sombra, uma pálida imagem, arremedo da sua beleza anterior. Isso acontece quando o orgulho se transforma em dor.
Uma agulha curta com um gancho, como uma fisga na sua extremidade mais afilada, pesca os fios da linha e somando pontos vai moldando os arranjos variados e belos. Sua imagem com a linha e a agulha bailando entre seus dedos no avarandado de nossa casa beira-mar na Cidreira após o café da tarde sempre tão sortido de suas especiarias culinárias, vive no meu coração. Dote, habilidade que minha irmã Shirley aperfeiçoou e multiplicou.
A doença e uma teia de erros médicos deixaram minha mãe com menos de cinquenta anos com a vida por um fio. E o fio se rompeu. Essa expressão “a vida por um fio” tornou-se uma constante na vida do homem médico e cirurgião. Hoje, mais distante da frente de combate mortal, as imagens de enfermos ligados a fios e um tubo que penetra seu corpo para levar o oxigênio vital, invade nossos sentimentos e fere nossos sentidos.
Crônicas & Agudas
Quem já perdeu sabe avaliar e aquilatar a dor e o sofrimento alheio. Donde veio essa expressão que tanto traduz e assusta – a vida por um fio? Na mitologia grega, o início era o Caos absoluto, trevas e escuridão e numa sequência, que espelha outras filosofias e religiões, os deuses primordiais criaram e evoluíram, inclusive formando novas e poderosas divindades.
Ali estava Nix, a deusa primordial da noite e dela nasceram três filhas que “teceriam” o destino de humanos e deuses – Cloto, Láquesis e Átropos, as moiras. Manuseavam um tear, a Roda da Fortuna, composto de oito teares acoplados e em consonância. Cada uma delas tinha três auxiliares, divindades menores, e suas tarefas eram divididas – trabalho de equipe. Até Zeus, o poderoso “rei” dos deuses do Olimpio, era submisso às moiras (Parcas para os romanos).
Cr & Ag
Ali trançavam, teciam, elaboravam a trama vital da humanidade. Cada fio representava um ser, homem ou deus. No topo desse tear místico, a Roda da Fortuna, havia sereias que emitiam sons, sonoridades, cânticos que permeavam vibrando essa trama do tecido em que as vidas, as existências se cruzavam.
Lembra Ulisses e as sereias? Outras seguiam em paralelo, muitas distantes que em certo momento o fio era trazido para um local ao gosto delas. Vezes representadas como velhas horrorosas, outras como jovens belíssimas e eternamente virgens, dotadas do poder que ainda permeia as mulheres. Um fio adelgaçado – uma vida fraca e doentia. Um fio encorpado – opulência, riqueza. Um fio comprime outros – império e poder sobre outras pessoas. Um fio envelhecido – a vida que se esvai. Um fio que se rompe ou é cortado – morte!
Cr & Ag
Há semelhanças em todas as religiões da Terra. Místicos, médiuns e iniciados observam, sentem, visualizam cada corpo emanando uma energia única e há um elo, como um fio etéreo, pleno de energia e vibração que perpassa corpos. Origina-se de cada ser vivo. Cita-se que se destinam, tanto isolados como acoplados num cabo, muitos fios, de infinitas cores, a algum lugar superior (ou inferior).
A luz retorna à luz ou que se perde nas trevas e sucumbe nos planos inferiores da degradação das virtudes. Um fio! Um fio de vida! O fio ancestral. O novelo (fio da meada, o nó!) primordial comprimido e espalhado com a grande divisão universal (Big Bang?), persistindo fios que nos aproximam (amor e ódio).
Liames espirituais ou de energia (quântica?) mantém essa teia ou tecido sendo desenvolvido num tear infinito. Com ou sem as moiras, com ou sem livre arbítrio, mas nas encruzilhadas da vida, da existência…
O fio da vida e… A vida por um fio!
2020 – 09 – 29 Setembro – A Vida por um Fio – Eds Olimpio – Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br