Quando o Amor se faz Natal! – Um conto viamonense – Especial de Natal 2010 – Edson Olimpio Oliveira
– Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Quando o Amor se faz Natal!
– Um conto viamonense –
A Grande Guerra ainda se estendia em vários locais do planeta. A dor e a privação acossavam a todos. Alguns mais, outros mais ainda. Viamão orava e pranteava alguns filhos que haviam partido para os campos da Itália. Mães imploravam para a misericordiosa Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Cidade, para que a guerra findasse e que seus filhos não fossem convocados para a FEB – Força Expedicionária Brasileira. Mutilados acompanhavam caixões baixados de navios nos porto de Rio Grande e Porto Alegre. Mas a vida exige continuidade, as pessoas precisavam trabalhar e executar as suas tarefas costumeiras.
Um sino toca ao longe. A tosse estrepitosa faz coro. As lavadeiras do Mendanha recolhem as bacias e encostam as tábuas de lavar nas pedras da margem do arroio. A maioria é negra. Acompanham a trilha de suas mães e avós no árduo trabalho. De sol a sol. Há um orgulho no negrume de suas peles que se manifesta na voz da Vó Doca: – Sou negra retinta, sou negra mina pura da minha raça e não me troco por essas negras-aço que andam por aí. – em referência às mulatas pejorativamente.
Crianças. Muitas crianças. Crianças criadas por tias ou algum parente. Muitos pais tombados pela guerra da miséria e da tísica, a tuberculose. Mas esse Dezembro trazia um gélido vento sul que aumentava a tosse no local e encolhia as crianças magras nos pelegos. Tetas murchas persistiam na sina de querer alimentar os seus filhos e os filhos de uma grande família. Aquelas que tinham mais leite doavam-se às crianças mais fracas. E a negra Zulmira era uma dessas mulheres. Tia Zuma, docemente chamada pela criançada, era uma negra corpulenta. Quadris largos. Seios túrgidos escorriam leite se não drenados constantemente. Há um par de meses havia falecido seu primeiro e único filho.
– Complicação do parto! – alegava a parteira, a velha Tereza.
O frio que escorria os narizes mascarava as lágrimas no pranto solitário. Fazia o seu trabalho de lavadeira na fonte e ainda trabalhava em casas família no centro de Viamão. Precisava cuidar do marido enfermo.
– Bebe Joca! Bebe este leite quente com gemada e canela que fiz pra ti ficar bom da tosse. Vou deixar esse xarope de quina, banana-do-mato, mel, guaco e agrião pra tu tomar. Não vai dormir demais e esquecer. O seu Nelson da farmácia fez pra ti. As frestas do casebre assoviavam o vento úmido e gélido.
A semana do Natal aumentava o serviço no arroio e nas casas. Preparavam-se para a noite mais especial do ano. Tia Zuma ajudava às mulheres mais fracas para terminar as lavagens e quarar das roupas. O ferro à brasa lançava o suor das roupas ao céu. O branco das camisas e dos lençóis tornava-se luminoso nos braços das negras. Peças engomadas com esmero e capricho vertidos em amor. Alguns quilômetros em árduo aclive barrento conduziam ao centro da antiga capital de todos os gaúchos. Nesse trajeto cruzava-se pelo enorme portão de ferro trabalhado do ancestral cemitério.
Dia 24 de dezembro, era como se o tenebroso inverno gaúcho retornasse. Depois de uma caneca de café preto e um pedaço de rosca, despediu-se do marido com as costumeiras recomendações. E com outras mulheres iniciaram o cortejo de subida. Seus braços poderosos carregavam os fardos de muitas famílias. Incitava às crianças para cantarem, motivando as mães e tias. Logo estava nas casas fazendo seus trabalhos que para as outras seriam extras. Ou impraticáveis. Mas essa negra trazia a força de um coração invencível. Enfeitou a casa dos Veiga. Preparou muitos doces na casa dos Nunes. E quando a noite já lambia as torres da igreja centenária, Tia Zuma conclui a ceia dos Franco. Recebe seu pagamento e uma grande sacola com presentes para que distribuísse para s crianças do Mendanha.
– Brigado dona Olga. Feliz Natal!
Despede-se. Ao atravessar a praça escuta um choro de criança nas sombras da Borracheira, a gigantesca árvore de resina leitosa. Aguça os olhos. Vê um menino chorando encolhendo-se, tremores entre os farrapos de roupa.
– Quem é tu menino? Onde tá a tua mãe? Onde tu mora?
Um negrinho esquálido de pés descalços. Talvez com menos de três anos. A negra não o reconhecia entre as crianças do local. Sua mente buscava alguma explicação. Seu coração buscava protegê-lo. Envolveu-o em seus braços. Puxou um pano da sacola e cobriu-o.
– Me leva pra minha mãe! Me leva pra minha mãe!
– Onde tá a tua mãe menino?
– Me leva pra casa tia, não me deixa aqui!
Enfiou profundamente a mão na sacola e veio com um pedaço de bolo. Deu ao menino. A criança comeu-o abraçada em seu pescoço. Sua mente pensava em procurar a polícia, mas coração exigiu levá-lo para o Mendanha. Cruzou a praça resoluta. Desceu a rua barrenta em direção do cemitério. A lua esperneava entre as pesadas nuvens tentando mostrar-se. Seu manto de prata cintilava nos olhos do negrinho. Sentiu o menino aquecer-se. Não tremia mais, mas logo sua pele parecia cada vez mais quente. Colocava a mão em sua fronte. – Está com febre! Os muros brancos do campo santo ficaram para trás.
– Me leva pra minha mãe! – era somente o que o menino respondia.
A criança parecia queimar em seus braços. E sentia um peso enorme a carregar. Jamais sentira nada igual. – Por que se é só uma criança e uma sacola? – perguntava-se. A pele do negrinho estava em brasa, como se queimasse sem fogo. Cada vez mais os braços doíam e as pernas quase não suportavam o peso dos seus corpos. Mais a criança abraçava-se em seu pescoço. Escorregava nas valetas abertas pela chuva. Lutava para manter-se em pé e chegar a sua casa. A jornada parecia interminável. Mas jamais poderia deixa-se cair e ferir a criança. A lua vencia a batalha com as nuvens e trazia estrelas cintilantes no véu negro do céu. A negra agradecia à Santa por ajudá-la. Eis o arroio Mendanha coroado de casebres com as lamparinas bruxuleantes espreitando as frestas.
– Me leva pra minha mãe! – descolando a cabeça de seu ombro e com o dedinho apontando. A negra instintivamente segue a direção do dedo do negrinho. Estaca com os olhos arregalados. A antiga grutinha de pedra com a imagem de Nossa senhora da Conceição, que ali está desde uma época contada em lendas entre os velhos sobreviventes.
– Esta é a minha mãe, tia!
A criança torna-se leve. Sem peso. A febre some absolutamente. O corpo da negra ainda treme pelo enorme esforço da jornada. Uma luz da maior alvura que alguém poderia ver e sentir envolve-os. Num tempo sem tempo, céu e terra cintilam e pulsam. Algumas pessoas extasiadas e atemorizadas dentro dos casebres assistem Tia Zuma entregar uma criança para uma mulher com um manto azulado a cobrir-lhe a cabeça e os ombros. A criança beija a negra e…
Amanhece o dia. As pessoas aturdidas se entreolham. Sonharam ou… Joca sai da casa com a enxada à mão, nada mais demonstra a doença que o consumia. Tia Zuma aparece. A carapinha está prateada. Seu coração sabe que aquele negrinho carregava as doenças e a febre da humanidade, assim como os pecados de todos nós. E buscou a mãe para aliviá-lo e protegê-lo. Tia Zuma viveu ali por mais alguns anos e benzia e abençoava doentes e crianças. Sua fama espalhava-se rapidamente – a negra que cura! Eis que numa manhã, encontraram sua casinha abandonada. Ela e o Joca sumiram. Jamais voltaram ao Mendanha e à Viamão. Há relatos de uma negra carregando crianças doentes e as curando em muito locais. Mito ou realidade? Os corações de mães negras e pobres trazem a verdade! E quando uma vela é acesa em prece pedindo por saúde para Nossa Senhora na grutinha, uma tia negra plena de amor e doação estará nos auxiliando e protegendo.