O ipê amarelo – Edson Olimpio Oliveira – Jornal Opinião de Viamão – 29 Agosto 2012

29 Agosto 2012 – O ipê amarelo – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

O ipê amarelo

A

sabedoria popular alude ao ter filhos, escrever um livro e plantar uma árvore como sendo as obrigações capitais do homem em sua passagem terrena. Fiquemos pelas árvores, plantei muitas de toda gama garimpada em casas especializadas e hortos florestais. Muitas sucumbiram logo após o plantio. Outras crescem como se anabolizadas por algum hormônio anônimo ou divinal, outras ainda arrastam-se com lentidão e ficam entanguidas ou magronas apesar de boa altura. Pois temos – a natureza e a humanidade – um ipê amarelo que se encaixa na classificação de um magrão alto e resistente. Ali está ele ano a ano resistindo à poluição humana, aos parasitas e às tormentas. É um persistente, um estoico. Os ipês, roxos ou amarelos, florescem nesta época do ano, talvez em homenagem e sintonia com os brazucas teimosos que festejam a sua “Independência ou Morte” no 7 de Setembro. E aos gaúchos do orgulho sem fim pela sua Revolução Farroupilha no 20 de Setembro. Está mais para farrapo do que para brazuca

Cr & Ag

Numa manhã primaveril neste inverno gaúcho que quase não vestiu poncho, o ipê dia a dia semeia suas flores amarelas e cintilantes. Suas flores são como beijos roubados, fugidios. De vida curta e bela. Novas flores em seus galhos de escassas folhas e novas flores depositadas ao pé de seu tronco. É a vida se renovando, com velocidade sem perder a beleza e os sentimentos. Um tapete, ou seria uma mortalha, é bordado com o sereno de uma nova noite e um véu dourado tecido a com as luzes do sol de cada dia. Um ciclo efêmero a nos mostrar a eternidade da disputa de vida e morte. Pensei disputa? Penso melhor – sintonia. Há uma sintonia na natureza entre o nascimento e o ocaso, geralmente quebrada ou rompida pelo homem. Tão pouco essa árvore necessita – água, ar e terra. E algum cuidado de quem a jogar à cova rasa. Brutal e singular analogia. A mesma cova rasa que pode ser sepulcro para uns é vida para outros. O ipê amarelo é um forte no corpo delgado, quase esquálido – como muitos de nós, sem os ornamentos da obesidade material e espiritual ou do poder – como muitos de nós. Luta pela sua vida e de outros que vem beber e alimentar-se no amparo de seus braços.

Cr & Ag

Pequenos pássaros azuis, menores que os pardais, sempre em casais, saltitam em seus galhos e agitam-se festivamente, como se bailassem, ao sabor do suco depositado nos pequenos cálices áureos. Jamais os tinha observado como nesta manhã. Não ouso mover-me ou abrir mais a janela, temo afugentá-los. Estaco com os olhos encantados. O tico-tico vem juntar-se ao desjejum. Esses, os tico-ticos, antes tão abundantes, agora raramente os vejo. Ou não tenho sido um bom perscrutador ou o pior, estarão na teia das espécies fadadas ao desaparecimento. Sempre, desde minha infância, admirei o quepe listrado do tico-tico e a rapidez das pernas curtas como as do Messi. Logo se achega um beija-flor e um sabiá do papo alaranjado caminha garboso no tapete dourado que recobre o gramado. Deus do céu, um desjejum coletivo.

Cr & Ag

E “para não dizerem que não falei de flores”, desejo que essa beleza e esses sentimentos sejam alimentadores e geradores de novas correntes de vida, amor e entendimentos. Que os ipês amarelos sejam realidades e metáforas de vida e esperança que nutre e renova.

Doutor Airton Delduque Frankini.

Cumprimos o doloroso dever de comunicar o falecimento do Dr. Airton Frankini, brilhante médico, professor e cirurgião-vascular. Graduado em 1976, construiu uma carreira médica atingindo aos maiores patamares da Medicina. Foi durante quase duas décadas Chefe do Serviço Vascular do Hospital N. Sra. da Conceição. Foi professor de Medicina e cirurgião da Santa Casa, atendendo aos viamonenses nestes e em outros serviços. Todos os louros acadêmicos são complementos para o excepcional homem, pai, colega e amigo. Nossos mais intensos sentimentos aos seus filhos Tiago e Ângelo, que seguem a carreira médica e da cirurgia vascular. E a sua querida esposa Nádia a quem namorou desde a juventude, receba a nossa solidariedade e que tenham muita Luz divina.

Deixe um comentário