Soja & Pampa – Edson Olimpio – Jornal Opinião – 27 Fevereira 2013

 

2013 – 02 – 27 Fevereiro 2013 – Soja & Pampa – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Soja & Pampa

Nos idos de 2002 estive em Herval do Sul com três propósitos: – primeiro um encontro motociclístico; segundo, conhecer a capital nacional da caça ao javali; terceiro, conhecer os assentamentos da reforma agrária na região. A estrada de acesso passa por Arroio Grande que traz lembranças da minha infância e adolescência das caçadas de marrecão e dos acampamentos de viamonenses. Herval do Sul parecia uma cidade fantasma. O “melhor” hotel seria o do Sindicato Rural que dava os sinais do sucateamento e ainda mantinha as imagens de quadros e empalhados das formidáveis caçadas de javalis por brasileiros e estrangeiros. Mantinha um atendimento cordial e ótima comida. O encontro motociclístico agrupava na praça principal uma meia dúzia de gatos pingados a espera dos visitantes de motocicleta. E os assentamentos? Essa região do estado estava tomada por vários assentamentos dos chamados “colonos sem terra”. As margens de rodovias do estado contavam com inúmeros acampamentos de lona preta e várias convulsões sociais. No ano anterior teve o Fórum Social Mundial em Porto Alegre e chagas eram abertas como as invasões e destruições de propriedades, inclusive com um sindicalista ou terrorista francês de nome José Bové e organizações como a Via Campesina e o MST. – E os assentamentos? – pois em Herval estava localizado o famoso Santa Alice que era o piloto em novas metodologias e técnicas de fixação do homem rompendo o latifúndio típico do sul do estado e do pampa para a propriedade familiar e comunitária.

Cr & Ag

Graves contradições entre realidade e sonho grassavam na região. Muita dor, sofrimento, desesperança e abandono de todos os lados dos conflitos da terra e da sociedade. No retorno, abastecia em Arroio Grande quando um cidadão vendo a placa da moto veio conversar comigo. Identificou-se como ex-aluno da ETA e conhecia diversos viamonenses durante os anos que aqui convivera. Disse-lhe que estava espantado com as mudanças para melhor de sua cidade que acontecera em poucos anos e perguntei-lhe qual o segredo: – O segredo é trabalho e soja! A região quase afundou com a reforma agrária, pois de quem foi tirada a terra ficou na miséria e não recebeu a indenização e quem veio, chegou despreparado para essa região e pobre de dar dó. Aí uma turma resolveu trazer umas sementes aí do Uruguai e plantar. É a transgênica – cochichou. E começaram a ganhar dinheiro como nunca antes. Ainda mais com o superporto ali pertinho em Rio Grande. O pessoal tá enfiando soja direto, só como medo das invasões e perseguições.

Cr & Ag

Passados cerca de 10 anos, o casamento da soja com o pampa está de vento em popa. Quem costuma ir à Santana do Livramento-Rivera para “umas comprinhas” observa os campos a perder de vista sendo recoberto pela oleaginosa do ouro verde. E dos dois lados da rodovia. Quem viaja por Dom Pedrito, Bagé, Aceguá, Pinheiro Machado, Pelotas, enfim toda essa região sul e fronteiriça assiste a soja mudar a paisagem de campos desolados com escassos animais em criação extensiva ao surgimento de empresas, silos e riqueza. Um mundo faminto, como o gigante capitalista-comunista chinês, torna a produção brasileira e gaúcha destino certo e rentável. Um conhecido disse-me que: – se vendesse a R$45,00 já dava para tirar uns pilas, mas vendeu a mais de R$70,00. As Missões e o noroeste rio-grandense já não correm “solito nesta cancha reta”, contava-me.

Cr & Ag

Novos tempos, mas ainda velhas cabeças e degenerados entendimentos. O chamado “capitalismo excludente” arremessou a classe média cerca de 50 milhões de brasileiros sedentos por consumir e viver com conforto e novas realizações. O mesmo “capitalismo da concentração de renda” colocou mais de 400 milhões de chineses no mercado de consumo e fora da pobreza absoluta e comunitária. Não foi somente a terra que sacou da pobreza e da miséria física e intelectual centenas de milhões de pessoas no planeta, mas a educação de melhor qualidade e a possibilidade de ter sonhos e de realizá-los por seus esforços e méritos. A terra cada vez necessita de menos ideologia e mais tecnologia. Quanto melhor educação e maior uso da caneta e do computador, mais leve será a enxada e mais produtiva a terra.

Mosca

casal-ShadowMagic

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