2014 – 12 – 02 Dezembro – A bendita vaidade – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
A “bendita” vaidade
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ntes que alguns intrépidos leitores se ericem e puxem a brasa para a sua religião, peço-lhes respeitosamente que se acalmem e vamos por caminhos mais luminosos. A vaidade já esteve entre os Sete Pecados Capitais em conjunto com o orgulho e a soberba e ainda para muitos pode estar assim registrada. “Nem tanto ao céu e nem tanto à terra” ensina a sabedoria popular, pois a mesma água que mata a sede ou que abençoa, em excesso pode sufocar e até afogar. Em tudo na vida e no etéreo há que ter equilíbrio, limites e harmonia. Numa época em que crentes e devotos alçados a atirarem a primeira e a segunda pedra, orgulhosamente contam seus feitos materiais nas redes sociais, muitos abominam um singelo esmalte de unhas ou um cabelo melhor cuidado, mas exteriorizam-se e engrandecem-se, mesmo que para si mesmos, de suas conquistas, vitórias e realizações terrenas.
Cr & Ag
O acesso aos produtos de higiene e beleza nasceu com a revolução industrial nos idos do século XIX na Inglaterra. O trabalho remunerado permitiu que humildes pessoas pudessem ter roupas melhores e tomassem banhos até com perfumes. O que era privilégio dos ricos e nobres pairava sobre os simples mortais. Depois da II Guerra Mundial o “american way life” (tipo de vida americana) saiu das telas do cinema e da imaginação das pessoas e ganhou lugar nas casas. O mundo então se dividiu em luzes e cores e o cinza sombrio. Alemães orientais morriam tentando vencer o Muro de Berlin para terem as mesmas conquistas e qualidade de vida de seus irmãos ocidentais saindo da utópica igualdade. As casas ansiavam por banheiros pessoais e familiares, por quartos individuais e as pessoas valorizaram o sabonete, o xampu, o papel higiênico e os perfumes. Parece tão simples e idiota para nós que os temos ou ganharemos pelo nosso trabalho.
Cr & Ag
Uma pessoa será mais bela e querida estando limpa, cheirosa ou com a simplicidade de uma maquiagem que realce suas belezas? Certamente será sempre melhor aceita pelos outros e por si mesmo. Os médicos atentam nesses detalhes por força de seu ofício, pois estando uma mulher, por exemplo, a sua frente em consulta e suas unhas denotam absoluto descaso e abandono, seu odor fere o olfato, seus cuidados com o vestir organizado e limpo e nessa esteira de observações podem traduzir uma pessoa deprimida. Em alguns graus do exame revela até um suicida. A depressão também já foi considerada um pecado, uma manifestação da posse demoníaca. Há casos ainda não explicados pela moderna Medicina que muitos ainda apontam como possessões malignas.
Cr & Ag
Um caro amigo e companheiro de estrada do motociclismo, estradeiro do maior quilate, chamado por todos de professor e vô ensinava: – “Não ando de rabo sujo!” – leia “sujo” como “chujo” no seu falar. Caso não houvesse um bom e asseado banheiro, jamais evacuava em qualquer lugar, percorrendo centenas de quilômetros. Papel higiênico da melhor qualidade e lenços umedecidos e perfumados estavam no seu arsenal de estradeiro. Quem quiser escutar saborosas histórias e lendas desse amigo consulte com o Luizinho Zavarize. Casamentos terminam e relacionamentos nem se estendem quando a higiene pessoal é complicada. Os conceitos de beleza se alteram com o tempo, mas sempre o ser humano apreciou os cuidados não abusivos com o corpo ou com a indumentária. Observem que até nos povos que estão galgando os degraus da pirâmide evolucionária a vaidade humana deve ter o calibre e a proporção adequada. O papel higiênico, os cosméticos e a higiene adequada podem ser sintomas do capitalismo, mas triste Venezuela tão rica de petróleo e tão carente de singelo papel higiênico. Segundo o vô Leo: – “De rabo chujo o cara nem pensa direito, imagina pilotar moto!”