A Travessia do Banhado do Taim à Noite.
“ Saibam todos que lerem essas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas de Motocicletas, que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do Céu!” (Crônicas & Agudas da Primeira Capital Equipe)
Comparando, mas respeitando as proporções, o Rio Grande do Sul tem o seu Pantanal que é a Reserva do Taim. É uma extensa área de alagados e de banhados com muita vida selvagem. Localizada na região sul do Estado, atravessado pela BR 471 que liga a cidade de Rio Grande ao Chuí. Rodovia BR 471 que é uma das portas do Mercosul com acesso à Montevidéo, capital do Uruguay. O Taim ainda está sendo recuperado da ocupação de agricultores que ali plantavam extensas lavouras de arroz e de pecuaristas que preparavam os bovinos da picanha-nossa-de-cada-fim-de-semana. Agora o Taim está se repovoando com jacarés do papo-amarelo, capivaras, ratões do banhado (nútrias), aves migratórias e uma infinidade de outros animais.
Saindo de Pelotas, atravessamos a ponte do Canal de São Gonçalo e logo mais estaremos na Quinta que é o entroncamento para Rio Grande e o seu Super-Porto. Ali se faz o último abastecimento de combustível. Nos mais de 100 km seguintes de rodovia não se tem mais nenhum outro posto. Assim se cruzará o Taim por cerca de 30 km da rodovia. Logo as sedes de fazendas desaparecerão e a estrada se elevará sobre as águas por cerca de 3 metros, como uma cicatriz elevada. Um quelóide na face da natureza. As placas de sinalização solicitam que o motorista reduza a velocidade pela possibilidade de animais cruzarem a pista. Foram realizados túneis sob a estrada para que os animais possam cruzar de um lado para outro. Construíram cercas teladas para dificultar que os animais escalem o aterro da estrada e aumentem o risco de mortes de animais e acidentes com veículos. Outra tentativa dos ecologistas consiste na construção de mata-burros para dificultar a circulação dos bichos. Tudo ajuda, mas não impede. Constatam-se a grande quantidade de animais mortos, particularmente capivaras. A travessia do Taim ao amanhecer, principalmente, é uma festa de vida e cores para os nossos sentidos e muito já deve ter sido cantada em verso e prosa. Mas nós três, minha esposa, eu e a Morgana, nossa motocicleta, realizamos esse percurso à noite.
Estávamos voltando de Montevidéo. Frio. Muito frio. Tempo carrancudo. Tínhamos sofrido com a chuva. Um manto líquido nos cobriu. Outono gaúcho. Os demais companheiros mudaram de última hora o projeto e resolveram ficar no Chuí para mais compras. Nossa motocicleta é uma Kawasaki Vulcan Nomad Verde. Verde como a natureza. E as 1500 cilindradas de seu coração transmitem a sua força e a energia com que enfrenta e vence as longas distâncias. Tanque abastecido, pois nos próximos 100 km teríamos um deserto humano. Cessara o dilúvio. A noite havia chegado mais cedo pela rudeza das intempéries. Como um ciclope, o grande farol da Morgana estava coberto por um véu de insetos suicidas. Lavamos a remela de seu grande olho. Limpamos as viseiras dos capacetes. Uma derradeira conversa com os frentistas do derradeiro posto de combustível e tomamos a estrada. A noite cerrada. O farol, como um laser cirúrgico, cortando esse denso manto negro. Nenhuma estrela a conversar conosco.
Cobertos por essa gigantesca capa negra da mãe natureza. Silêncio. Um leve rufar do vento no pára-brisa da moto. A Morgana desliza como uma fada e com seu toque de luz descobre vida na escuridão. Estamos em velocidade reduzida e com mais de 500 kg de máquina, bagagem e pessoas bailamos suavemente na estrada deserta. Cuidado rigoroso nos tachões e no espinhaço de aço dos mata-burros. Um grito de ave perfura a noite. Seria a sua revolta por lhe importunarem os domínios? Outra ave repete como em resposta. Em certo momento o farol varre o canal que acompanha a estrada e ali estão pérolas cintilantes. Chamas faiscantes de répteis que ali já estavam antes do homem ser o que é. São os jacarés do Taim. Olhos ameaçadores aguardando um descuido, um acidente e a queda de presas em seu domínio.
Súbito, uma enorme capivara caminha despreocupada. Paramos para sentir a sua reação. Indiferente continuou seu caminho. Desviamos a Morgana e passamos lentamente a cerca de 1 metro dela que logo foi engolfada pela escuridão que nos servia de cauda. É a noite. A solidão. Um casal e sua máquina viva dependendo um do outro. A natureza como testemunha. A natureza que pode ser uma adversária terrível se for agredida, violentada. A pequenez do ser humano. A grandiosidade da vida. A magnífica expressão da vida e também o odor da morte. A cautela e o respeito por regras maiores de convivência. A consciência da realidade e a coragem para ousar e sentir a beleza exuberante contida na noite de uma área desolada para humanos. A confiança um no outro e em nossas capacidades de interagir na adversidade. O entendimento de que só se tornam uma equipe real o piloto e sua co-piloto com a motocicleta. É tudo e somente com que se pode contar. E uma prece silenciosa ao anjo da guarda do motociclista. Aqui muito mais se ama e aperfeiçoa a existência.
Logo o Taim se tornou lembrança. Feliz e inexpugnável lembrança. As luzes da civilização vieram refletir-se no policarbonato das viseiras dos capacetes. Um dia quem sabe, ali retornaremos. Nesta ou em outra existência, mas com a Morgana a nos acompanhar.