O velho Maneca Ibraim e seu cão! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 05 Maio 2020.

 

Atendendo as solicitações de leitores dessa vanguarda, capitaneada pelo Pedro “Pedrão” Negeliskii e esculpida a duras digitações por esse cronista, vamos recuperar fragmentos de um passado distante da Primeira Capital de Todos os Gaúchos!

O velho Maneca Ibraim e seu cão! – Parte 1

A

li pela região da Ponta do Aterro, próximo ao ancestral armazém do Tico Laranjeira na ‘bocada’ de acesso à região da Pimenta, talvez entre hoje as terras dos Flores e  dos Veiga teve um pequeno comércio do tal de Maneca Ibraim. Sabe aquelas pessoas que parecem ter nascido velhas. Sempre estiveram velhas. Ninguém as conheceu jovens. Pois o Maneca Ibraim era uma dessas criaturas que na Grécia Antiga seriam seres mitológicos. Havia quem falasse ser parente do meu bisavô Maneca Laurindo e terem vindo no mesmo navio desde Portugal. Talvez o fato de serem de pele muito clara, cabelos de claros a loiros e nariz adunco teve isso motivado. Sabe-se lá! Vamos dizer que o Maneca Ibraim apareceu e se estabeleceu. O seu comércio era parada de tropeiros que por ali cruzavam com a ‘gadaria’. Fez fama seu café cujo aroma era ‘sentido a léguas de distância’ e sempre quente, muito quente no fogão campeiro (ou fogão de rabo) e um chaleirão de ferro com água tinindo. Chimarrão e café. E charque! O velho Maneca Ibraim carneava novilhas antes da entrada do inverno e as varas de charque esperavam os tropeiros de duras e penosas jornadas. Havia aqueles que traziam as tropas desde Mostardas e as levavam aos matadouros de porto Alegre.

A singela morada era cercada por goiabeiras, acreditavam que ele as trouxesse na mochila desde Portugal. A certeza era de goiabas maiores que um punho cerrado. Não havia nenhuma outra com aquele tamanho e as pessoas podiam apanhar e comer com a tranquilidade dos livres de corpo e alma. Interessante era que alguns cavaleiros davam goiabas com a mão em concha para suas montarias e como elas apreciavam. Comiam com o prazer que deviam dar as frutas do Éden. Sim, somente no Paraíso as frutas seriam tão puras e saborosas, claro que antes do holocausto da serpente que encantou a Eva..

“E o cão”? Pois o cão também apareceu assim aparecendo. Me entende? Talvez acompanhasse alguma tropa ou algum cavaleiro deserdado da vida. Talvez alguma criatura sem rumo, desses que vagam sem rumo ou destino. O certo é que sempre o cão escolhe o seu amigo homem. Até pode chamar de dono! O cão era outro desconhecido, anônimo mesmo, que acampou e ficou. Parecia ter a mesma idade do Maneca Ibraim. Velho uma barbaridade. O Cão, sim esse era seu nome que o velho lhe deu, tinha alguma cruza sanguínea com os buldogues campeiros. Daqueles com a coragem e força suficientes para encarar o mais feroz touro e fazê-lo se ajoelhar com as ventas em sangue. Faltava um pedaço do rabo. Seria sequela de alguma peleia braba e feia? Mas agitava aquele meio rabo fazendo festa ao velho quando esse o chamava (Cão) pela troca ritmada de olhares. Não latia. Jamais acuava ou se mostrava impaciente. Somente permitia que um adulto lhe tocasse se o velho assim permitisse, às vezes somente com um meneio de cabeça ou um olhar. Mas com as crianças, sim com as crianças, deitava-se com as patas para o céu e fechava os olhos para receber carinho e até alguma capetagem.

A faca que o gaúcho sempre porta é de primeira utilidade, seja para trabalho ou para combate. O Cão era uma sombra permanente do velho e se alguma alma desenfreada ousasse somente em pensamento, ele desembainhava enormes dentes. Uma armadura e equipamento de lutar de tremer até os desatinados. Somado ao seu tamanho, quase uma bezerra, trazia tranquilidade ao armazém.

“Era somente o velho Maneca Ibraim e o Cão”? Não. Essa parceria cão e homem que iniciou com os lobos há centenas de milhares de anos sempre me cativa. Me encanta contar e visualizar, nem que seja somente com os olhos amorosos do coração. Havia uma negra! Apareceu e ficou também. Talvez não tão idoso quanto o homem, mas as marcas no corpo denotavam uma jornada sofrida. Sempre com um lenço cobrindo a cabeleira rente ao crâneo. Manquejava da perna esquerda. Diziam que tinha uma grande cicatriz próxima ao joelho. O longo vestido não permitia conferir e as palavras que eram escassas e somente as mais necessárias.  (Conclui na próxima semana. Aguarde!)

2020 – 05 – 05 Maio – O Velho Maneca Ibraim e seu cão – 1! Eds Olimpio – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

http://www.edsonolimpio.com.br

 

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1 comentário (+adicionar seu?)

  1. Avatar de pe3488 pe3488
    maio 06, 2020 @ 20:59:34

    Que arte ademiravel de escrever historias .

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