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Negão do Picolé
Veraneávamos com os filhos-crianças na praia de Cidreira, na rua 2 próximo ao famoso Bar João. Era conhecida como “a praia dos viamonenses”. Ao contrário dos tempos tormentosos e preocupantes hoje sobrevividos, as crianças tinham a liberdade de brincar pela rua, pelas casas dos amiguinhos da vizinhança. O verão era mais longo para muitas famílias, sendo comum que as mulheres e os filhos ficassem no litoral enquanto os esposos provedores trabalhavam na cidade e no mês escolhido reuniam-se na alegria da família.
E alguns “direitos” infantis eram “sagrados”. Assim o puxa-puxa, o refrigerante, a bicicleta, o skate, as brincadeiras com horário flexível de terminar e o picolé. Verão e picolé. Verão, picolé e praia. Tudo a ver. Muitos picolés. À beira mar ou depois do almoço – desde que “limpado o prato” – e na tardinha quando o suor derramado em aluvião pelos rostos e nas camisetas encharcadas.
As lembranças das vidas dos filhos iluminam-nos. Seus personagens fantásticos sempre retornam de verões distantes e desanuviam em invernos da alma. Uma dessas criaturas maravilhosas era o “Negão do Picolé”. Espero que alguma patrulha não exija o “politicamente correto”, pois isso somente iria destoar a realidade bendita de simplicidade, humildade e amor. Ele, seus colegas de profissão e a criançada chamavam-no de Negão do Picolé. Jaleco branco limpíssimo, bermudas, chinelos de dedo, de meia idade e muito gordo, ainda com o carrinho da Kibon. Ali era o seu território de trabalho e de vida – um perímetro de ruas e à beira mar.
Conhecia cada uma das “minhas crianças”. Chamava-as pelo nome ou por alguma característica ou apelido. A nossa filha do meio, a Cynthia, era magrinha, branquela (loirinha) e menor entre as coleguinhas e usava óculos de “fundo de garrafa” – pesadas lentes de grau. Geralmente ficava para o final na disputa dos picolés. Quando chegava a sua vez: “a minha branquinha vai querer o Chica-Bom?” – dizia afetuosamente. Seus olhos ficavam maiores que os óculos e certamente a saliva rolava entre seus dentes e a língua sentindo os sabores tão apreciados.
À tarde, numa grande área anexa a nossa garagem, várias meninas brincavam com suas Barbies e Bobys, embalando sonhos em seus braços e mentes. Algumas cozinhando nas panelinhas e cozinhas com fogões e ‘geladeirinhas’, outras vestindo e despindo a Barbie e seu namorado. As simulações de vozes imitando pais, avós e outros personagens desse mundo maravilhoso e intangível da imaginação infantil.
Eis que uma corneta soava ao longe. Como por mágica, muitas estacavam nas brincadeiras e erguiam as cabeças apurando os ouvidos. Alguma das meninas disparava para o avarandado frontal e dava o grito de alerta geral: “o Negão do Picolé vem vindo!” Correria geral. Algumas traziam algum dinheiro que os pais deixavam em suas bolsinhas. Outras não. Cercavam em algazarra o Negão que rindo já as chamava pelos nomes e sabia suas predileções. E o dinheiro? Ninguém ficava sem seu picolé. Dizia: − “Depois tu ou tua mãe me paga, tá aqui teu picolé!”
A dignidade nem sempre veste gravata ou toga e nem está nos templos do saber e do poder. Nunca soube como ele fechava as contas com o patrão no final do turno de trabalho. Assim como nunca soube de alguém dar calote nessa pessoa formidável. Jamais aceitou pagamentos extras para seus picolés, vendia mais picolés. Acredito que o seu maior pagamento fosse a felicidade que distribuía e semeava.
Seu exemplo de honradez e amor faz-nos entender que esse Brasil assolado por canalhas de todos os matizes e classes sociais pode ter solução. Nós, aquelas pessoas, tivemos a felicidade de viver num ambiente de reconhecimento e respeito mútuo, onde todas as vidas e todas as pessoas importavam sempre. A cor da pele ou o “ano de fabricação” são fatos da lei de Deus. E méritos de cada em sua essência e com o orgulho dos justos de honra. Jamais daqueles de mente perversa e espíritos sombrios.
Na distância dos anos que o tempo impõe, nossos filhos são adultos e com suas famílias, mas as lembranças do Negão do Picolé traz risos e algumas lágrimas vertidas numa oração interior para aquele homem, aquela pessoa iluminada com que tivemos o privilégio de caminhar essa jornada de vida. (Nota do Cronista. Crônica reeditada e adaptadas recebidas.)
2021 – 01 – 12 Janeiro – Negão do Picolé
Eds Olimpio
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
jan 17, 2021 @ 17:56:33
Gratidao