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A Negra Santa!
Preocupa-me a crescente divisão das pessoas. Nunca presenciei alguém ser agredido por ser negro, índio ou… Sinto que essa agressividade se exacerbou quando “nós e eles” tornou-se pregão do senhor Lula. E para mim e todos com quem convivi ou convivo – todas as vidas importam! E muito. Dos avós, somente convivi com a dona Adiles, minha avó materna, que residiam aqui no Centro histórico de Viamão, à rua Dois de Novembro, a poucos metros do Cemitério.
Um grande terreno que aos fundos se abria para uma travessa defronte onde hoje é o portão principal do campo santo. Ali morava uma mulher considerada a melhor lavadeira de roupas “finas” da cidade – a Negra Santa! Não recordo seu nome completo. Viúva com um único filho – o Léo, que por muitos anos foi motorista de ônibus da cidade. Uma pequena casa de madeira marrom, tábuas verticais com mata-juntas, alta do solo, suspensa por pilaretes. Eu gostava de olhar lá embaixo para chamar algum cão ou um gato.
Crônicas & Agudas
Janelas com cortininhas floreadas. Assoalho de madeira escovado ao extremo. Fogão à lenha, sempre com braseiro cintilando. Um paneleiro que riscava coriscos de luz ao brilhar com sol nascente. Um belo gramado nos fundos. Apesar da beleza, não era para brincar e nem os bichos iam naquele gramado. As melhores roupas das senhoras, as fatiotas (ternos) dos homens ou os enxovais de casamento era lavados em bacias diversas e postos a quarar à sombra no gramado.
O perfume do anil na crônica da Negra dos Sonhos alavancou, novamente as memórias da Santa. As “bonecas de anil” – alguns diziam “bonecras”! Pedras azuladas enroladas num tecido poroso adicionadas à água. Um velho ferro recebia as brasas vivas na sua “barriga” e com ele, ela dava os vincos perfeitos. Operação de alto risco, pois frequentemente outras lavadeiras deixavam o ferro queimar ou marcar os tecidos. As roupas da dona Santa eram enaltecidas e identificadas pelo seu cuidado e capricho.
Crônicas & Agudas
O neto da Adiles e o filho da Dorinha e do Aldo Cabeleira sempre foi uma parte desse universo que ia até as margens do Arroio Mendanha – hoje seria reduto quilombola. Sentado num banco comendo “coisas boas (bolos, doces, roscas) da Santa” e a vendo passar a roupa com o ferro de braseiro, as mãos sofridas de juntas grossas a aspergir água no caminho do ferro.
Outra de suas habilidades que fez fama: exímia para limpar “caças” de todos os naipes e tipos – jacaré, gambás, perus, marrecos, tatus, capivaras e o que lhe trouxessem. Devolvia as peças “sem as catingas” dentro de bacias cobertas por uma toalha alva de saca de farinha de trigo. A extrema limpeza de sua casa jamais iria revelar tão difícil arte, fazendo-a única na comunidade viamonense.
Crônicas & Agudas
Meus dois anos iniciais de faculdade foi em Pelotas. Novo vestibular me trouxe para a Católica de Porto Alegre. No início do 3º ano iniciei acompanhando os médicos veteranos no Hospital de Caridade com a bênção do seu Diretor, Dr. Wenceslau da Rocha Vieira.
Pois foi com a Santa, num desses dias em sua casa que fiz o meu primeiro diagnóstico de Insuficiência Cardíaca Congestiva (“doença do coração grande”). Insisti em levá-la ao Dr. Wenceslau, mas “não posso pagar, vou no posto”.
Alma nobre, o Dr. Wenceslau atendeu-a e me deixou no compromisso de acompanhá-la. Jamais lhe cobrou um centavo. A benção que tive de conviver com pessoas nobres e participar de suas vidas.
A querida Negra Santa, amiga da minha mãe e da minha avó, um coração tão grande que talvez não tenha conseguido abarcar todas as criaturas a sua volta.
Trouxe a sua pureza ao espírito de quem com ela conviveu.
Há que agradecer! E muito.
2021 – 04 – 13 Abril – Negra Santa – Eds Olimpio
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
Imagem da Série “Ele está junto de Nós!”
abr 18, 2021 @ 10:28:30
Gratidão.