O Domingo na Orla (praia)
Parte 2 – Humor ainda é um bom remédio
“Terezinha, me acude aqui! Aaaauuuurrrr.” – Gritou a velha chamando a nega.
Coisa feia, meu. A velha açuleada e vá arroto. Ela sempre sofreu de maus arrotos. É problema do fígado e de empate nas tripas. Sabe o cara comer um big churrasco e arrotar carniça? É isso aí e mais meio quilo de farofa. E já botou os guisados pra fora. Vomitou um monte. Aí a nega deu um Plasil e um Dramin e pegou a térmica com chá de marcela. Melhorou. É muito dos nervos.
Fomos lá pro Quintão, ali perto do navio afundado. Praia limpa. Nem cachorro pra incomodar. Estacionei a Brasília lá nos cômoros e de peito pro mar. Sabe como é a maresia no motor? Eu já vinha olhando o mar para escolher um buraco legal para dar uma pescada. Amarrei a lona no bagageiro e armei com as taquaras, ficou um toldo dez. As crianças já começaram a correr pela praia. Só uma brisinha de leve. Sabe aquele vento que nem desarruma o cabelo? Bota menos. E o sol, que baita ‘lua’, meu. Já estava de calção por baixo da bermuda e a nega colocou o biquíni ali mesmo dentro do carro.
A velha coitada tava meio caída, aí fizemos uma cama pra ela debaixo do toldo. Ela geralmente melhora depois de um chá e uma cochilada. Puxei toda aquela tralha pra fora. Arrumei a churrasqueira. Abri o isopor e tomei uma cervejinha bem gelada. Desceu redondo. Criei alma nova. A nega ficou ali arrumando as coisas e eu fui catar uns mariscos. E tinha sim. Cada mariscão que parecia casco de tartaruga.
Tenho um caniço paraguaio, desses tipo antena de carro. Coisa boa, todo de fibra de vidro. Entrei com a água pela cintura – brrrr, que água fria, o saco parou aqui no queixo – e joguei o anzol. Até tu vai achar que é papo furado de pescador, mas foi bater na água e ferrei um papa-terra. Assim do tamanho de um palmo. Pensei, esse é o neto, vou buscar os pais e os avós. A criançada gritava e pulava com o peixe. E assim foi, peguei oito papa-terras ligeirinho.
Aí é que começou o meu azar. Começaram a passar uns carros pela praia e paravam pra ver a criançada brincando com os peixes. Caras de pau. Já foi carro estacionando de qualquer jeito e o povo descendo. Dali a pouco tinha uma cidade em volta de mim. Caniço de carretilha eu perdi a conta. Tinha que me abaixar para não levar uma chumbada na cabeça. Larguei a pescaria e roguei uma praga. Não adiantou. Parece que ali tinha uma fábrica de papa-terra. Até que chegaram uns gringos de mercedinho e começaram a largar redes de arrastão. Quase deu morte. Era linha enrolando na rede e uns nos outros. Ofensa de tudo que era lado. Me regozijei. Bem feito! Vão se ferrar. Fui assistir de camarote lá da Brasília eles se carnearem.
A velha já tava legal, só braba que nem uma onça. Foi se aliviar atrás dos cômoros e tinha fila pro mesmo motivo. As lagartixas e os tuco-tuco – aqueles ratos brancos da areia – vão apresentar queixa no IBAMA.
A nega tava ali se bronzeando. Não é uma Sharon Stone, meu companheiro, mas me dá uma tesão de bispo. Vai dizer que tu não imaginas uma tesão de bispo? Mas, fui preparar o fogo. Não sei como é que molharam o carvão! Custou, mas prendeu fogo. Uma cervejinha. Bronzeador na nega. As crianças debaixo do toldo porque o sol tava demais.
Espetei uma linguiça caseira e a carne. Cortei uns tomates e preparei os alfaces. O arroz veio pronto. Maionese? Nem pensar num calor desses. Um refri pras crianças e pra nega. E um chá de marcela pra velha que soltava uns arrotos de fazer o cachorro do vizinho latir – esses cachorrinhos de fresco, tal de ‘pudel’. Tá certo, não pagou aluguel tem que botar pra fora.
Fui dar uma urinada nos cômoros, quase mijei em cima dum casal de namorados entreverados num amasso. Aí peguei um lençol e fiz uma casinha do lado da camionete pras mulheres se aliviarem.
A linguiça no pão, ali com uma cerveja e olhando o mar e a mulher deitada no sol é de alucinar o cara. Até dá uns arrepios. As crianças já tinham comido uma das melancias que enterrei debaixo da viatura, pois assim ficam geladinhas. As uvas ficaram debaixo da sacola da sogra e amassaram tudo, só serviam para suco. Coloquei fora, enterrei na areia.
– Se segurem que o desfecho dessa epopeia do Arigó na próxima coluna.
2022.02.01 – Domingo na orla 2 – Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
http://www.edsonolimpio.com.br
Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira
Médico. Cirurgião. Escritor
CREMERS 07720
. * .
Médico Cirurgião Jubilado
Sociedade de Cirurgia Geral do Rio Grande do Sul – SOCIGERS
Conselho Regional de Medicina RGS – CREMERS
Associação Médica do RGS – AMRIGS
Associação Médica Brasileira – AMB
Viamão – RS
1971 a 2021 – 50 Anos de Medicina
http://www.edsonolimpio.com.br
Autor dos livros:
Crônicas & Agudas
Crônicas & PontiAgudas
Trinity! A Saga continua.
+ 25 Anos de Jornalismo
Cronista Jornal Opinião de Viamão
fev 04, 2022 @ 13:12:46
Gratidao