Mais ligeiro que Gato de Bordel!
[Corrientes 348 | Quem sobe ao segundo andar | Sem porteiro e sem vizinho | Só amor vai encontrar | Neste quarto sedutor ! Um telefone que avisa | Uma vitrola que chora | Velhos tangos e canções | E um
gato de porcelana | Mudo assiste ao nosso amor | …] Trecho do famoso tango A Média Luz, imortalizado na voz de Carlos Gardel e no Brasil pelo gaúcho de Santana do Livramento, Nelson Gonçalves.
Numa época em que o cãozinho de madame era o Pequinês, aqui em nossas terras. Um bichinho impaciente e “incomodativo”. Acua e ladra por qualquer bobagem e ciumento como cantor sertanejo. Jamais seria a companhia ideal para as meninas nas lidas do lupanar. Havia ainda o risco de ataque as partes essenciais do macho apaixonado e sedento de paixão. E os gatos? Pois é, aqui entra a percepção do cronista que observa no imortal tango A Media Luz a estátua erigida ao felino discreto e sutil – “um gato de porcelana”.
Crônicas & Agudas!
Certa feita, trabalhava como médico plantonista num pronto-socorro privado de Porto Alegre e recebeu-se uma chamada de um endereço numa zona barra pesada da Capital. A atendente do PS já havia recebido outras chamadas do mesmo local – um bordel. E lá se vão décadas troteando no tempo de médico. Atendíamos em dupla, o médico e o doutorando. Normalmente nesses locais e ambientes complicados para a maioria das pessoas, o médico é tratado com muito respeito e extrema consideração (era assim!).
Ambulância estacionada. O pessoal à rua demonstrava que a pegada foi bruta. Salas penumbrosas com música e… Imaginem! Um corredor estreito ladeando cômodos com cortinas às portas. Uma escada estreita, um quarto (sótão) com um homem lanhado, fatiado. Tinha diversos cortes de navalha. Deitado numa cama com vários panos de curativos. Esse foi o resultado de uma mulher surtada em crise mortal de ciúme.
Não havia risco fatal. E não aceitaram remover ao HPS – Hospital de Pronto Socorro. E fez-se o melhor tratamento disponível nas condições. Sentiram-se extremamente agradecidos e pagaram com a melhor boa vontade. O paciente evoluiu muito bem sem nenhuma complicação, informavam pelo telefone.
Crônicas & Agudas!
Não havia casas sem um bichano. O gato, além de predador de ratos e outros bichos, é pacato e suave como veludo de divã. Companhia das meninas no interlúdio, soube. Jamais importuna ou atrapalha os embates amorosos. E rápido como um corisco quando o caldo entorna, o ferro branco “alumeia” ou o tresoitão que berra com fome de sangue. Desaparece. Não se mete, nem intromete na briga alheia, diz a experiência do gato que perdeu o couro para um tamborim.
O leitor que me acompanha ou persegue nessas crônicas, conhece agora uma outra face do gato – o gato de bordel, entronizado na porcelana de um desse lupanares das orgias portenhas. E como o gato natural – “mudo assiste ao amor”! Um respeito silencioso. Uma forma de amizade e carinho que somente o gato apresenta com sua personalidade própria e atitudes que encanta a muitas pessoas. O gato, como o cão, ama sem jamais julgar.
Quantas pessoas precisariam aprender a respeitar e tratar aos demais observando a simplicidade dos animais. Observe que a vida passa muito rápida e um dia a conta chega aqui ou do outro lado!
2022.08.02 – Mais ligeiro que Gato de Bordel – Edson Olimpio Oliveira
Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão