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Anjos da Morte ou Guardiões da Vida?
A história se repete nas aguadas do tempo. O farroupilha não se entregava aos viventes de alma turva; sabia separar o joio do trigo na antiga Província de São Pedro — este hoje exaurido Rio Grande do Sul. Era um tempo em que o papel só tinha valor quando respaldado pela palavra empenhada, pela honra da família e pelo amor à pátria.
Hoje, o Brasil parece oferecer o lombo ao matadouro quando a terra é inundada por caóticas escolas de medicina — sim, medicina com “m” minúsculo — onde um diploma não cultua dignidade, nem mérito. Não carrega as lutas lutadas, as batalhas vencidas nas incontáveis horas de estudo, no brete dos corredores hospitalares, nas salas de cirurgia, no estoicismo dos plantões, nem na sublime visão do nascer de uma criança. Avança uma máquina fria de fabricar “médicos” sem espírito e sem missão, com diploma como alvo final. Multiplicam-se como peste insidiosa. Muitos fugirão dos plantões de emergência — pediatria, obstetrícia, cirurgia de urgência/emergência — justamente onde vidas pendem por um fio. Ali, onde tantos morrerão ou ficarão marcados para sempre, suas deficiências profissionais saltarão aos olhos, ainda que tentem escondê-las sob títulos e discursos. Ou países de origem.
A Medicina brasileira — com “M” maiúsculo — ainda resiste no mérito, na ética e na dignidade ancestral. Mas há desvios de caráter. A obsessão ideológica e o flagelo político-eleitoral contaminam consciências e inflamam ódios. A justiça se adultera, a corrupção se repete, e a sensação de impunidade corrói as bases da confiança social. É especialmente grave quando “médicos” defendem tortura, perseguição ou a eliminação de adversários políticos. A história já conheceu o horror personificado no chamado “Anjo da Morte”, Josef Mengele — e basta lembrar para compreender até onde pode descer a degradação ética quando a ideologia suplanta a humanidade.
Como confiar em um “especialista em infecções” que torce pela persistência do mal? Em um “médico da mente” cuja própria razão está corroída pelo fanatismo do “meu lado é o único certo”? Em um “médico do coração” cujo peito pulsa ódio e desejo de sofrimento para mulheres, idosos ou enfermos graves? A lista cresce quando riqueza e poder passam a valer mais que a vida humana. Quando se deseja a destruição física e/ou moral de quem não reza pela mesma cartilha ideológica, a medicina deixa de ser sacerdócio e passa a ser instrumento/arma.
Pergunto, então: você entregaria seu corpo — sua cabeça, seu coração — a novos “anjos da morte”? E o corpo de seus filhos? De sua esposa? E, se sobreviverem, o de seus netos?
Talvez você não goste do modo como falo ou escrevo. Mas há 55 anos cuido de pessoas — você, sua família, milhares nos plantões, sobretudo de cirurgia de urgência e emergência. Não sou único. Somos muitos nessa missão silenciosa, sustentados por ética, capacidade técnica e, acima de tudo, amor real ao paciente e respeito aos familiares.
Qual é, afinal, a derradeira arma do cidadão honesto? A atitude. A escolha. O voto.
Nessa balada sombria, o voto pode sucumbir — ou pode resistir. Escolher os piores declarados? Ou filtrar, entre imperfeições humanas, aqueles de maior integridade e capacidade coletiva? Cerca de 30 milhões se abstiveram de decidir o futuro comum. A omissão também escolhe, geralmente o pior. É fácil dizer que todos são iguais, que não há solução, que “rouba, mas faz”, que Deus resolverá… Mas o vivente campeiro sabe: é preciso boa semente, água limpa e terra bem cuidada para colher bem. O gaúcho que se preza — espécie em rarefação — zela pela boiada, pelas ovelhas, pelo pingo, e nunca esquece o cusco que guarda o galpão.
A escolha é simples e dura: descuido ou vigilância?
Indiferença ou responsabilidade? Refletiu? Sim — ou não?
2026.04.07 – Anjos da Morte ou Guardiões da Vida
Edson Olimpio – Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira
Médico | Cirurgião | Escritor | Jornalismo
CREMERS7720 | RQE 4700
Medicina desde 1971
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