O Causo do Curativo “Sinistro” – 2026.05.19

O Causo do Curativo “Sinistro”!

Assenta o chapéu, vivente, puxa o banco que o causo é de tirar o fôlego e deixar a alma em suspenso!

Era um fim de tarde de sol rachando o lombo, naqueles campos de terra batida que a gente chamava de "Estádio Maracanã", mas que não passava de um potreiro cheio de bosta de vaca e pedra de amolar. Eu tava lá, de bombacha curta e pés descalços, jogando uma pelada que valia mais que a honra do Rio Grande.

No meio de um entrevero pela bola, o "Tião Faca-Cega" me deu um carrinho que não era de brinquedo. Eu voei por cima da poeira e aterrissei de joelho numa ponta de cascalho. O estrago foi feio: o joelho parecendo um bife à milanesa, misturado com terra e o que sobrou da minha dignidade. O problema não era o osso aparecendo, era o que vinha depois. Tentei chegar em casa nas "pontas dos cascos", sem fazer barulho, pra ver se a mãe não notava. Mas mãe de gaúcho tem faro de perdigueiro pra cheiro de sangue e terra.

— "Vem cá, meu anjo… que que tu aprontou dessa vez?" — disse ela, com aquela voz doce que a gente sabe que esconde o chicote.

Ela me sentou no banco da cozinha. Eu já tremia mais que vara verde em dia de minuano. Do lado dela, o "Kit do Suplício": o vidro de Iodo (que parecia veneno de cobra), o Mertiolate (o traiçoeiro) e o Mercurocromo (o pincel da discórdia).

— "Mãe, pelo amor de Deus, passa o vermelhinho! O Mercúrio! Esse não dói, mãe!" — eu implorava, quase rezando um terço de mãos juntas para o céu. Mas a mãe tava com o espírito do inquisidor naquele dia. Olhou pro meu joelho cheio de terra e sentenciou:

— "Isso aqui tá muito sujo, guri. O Mercúrio não vai dar conta. Tem que ser o Mertiolate pra ‘limpar do fundo’." Me botou a ferida pra lavar na torneira. Bah, tchê… Quando ela destampou aquele vidro transparente, o ar da cozinha gelou. O cusco fugiu ganindo e o gato se enfiou debaixo do armário. Ela molhou um chumaço de algodão que parecia uma nuvem de tempestade. Eu agarrei as bordas do banco com tanta força que quase saiu suco da madeira.

Quando o algodão encostou na ferida… “Mas que barbaridade!”

Eu dei um grito que o vizinho do terceiro campo achou que tinha morrido um boi no grito. A dor era uma mistura de brasa viva com picada de marimbondo-caboclo. Minha alma saiu do corpo, deu três voltas no telhado, consultou o dicionário pra ver se existia palavrão novo e voltou só pra eu poder chorar. O joelho fervia! Eu soprava tanto que parecia um fole de gaita velha, mas quanto mais soprava, mais o álcool do Mertiolate parecia rir da minha cara.

Depois da tortura, pra "arrematar" o serviço e não dizerem que ela não era caprichosa, ela pegou o Mercurocromo e pintou um sol vermelho por cima de tudo. Saí da cozinha com a perna esticada, parecendo um robô com defeito, todo manchado de vermelho vivo, mas com o consolo de que a "limpeza" tinha sido feita. Naquela noite, eu dormi com o joelho grudado no lençol, mas orgulhoso. No outro dia, lá estava eu no campo de novo, exibindo a crosta vermelha como se fosse uma medalha de guerra, pronto pra outra "estrepolia".

Z37 2026.05.19 – O Curativo Sinistro – Edson Olimpio

Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico | Cirurgião | Escritor | Jornalismo

CREMERS7720 | RQE 4700

Medicina desde 1971

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