Notas da Madrugada!
Quando o sono não chega, talvez se atrasou flertando numa bailanta do infinito, ou não querendo desperdiçar cada segundo, cada minuto, dessa rápida e volátil existência. Aqui estou sentado na areia da praia em São Lourenço do Sul. A bela Lagoa dos Patos sempre me pareceu um imenso e ondulante lençol onde poderia acomodar-me e flutuando passar toda a eternidade. A noite está calma. Alguma ave notívaga insiste em chamar sua companheira e os grilos fazem uma serenata que trazem lembranças de amores que partiram. De sonhos desfeitos. De propostas não aceitas. De estradas sonhadas, mas nunca cruzadas. Mas que droga! Sai pra longe depressão!
Um arco de lua insiste em mostrar-se entre nuvens indiferentes que loucamente perambulam pelo céu estrelado. A brisa. Uma fresca brisa se arremete do nordeste trazendo o odor salitrado do oceano que está logo ali adiante. Respiro profundamente. Agradeço aos deuses a saúde e a felicidade de ali estar desfrutando aquele momento único. Então uma imensa alegria invade meu ser. Como se uma vibração crescente mobilizasse cada célula desse corpo, fazendo-o sentir-se vivo e agradecido. Minha amada olha-me melosamente. Ela está ali na minha frente com a areia a confortar-lhe os pés. Sua silhueta sempre me cativou. Enamorei-me de suas formas. Conquistou-me na primeira impressão. Logo que passamos a viver juntos, passei a compreendê-la e cresceu o meu amor. Conhecemos juntos os campos e as cidades, os desertos e as praias. Uma companheira inigualável. Fiel e corajosa. Dedicada e responsável. Quando estou com ela, jamais existe solidão. Ela me completa. Sinto o calor irradiado de seu corpo. Fecho os olhos e sinto uma lágrima surfar em minha face.
Ela é uma Nomad da Kawa, a verde Kawasaki. Poderosa. Inigualável. Morgana, chamo-a carinhosamente. Já tive outras companheiras. Fantásticas. Belas. Cada uma com a sua identidade. Cada uma com suas peculiaridades. E até suas manias. E manhas. Motocicletas são como mulheres – sensíveis e geniosas. Vem-me à mente a frase de um amigo da estrada: – Se fizessem um clone de cachorro e mulher o resultado seria a moto, sem os defeitos dos outros dois. Rimos. Há uma sensação de que o mundo, o tempo, sei lá, tudo parou nesse momento. Uma outra idéia insolente de sugerir ao novo Presidente que após o programa Fome Zero ela faça o programa Moto Zero – nenhum brasileiro sem a sua moto. Certamente seríamos uma nação mais feliz.
Infelizmente, os ponteiros do relógio são teimosos e implacáveis e a madrugada vai sorrateiramente fluindo por entre as figueiras que margeiam a lagoa. Mas o que seria da vida se novos e únicos momentos não se seguissem. Como um farol ao longe tingindo a escuridão e empurrando a derradeira estrela para outra jornada, o sol se faz anunciar. Será um belo dia que se avizinha. Levanto-me. Sacudo a areia das calças de couro negro. Uma troca silenciosa de palavras. Aliso com as mãos seu corpo. Sensual umidade. Coloco as luvas e o capacete. Seu motor rufa com meu coração. Lentamente, tomamos a estrada. Temos mais alguém a nos esperar – um lençol, um ninho e mais amor. Muito mais amor!