Notas da Madrugada! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 18

 

 

Notas da Madrugada!

 

 

Quando o sono não chega, talvez se atrasou flertando numa bailanta do infinito, ou não querendo desperdiçar cada segundo, cada minuto, dessa rápida e volátil existência. Aqui estou sentado na areia da praia em São Lourenço do Sul. A bela Lagoa dos Patos sempre me pareceu um imenso e ondulante lençol onde poderia acomodar-me e flutuando passar toda a eternidade. A noite está calma. Alguma ave notívaga insiste em chamar sua companheira e os grilos fazem uma serenata que trazem lembranças de amores que partiram. De sonhos desfeitos. De propostas não aceitas. De estradas sonhadas, mas nunca cruzadas. Mas que droga! Sai pra longe depressão!

 

 

Um arco de lua insiste em mostrar-se entre nuvens indiferentes que loucamente perambulam pelo céu estrelado. A brisa. Uma fresca brisa se arremete do nordeste trazendo o odor salitrado do oceano que está logo ali adiante. Respiro profundamente. Agradeço aos deuses a saúde e a felicidade de ali estar desfrutando aquele momento único. Então uma imensa alegria invade meu ser. Como se uma vibração crescente mobilizasse cada célula desse corpo, fazendo-o sentir-se vivo e agradecido. Minha amada olha-me melosamente. Ela está ali na minha frente com a areia a confortar-lhe os pés. Sua silhueta sempre me cativou. Enamorei-me de suas formas. Conquistou-me na primeira impressão. Logo que passamos a viver juntos, passei a compreendê-la e cresceu o meu amor. Conhecemos juntos os campos e as cidades, os desertos e as praias. Uma companheira inigualável. Fiel e corajosa. Dedicada e responsável. Quando estou com ela, jamais existe solidão. Ela me completa. Sinto o calor irradiado de seu corpo. Fecho os olhos e sinto uma lágrima surfar em minha face.

 

Ela é uma Nomad da Kawa, a verde Kawasaki. Poderosa. Inigualável. Morgana, chamo-a carinhosamente. Já tive outras companheiras. Fantásticas. Belas. Cada uma com a sua identidade. Cada uma com suas peculiaridades. E até suas manias. E manhas. Motocicletas são como mulheres – sensíveis e geniosas. Vem-me à mente a frase de um amigo da estrada: – Se fizessem um clone de cachorro e mulher o resultado seria a moto, sem os defeitos dos outros dois. Rimos. Há uma sensação de que o mundo, o tempo, sei lá, tudo parou nesse momento. Uma outra idéia insolente de sugerir ao novo Presidente que após o programa Fome Zero ela faça o programa Moto Zero – nenhum brasileiro sem a sua moto. Certamente seríamos uma nação mais feliz.

 

Infelizmente, os ponteiros do relógio são teimosos e implacáveis e a madrugada vai sorrateiramente fluindo por entre as figueiras que margeiam a lagoa. Mas o que seria da vida se novos e únicos momentos não se seguissem. Como um farol ao longe tingindo a escuridão e empurrando a derradeira estrela para outra jornada, o sol se faz anunciar. Será um belo dia que se avizinha. Levanto-me. Sacudo a areia das calças de couro negro. Uma troca silenciosa de palavras. Aliso com as mãos seu corpo. Sensual umidade. Coloco as luvas e o capacete. Seu motor rufa com meu coração. Lentamente, tomamos a estrada. Temos mais alguém a nos esperar – um lençol, um ninho e mais amor. Muito mais amor!

Moto - Paixão Eterna - 18 - 2017 - Ushuaia

MotoGay! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 17.

 

 

MOTOGAY.

 

 

 

Minhas andanças pela política me ensinaram que se devem apoiar as minorias sem jamais ser contra as maiorias. E durante longos e fumacentos anos de motociclismo rodando pelo Brasil-abençoado-por-Deus e participando de encontros motociclísticos em cidades que nos custa enrolar a língua para poder dizer o nome, acreditava que motociclismo fosse coisa para homens.

 

O sujeito para andar de moto tinha que ser homem e macho. Mas com a passagem dos anos, a visão aumenta e o coração amolece. Passamos a conviver com grupos de motociclistas mulheres e também algumas valquírias solitárias pilotando suas motos. E muitas vezes melhor do que muito machão.

 

Parecia estranho, mas foi muito fácil aceitar. Pois encontrei homens na garupa de suas damas de aço. Num desfile Farroupilha causou muito rebuliço a vinda de Pelotas a cavalo de um advogado conhecido como Capitão Gay, inclusive com um companheiro travesti vestido (a) de prenda. Tentou acampar no Parque da Harmonia para celebrar a Semana Farroupilha, não conseguiu. Quase (?) levou uma surra, ou uma sumanta de laço na gíria gaudéria. O que para alguns teria sido bem vindo (a). Daí a recordar-me de um grupo ou mini-grupo que encontramos num encontro de Serra Negra – SP.

 

Os grupos motociclísticos adotam nomes tipo: Cavaleiros do Asfalto, Abutres, Falcões de Aço e assim vai. Os garotos (as) chamavam-se “As Libélulas do Asfalto”. Dois em uma Yamaha Virago e o chefe numa Harley-Davidson recuperada. Explico: dizia-se ano 81, mas com trabalho meticuloso de renovação e recuperação.

 

Era um início de noite e a praça central estava lotada, derramando motociclistas e curiosos pelas ruas laterais até o pavilhão de eventos. Adereços em motos é coisa comum, mas nunca tinha visto uma moto rosa-pink com filetes dourados. Banco de couro branco com franjas. Longas franjas. Botões dourados faziam o contorno. Sabe os cromados que uma Harley tem? Essa tinha o triplo. Tudo para combinar com a criatura de quase 2 metros de altura. E forte. Muito forte. Bem nutrido. Deve tomar muito leite e proteínas. Também vestido ou decorado em branco. Sobre-calças de couro branco com longas franjas e muitos arrebites metálicos, presa por alças metalizadas no cinturão com uma grande fivela da Harley e o símbolo de Paz-e-Amor. Uma jaqueta também de couro branco franjeada nos braços e nas costas. Essas jaquetas do modelo imortalizado pelo Elvis Presley. Gola alta. Toda trabalhada. Imaginem o resto. Pois ainda estava tentando observar os outros detalhes que esqueci de buscar a máquina fotográfica. Não daria tempo mesmo.

 

Fechou-se uma roda em torno deles. A estupefação inicial deu lugar a uma onda crescente de agressividade, principalmente de harleiros, a religião da Harley. E logo as ofensas tenderam à agressão física. Mas a valentia alimentada pelo álcool temia o tamanho da criatura. Ninguém queria ser o primeiro a “sair no braço” com a branca e gigante Libélula do Asfalto. Seus dois companheiros protegiam suas costas. Tudo muito rápido. Chegaram dois policiais e logo mais outros e outros. Um cinturão de proteção em volta dos agredidos. De alguma forma foram convencidos e “convidados” a se retirarem dali. Sumiram com suas motos escoltadas por motos de policiais. Uma vergonha. Lembro ainda que na jaqueta de um dos companheiros do gigante estava escrito em inglês: Woodstock – eu estava lá. Infelizmente não poderão colocar o mesmo desse encontro. Mas assim é a vida.

 

 

Para muitos ainda é difícil aceitar o diferente. Mas será tão diferente assim? Pouco tempo ninguém falava ou sabia do acontecido. Principalmente os “valentes” que são corajosos em turba e na língua. E o motociclismo também tem a sua lei do silêncio. Ninguém comenta acidentes e ninguém sabe de nada ruim. Nunca mais soube qualquer fato sobre novos grupos de motociclistas gays. O pessoal brinca em cochichos que uma revolução preparada por Pelotas e Campinas reunindo motos, triciclos e muitos “carros de apoio” vão tingir de rosa a Trans – Veadona, uma auto-estrada ligando aquelas cidades.

 

 

A liberdade individual é a primeira e principal dádiva do ser humano. E o motociclista é um modelo de liberdade. Respeitemo-nos!        

Moto - Paixão Eterna - 17 - 2017 - Rota 66

Dia do Médico(a) Dermatologista – 2 Fevereiro.

 

DIA DO MÉDICO(A) DERMATOLOGISTA.

Felicitações para todos os colegas e em especial para:

AD 76 MedCat: Dra. Miriam Janz Gutierres; Dr. Nordon Poitevin; Dra. Daniele Bensimon.

Colégio Rosário: Dr. Luiz Carlos Elejalde de Campos; Dr. César Bimbi.

Demais Colegas: Dra. Irene Menezes; Dra. Márcia Iesbich; Dra. Gisele Chiarabia Frankini; Dra. Suzana Vozari Hamp; Dra. Simone Arenzon

2 - dia 5 - Dia do Dermatologista - 2017

 

Aguilhada ou “Guilhada”! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião. 30 Janeiro 2018.

 

Aguilhada ou “Guilhada”!

C

onhecem um instrumento chamado de “guilhada” ou aguilhada? É uma vara longa com um prego na ponta que os carreteiros usavam para tanger (agulhar) os bois. Por vezes, bastava bater com a vara no chifre e dizer-lhe o nome – “O-O-O-Ou Majestoso”. Como já ensinava um “velho deitado popular” que há de “dar-se nomes aos bois”. Todos os boiadeiros e carreteiros chamam-lhes com nomes que lhes marcam as personalidades. Sim, não é porque é chifrudo e nem porque é boi que não teria a sua personalidade bovina. “Brasino”! “Renegado” e “Patrício”! Coisas da minha infância-adolescência e de muitos de vocês. Apreciava sentar-me na culatra da carreta com os pés balançando e, por vezes, deitar nas tábuas escutando o rangido das rodas, olhando o céu e os bandos de aves nos campos onde meu pai Aldo caçava e pescava. Os bandos de maçaricos com centenas de membros deslizavam em sintonia muito melhor que nós marchando na semana da Pátria. Sempre havia um desgarrado ou retardatário que corria atrás do bando. Para esses lembrava da música que dizia: “maçarico do banhado… perna fina e fiofó cagado”! As maravilhas que as crianças aprendiam e curtiam livres das drogas, dos games e da bandidagem epidêmica.

Crônicas & Agudas

No entanto, a “guilhada” nos acompanha e seu prego nos cutuca de intermináveis aspectos e formas Cada um na sua… O cronista tem prazo para escrever a sua coluna e entregar para a editoria do jornal. Ficas grávido de alguma ideia ou de algum tema, gestas ou ruminas por um tempo e logo parte para o ataque – a redação. O gol só é comemorado se os leitores lerem e sentirem alguma emoção, talvez ou calafrio, quem sabe uma aceitação ou uma contrariedade, mas que tenha alguma utilidade real – incitar o pensamento. Isso se torna crítico num povo e numa época em que as pessoas leem pouco, compram pouco livros e até revistas, que o universo é virtual e de imagens e frases curtas. Ler um texto torna-se uma maratona para muitos que tem que dar a sua cutucada virtual nas centenas de toques do seu smartphone. E esse ser implacável, o tempo, segue com a sua aguilhada nos espetando para cumprirmos prazos. Centenas. Milhares de prazos!

Cr & Ag

Um guri, certa feita, estávamos todos na mesma caixa da carreta, pegou a aguilhada e espetou o fiofó do boizão. O animal se revoltou e seu mugido deveria ser algo como: “No meu fiofó não”! Agitou-se com a canga chacoalhando no pescoço e somente serenou com a voz do carreteiro. O velho, do alto de sua sabedoria campeira, disparou: “Tu ias gostar se fosse no teu fiofó”? A gurizada já ameaçava borrar os fundilhos e agora levou uma solene e inesquecível mijada. Eles diziam ser uma “putiada”. Nas acrobacias que as ideias dão, surgem as analogias e as “anuslogias” – que é a analogia com fiofó dos outros. E caiu outra ficha. Em qual o país democrático a Justiça documentou, julgou e condenou tantos “inocentes”, mesmo os que se declararam culpados serão inocentes até o julgamento divino? Não vale a “democracia cubana” e “cositas” como El Paredón. Nem os de milhões de pessoas mortas, presas e desaparecidas no comunismo-socialismo soviético, chinês, de Pol Pot no Camboja, bolivarianas ou pelo nazismo entram nessa conta.

Cr & Ag

A aguilhada está pegando muita gente poderosa e bilionária – elite? Alguns estão sendo cutucados no fiofó e sacudindo a canga e batendo as aspas. Outros berram menos e apontam aqueles que enchiam as carretas de ouro da casa da Mãe Joana – BRDES, caixa dois-3-4-etc, Petrobras, fundos de pensão de estatais, palestras, imóveis (outros muito ligeiros) e das “obras públicas” (qualquer sentido alternativo) e intermináveis fontes de escambo. Bendita aguilhada!

2018 – 01 – 30 Janeiro – Aguilhada ou “Guilhada” – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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P12 - Sua escolha, seu voto 2 - 2017

Antologia Casa do Poeta Rio-grandense – 2017. Livro recomendado. Participação de Edson Olimpio Oliveira.

 

Antologia Casa do Poeta Rio-grandense - 2017

Explique! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 16.

 

 

 

EXPLIQUE!

 

 

O tempo de semblante franzido enrugava o céu com nuvens plúmbeas já deitando pesadas gotas de chuva. Há cerca de meia-hora havíamos colocado os abrigos de chuva. A chuva começou a aumentar e as gotas transformaram-se em martelos d’ água ferindo a viseira dos capacetes e o pára-brisa da Morgana, nossa motocicleta. O bom senso, as regras de segurança e a pilotagem defensiva nos orientam a buscar um abrigo ou pilotar em ritmo seguro até sair da chuva ou das tormentas. Como não havia nenhum tipo de abrigo humano, os eucaliptos isolados a margem da rodovia são armadilhas perigosas tanto por raios como por quedas de seus galhos ou até o tombamento por completo desses gigantes de origem australiana.

 

 

A Morgana mantia seu ritmo constante, empurrada por seu poderoso coração de 1500 cc. Íamos ultrapassando os caminhões e fugindo de seu spray de barro-água-óleo. Logo o asfalto estava lavado do óleo desses monstros de metal e pneus. Alguns automóveis parados no acostamento com lanternas ligadas criavam uma moldura luminosa nesse quadro que é aterrador para muitos, despertando fobias enclausuradas. O dedo enluvado serve como limpador de pára-brisa na superfície da viseira plástica do capacete. Como uma cobra gigantesca, a estrada vai se contorcendo e carregando em seu lombo as nossas alegrias e apreensões. Em alguns trechos a chuva diminuía de intensidade, talvez parando para abastecer-se na Lagoa dos Patos, nas Lagoas Mirim e Mangueira e logo vir novamente a despejar nos renitentes viajantes a sua violência.

 

 

Então, chegamos num local em que havia vários carros e caminhões estacionados no leito da rodovia com as rodas sob alguns centímetros de água. Um véu líquido cobria o corpo da estrada. Ao lado direito, um enorme açude levantava ondas. Uma maresia de estimular surfista. O céu transformava o dia em anoitecer. Abrimos e, pela pista contígua, fomos vagarosamente até estacionar junto à traseira de uma imensa carreta. A uns cem metros a sua frente o tráfego era permitido somente num dos sentidos, pois o lençol de água cobria parcialmente a cabeceira de uma ponte de concreto.

 

O caminhoneiro, segurando os demais veículos atrás de si, permitia a passagem dos outros no sentido contrário e media, creio eu, avaliava as condições. Senti quando ele engrenou a marcha, a fumaça negra regurgitou acima da cabine laranja.

 

 Engatei a marcha na Morgana e ela desfaleceu. Apagou. Morreu o motor. Mas como?! Isso não é de seu hábito. Tentei várias vezes o botão de arranque e nada. Desengrenei, ponto morto, bati arranque – nada. O arranque dava voltas como a massagear o tórax de um coração parado. Nada. Os veículos atrás de nós lampejavam seus faróis e alguns buzinavam. Lentamente, empurrei a moto para o acostamento submerso e coloquei-a em seu apoio lateral. Como contas de um rosário todos acompanharam a carreta. Tristemente eu examinava a Morgana.

 

Uma raiva despontava dentro de mim. Súbito, buzinas e buzinas. Luzes piscantes iluminando a negritude da tormenta. O aterro da cabeceira da ponte cedeu engolindo parte dos rodados da carreta. O veículo, logo atrás, uma camionete, ficou atravessada na goela maldita. Desespero geral. Outros carros manobrando para retornar e escapar. Eis que a chuva amainou e pode-se avaliar o risco e o desastre. Ninguém ferido. A carreta ficou ali trancada, semi-tragada pela água. A camionete saiu rebocada. Depois da convulsão, voltei a Morgana. Teríamos que retornar. Estranhamente, o motor funcionou perfeito, redondo. Como se nunca houvesse qualquer tipo de defeito. Embarcamos e retornamos e o resto da viagem aconteceu sem maiores dificuldades.

 

 

No silêncio do capacete, revisei os fatos. Os motores de motocicletas são planejados para suportar a ação da água desde que não mergulhe e os escapamentos não fiquem submersos. Nada disso tinha acontecido e muitas outras chuvas e tormentas já havíamos enfrentado, sem problemas. Então, lembrei-me que na tradição do Rio Grande do Sul há inúmeros relatos de que o cavalo refuga um caminho ou uma estrada se pressente o perigo. Seria isso com a Morgana? Ou talvez, o anjo de guarda de plantão? Sorte? Casualidade?

Moto - Paixão Eterna - 16 - 2017 - Apocalipse

Enquanto os Cães ladram as Motocicletas passam! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Crônica 15. Série – Moto! Paixão Eterna.

 

 

 

Enquanto os Cães Ladram as Motocicletas Passam!

 

 

Existem dois tipos de seres humanos: os que adoram motocicletas e os que adoram e ainda não sabem. Ou ainda aperfeiçoando esse tema: existem os motociclistas e aqueles que um dia foram ou serão motociclistas. O amor à moto é algo tão intenso que dizia um texto num encontro internacional:

 

 — Um dia ela chegou-se e disse: A moto ou Eu! Às vezes, sinto alguma saudade dela.

 

 Para os menos afeitos ao tema, explico que “motoqueiro” soa como pejorativo. Lembra aquele indivíduo passando sobre calçadas, violando faixas de segurança, sem capacete, quebrando espelhos de carro, “cortando” nas ruas e estradas, queimando pneu e escapamento aberto a infernizar ao condomínio ou ao bairro. Motociclista é a evolução. É um tipo “você conhece, você confia”. Mas invariavelmente, todo motociclista ainda guarda em seu íntimo, contido pelo seu superego, uma fera roncando forte. Motocicleta de alto valor ou uma gorda conta bancária não faz um motociclista.

 

Motociclismo é liberdade. Nada mais democrático que motociclismo.

 

A moto nasceu para todos. A criatura é livre, liberta, como espírito e como motociclista. Deus deu asas aos anjos e motos aos homens. Temos a versão bíblica que Deus fez a Luz e após a motocicleta. E Adão só veio depois para ser companhia ao Criador. E a Eva? Veio para acompanhar o Adão já que Deus por estar em todos os locais ao mesmo tempo estava pilotando muito pouco. Num grupo de motociclistas temos o agricultor, o balconista, o profissional liberal, o mecânico, o político (é verdade!), o Procurador Geral da República, o mega-empresário e uma infinidade de ofícios que se nivelam pelo amor à motocicleta.

 

Motocicleta tem quase todas as vantagens da mulher e mais: sem cunhado ou sogra. Moto na rua, depressão em casa. Com a minha gata na garupa, pra que Viagra, Irmão!

 

 “Uma manhã qualquer, ligue sua moto, coloque o capacete, acomode-se para pilotar, uma estrada e vários destinos, o frescor no rosto, o aroma da vida, os odores do mundo, a liberdade e as amizades…”

 

Como não existe motociclista velho, somente uns mais veteranos que outros, a máquina funde o passado com o futuro.

 

“Um dia frio, gélido, a moto deslizando pela coxilhas do Rio Grande sem fim. O calor do motor sobe suave em nossos corpos. Um restaurante à beira da estrada. Paramos. Retiramos os casacos de couro e nossos capacetes. Olhos nos olhos. Roçar de narizes. Retiramos as luvas. Mãos com mãos. Vapores de nossos hálitos se fundem num beijo demorado. Então um café bem quente com um pastel tirado na hora…”

 

“Avião é trabalho, moto é prazer” (Comandante Rolim da TAM).

 

Mas moto é vitória, sintonia e equilíbrio. É a melhor terapia de casais. É o único e sensato triângulo amoroso. Quase um milhão de motos são produzidas anualmente no Brasil. Quem contar com o voto dos motociclistas se elege fácil-fácil.

 

 “Meu reino por uma motocicleta”.

“Moto: Independência ou Morte! E acabei na Agrale”. 

“Duas Rodas, revista, cerveja e mulher! Pra que mais?”

 

Quem conhece ama.

Quem ama respeita.

Quem respeita vive melhor.

Viva! Viva! Viva a Motocicleta!

 

Crônica 15 – Republicada na Série Moto! Paixão Eterna – Janeiro 2018

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Moto - Paixão Eterna - 15 - 2017

Naquele Dia dos Namorados! Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 14

 

NAQUELE DIA DOS NAMORADOS

 

“Que outro motivo melhor para viver do que viver para amar?”

 

As motocicletas estão estacionadas a poucos metros de nós. Um boteco. Humilde e rústico bolicho escondido numa curva de uma estrada qualquer nesse sofrido Rio Grande. Uma pequena varanda com duas mesas vermelhas, enferrujadas, onde ainda se vê um logotipo de cerveja. Cadeiras de ferro acomodam nossas costas em longa jornada. Jogamos os pés sobre a cadeira à frente. O sol também tenta se acomodar atrás de um cerro.

 

O bolicheiro oferece pastel feito na hora. Aceitamos. Os companheiros pedem cerveja. Contento-me com um café com leite. O hotel nos aguarda logo ao lado do posto de gasolina. Ali vamos passar a noite. Eis que um dos companheiros vê na mesa de ferro vermelha um coração. Sabes, desses corações riscados com ponta de faca ou de um estilete ou chave? Ali estava um coração com uma flecha que o transfixava. “Maria! Continuo te amando. Zé C.S.” – assim estava gravado.

 

Enche o copo e toma de um só gole – Glunc. Sentimos algo por acontecer. Ele sempre foi um homem sentimental. Um romântico que ao escutar a melodia de um chorinho, rolam maresias de lágrimas de seus olhos.

 

Terceiro copo de cerveja – glunc! Nos preocupamos. Não é do seu hábito beber assim. Joga-se para trás na cadeira e dá um grande suspiro erguendo os braços aos céus. Como numa súplica. Há um enorme silêncio em volta. Até o cachorro do bolicheiro ergue a cabeça para assistir e aguardar o desfecho. Chegam rápidos os pratos com pastéis e após passar um pano manchado para limpar a mesa, coloca-os ali. Com o mesmo pano, limpa as mãos e a fronte. Aquele homem rude sente a presença de tormenta no ar.

 

As respirações tornam-se densas. As motos estão ali e seus faróis, como olhos arregalados, nos espreitam como cavalos sentindo o espírito do dono. Outro suspiro soluçado e joga a cabeça sobre os braços cruzados sobre a mesa. Um choro que logo se torna convulsivo. O espanto cede passagem ao “que foi companheiro”, “que que é, meu”, “que é isso, cara”. Um braço por cima do amigo. Apreensão. Nunca o vimos assim. É um emotivo, mas assim já é demais para o nosso conhecimento.

 

Tantos quilômetros de estrada, de repente seus olhos se cravam num coração riscado numa mesa vermelha de ferro e o homem desaba. Pior do que rodada de moto andando numa curva da BR 101 a 160 km/h.

 

“Ah, que saudade dela! (soluços). Que falta ela me faz. (choro). Vejo os seus olhos refletidos na viseira do meu capacete. Vejo aqueles cílios em que eu passava os dedos e após os beijava, lhe dizendo: os olhos que eu beijo com todo meu amor jamais terão vistas para outro homem. Ela sorria. Ela sorria de um jeito que fazia meu coração parecer pandeiro na avenida, cara. Minha respiração engasgava como carburador desregulado. Eu tremia perto dela. Sério, cara. Essa mulher ajeitou e bagunçou a minha vida. Nos encontramos por acaso. Foi numa festa de fim de ano. Namoro rápido e fomos morar juntos. Uma paixão me explodia as entranhas dia e noite. Era direto, entende. Enfiei a moto na garagem. Não pensava em mais nada além Dela. Era como se a esperasse a vida toda. Era como se a conhecesse de outras vidas”.

 

As palavras saiam aos borbotões de seus lábios. Frases atropeladas. Todos ali mudos na platéia.

 

“Então lhe comprei um presente para o Dia dos Namorados. Estranhei ela não estar em casa quando cheguei. E não chegou mais. Nunca mais. Procurei, telefonei. Hospital. Polícia. IML. Nada. Sabe? Nada de nada. Quase morri. Dá para entender o que é morrer de amor ou por amor, companheiros? E até hoje continuo procurando-a, aguardando que ela abra a porta… que a encontre em alguma estrada da vida em que passo com a minha moto”.

 

Então, limpou as lágrimas com o lenço retirado do pescoço. Pegou um pastel frio e gorduroso e deu ao cão que estava sentado ao seu lado escutando-lhe. O cão refugou o pastel e saiu esgueirando-se entre as cadeiras. Outro companheiro ergueu o copo num brinde silencioso. Talvez numa prece. Comi aquele pastel de charque. Salgado como a vida. Pagamos a conta e fomos buscar o hotel. Amanhã será um novo dia. Estradas. E que sabe o anjo protetor dos motociclistas traga a sua amada algum dia.

Moto - Paixão Eterna - 14 - 2017 - Sons of Anarchy

O que eu fiz e o que eu deixei de fazer! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 05 Dezembro 2017.

 

O que eu fiz e o que eu deixei de fazer!

 

Para muitas criaturas, talvez para a maioria, o final de ano se encarrega de esgotar as energias restantes nas baterias dos nossos corpos. Ansiamos por aliviar as cargas de um ano sofrido por salários atrasados, defasados e ausentes. Almejamos um período de festas natalinas de mais calor humano, alívio na desgraça da insegurança diuturna e esperamos que o 2018, que se avizinha, que se abre no horizonte, seja um período de mais graça e harmonia. Criminosos sejam trancafiados nas masmorras e cidadãos com liberdade de trabalhar e aproveitar as luzes do seu trabalho. Aspirar uma Justiça brasileira com mais dignidade e consciente de “direitos adquiridos” e “vantagens devidas” seria quase uma miragem no deserto gilmarmendesliano que opta por aliviar criminosos, amizades suspeitas, genialidade familiar e outras nuances ausentes do modelo moro. Jamais generalizamos e sentimos juízes corretos desautorizados pelos “divinos”. Criminosos são solidários entre si, até certos limites. Eleitor é solidário com persistir em eleger a escória nem sempre mascarada, mas sempre putrefata, sendo lacaio do corrupto-ladrão.

Crônicas & Agudas

Moribundos vêm o “filme da sua vida” descortinar-se aos seus olhos. As criaturas são mais reflexivas na desgraça ou nos estertores finais de suas energias. A ampliação da consciência e o deslindar da teia que construímos a nossa volta pode ser melhor vislumbrada nas festas de final de ano? Observa-se que a sintomatologia depressiva ou as dores daquilo que perdemos, daquilo que nos foi tirado e daquilo que não realizamos serão maiores agora. Muitos persistirão escondidos atrás de máscaras de riso, nocauteados pelo álcool ou no umbral infernal das drogas. Há quem veja o ser humano como algo iluminado e maravilhoso e degenera-se por culpa do sistema, dos maus amigos e… dos outros. Outros descortinam seres cruéis, mesquinhos e predadores que se espalham virulentamente destruindo o planeta e outras criaturas. Como você se enxerga? Há salvação?

Cr & Ag

O ensinamento de “dar a outra face” foi corrompido e nos exigem complacência e submissão completa e degradante. Quando uma autoridade policial ou judiciária atenua a culpa do criminoso alegando que “ele/ela reagiu”, transfere o ônus da culpa e da responsabilidade para alguém que é vítima. Seria uma atitude vil, infame ou canalha da autoridade? Ele deveria proclamar que “qualquer vítima” deveria ter e poder usar de todos as armas para defender sua vida e a sua família e que geralmente a polícia é insuficiente, negligente ou algemada pelas falanges dos “direitos humanos” e do famigerado ECA?

Cr & Ag

Se alguém quer continuar dando outras faces possíveis que sejam a sua e de sua família, mas ninguém tem o direito de exigir o mesmo dos outros. O juiz Moro continuou, com outros colegas da mesma idoneidade e personalidade, a punir os criminosos e escancarar ao mundo a devassidão da maior organização criminosa já descoberta no mundo dito mais civilizado e não nas ditaduras bolivarianas e da ferocidade tribal africana. A dignidade não inicia no congresso ou no submundo sindicalista, ela nasce no lar de cada família, cresce e evolui pela qualidade de seus princípios. A humanidade e a medicina viam o pus como algo necessário e saudável e acreditavam que as doenças tinham como causa absoluta os pecados (?) humanos. Os micróbios e seus tratamentos e curas são muito recentes e atrasadas em relação ao tempo. Hereges aqueles que insistiam em buscar a cura ou tratar as pessoas. Golpistas! Observe como há semelhanças no aqui e no agora!

2017 – 12 – 05 Dezembro – O que eu fiz e o que eu deixei de fazer – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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P9 - Galo-Gato - 2016-09

Declaração de Amor! Edson Olimpio Oliveira. Série: Moto! Paixão Eterna. Crônica 13. Reedição–Dezembro 2017.

 

 

 

"SAIBAM TODOS QUE LEREM ESTAS CRÔNICAS QUE EXISTIU UMA ESPÉCIE FANTÁSTICA DE HOMENS QUE PILOTAVAM MÁQUINAS MARAVILHOSAS CHAMADAS MOTOCICLETAS QUE RASGAVAM ESTE PLANETA COMO COMETAS RASGANDO O MANTO NEGRO DO CÉU."

 

 

 

 

DECLARAÇÃO DE AMOR.

 

 

 

                                               Algumas pessoas desconfiavam. Outras sabiam. Certos amigos mais próximos desaconselhavam este relacionamento. Até achavam-no perigoso. Mas meu coração acelera e trepida a sua lembrança. A sua voz e corpo bem feitos continuam a deslizar em minha mente à lembrança dos momentos que juntos passamos.

 

 

                                      Amanheceu um lindo dia de sol. Os raios de sol esgueiravam-se para entrar pelas venezianas. Havia sonhado com ela esta noite. Seu nome… Morgana.  Minha esposa já havia se levantado e estava arrumando a casa e os filhos. Vesti-me apressadamente. Subtilmente saí de casa. Fui ter com ela. Abri a porta silenciosamente. Era penumbra em seu quarto. Ela ainda dormia. Coberta por um alvo lençol deixava entrever suas curvas sensuais. Braços abertos como a me esperar. Sua traseira firme e arredondada onde tantas e tantas vezes acomodei-me, trocando afagos e juras de amor. Deslizei a sua volta, admirando-a. Fui descobrindo-a lentamente. Acordei-a. Seus olhos grandes brilhavam de encontro aos meus em lampejos de paixão consentida. Havia uma marca de umidade no lençol… Certamente também sonhara comigo. Deslizei a mão por seu peito. Abri minhas pernas e acomodei-a. Mãos com mãos num toque de fusão absoluta de corpos e almas. E ela já bem acordada, ligada, sussurrava ritmicamente debaixo de mim. Todo meu corpo vibrava com ela. Sentia aumentar o calor vivo de seu corpo frenético. Nós nos consumávamos em amor pleno, total e eterno. Ela estava satisfeita. Pronta, convidando-me para passear. Eu estava esperando.

 

 

 Então subitamente a porta do quarto abriu-se… Era minha esposa. Surpresa? Não! Nós a aguardávamos. Cumprimentou-a, abraçando e beijando amorosamente a Morgana, esse amálgama de feiticeira-amor. E juntos, abraçados, faróis ligados, capacetes na cabeça, saímos a rasgar as estradas da vida neste belo e harmonioso triângulo amoroso: eu, minha esposa e Morgana, a nossa motocicleta.

 

Nota do Autor: Crônica vencedora de Concurso Literário Nacional.

Moto - Paixão Eterna - 13 - 2017 - Lawrence da Arábia

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