A Vida que pedimos a Deus!
Segundo as mais recentes versões de pergaminhos encontrados no Mar Morto, o Criador, após o merecido descanso no Sétimo Dia, precisava dar um toque final a sua magnífica obra – e assim fez-se a Motocicleta. E desde imemoráveis épocas, a humanidade tem se dividido em duas, somente duas, espécies de seres humanos – os que amam motocicletas e os que ainda não sabem que amam!
O relato seguinte é uma querida rotina em nossa vida. E, certamente, similar nas existências de milhões de motociclistas.
A maioria de nós não sai de moto com a freqüência que gostaria. Alguns pelos “inarredáveis compromissos”. Outros “por medo da estrada, da chuva, da falta de companheiros, da distância, da…”. Outros, ainda, por não ter moto. E para qualquer caso, que isso sirva de incentivo, de fé e coragem. Uma mensagem de que o tempo continua passando e nós… Muitas vezes, perdendo tempo. Leiam Quem Mexeu no Meu Queijo!
A semana sempre fica muito longa quando o fim de semana nos levará a passear e viajar com a Morgana – nome dessa deusa que realiza nossos mais fantásticos sonhos. Trabalhamos com muito mais vontade. Nessa semana sairemos após o almoço na quinta-feira. Outras vezes saímos na sexta. Quando o destino é alguma região acima de Laguna, em Santa Catarina, o plano é sempre pernoitar no Hotel da Lagoa na histórica cidade de Anita e Garibaldi. Viamão foi a primeira capital do Rio Grande do Sul. Também uma cidade com um passado histórico a enobrecer os seus filhos.
Despedimos da família. Os nossos cães, chefiados pelo Peludo – idoso cão de três patas e um mestiço collie-pastor, acompanham-nos até o portão. Escutamos os seus latidos de “boa viagem” e “vão com Deus” por um tempo nos recônditos de nossos capacetes. Logo, eu, minha esposa e a Morgana, deslizamos pela RS 118. Os quase 20 km dessa estrada servem para aquecerem os pneus, sentirmos o funcionamento da Morgana e criarmos a nossa unidade. Logo estamos rasgando a BR 290, chamada de “Free-Way” pela gauchada. Aqui já começa uma sintonia com os demais veículos e seus tripulantes. Desde o deslumbramento de crianças até os gestos de dedos em V (Vitória) ou com o polegar erguido das demais pessoas. Quase ninguém fica indiferente. Osório, a cidade de todos os ventos, fica para trás quando tomamos a Estrada do Mar que nos levará até Torres.
Torres, a mais bela praia do Rio Grande, está na divisa com Santa Catarina. No Posto Ipirangão, já na saída de Torres, abastecemos a Morgana e esvaziamos os nossos tanques. As paredes da lanchonete são cobertas por adesivos de todos os tipos e tribos. Ali está o nosso – 1a. Capital Equipe. Temos por decisão distribuir decalcos a todas as pessoas que mantém um intercâmbio conosco durante a viagem. Além de estabelecer uma empatia, isso aumenta a nossa segurança em todos os aspectos. A Morgana (Kawasaki Nomad 1500cc) tem um porte que nunca passará despercebida. Se tivermos problemas sempre terá alguém a nos ajudar ou a identificar por onde passamos.
Três buzinadas e a Morgana atravessa a ponte do Rio Mampituba. A BR 101 que vai de Osório a Curitiba tem nesse trecho abaixo de Florianópolis o batismo tétrico de Estrada da Morte. Traçado superado. Pista simples e extremamente mal conservada. Tráfego intenso e permanente. Atravessa regiões densamente povoadas. Na temporada de férias, acrescentam-se milhares de automóveis e motoristas sem a experiência necessária para dirigir em uma estrada dessa importância e risco, são os motoristas de cidade ou de final de semana. Daí é fundamental termos o nosso equipamento pessoal e a motocicleta sempre nas melhores condições. A sintonia continua na BR 101. Sem forçar ultrapassagens exageradas ou de risco, os caminhoneiros são os primeiros e abrirem espaço para nós. E ao passarmos vem a buzinada curta de agradecimento e resposta. Rapidamente, deixamos para trás, Sombrio, Araranguá, Içara-Criciúma, Tubarão e outras cidades. Do alto do morro vislumbramos a Lagoa do Imaruí, estamos chegando à Laguna.
Um braço de aterro e uma ponte servem de travessia. Sempre planejamos a chegada durante o dia. Fim de tarde, mas ainda com pelo menos, uma hora de sol e luz. Cruzamos para o lado oposto da rodovia e estacionamos sob o Hotel. Sempre os funcionários nos recebem muito bem. Todos têm um especial carinho e curiosidade com motociclistas em viagem. Descemos parte da bagagem que é levada ao apartamento no andar superior e de frente para a lagoa. Tomamos um excelente banho. Bermudas. Chinelos. Camisetas. Os funcionários já estão com uma garrafa térmica com água no ponto para o chimarrão.
Pela janela, olhamos aquela bola de fogo no céu que parece teimar em não ir para outro local. A maresia da lagoa, fazendo marolas logo abaixo, é como música de relaxamento para nossos ouvidos. Chimarrão feito. Lata de biscoitos. Descemos. Conversamos um pouco com a Morgana e agradecemos a ela e aos nossos anjos protetores. Vamos para a margem da lagoa. Ali sentados, a conversa transcende a quantas vidas passadas? O sol continua pisando no freio e reduzindo a velocidade. Vai cambiando sua moto divina e deixando um rastro vermelho nas águas da lagoa. Ainda levará um tempo para cruzar a serra ao longe. O chimarrão que sempre juntou em torno de si gaúchos de todos os feitios em uma forma ancestral de terapia de grupo, integra-nos mais ainda. As garças flutuam nos céus. Algum biguá busca a derradeira refeição para os filhotes. As marolas continuam a cantar aos nossos ouvidos.
Logo os pescadores de camarão estarão singrando a lagoa em todos os sentidos. Ali estão eles… Eretos com o remo de taquara a empurrar a canoa para as armadilhas de camarão. A lagoa é mais um palco iluminado. O sol, por trás, esculpe cenas antológicas. O chimarrão vai terminando e a noite está começando. Os pescadores acendem lanternas em suas canoas. Lentamente a escuridão os envolve e o balé de vaga-lumes humanos coroa aquele formidável momento.
Vamos ao restaurante. Além da enorme quantidade de pratos do bufê, estão sempre prontos para uma tainha na brasa. Da nossa mesa temos a dupla visão – a estrada e seu trânsito frenético, com pessoas como cada um de nós com seus amores e destinos a traçar. De outro lado a lagoa e os pescadores, também com seus amores e destinos a traçar. Um jantar dos deuses. Um boa noite à Morgana. O retorno ao apartamento. A sinfonia da lagoa embalará nossa noite. Uma última visão da bandeja de prata já banhada pela deusa da noite, que com seu manto argentado cobre carinhosamente os atores terrestres.
Levantamos cedo. Um grande café nos espera. Geralmente há uma grande variedade de pastéis – carne, galinha, siri, queijo, goiabada, camarão e outros sabores por identificar. Todos abastecidos. A bagagem já havia sido reposta na Morgana antes do café. Equipados. Novos adesivos e despedidas. Do estacionamento do hotel saímos pelo Posto Texaco. Uma prece silenciosa ao protetor de todos os motociclistas. Completado o tanque da Morgana e… Estrada. Novos destinos, vencer dificuldades, principalmente nossas, para ter o direito à felicidade!
Observação. Lamentavelmente nos últimos tempos o proprietário do hotel e do restaurante da Lagoa tem praticado preços extorsivos e alimentos tipo refugo africano com o equipamento do hotel tornando-se decrépito. Esperamos que as reclamações façam retornar ao mínimo de qualidade e preço justo.