Estas imagens usadas na publicação do Especial de Natal e Ano Novo –
“Tota pulcra es, Maria, et maculo originalis non est in Te!”
foram-me gentilmente cedidas pela senhora GLAUCE PETRY DUTRA a quem agradeço de coração.
Crônicas. Contos. Literatura. Jornalismo. Imagens e datas significativas.
21 dez 2014 Deixe um comentário
Estas imagens usadas na publicação do Especial de Natal e Ano Novo –
“Tota pulcra es, Maria, et maculo originalis non est in Te!”
foram-me gentilmente cedidas pela senhora GLAUCE PETRY DUTRA a quem agradeço de coração.
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2014 – 12 – “Tota Pulcra es, Maria, et macula originalis non est in Te!” – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião – http://www.edsonolimpio.com.br
Evadidos, fugidos ou literalmente corridos pelas forças militares castelhanas comandadas pelo General Pedro Ceballos, governador de Buenos Aires, que miravam a Vila e as fortificações de Jesus, Maria e José da antiga cidade de Rio Grande refugiaram-se nos Campos do Viamão buscando acolhida, refúgio e apoio para o enfrentamento dos invasores. O representante do império buscava cativar e apoiar-se nos estancieiros e boiadeiros dispersos numa terra fustigada pelo clima inclemente e disputada por dois impérios. Assim a Viamão que hoje conhecemos e amamos tornou-se a “primeira capital real de todos os rio-grandenses (gaúchos)”. Ali viviam guerreiros acostumados a defender a vida e a respeitar a morte no dia a dia. Muitos deserdados do império, outros buscando a fortuna, todos a viver até o dia seguinte. Em cada cobertura de couro cru, em cada casebre, um homem e uma mulher, alguém disposto a lutar. Morrer ou matar são as consequências naturais do combate. E a guerrilha organizou-se e criou o embrião de uma nova estirpe que seriam os brasileiros por opção.
O sangue dos combatentes e de suas montarias fervia no solo disputado. As crianças logo homens precoces se tornavam e na dor da ausência de seus pais ou familiares engrossavam outra espécie de lutadores buscando reconstruir um lar e acalmar um coração no calor do afeto de outro ser. O catolicismo era o bálsamo espiritual e a tentativa de resposta ao clamor da alma sofrida e quantas vezes dilacerada. Alguns oravam antes das contendas pela sua alma e de seus amigos e companheiros. Outros oravam pelas almas dos inimigos. Muitos para que os portões do Inferno estivessem escancarados para recebê-los. Nas guerras não há bons ou maus, há perdedores e vitoriosos.
O negro do violino
Um negrinho manco aproximou-se do velho estancieiro que ao tocar seu violino fazia a natureza abrir-se no sorriso de suas flores e o gado arredio encostar-se docemente no alambrado das taipas de pedras. O menino era mais um dos desgarrados que acompanhavam os tropeiros que subiam a serra para Lages com Sorocaba na alça de mira. Talvez o defeito físico de nascença tenha o tornado um órfão de pais vivos. E o velho gostou do negrinho. Os dias engatinhavam em anos que se arrastavam e o negrinho aprendeu a tocar violino com o velho que se tornou seu protetor. Seus dois netos desenvolveram-se junto com aquele negrinho, que protegido por um amor nascido em alguma vida esquecida, fez-se parte da família. Logo o violino era escutado e sentido nas alegrias e nas tristezas, como quando do velório e do sepultamento do seu benfeitor. Já homem, um negro atarracado, de constituição sólida, de invulgar destreza e agilidade tanto no trato do gado, das montarias quanto nas peleias necessárias. Assemelhava-se a habilidade com o arco do instrumento em divinas notas musicais quanto com o punhal mouro presenteado pelo seu benfeitor. Pendia em seu pescoço uma medalha de Nossa Senhora da Conceição de origem desconhecida para todos, inclusive para ele. Teria sua mãe natural a colocado ali para que a Santa fizesse o que ela não seria capaz de fazer criando-o e protegendo-o?
A guerra
A falta de exércitos regulares faz com que a Junta Governativa do Rio de Janeiro determine: – “A guerra contra os invasores será feita com pequenas patrulhas atuando dispersas, localizadas em matos e nos passos dos rios e arroios. Destes locais sairão ao encontro dos invasores para surpreendê-los, arruinar-lhes cavalhadas, gados, suprimentos e mantê-los ainda em contínua e persistente inquietação.” (Arquivos Históricos do Exército Brasileiro)
Rafael, filho do feroz Francisco Pinto Bandeira, buscava os melhores cavalos nas estâncias do Viamão para sua Cavalaria Ligeira. Rafael Pinto Bandeira já era um símbolo vivo e temido pelos castelhanos. Muitos enchiam as botas de urina ao som de seu nome. Os dois irmãos, a contragosto de sua mãe e num misto de orgulho e dor do pai que acedeu ao desejo dos filhos de combater aos castelhanos. Não iriam sós. Estariam sempre acompanhados do irmão de amor que como anjo protetor sempre esteve ao lado deles protegendo-os e amparando-os como o avô teria feito e desejado. Os três despediram-se da família e dos amigos no altar da igreja encastoada no topete da coxilha do Viamão. Depois da bênção dos pais, agora a benção da Santa protetora.
Dias de dor e de angústia. Notícias boas eram escassas. Sabia-se que continuavam lutando inclusive com os Dragões do Império na Tranqueira Invencível, hoje cidade de Rio Pardo que pela posição estratégica dominava os acessos por água da região. Falavam de um negro manco que tocava um violino nas noites mal dormidas e após os sangrentos combates e que conquistara o respeito de seu comandante e dos companheiros. E de dois irmãos de voraz destreza nas armas brancas e pontaria mortal que estavam sempre juntos.
Outro intrépido combatente fazia sua fama, um paulista de nome Cypriano Cardoso de Barros Lemes que entre seus guerrilheiros tinha uma negra dotada de estranho poder com aranhas (1). Suas tropas cruzaram-se num acampamento nas barrancas do Camaquã. Contam que os dois negros se olharam por quase um quarto de hora, o mundo parou ali naquele momento, como se nenhum guerrilheiro ousasse balbuciar, tossir o mover-se com ruído. Nem os animais pareciam respirar. O negro com a mão direita na medalha em seu peito arfava movimentando as narinas e a negra com os olhos faiscantes vibrava com as longas unhas enterradas nas palmas das mãos já sangradas. Olhos esbugalhados acompanhavam o desenlace. Algum combate além do entendimento da plateia aconteceu e terminou quando a negra desapareceu nos matos. Naquela noite o violino era ouvido a léguas de distância num lamento mortal como numa época em que deuses andavam sobre essa terra.
O derradeiro combate
Tropas castelhanas aglomeravam-se na região de Encruzilhada do Sul. A guerrilha fustigava seus flancos e espreitava emboscando patrulhas no terreno rochoso. Comandantes rio-grandenses trocavam mensagens e aguardavam reforços para frear a investida. Planos feitos e estratégia concluída. O sol da tarde cedia seu trono para nuvens de tempestade. Logo com coriscos rasgando o manto celeste. Trovoadas ao longe avisam que nas coxilhas distantes alguma batalha já começara. E a peleia iniciou. Os guerreiros de Rafael Pinto Bandeira romperam a parede castelhana e o aço cintilava no céu cinzento espalhando aquilo que um dia fora a vida escarlate e agora era a morte rubra e borbulhante nos esguichos fatais e logo em coágulos negros. Eis que os flancos castelhanos não receberam a mesma carga de combate que fora combinada e logo a desproporção numérica tornou-se avassaladora contra Rafael e seus combatentes. E viram-se cercados num garrote esgorjado. Mas a noite e a tempestade tornaram-se aliados e os sobreviventes abriram seus caminhos sobre corpos de amigos tombados e de inimigos.
Dia seguinte, reagrupados na encosta de um cerro, cauterizaram as feridas com ferro em brasa e abandonaram frangalhos de carne dilacerada na lama ensanguentada. A chuva fina e o vento sul gelavam as feridas. Um dos irmãos estava com o olhar perdido, embaçado como de peixe morto após acordar com ferimento de projétil em sua cabeça rasgando o couro cabeludo e deslizando nos ossos. Dado como morto foi resgatado nas costas do amigo negro, que com o braço direito dilacerado por um golpe de espada que evitara a decapitação de seu outro irmão. O branco do osso descarnado ria como bocarra aberta das dores dos homens num contraste com sua pele negra e seu sangue coagulado pelo fogo. Queriam amputar-lhe o braço. Não permitiu. Ancoraram as bordas da ferida com grampos de metal. Logo marchavam para algum refúgio seguro para escapar das patrulhas castelhanas. Mal sabiam eles que as baixas do inimigo tinham sido colossais e não teriam recursos nem homens para novos combates tão cedo.
O retorno
Uma energia poderosa persistia em brotar do coração do negro através da envelhecida medalha da Imaculada Conceição. Sua mãe celestial que nunca o abandonara estava ali amparando-o e aos seus companheiros. Uma prece silenciosa com a medalha mergulhada na água que todos bebiam e lavavam os ferimentos dividia a luz de seu coração. Após desembarcarem da barcaça no pontal de Itapoã, a terra natal estaria logo ali a poucas léguas de distância. Somente os três retornaram para Viamão. Seu pai e conterrâneos encontraram-nos a meio caminho. A primeira casa a entrarem foi a última que pisaram, a velha igreja. A ancestral igreja onde pediram bênçãos de batalha para a vida e descanso para a morte. Um irmão com a mente perdida, outro lutando contra a febre das infecções e o terceiro com um membro mutilado.
Aquele negro manco trazia essa luminosidade dentro de si que o levava ao altar da Virgem todos os dias e ali reaprendeu a tocar o violino empunhando o arco com a mão esquerda e acomodando-o no ombro direito num divino quanto incrível malabarismo. A cidade escutava aquele som que a muitos fazia rolar lágrimas e que a todos trazia um enorme respeito e admiração. Voltava com uma jarra de água abençoada para seus irmãos. Alguns começaram a sentir um formidável perfume de rosas no templo nos momentos de preces. Os singelos vasos, no entanto, mal mostravam algumas flores do campo e de doloridos jardins. – O perfume aumentava principalmente quando o negro solava o violino. – dizia-se. E a saúde retornou aos corpos enfermos. A febre dissipara-se e a mente resplandecia. Ficaram as cicatrizes de batalha e… a fé renovada.
Como a água dos rios e riachos, a vida tende a voltar ao seu leito natural e escorrer no seu tempo.
Nosso tempo!
Nosso formidável templo denota um doloroso abandono e uma deprimente e mal feita restauração, principalmente para quem nasceu e mora nessa cidade há mais de meio século. Suas imponentes paredes de dois metros de largura, solidificadas com argamassa de conchas trazidas do oceano a 100 km. Altares barrocos de madeira habilmente entalhada. E um arco gigantesco que serve de portal ao altar mor trazia a frase em latim “Tota Pulcra es, Maria, et macula originalis non est in Te” que seria “Toda pura sois Maria! A mancha do pecado original não há em Ti!”. No altar mor está a bela imagem da Mãe de Cristo sobre um globo terrestre com anjos aos seus pés e o manto celestial bordado de estrelas, chamada de Nossa Senhora da Conceição emprestou parte de seu nome para nomear as crianças de pais devotos e Edsondar-lhes a proteção e o amparo necessário. O belo forro azul celeste com tão bela quanto imensa pintura espelhando amor e fé deu lugar às tábuas nuas e simplórias.
Católicos e outros cristãos, assim como extraviados da fé e desencontrados de qualquer religião vem buscar consolo à luz da Virgem milagrosa. Conta-se que pessoas ao entregarem-se a Deus pelas mãos de Nossa Senhora sentiram as suaves fragrâncias de rosas na solidão física do enorme templo. Alguns já ouviram sons de violino sem saberem ou desconfiarem que algum negro manco em dias perdidos na imensidão dos tempos fizesse ali a sua melodia. Esses certamente serão merecedores das dádivas luminosas da Mãe magnífica. Céticos sempre existirão vagueando nas sombras do amor e da fé. Negam-se a acreditar na Luz, mas a Luz persiste em acreditar neles e em algum tempo, em algum momento eles serão tocados e talvez escutem um violino empunhado por um negro mutilado nas batalhas do pampa, com uma medalha pendente no peito largo e olhos que trazem a luz do amor e do respeito.
Nota do autor.
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Viamão – hoje a primeira capital de todos os gaúchos que se uniram contra um adversário poderoso e tornaram-se brasileiros por sua vontade. Algo que se repetiu na opção na legendária Guerra dos Farrapos. Viamão tem a segunda igreja desse Estado. Viamão tem seu nome envolto numa bruma de mistério ainda insolúvel na certeza pretendida, traz suas histórias, estórias e lendas. Já dizia o filósofo – Lenda é aquilo que os outros contaram, história é aquilo que os nossos contaram e nós aceitamos confiar. Assim heróis e figuras legendárias da nossa tradição trazem mitos ou verdades nas suas malas de garupa. (1 – Leia A Negra das Aranhas – uma saga magnífica de amor e de maldição). Uma homenagem para minha irmã Shirley Celina, católica fervorosa, minha mãe Dora, costureira e hábil no crochê que fazia as toalhas dos altares e outras obras magníficas e ao querido amigo Padre Ignácio Rafael Valle, jesuíta que criou a Romaria da Medianeira tornando-a nossa Padroeira no Estado.
Um Feliz Natal e maravilhoso Ano Novo!
14 dez 2014 Deixe um comentário
2014 – 12 – 16 Dezembro – Ô Viamão – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Ô Viamão
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I |
nterpelaram-me: – Existe algum lugar com motoristas tão ruins quanto Viamão? – veio de supetão. Há uma crença ou uma lenda de que “os médicos e os padres são as pessoas que mais estudam” e assim sabem de quase tudo. Talvez algo ancestral, de uma época em que as profissões eram reservadas para poucos e que poucos detinham o maior conhecimento. E sempre os conventos e mosteiros reuniam grande parte da cultura humana. Tempos mudam. E motoristas? Tenho diversos motoristas profissionais na minha família, inclusive esse cronista. Fiz carteira de motorista profissional para ônibus, pois as viagens de turismo davam ótimo rendimento econômico em certa época da vida. E passei em todas as provas sem nenhum “auxílio” externo ou por “baixo dos papeis” como tantos.
Cr & Ag
É tradicional que em qualquer cidade, principalmente Porto Alegre – essa filha desnaturada que nos critica, em mínimas barbeiragens alguém grite aos quatro pulmões: – Ô Viamão! Ou: – Ô carteira de Viamão! Lembra? Sabe? Pois isso é antigo e uma herança maldita, não como a Petrobrás para o governo, ou um fantasma que teima em assombrar os motoristas viamonenses. Nós viamonenses da gema, isto é, aqueles que aqui foram paridos e por opção teimam e persistem em trabalhar, morar e investir aqui acreditamos que essa “falha de habilidade” ou má habilitação seja causada pelos inimigos na trincheira, pelo fogo amigo ou pela horda de alienígenas que aqui se estabeleceu justamente para nos punir. E não é paranoia coletiva.
Cr & Ag
Apliquei um ibope para verificar se o sentimento era universal ou mocozado em algum gueto viamonense. O resultado é assustador, principalmente no relato choroso dos sobreviventes. – Tenta atravessar na faixa defronte do Itaú pra ver se tu é macho e ligeiro! – de dedo em riste um bombachudo me desafiou. Mas como não levo pesquisa a ponta de faca, escutei outros relatos. – Cara levei mais de duas horas da Agronomia até o Cantegril e não havia nenhum acidente e nem bandeiraço do PT. Os caras não andam, grudados no celular, Facebook e trancando as sinaleiras… – dizia-me outro na sala de estresse agudo e ataque de pânico no nauseocômio da municipalidade já no terceiro Rivotril. Uma velhinha de muletas e colar cervical (gravata de pobre) contava suas quedas ao subir e descer dos coletivos. Coisa medonha e de doer no coração até de quem não é parente da estropiada criatura.
Cr & Ag
“Sempre é falha humana, do avião que despenca até do atropelado!” – dizia-me um vereador. Corrijo – aspirante a vereador, mas que pelo largo número de campanhas eleitorais já poderia ser diplomado que não faria nenhuma diferença. Realmente é sempre falha humana, principalmente se não tivesse gente não teria acidente e esses eteceteras. O governo que nada vê, pouco faz e quase nada sabe diz que a culpa é do motorista. E do pedestre! E do engenheiro e construtora que fazem estradas e ruas pensando na economia e nos aditivos? E do governante que prefere a caixa dois e as contas em paraísos fiscais e não na saúde do eleitor? Se bem que eleitor é um ente descartável na estrutura nacional. Do mesmo lugar que vem um, virão centenas, basta acenar com alguma bolsa ou cota nas costas de quem paga a festa.
Cr & Ag
– E a conclusão do teu ibope Edinho? – pois, escapando dos brigadianos que quando recebem um brinquedinho (“radarzinho”) novo escondem-se atrás de árvores e placas para multar/arrecadar e jamais educar o trânsito, chegamos à conclusão de que não são piores ou melhores do que o resto. Apenas estão no nosso quintal e convivemos com eles diariamente, daí sentir na carne e no bolso…
14 dez 2014 Deixe um comentário
2014 – 12 – 09 Dezembro – "Una Cueca-Cuela”.- Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
“Una Cueca-Cuela”
Os amigos sabem e os opositores do capitalismo temem essa feroz e insaciável invenção gastronômica que é o “X”. Estudiosos e pesquisadores de Harvard atribuem paternidade dessa evolução aos gaúchos que criaram esse “transgênico do hambúrguer”. Histórias e estórias a parte, em outra coluna lhes contei da minha aventura enfrentando um X-filé no MEK Aurio, que existia logo ali ao lado do Gigante da Beira Rio e do Campeão de Tudo. Hoje vamos contar-lhes outra peripécia do gênero, sem número e grau vivida no Shopping America em Ciudad del Este. Essa é outra paixão desse brasileiro, comprar “unas cositas” no Paraguai. Quem resiste a uma muambinha? A esposa subia e descia os andares atopetados de quase tudo no shopping e eu e o filho Duda, já cansados das pernas de caminhar e dos braços lotados de sacolas, rumamos para o último andar. Lá estava a praça de alimentação. O Duda estava naquela fase nebulosa pré-adulto em que os apetites são vorazes e a pressa é inimiga da paciência.
Cr & Ag
Desabamos numa mesa sem sentir a dureza das cadeiras. Na mesa ao lado três jovens de faces e sotaques ianques estavam atracados em monstruosos, gigantescos “X”, respingando cathchup e mostarda para os lados em cada mordida cruel. O nosso cansaço somou-se ao pecado da gula. E da sede. O filho queria saber como se diz Coca-Cola em espanhol: – Fácil, pede “una Cueca-Cuela” que vão entender. E para completar pedimos dois “X” super-super. Um aparte! Somos de uma família de cachorreiros, essa casta de pessoal que adora cães. Estamos ali comendo com a boca toda e o filho estranhou: – Sabor meio diferente essa carne, né pai? – realmente era um sabor meio adocicado, diferente realmente dos nossos. E aí caí na asneira de relatar uma observação.
Cr & Ag
– É estranho que nessa miséria toda aqui no Paraguai, Essas ruas entupidas de pedintes, mendigos, índios e “chinesada” não se viu um único guaipeca. Nenhum cachorro. E olhe que onde tem mendigo tem cachorro por perto. É o derradeiro amigo e companheiro no infortúnio da vida. E agora me caiu uma ficha. Chinês come cachorro e qualquer coisa que anda, se arrasta ou nada. Os caras aqui da praça de alimentação, os chefes são tudo “chinês”. Vai que esses caras estejam fazendo “X” com carne de cachorro. Tem uma lenda urbana que certo fast-food que usa carne de minhoca…
Cr & Ag
Falei demais e na hora errada. O Duda largou o saboroso e apetitoso sanduba na travessa e mostrou a face nauseada. Foi de bate pronto, a náusea e o “estômago embrulhado”. Estraguei o lanche dele. O meu eu comi até o fim, lambendo os dedos. Estava bom demais. Perdi o companheiro. A lancheria da Santa Casa recebeu o apelido de Morte Lenta pela comida que servia e nós (alguns, como eu) insistíamos em devorar sem saber muitas vezes o que era aquilo, como apontavam as funcionárias. A escola da vida no lombo de uma moto viajando e nos mais variados e incertos plantões lidando com todo tipo de coisas que dão náuseas a quem não é do ofício, cria uma resistência ou uma flexibilidade que melhora com uma Cueca-Cuela. Além disso, se não matar ou estropiar, engorda!
Cr & Ag
Ensina a sabedoria popular que “há que coma para viver e quem viva para comer”. O Filósofo do Apocalipse já observou que “os melhores prazeres da vida estão nos lençóis e nas toalhas e são prazeres carnais no mais amplo sentido”. Um caro amigo e cliente e cozinheiro profissional alertou-me: – Quem vive numa cozinha e pode ser dos mais finos restaurantes leva medo da comida que é feita ou como é guardada ou reposta. Bon apetit!
14 dez 2014 Deixe um comentário
2014 – 12 – 02 Dezembro – A bendita vaidade – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
A “bendita” vaidade
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A |
ntes que alguns intrépidos leitores se ericem e puxem a brasa para a sua religião, peço-lhes respeitosamente que se acalmem e vamos por caminhos mais luminosos. A vaidade já esteve entre os Sete Pecados Capitais em conjunto com o orgulho e a soberba e ainda para muitos pode estar assim registrada. “Nem tanto ao céu e nem tanto à terra” ensina a sabedoria popular, pois a mesma água que mata a sede ou que abençoa, em excesso pode sufocar e até afogar. Em tudo na vida e no etéreo há que ter equilíbrio, limites e harmonia. Numa época em que crentes e devotos alçados a atirarem a primeira e a segunda pedra, orgulhosamente contam seus feitos materiais nas redes sociais, muitos abominam um singelo esmalte de unhas ou um cabelo melhor cuidado, mas exteriorizam-se e engrandecem-se, mesmo que para si mesmos, de suas conquistas, vitórias e realizações terrenas.
Cr & Ag
O acesso aos produtos de higiene e beleza nasceu com a revolução industrial nos idos do século XIX na Inglaterra. O trabalho remunerado permitiu que humildes pessoas pudessem ter roupas melhores e tomassem banhos até com perfumes. O que era privilégio dos ricos e nobres pairava sobre os simples mortais. Depois da II Guerra Mundial o “american way life” (tipo de vida americana) saiu das telas do cinema e da imaginação das pessoas e ganhou lugar nas casas. O mundo então se dividiu em luzes e cores e o cinza sombrio. Alemães orientais morriam tentando vencer o Muro de Berlin para terem as mesmas conquistas e qualidade de vida de seus irmãos ocidentais saindo da utópica igualdade. As casas ansiavam por banheiros pessoais e familiares, por quartos individuais e as pessoas valorizaram o sabonete, o xampu, o papel higiênico e os perfumes. Parece tão simples e idiota para nós que os temos ou ganharemos pelo nosso trabalho.
Cr & Ag
Uma pessoa será mais bela e querida estando limpa, cheirosa ou com a simplicidade de uma maquiagem que realce suas belezas? Certamente será sempre melhor aceita pelos outros e por si mesmo. Os médicos atentam nesses detalhes por força de seu ofício, pois estando uma mulher, por exemplo, a sua frente em consulta e suas unhas denotam absoluto descaso e abandono, seu odor fere o olfato, seus cuidados com o vestir organizado e limpo e nessa esteira de observações podem traduzir uma pessoa deprimida. Em alguns graus do exame revela até um suicida. A depressão também já foi considerada um pecado, uma manifestação da posse demoníaca. Há casos ainda não explicados pela moderna Medicina que muitos ainda apontam como possessões malignas.
Cr & Ag
Um caro amigo e companheiro de estrada do motociclismo, estradeiro do maior quilate, chamado por todos de professor e vô ensinava: – “Não ando de rabo sujo!” – leia “sujo” como “chujo” no seu falar. Caso não houvesse um bom e asseado banheiro, jamais evacuava em qualquer lugar, percorrendo centenas de quilômetros. Papel higiênico da melhor qualidade e lenços umedecidos e perfumados estavam no seu arsenal de estradeiro. Quem quiser escutar saborosas histórias e lendas desse amigo consulte com o Luizinho Zavarize. Casamentos terminam e relacionamentos nem se estendem quando a higiene pessoal é complicada. Os conceitos de beleza se alteram com o tempo, mas sempre o ser humano apreciou os cuidados não abusivos com o corpo ou com a indumentária. Observem que até nos povos que estão galgando os degraus da pirâmide evolucionária a vaidade humana deve ter o calibre e a proporção adequada. O papel higiênico, os cosméticos e a higiene adequada podem ser sintomas do capitalismo, mas triste Venezuela tão rica de petróleo e tão carente de singelo papel higiênico. Segundo o vô Leo: – “De rabo chujo o cara nem pensa direito, imagina pilotar moto!”
14 dez 2014 Deixe um comentário
2014 – 11 – 25 Novembro – Picolé de chuchu – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Picolé de chuchu
“Fazer o certo sempre foi mais fácil do que fazer o errado” – ensinava-me seu Aldo. A tentação de escrever errado leva-nos ao caminho de chuchu com “X”. Talvez assim seja com a máfia instalada nos governos e nas empresas. Fosse a Petrobrás uma empresa privada estaria na ladeira da quebradeira e seus diretores que não pudessem pagar um “márcio bastos” estariam fugindo do país ou nas famosas celas protetoras anais. Como? O intrépido e espoliado leitor não entendeu? Na prisão comum o cara tem que proteger seu ânus e outros orifícios – quem tem teme! – seja pagando proteção ou sendo mais mortal que os outros presidiários. Eis um dos motivos que cadeias mais humanas e com ares de FIFA somente quando todos, repito todos forem presos nos mesmos lugares. Sem as regalias por diploma ou proteção compadrio.
Cr & Ag
Nunca se roubou tanto e em tamanhas proporções quanto nessa última década. A triste impunidade e a imensidão roubada ocorre nos países comunistas ou nas democracias que flertam com o socialismo. Aquele que fracassou em qualquer época e lugar desse planeta. Os maiores magnatas e a sua alta concentração localizam-se na Rússia, ex-URSS. Num Japão, numa Alemanha, numa Austrália, por exemplo, roubam. Roubam sim! Os valores astronômicos começam em ¼ ou ½ milhão de dólares. Cinco milhões de dólares era o tema do Homem Biônico como um valor babilônico. Aqui é merreca, pois uma figura subalterna da Petrobrás oferece devolver quase 100 milhões de dólares. Como é a regra do presidente Lula e continuou com a presidente Dilma, eles nada sabem, nada viram e nada ouviram.
Cr & Ag
Em qualquer país democrático e realmente civilizado cairia o governo e seu ministério. Os 39 ministérios é a prova cabal de quem não quer saber de nada e governar nada, mas manter a marquetagem e a zumbilândia em atividade crescente. Um governo honesto, um governante honesto, responsável e com vergonha na cara faria o que? Gostaríamos de escrever sobre coisas com melhor e mais saudável odor, perfumadas creio. Mas fazemos parte da elite que estudou, trabalha, paga impostos absurdos, respeita aos outros e à terra onde nasceu e vive e quer que seja bem melhor para seus descendentes, amigos e desconhecidos. E nossos leitores são pessoas que se articulam, raciocinam, posicionam-se, interagem e sempre se constituirão em críticos estimulados, aguçados, impelidos pelo cronista e que não se contentam com a mesmice da internet que para aqueles que preferem um picolé de chuchu passeiam sua inteligência pelos lugares comuns.
Sem medida – um singular poema da amiga Lúcia Barcelos
Existem palavras que possam lhe falar,
Dos segundos todos, dos mil momentos em que fiz
Minha alma se mostrar tanto, e tão feliz?
Nunca tive a sensação de ermo ou deserto,
Sentindo a sutileza do seu coração tão perto
Do meu, preso no peito, cativo de encantamento…
Hoje, essa saudade não consome o pensamento,
A torrente de sonhos, os mil segredos…
Tento alcançar a luz que nos seus olhos via.
Tento imitar um gesto seu, tão amoroso e delicado,
Que fazia a luz parecer mais clara aos nossos dias.
Aqui, os jardins estão saudosos,
A flor mais bela repousa escondida.
Amores perfeitos são regados com águas celestiais,
As nuvens me tomam as mágoas colossais
E as derramam num verso sem medida!
23 nov 2014 Deixe um comentário
2014 – 11 – 18 Novembro – A vida como ela é – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
A vida como ela é!
Precisando substituir meu pincel de barbear, fui numa farmácia de rede no litoral. Procurando e não encontrando, solicitei a uma das funcionárias: – Preciso de um pincel de barbear e que seja bem macio! – a jovem muito solícita disse-me: – Chegue aqui no caixa, eles estão ali. De imediato, alcançou-me uma embalagem com o pincel de barbear. A marca do pincel, bem estampada na embalagem, era Condor. Condor é uma marca tradicional até no ramo de pinceis de pinturas em geral. Estiquei um pouco do assunto com a moça que gostou do meu neto Lucas que me acompanhava. Disse-lhe: – Moça esse pincel é de barbear “condor”, veja aqui – apontei com o dedo à marca. Eu queria um bem macio e “sem dor”. Imediatamente a funcionária baixou vários pinceis de barbear da gôndola e examinando as embalagens disse-me: – São todos iguais! Não temos outros tipos. Serve esse para o senhor? – claro que serviu. Como tinha que comprar outras coisas que a família tinha encomendado resolvi parar com qualquer outra brincadeira.
Cr & Ag
Os cabelos brancos e a idade são, até certo ponto, uma defesa ou uma blindagem contra situações pouco comuns ou até constrangedoras para alguns. Acredito que presentar com roupas íntimas para quem se ama ou quando se deseja apimentar, esquentar ou intensificar uma relação é algo magnífico. Se nunca tive nenhum constrangimento em entrar num departamento feminino de qualquer loja, depois de uma certa e apreciável quilometragem de vida, isso jamais seria empecilho. Estava na seção de roupas íntimas de tradicional magazine da capital examinando e imaginando como a pessoa amada ficaria recheando, sendo o conteúdo principal, com aquelas belas molduras íntimas. Eis que me apercebo que várias clientes (mulheres!) olhavam-me atentamente. Como sou muito tímido (vocês que me conhecem sabem disso!) coloquei uma bela peça na minha frente e perguntei para uma das mais interessadas: – Que tal, vai ficar legal? – a resposta veio rápida como raio: – Ela vai adorar, mas em ti não fica muito bem! – e rimos. As boas risadas nascem da espontaneidade.
Cr & Ag
Tenho alguns amigos extremamente espirituosos. Outro dia olhávamos uma reportagem de conhecido cartola do futebol nacional que se apresentava com uma novíssima namorada. Esse abonado cartola que pertence àquela elite que governa o país do futebol é famoso por preferir jovens exuberantes de corpo e com eficientes neurônios ginecológicos, geralmente capas de revistas masculinas. O cartola passou dos 7.0 e a beldade nos meigos, mas veteranos de todos os combates de lençol, vinte aninhos. O repórter perguntou-lhe se a diferença de idade de mais de cinquenta anos não atrapalhava. A resposta veio fulminante como voto na Dilma: – Não ligo para detalhes! Ao que meu amigo espirituoso e implacável bateu na marca do pênalti: – Isso é namoro de orelha! Como não entendi, perguntei-lhe o que significa “namoro de orelha”. Implacável como marqueteiro do PT: – Namoro de orelha é o namoro longe do coração, mas perto dos chifres!
Cr & Ag
A vida é um sobe e desce e estamos nos finais de um ano que “a elite” permanecerá cada vez mais abonada, pois nunca os banqueiros e seus playgrounds bancários faturaram tanto como nesses últimos doze anos do “governo dos pobres”. O mesmo pobre que paga quase 200% de juros no cartão de crédito e raramente receberá mais de 6% na sua poupança (se tiver!). O mesmo pobre que se for cidadão trabalhador ou aposentado depois de 35 anos de trabalho verá seu reajuste bem abaixo da bandidagem nas cadeias ou da vagabundagem de cerveja e taco de bilhar em punho, mas mamando em alguma bolsa populista. Nós que trabalhamos cinco meses do ano e entregamos de mão beijada para distribuir e fazer mágica de sumiço na Petrobrás e só depois é que vai trabalhar para comprar comida, roupas, aluguel, prestações, plano de saúde e de morte, escola e se sobrar – lazer, ficará satisfeito em ser mais solidário ainda com as criaturas fora do seu lar que você obrigatoriamente “ajuda” e para isso vai precisar trabalhar muito mais. Afinal, as empreiteiras não são brasileiras e a Petrobrás não é nossa?
23 nov 2014 Deixe um comentário
2014 – 11 – 11 Novembro – Um país dividido e mutilado – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Um país dividido e mutilado
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profunda-se o fosso ou o muro que separa literalmente os brasileiros. Nessas últimas eleições, por vontade do partido vencedor, essa chaga amplia-se com ódio crescente numa polarização que em todos os horizontes do planeta separou o socialista/comunista dos demais seres humanos. Está na essência, no âmago, no espírito e no caroço da ideologia socialista/comunista o conflito entre as pessoas e as classes sociais. Nem a família escapa, onde pais entregam filhos e filhos denunciam pais para o regime. A senhora presidenta, como seus partidários, sempre culpam a elite. Qual elite? Certamente não a elite que é condenada na Papuda e recebe as benesses do sistema. Ou a elite dos vinhos de 5 mil dólares a garrafa? Ou a elite que se adonou das empresas públicas, num modelo de “privatização pelo social” de seu grupo? Ou a elite que “não sabe e não viu nada” da roubalheira?
Cr & Ag
Essa divisão dos brasileiros passa por aqueles que trabalham e pelos que são sustentados, pelos que pagam um terço do que ganham de imposto de renda e pelos que recebem sem trabalhar. Entre os que põem a comida na mesa da sua família pelo suor de seu corpo e por aqueles que teimam em permanecer nos chamados programas sociais renegando empregos. Daqueles que seus filhos pagam escolas e daqueles que destroem escolas. Daqueles que discriminam as pessoas ao preencher formulários oficiais por raça ou cor. Ou daqueles que voltam aos seus lares dando exemplo de trabalho e honra para seus familiares e não se aproveitam das tetas públicas pelo companheirismo ou por qualquer indicação partidária que não contemple a qualidade do indicado. Ou quando o mérito é vencido pelo fisiologismo barato e pelos privilégios.
Cr & Ag
É um Brasil dividido entre a mentira escancarada e repetida até que receba o lustro falso da verdade e a verdade que teima em sair do lodaçal que tentam afogá-la. Entre aqueles que insistem em acreditar e viver no Brasil e aqueles que vivem “do” Brasil. Entre aqueles que exercitam um projeto de poder e os que desejam um projeto de país mais humano e decente. A Alemanha esteve separada por um real, sólido e sanguinário Muro de Berlim (aniversário de 25 anos da queda). As Coreias também estão divididas pelo poder do aço e do fogo do norte comunista. Não é o capitalismo que separa e afasta. Até o “capitalismo selvagem” da China arrancou da miséria absoluta centenas de milhões de pessoas e agora permite que viagem pelo mundo, como é sabido de todos.
Cr & Ag
Cidadãos divididos até por uma excrecência chamada de Fator Previdenciário que criada pelos chamados “neoliberais” é mantida e alimentada pelos socialistas e que se fosse ético e bom deveria ser aplicada a todos os trabalhadores tanto do INSS quanto do serviço público. E são esses cidadãos que trabalharam uma vida inteira que são violentados ao aposentarem-se e anualmente nas miseráveis e canalhas correções de suas aposentadorias. Contou-me um secretário de um município histórico da Sumatra que em certa reunião do prefeito com o secretariado para avaliar metas e novas propostas que um “alegre representante do social” apresentou euforicamente a entrada de mais uns milhares de abençoados no “bolsa família” da Sumatra. O prefeito estarrecido com os números e com a alegria da criatura pediu-lhe que repetisse. Logo o prefeito sumatrense disse para a criatura e a plateia que sentia vergonha desse aumento de novos beneficiados e que esperava a diminuição de bolsistas, que estariam trabalhando, produzindo e sentindo-se mais úteis para si, suas famílias e a sociedade. E assim o município não estaria importando mão de obra para o comércio, para a construção civil e tantos outros empregos ocupados por pessoas de outras cidades. O prefeito da Sumatra e a maioria do seu staff (e o povo que trabalha) esperava notícia melhor. Isso seria o reflexo de uma infecção que se alastra como a epidemia zumbi?
08 nov 2014 Deixe um comentário
2014 – 11 – 04 Novembro – A dor que aprisiona – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
A dor que aprisiona
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e “a dor ensina a gemer” também nos mostra os caminhos de humildade, de fé, de respeito e de mostrar-nos humanos e limitados. A dor é a manifestação de que algo não está bem com nosso corpo. É o sofrimento de algum órgão ou parte do corpo que nos avisa pela dor. No entanto quantas vezes a dor é a enfermidade principal. Mesmo secundária a alguma moléstia, enfermidade ou dano. A dor torna-se a entidade principal, preponderante, sufocante da vida e da liberdade da pessoa. Cada “pé conhece o sapato e local onde lhe aperta”, em outros termos, cada um sabe do seu sofrimento e da dor que lhe acompanha. É comum que o médico peça ao paciente para dar uma nota de 1 a 10 da “sua” dor e em muitas unidades de tratamento a medicação analgésica é disponibilizada por essa nota pessoal. Observe: nota pessoal. Cada pessoa tem os seus limiares de dor ou de suportar a dor. Aquilo absolutamente terrível para uns pode não ser para outros.
Cr & Ag
Há dores que ofendem ao corpo, outras que laceram a alma. Muitas tiram da pessoa a sua graça e alegria de viver e nesse balanço muitos se digladiam entre sentimentos negativos de vontade de morrer ou de antecipar a morte. Vendo na morte a saída honrosa (ou não) do brutal sofrimento. “Deus dá a cruz de acordo com as costas pode carregar” apregoa a fé cristã. Há momentos em que o sofrimento faz com que a pessoa na dor extrema do corpo lacerado e da alma abandonada perguntar: – “Pai por que me abandonaste!” – o mais puro e evoluído espírito que já singrou esse planeta de dor levantou os olhos aos céus e fez essa pergunta humana. Há que respeitar o sofrimento das pessoas e essa é a condição básica em ser médico. Na origem da palavra está a capacidade e necessidade de aliviar a dor e o sofrimento. Curar é secundário na escala, na hierarquia da dor.
Cr & Ag
Parece acontecer geralmente o contrário naqueles doentes que já passaram por diversos médicos e outros profissionais da saúde ou até da espiritualidade e infelizmente não encontraram o fim do sofrimento. Muitos desses profissionais, assim como até o sofredor, acham-no “desenganado”. Acumulam-se sacolas de exames, dezenas de receitas, peregrinação sem fim e a cruel companheira (a dor) permanece ao seu lado, na frente e atrás, dentro de si dia e noite, horas sem fim, azedando e tisnando o horizonte do sofredor. Quantas criaturas andam assim perambulando pelos consultórios, clínicas diversas, hospitais, templos religiosos e curandeiros? Quantas pessoas perdem a sua vida pessoal, familiar, profissional e social? E perdem até a fé na espiritualidade por se sentirem abandonados e minimamente aliviados do sofrimento. Essa fase derradeira espelha o pior da degradação da alma diante da dor.
Cr & Ag
A dor ensina que pudor é contingência da saúde. A enfermidade torna-nos devassáveis a quaisquer mãos, olhos e instrumentos que possam auxiliar no diagnóstico, no alívio do sofrimento e talvez na cura. E são as UTI esses templos que as horas se arrastam interminavelmente, como o companheirismo e irmandade do sofrimento e das visitas esperadas da morte. O lugar que é o último reduto da vida é também a antessala da morte. Travamos a batalha final da grandiosidade da vida e da morte, do valor da saúde e do entendimento que orgulho, riqueza e poder tornam-se meras secreções finais de uma alma sombria diante do retardado, mas inevitável a ser enfrentado, mesmo nos derradeiros momentos, com amor, gratidão e fé.
08 nov 2014 Deixe um comentário
2014 – 10 – 28 OUTUBRO – Refém do Medo – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião
Refém do Medo
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medo é uma manifestação natural, um sentimento intrínseco do animal que somos, uma defesa que nos avisa e protege do perigo ou de qualquer coisa que possa nos magoar ou ofender mental e fisicamente. O medo exercitou nossas habilidades e estratégias de sobrevivência entre os dinossauros, nas savanas africanas ou nas selvas de concreto e plástico. Esse é o medo que nos interessa e empurra-nos a evoluir, no entanto em quantas e diversas situações somos vítimas da manipulação interior e exterior desses medos. Evitaremos de aprofundar uma classificação psicológica dos graus do medo e vamos enveredar pelo caminho do medo que nos aprisiona, que nos laça e garroteia, que nos torna submissos e, pior ainda (muito pior!), submissos àqueles que nos manipulam nas brechas das nossas fraquezas.
Cr & Ag
A mulher que é espancada frequentemente está nesse cenário do medo que constrói fantasias e armadilhas que buscam justificar para si e para os outros as surras que leva. Exemplos de desculpas: “eu tiro ele do sério”; “ele é muito bom, mas quando bebe…”; “está com problemas no serviço”; “ele puxou esse gênio da família dele”; e quantas outras atenuações. A sabedoria popular acredita que até apanhar “vicia” e lembra-se a anedota do português Manuel que morreu e deixou a Maria de viúva depois de quase cinquenta anos de surras. Contam que tempos depois da morte do Manuel os vizinhos escutavam barulhos de surras e a Maria gemendo. Pensaram inicialmente em fantasmas e assombrações até que vencendo seus ‘medos’ foram espiar pelas frestas da casa e viram a Maria jogando os tamancos do Manuel para o alto e aparando-os nas costas já bem lanhadas.
Cr & Ag
O medo do quarto escuro ou da escuridão faz a criança mais cautelosa e arisca. Logo esse medo pode se transporta para a escola nova ou para uma turma onde será vítima ou mentor do exercício do medo. O medo nas escolas ocupa um magnífico capítulo de variados matizes como o medo de tantos professores em querer disciplinar seus alunos diante do abuso de legislações oriundas da vontade exitosa de mentes que destroem a família, a moral e os pilares do convívio social. Isso não ocorre por mera casualidade, isso está dentro de um contexto em primeiro arrasar as estruturas naturais e vigentes na democracia para a seguir implantar (pelo exercício do medo) as ditaduras. Aumentam os temores de professores, que ainda são realmente professores, de atuarem para educar os jovens privilegiados e intoxicados pelas cotas.
Cr & Ag
Há cerca de 4 a 5 vezes mais seguranças privados no país do que soldados no Exército. Gasta-se bilhões na segurança privada, do cão ao alarme de penúltima geração. Isso cresce vertiginosamente pela absoluta sensação de insegurança (medo!) das pessoas honestas. As casas tornam-se jaulas que aprisionam o homem e permitem a liberdade das feras. “A Brigada prende e o delegado solta”; “o delegado prende e o juiz solta” – o resumo macabro de tudo isso é que o criminoso será solto. A poucos dias um “estuprador primário” preso em fragrante com seu comparsa foi liberado para “responder em liberdade o processo” pela “autoridade judicial”, noticiou a imprensa. Assim parece que o primeiro estupro é normal para quem o liberou.
Cr & Ag
Estou enviando essa crônica sem saber o resultado do pleito eleitoral e assim também não sei se o medo venceu ou…