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Perversão e Arte! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. 03 Outubro 2017.
06 out 2017 Deixe um comentário
Perversão e Arte!
Nero, o imperador, incendiou Roma enquanto fazia a sua música. Tudo pela “sua arte”. Tudo pela arte? Os espetáculos mortais e degradantes das arenas romanas inspiraram “a arte” e depois os circos. A putrefação moral que arrasou a economia brasileira e tornou a corrupção numa prática de partidos políticos e da administração do Estado exterioriza-se pelas mesmas vertentes e bocas que tem tratado a criminalidade de pior e mais cruel espécie em “coitadinhos” e vítimas da “elite e do capitalismo”. São símbolos identificados como defensores da bandidagem da mais perigosa espécie de gente, pelo menos por aqueles não obsidiados, como seus eleitores.
É essa mesma gente que defende a destruição da família e a guerra social mascarando com direitos humanos. Assistimos cenas escatológicas travestidas de arte na exposição do Banco Santander. Pago com dinheiro extorquido de quem trabalha sob a fachada de impostos e similares. “Tudo arte”! Nem a imagem de sodomia e felação com pungência racial causou prurido nesses “defensores dos direitos humanos”. Pais estão constrangidos a educar seus filhos, no entanto a “arte” desnuda a nudez ou a sordidez sob todas as luzes. Pela “arte” essa gente pode exteriorizar-se na sua nudez e nas suas taras e perversões. Logo pedófilos serão aceitos como artistas reacionários. A Justiça, sem generalizar, que deveria ser nossa protetora aparece como naquelas autoridades em São Paulo que liberam um tarado contumaz depois de 16 prisões. Contaram-me que uma delegada de polícia advertiu ser crime repassar o vídeo do tarado num supermercado de Porto Alegre. As pessoas honestas e responsáveis têm o compromisso de avisar, advertir e precaver as pessoas que amam dessas criaturas malignas que tanto permanecem livres ou quase. Quantos cidadãos esperam que outros criminosos executem as suas próprias leis, como nas penitenciárias, para que essas bestas sejam punidas? Vejam a lamentável situação que o cidadão está! Ter que esperar “justiça” de outros criminosos. É muito triste e vergonhoso. Talvez não para os defensores dessas bestas pervertidas.
CPERS – Greve – Educação!
Novamente um mês de greve do magistério do Rio Grande do Sul, numa rotina anual que está bailando há mais de 30 anos, ou décadas, num conflito de direitos.
Vide Mauro Luiz Barbosa Marques e a greve histórica de 1979: http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1360875372_ARQUIVO_artigo.para.anpuh.2013.pdf). Alguma coisa não funciona, seja nas greves, seja na vida profissional ou para os alunos e suas famílias. Lamentamos e jamais generalizamos. Há o entendimento de que CPERS é sinônimo de greve. Há o entendimento de que a função de sindicato é confronto e ideologia. A qualidade da educação gaúcha é precária. Famílias privam-se para colocar seus filhos em escolas privadas, pois todo ano tem greve e a recuperação curricular é controvertida, difícil, senão falaciosa várias vezes. Como assim? Os marcadores da qualidade da educação têm melhorado no Rio Grande do Sul em si mesmo e na vergonhosa situação nacional em comparação com outros países?
Ou o CPERS não sabe fazer greve, ou o tipo de protesto está inadequado, ou já dava para saber que desde 1979 esse enfrentamento não dá o resultado é desejado. Há professores aposentados ou que se aposentarão por tempo de serviço sem resultados efetivos das greves. Algo está errado? Entendo e qualifico como o professor sendo dos mais nobres ofícios e fundamental na evolução da humanidade. Assim o professor merece todo nosso respeito e consideração e jamais compartilhamos da omissão de defendê-los ante as adversidades, inclusive nas salas de aula. O médico que errar continuamente seus diagnósticos e seus tratamentos perderá seus pacientes ou seu direito de ser médico. Se um engenheiro persiste em suas técnicas, mas seus prédios e pontes caem; se um advogado perde todas as suas causas durante décadas – que fazer? Em qualquer atividade humana é assim. Ou deveria ser! As greves do CPERS têm fracasso total ou parcial. A educação precária causará dor e derrota em alunos que no futuro enfrentarão um mercado de trabalho competitivo e a responsabilidade de amparar de suas famílias. Exceto se estivem em alguma atividade que dispense essas necessidades. Veja que respeitamos as greves legais, mas arguimos os resultados reais e duradouros e suas consequências.
2017 – 10 – 03 outubro – Perversão e CPERS – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão.
Lili da CB ou a Lili 3 Socos! Edson Olimpio Oliveira. Crônicas & Agudas. Série Moto! Paixão Eterna. Crônica 5.
02 out 2017 Deixe um comentário
em Crônicas & Agudas - O Livro!
Lili da CB ou Lili 3 Socos
Crônica 5.
Existia uma crença de que o motociclismo era um esporte ou uma atividade para homens. Felizmente essa concepção está mudando. Hoje temos uma grande quantidade de mulheres de todas as idades pilotando todo tipo de motocicleta. Isso não foi sempre assim. E uma dessas precursoras foi a Lili. Seu nome de batismo era Iolene, mas adquiriu o apelido de Lili e o ‘sobrenome’ de CB ou 3 Socos por seu batismo de fogo no mundo do motociclismo. E essa singela crônica é um pequeno resgate às mulheres que foram e são esquecidas. Muitos homens se tornaram lendas ou ícones dentro do motociclismo, mas quantas mulheres fazem a nossa lembrança?
Era uma época em que as motocicletas estavam assumindo seu lugar no Brasil da década de 70. A maioria delas era de pequena cilindrada. A juventude exultava como um enxame de abelhas africanas (ou seriam japonesas?). Pensam que se preocupavam com o tipo de estradas? Que nada! Somente se queriam rodar. O mais possível. O mais longe possível. Foi nessa época que aportou por aqui uma gaúcha acariocada. Explica-se. A gata era gaúcha de nascimento, mas com o falecimento precoce dos pais, foi viver com a avó materna no Rio de Janeiro. A voz era chiada como escapamento original de fábrica. Tinha algum sotaque gaúcho sempre alimentado por uma cuia de chimarrão. Chimarrão bem amargo.
– mate frio e doce é coisa de fresco. – dizia sempre.
Lili veio rodando do Rio numa CB 360 com bagagem e tudo. Sozinha? Não, ela e a moto. A moto já era uma exceção, uma Honda CB 360 duplo escapamento. Cor vinho com filetes pretos e dourados. Amigos grafaram seu nome no tanque. Cromados. Muitos cromados. Era moto de se ajoelhar e agradecer aos anjos poder estar na sua frente e apreciá-la. Muito mais com uma bela mulher de calça jeans, confrontando a beleza de suas formas torneadas com as da moto. Cabelos negros e longos carinhosamente torcidos entre os dedos indicador e médio da mão esquerda para se acomodarem, se aninharem dentro do capacete. Uma loucura ao soltá-los ao vento com um movimento pendular da cabeça. Olhos negros dentro de uns óculos Triumph ingleses refletiam a imensidão do cosmo assim como sua força. A pele morena pelo bulício de Ipanema servia de cenário para lábios da cor de pitanga madura. Como os gomos da pitanga. Com o desejo da pitanga.
Enquanto nossos lábios rachavam com o vento, a poeira e o sol, os da Lili se mantinham com a pureza e a beleza das deusas. Era uma mulher à frente de seu tempo. Imagine naquela época uma moça sem sutiã. Ali estava uma. Ao retirar o grosso casaco de couro com franjas, estampava duas sentinelas avançadas, empinadas em sua realeza.
Havia um problema para nós homens, a Lili não flertava com nenhum. Apesar do imenso ciúme que causava nas outras garotas, seu único gato, namorado e amante era o motociclo. E talvez por isso fosse mais respeitada e admirada.
Tratava a todos como irmãos, principalmente como irmãos da mãe motocicleta e irmãos de estrada. A sua paixão pela moto transcendia a tudo o mais. Era um silencio sepulcral ao escutá-la contar suas viagens, aventuras e até acidentes. Lembrando uma queda que teve na serra de Gramado, rasgando a calça Lee. As pernas? Nada que maculasse a perfeição. Enquanto se buscava um contrabandista para fornecer outra, a Lili andava assim mesmo, remendada. Era um verão cearense fora de época que agüentávamos. Aí surgiu a moda dos jeans rasgados e remendados como charme pela outras moças.
Implorávamos aos deuses motociclistas que as férias não acabassem e que Lili resolvesse ficar aqui no Rio Grande. Alguns de vocês devem estar se perguntando do porque dos apelidos. Lili da CB é o óbvio. CB era a sua máquina. E Três Socos? Essa é outra história.
Aqui em Porto Alegre temos a nossa praia de Ipanema às margens do lago metido a rio (ou vice-versa?) Guaíba. Não tem os atrativos da irmã carioca, mas é muito pretensiosa também. Ali, numa tarde de sábado o pessoal se reunia para falar de moto e cerveja, moto e viagens, moto e mulher e quando faltava outro assunto falava-se somente de moto. E como sempre, tem um cri-cri, um chato e para piorar ainda metido à bacana. Suas piadas enjoavam, principalmente às mulheres.
— Todo machão tem duas bolas de gude entre as pernas. – Lili ronronava.
Começou a insinuar-se grosseiramente para a Lili, a única mulher sem namorado. Seus amigos cochichavam para que baixasse a bola. Aí é que o falso galo cantava mais alto. A Lili resolveu sair do barzinho ao que a criatura não se conformou e indo à direção da CB ameaçou riscar a moto com seu anel de ouro. O rolo estava formado.
Chegou a turma do deixa disso e quem te pede sou eu. Mas a Lili largou na frente:
— O dia em que precisar de homem para me defender eu não ando mais de moto!
O sacana levou a mão ao seu rosto num gesto de humilhá-la e subjugá-la. Lili abriu com o braço esquerdo retirando sua mão e como num raio enfiou a bota direita no seu escroto. O animal arrochou num gemido gutural e ajoelhou-se. Até touro que é touro se ajoelha. O cara quis erguer-se esbravejando impropérios de ruborizar dona de bordel. Foi então que Lili deu-lhe um potente soco na boca do estômago seguido de um direto no nariz. O sangue esguichou para todos os lados. E com a fera curvando-se Lili desferiu um gancho de direita no queixo e o cara tombou de costas. Friozinho. Desacordado. A boca cheia de sangue espumava. Socorrido pelos companheiros, custou a acordar. Nocaute mesmo. Aí chegou a Brigada Militar. Todos foram unânimes em explicar que:
— O cara tinha bebido demais e caiu de boca no chão quando queria subir na moto’. – dissemos quase em coro.
Soubemos depois que perdeu os dois dentes centrais superiores. Para os outros e a polícia ele também deu a mesma versão. Ficaria pior ainda um homem daquele tamanho ser surrado por uma mulher… Daí seu apelido de 3 Socos.
Respeitada. Admirada. Invejada. A Lili retornou ao sol e às praias do Rio com o fim do verão. Foi como uma ave de arribação. Uma bela e única ave. Escrevíamos-lhe cartas. Ela nos respondia. Eis que um triste dia veio a notícia – Lili da CB tinha morrido na serra de Teresópolis. Um caminhoneiro bêbado arremessou seu caminhão assassino contra um grupo de motociclistas. Ali também estava Lili. A sua manobra rápida desviou outros colegas da morte.
Lembro-me do que dizia: — A moto não é perigosa, o perigo está no piloto e principalmente nos outros.
A lembrança de um motociclista está no coração de quem o conheceu e nunca em nomes de ruas ou outras formas.
“ Saibam todos que lerem essas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas de Motocicletas, que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do Céu!” (Crônicas & Agudas da Primeira Capital Equipe) www.edsonolimpio.com.br
Passeata pelo Trânsito! Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas. Jornal Opinião de Viamão. 26 Setembro 2017.
02 out 2017 Deixe um comentário
Aqui está a continuação da Coluna iniciada com o tópico já publicado dos “3 Arcanjos”.
“Passeata pelo Trânsito”!
Sempre louvável toda a iniciativa que busque diminuir o extermínio de vidas no trânsito brasileiro. Fontes indicam mais de 60 mil mortes e incontáveis mutilados de corpo, mente e espírito, das vítimas diretas aos familiares, amigos e quem os ama. Morrem mais anualmente no trânsito brasileiro do que em seis anos de Guerra devastadora na Síria ou morreram de americanos na Guerra do Vietnam. Pois na manhã da última 6ª. Feira, dia 22 setembro, colegiais e membros da Secretaria de Educação desfilaram em passeata pela Avenida Américo Vespúcio Cabral e Cel. Marcos de Andrade, avenidas principais do centro da cidade – belo e motivador!
Há que ampliar essa incentivadora manifestação para atividades mais frequentes, práticas e contínuas. As autoridades de trânsito devem repintar ativamente as faixas de segurança e implantar novas com redutores eletrônicos de velocidade em pontos críticos, exemplo – defronte à Receita Federal e Complexo Realizare, onde ônibus, motos insanas e motoristas alucinados trafegam em velocidades similares da reta do autódromo de Tarumã. Os semáforos devem ser modernizados e atualizados, para motoristas e pedestres, com sinalizador de tempo restante de travessia e abertura. Refazer e melhorar a qualidade do piso para a circulação dos veículos, principalmente nas crateras abertas com a fragmentação do asfalto de qualidade duvidosa.
Atividades educativas com a presença física da autoridade policial e professores e estudantes para seu próprio uso e dos demais pedestres da sinalização, como local específico de atravessar, faixas de segurança, obediência aos sinais luminosos, evitar confraternização e atualização de rede social ao volante ou nas travessias. A correta utilização dos passeios e que as autoridades exijam calçadas adequadas e viáveis para seres humanos. Entidades de idosos e de pessoas com deficiências façam, como os estudantes antes referidos, atividades de orientação e disciplina em rodízio em várias áreas do município.
Vereadores, principalmente aqueles preocupados em aliviar as cargas fiscais de alguns, mas, no entanto, assim sobrecarregam outros, usem suas prerrogativas legais e usem ativamente seu corpo de apoiadores em constantes atividades para educação e conscientização no trânsito. Poderiam, nas mesmas leis que criam reduzindo ou isentando, que essas “isenções” e toda sorte de facilitações sejam ancoradas em serviços prestados à coletividade. Quem receber vantagens será porque deu “tantas horas de si” para a comunidade. Justo e humano. Nem de Deus se recebe benefícios e gratuidade com o trabalho e o esforço dos outros. Há que merecer e a troca por serviço comunitário é um caminho real. Leitor, pense nisso! Principalmente você que ainda pode ler e acredita em mudanças para melhor no país em frangalhos de instituições e de moral…
2017 – 09 – 26 setembro – 3 Arcanjos e Trânsito – EDS OLIMPIO – Crônicas & Agudas
Jornal Opinião de Viamão
A Outra! Edson Olimpio Oliveira. Crônica 4 da Série Moto! Paixão Eterna. 29 setembro 2017.
29 set 2017 Deixe um comentário
em Crônicas & Agudas - O Livro!
A Outra.
“ Saibam todos que lerem essas crônicas que existiu uma espécie fantástica de homens que pilotavam máquinas maravilhosas chamadas de Motocicletas, que rasgavam este planeta como cometas rasgando o manto negro do Céu!” (Crônicas & Agudas da Primeira Capital Equipe)
Sempre soube que isso poderia acontecer com qualquer mulher. Me doía na alma saber que alguma de minhas amigas foi traída. Outra vez, ajudei a reconciliar o casamento de minha irmã, pois o cretino do meu cunhado aprontou para ela. Mas isso acontecia sempre da minha porta para fora.
O nosso relacionamento sempre foi muito bom. Foi meu primeiro namorado e o meu primeiro homem. Eu jamais quis qualquer outro. Para ele eu entreguei meu corpo, meu coração e até minha alma. E ele sempre me retribuiu. Tivemos filhos. Dois. Com eles me completei como mulher e amadureci como pessoa. Como gente. Mas de uns tempos de para cá, cerca de sete meses, ele estava normal demais. Sabe como é? Muito normal. Pode parecer estranho eu dizer assim. Sei lá se era um sexto ou sétimo sentido. Mas alguma coisa havia. Podia ser somente encucação minha. Ou talvez essa tal de pré-menopausa em que a mulher começa a desconfiar de que já não sendo tão jovem, não possa continuar tendo os mesmos atrativos físicos e encantos para o seu homem. As rugas dos cantos dos olhos sempre me incomodaram e também sinto que a musculatura já não é a mesma.
Ele sempre me dizia: — Amor, nós fomos jovens juntos e vamos ficar velhinhos juntos, sempre nos amando e nos acarinhando.
Via a insegurança das minhas amigas e, verdade seja dito a maioria já estava no segundo ou terceiro casamentos, ou agora relacionamentos. Até isso mudou de nome e de convicção. Debitava esses sentimentos à minha insegurança. Sempre acreditei que se um homem tivesse outra mulher, o seu desempenho sexual se modificaria. Tanto em qualidade como em quantidade. Mas até por aí estava bom. Bom demais. Ele continuava me procurando como em nossa juventude. E eu por várias vezes, quando ele chegava muito cansado em casa, procurava-o até para testá-lo. E as nossas relações eram fantásticas. Pela manhã eu parava aos pés da cama e olhava nossos lençóis revoltos e aspirava o perfume de nossas marcas de amor. E viajava em minha imaginação até, subitamente, ser acordada de um sobressalto. Como se uma voz lá dentro me dissesse: — ele tem outra. Minha cabeça parecia enlouquecer e muitas lágrimas tempestuosas rolaram de meus olhos. Eu não queria permitir, mas, certamente, deixava transparecer minha angústia.
Ele me perguntava o que havia comigo. Eu só respondia: — Nada, Amor, estou cansada do serviço e preocupada com os filhos, sabe como é a escola, as drogas e as más companhias… Então ele me acomodava em seu peito, bem abraçadinha e beijava suavemente meus olhos.
Tentei largar mão disso. Mas não adiantava. Passei a controlar sua conta de telefone e ligava para seu celular em horários variados e inesperados. Nada. Cheirava e examinava suas roupas. Jamais encontrei marcas de batom ou perfume de mulher. Engraçado, algumas vezes elas estavam com cheiro de gasolina e com manchas de graxa. Ele alegava que era pelo carro que estava dando problemas. Mas nunca deu problema quando eu andava nele! E nem quando as crianças saiam. É assim, a gente continua chamando os filhos de crianças apesar de já estarem moços… E eu sempre afastei deles qualquer dúvida sobre o comportamento de seu pai.
As suas viagens a trabalho permaneciam iguais. Iguais demais. Sempre me telefonava da estrada e quando chegava. Mas não me convidava tanto como antes para acompanhá-lo. Dizia que a estrada estava muito perigosa e cansativa e que ficava mais tranqüilo comigo em casa cuidando da família. Mas isso não me convencia e era mais uma ponta de desconfiança. Atirava verde sondando seus amigos. Mas sabe como é homem, um sempre protege o outro. É uma confraria. Se bem que com mulher também não é muito diferente, não é? Telefonava para a portaria dos hotéis, mas eles sempre diziam que ele estava hospedado sozinho. Ou tinha engavetado os caras ou podiam se hospedar em apartamentos separados para não dar na vista…
Comecei a controlar seus extratos de conta e seus cartões de crédito. Então encontrei despesas inexplicáveis. Por mais que ele explicasse, havia gastos extras. Até uma quantia da poupança desapareceu. Ele explicou que tinha feito uma aplicação de risco na bolsa e estava aguardando a melhor hora para sacar. Ficava de mostrar os papéis e sempre esquecia (!?). Acho que já estava neurótica ou até paranóica. Sei lá. Que barra, meu Deus.
Dias que minha cabeça rodopiava. — Estás boiando na maionese? Sacudiu-me minha manicure. — Estou falando contigo a uma meia hora e tu parece estar em outro mundo, – arrematou.
Realmente, por muitas vezes eu estava em outro mundo. Um mundo de dor e incerteza. Sabia que aquilo estava destruindo nosso casamento. Minando nossa vida. O desastre estava prestes a acontecer. Eu sabia. Voltando de uma de suas viagens, fizemos amor no chuveiro e ficamos deitados no tapete por longo tempo. Ele me contando os detalhes da viagem. Eram detalhes demais. Na manhã seguinte, ele, como sempre, saiu para trabalhar e, como sempre, se despediu me beijando e jurando me amar. O que também fazia com freqüência exagerada. Esqueceu o leva-tudo. Invadi sua bolsa. Ali encontrei um chaveiro. Um chaveiro com uma única chave e um nome: Morgana. Berrei em prantos de fúria e tristeza. Como se um punhal, antes espetando meu peito, agora o rasgasse e arrancasse meu coração. Enlouqueci. Fiquei desatinada. Quando dei por mim já havia horas passadas.
A dor continuava, mas havia se transformado, em parte, na necessidade de flagrá-los. Esgotei as lágrimas. Sentia uma gana remoer minhas entranhas. Precisava planejar algo. Aquele maldito nome, Morgana, latejava em minha cabeça. Agora eu tinha certeza. Eu estava certa. Sempre soube. Como é que ele pode fazer isso comigo? Pensava. Pensava… Um turbilhão de sons e imagens me cegava os sentidos. Imagine só por um momento… Ponha-se no meu lugar… E se eu fizesse isso com ele? Não, eu nunca faria isso. Preferiria morrer antes a ter que trair alguém. Ainda mais ele.
Os dias seguintes foram um inferno. Planejei tudo para o fim de semana. Ele teria de viajar na Sexta. Certamente levaria a maldita consigo. Aí eu pegaria os dois. Eu tinha certeza que se falasse qualquer coisa para ele, ele negaria solenemente com aquela cara de insosso apaixonado. Se estava apaixonado por outra, por que não me disse? Seria muito mais digno e até normal. Deveria ser uma jovem de curvas torneadas e… bumbum rebitadinho. Sempre soube de suas preferências…
Manhã de Sexta. 9 horas. Pegou a pequena bagagem e saiu no carro. Dei um tempo e segui-o no carro de meu filho. Em vez de ele tomar o rumo da BR, seguiu para outro lado. Parou defronte um bloco residencial. Assim tipo estúdios. Uma garagem embaixo e o apartamento em cima. Típico ninho de casal sem filhos. Como um motel "residencial”… Coisa de doido! Buzinou três vezes. Só podia ser um código. Abriu uma porta menor no portão da garagem e entrou deixando o carro na rua. Fechou o portão. Saí rapidamente de meu carro. Colei o ouvido ao portão.
Escutei sua voz melosa: — Morgana, meu amor, que saudade que estava de ti. Cada vez mais sinto tua falta. Queria estar contigo todos os dias. Não consigo mais continuar escondendo nosso relacionamento. Quero contar para todos. Vou contar para minha mulher…
Foi aí que eu explodi e berrei a plenos pulmões: — Então conta, desgraçado! Traidor. Bandido! A porta abriu-se, lentamente. Ajoelhada, assisti os raios do sol esgueirarem-se refletindo-se em cromados. Cromados?! Sim, cromados extremamente polidos de uma motocicleta. Onde está a mulher? A desgraçada que me roubou o homem da minha vida? Não havia qualquer mulher em lugar algum. Com quem ele falava? Mas então… Acordei do pesadelo. Ele me arrancou da minha loucura. O chaveiro pertencia a Morgana, a motocicleta. Meu Deus, então Morgana… Morgana era a outra. Em seu tanque de combustível estava pintado seu nome e o meu dentro de um estilizado coração escarlate trespassado pela estrada da vida.
Por algumas dessas bobagens, eu sempre o impedi de ter sua moto, apesar de sua paixão. Mas ali estávamos nós nos confrontando com nosso destino. Realmente, ela é jovem e bela. Suas curvas são alucinantes. Seus faróis, como olhos cintilantes brilham, lampejam para mim. Ligada, sinto o bater ritmado de seu motor, como nossos corações e o calor que emana de seu interior.
Ele e Ela me convidam a passear. E nós três abraçados, saímos deslizando. Tal qual um bailado com corpos entrelaçados em paixão correspondida. Agora num triângulo. Triângulo não! Um quadrado amoroso perfeito e plenamente consentido e indivisível: Ele, Eu, Morgana, a nossa Motocicleta, e a nossa Vida, agora de volta.
2017-09-29 – Publicada na Série Moto! Paixão Eterna. Crônica 4
A Moto na História ou o Samba do Motoqueiro Doido! Série – Moto! Paixão Eterna. Crônica 3.
26 set 2017 Deixe um comentário
A Moto na História ou o
Samba do Motoqueiro Doido!
A madrugada já nos espreitava. Mas o companheiro continuava com o caneco de cerveja sendo brandido como bandeira desfraldada na mão direita. A lua manhosa, tendo nuvens a adorná-la como cabeleira prateada, como que insistia em continuar roçando-se nas marolas do Rio da Plata.
—- E saibam vocês que a Era da Pedra Lascada tem esse nome porque não havia pneu que agüentasse naquela época. Os caras além de enfrentar os dinossauros, que seriam como as carretas e jamantas hoje, também já insistiam que trail ou trilha é diversão. Vê se pode, meu? – argumentava o companheiro.
Estufou o peito aspirando e nevando de branco a ponta do nariz com a espuma:
— E a moto também está nas Sagradas Escrituras. Deus já tinha feito o Paraíso, o Adão e a Eva. E para complicar tinha a Serpente sempre botando minhoca. A dupla só queria se distrair comendo maçãs. Então Deus fez a moto. Fez atrasado, pois quando chegou o rolo já estava feito e ainda acabou com a briga do Caim e do Abel sobre quem pilotaria nos finais de semana. Depois teve a transa da Motocicleta de Noé. Era uma moto anfíbia gigantesca que salvou do afogamento uma pá de bonecos e uns bichos e bichas. Ai começou a bichice na história. – reuniam-se curiosos em torno do ‘orador’ que continuava:
— Dizem que o Maluf e a ex-Suplicy até estão pensando numa semelhante para as inundações em Sampa. Ainda nas Escrituras tem o caso de um tal de Moisés que saiu do Egito e foi para a Palestina. Daí deu origem ao Rally dos Faraós, Paris-Dakar e outros. E por sinal despertou o ciúme na região daí vindo a briga entre judeus e palestinos até hoje. A moto foi muito importante na Grécia antiga, tinham uns caras que moravam num morro chamado Olimpo, aqui seriam favelados, que queriam motocicletas só para eles e aí deu aquela briga da Motocicleta de Tróia que teve depois um parente no Brasil, outro Ulisses. Mermão, teve até um rei, tal de Nabucodonosor ou Trabucodonosor que fez seus jardins suspensos na Babilônia para ter estacionamento para sua coleção de motocicletas protegidas do sol infernal.
— O cara baixou o espírito do velho Rui Barbosinha em duas rodas – exclamou um companheiro enquanto procurava algo nos bolsos do colete repleto de adereços.
— As provas de supercross começaram em Roma no velho Coliseu, cara. Quem perdesse era devorado pelos leões. Parecido com o esquema do leão do imposto de renda por aqui. E vocês sabem como o Brasil foi “inventado”? Os espanhóis e os portugas queriam descobrir um caminho para trazer as motos orientais para o ocidente e a desculpa era de namorar as índias. Então numa dessas viagens os carinhas chegaram à Bahia, onde aportaram com o consentimento do ACM e com o trato de colocarem uma fitinha do Senhor do Bom Fim no punho da moto. Ainda tem o caso do Dom Pedro que soltou o berro no riacho Ipiranga empinando uma Ténéré e nos liberando de Portugal que se adonava de nossas motos e de nossas mulatas. E por falar em mulata, a tal de lei Áurea foi a liberação total da motocicleta para todas as raças. Legal, heim? – empolgava-se o nosso companheiro.
E com os lábios revestidos da deliciosa espuma da cerveja portenha, o companheiro com os olhos em transe continuava:
— O tal de Hitler se ferrou na Rússia porque insistiu em usar moto street na neve. Além disso, a gasolina congelava nos tanques. E Pearl Harbor? A eterna briga de Harley e Indian contra a Suzuki, Honda, Kawasaki e Yamaha. Que pauleira, meu! E até novos países surgiram por causa das motos, mermão. O veterano Quintino do Rio das Ostras enriqueceu exportando esses bichos para a Ostrália. E a moto no futebol? O Garrincha tinha as pernas tortas de tanto andar de moto, meu. – passou o antebraço na boca. O suor brotava de seu pescoço parecendo drenar das veias dilatadas. Pensei que ia parar. Enganei-me. Continuou:
—E o Pelé criou o gol de motocicleta, consagrou-se e até hoje continua botando as bolas para dentro. Dizem que é o maior consumidor do remédio que propagandeia. Acreditem se quiserem. Sabem o Denílson do Penta? Toda aquela habilidade de drible foi conseguida pilotando como motoboy em São Paulo. Mas é a vida, meu. Cerveja é moto engarrafada. E se o “companheiro” Lula aproveitasse a barba, fizesse algumas tatuagens e pilotasse moto já seria presidente, ainda mais com o apoio dos mais de 10 milhões de bauzeiros, motoqueiros e motociclistas e mais cinco votos que cada um representa. Principalmente se contasse com a bênção do grande Pateta dos Abutres. E ainda fazendo a reforma motoagrária! Todos deveriam ter acesso à moto e tem gente com moto demais e outros sem nada. Os políticos deveriam criar um Programa de Apoio a Moto, financiamento em dez anos, sem juros e sem entrada, assim a fundo perdido tipo negócio de governo com bancos. Aí periga aparecer algum PC Farias ou Valdemar Dinis ou mensalão. Enquanto isso alguns curtem a motovirtual (alô Adams) que foi pra isso que inventaram a internet, pô meu!
Apesar da sonolência estar “capotando” a sua platéia agora restrita ao garçom e dois outros motociclistas, o homem continuava seu discurso, ou melhor, moto-discurso:
— Mermão, moto é a mulher que deu certo. Com todas as vantagens, meu. Só fala e berra quando a gente aperta o botão e dá partida. E sem sogra, nem cunhado. E dá mais uma aí, meu, vamos tomar a saideira que amanhã (hoje) temos um bom encontro para curtir e depois afinar nossas máquinas na estrada. – arrematou com os olhos avermelhados e vidrados.
E, segundo outro companheiro, existem dois tipos de seres humanos: os que amam motocicleta e os que ainda não sabem que amam. Em tempo, o motociclista autor do discurso acima ainda menciona que o garçom que atentamente lhe escutava, também é cantor de tangos e bailarino no Caminito e que quer a sua “autorização para fazer desse samba um gardelaço, isto é, um tango a la Gardel”. Pode? É difícil controlar o homem!



