Auguste de Saint-Hilaire II – Vitor Ortiz e colaboradores Eliani Vieira e Xico

AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE II

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O francês conhece os rigores

do Minuano na chegada a Viamão

Depois de percorrer o litoral entre Torres e Tramandaí, onde pernoitou, o viajante chega a Lagoa dos Barros, entre Osório e Santo Antônio da Patrulha, sem identificar exatamente em qual estância pernoita. Ele escreve sobre os butiazeiros, as pastagens, as pessoas e se deslumbra com a “bela vista”.

Ao deixar Tramandaí no dia 13 de junho de 1820, o botânico francês Auguste Saint-Hilaire estava impressionado com os rigores do vento minuano, que já era assim denominado à época, uma referência à tribo indígena predominante no Uruguai e sul do Rio Grande do Sul: “ontem à tarde o vento diminuiu por alguns instantes, tendo recomeçado com grande intensidade para durar toda a noite, e todo o dia, acompanhado de frio excessivo”. Ele vinha descendo pelo litoral desde o dia 5, quando atravessou o Mampituba e chegou a Torres, depois a Tramandaí.

Saint-Hilaire descreve a paisagem que encontra ao adentrar em direção a Viamão: “nos deparamos com uma planície muito uniforme e coberta de uma relva rasa, onde pastavam muitos bovinos. Ali notavam-se também alguns grupos de árvores raquíticas, esparsos”. Por certo ele estava se referindo à região entre o litoral, Osório e o rio Capivari, embora ele não chegue a referir esse rio, o que dá a entender que teria percorrido um caminho mais próximo da Serra do Mar. “O lago e a serra, que avistamos de longe, quebram um pouco a monotonia,” anotou (p.36), complementando: “pouco a pouco os grupos de matos tornam-se mais numerosos e a erva mais espessa”.

Ele registra em seu diário que tais campos, e os que vem atravessando “desde Torres, têm o nome de Campos de Viamão, devido à proximidade da paróquia de mesmo nome" (p.38). Nessa época, em geral, ainda era comum chamarem de Campos de Viamão toda essa região leste do Rio Grande, incluindo Porto Alegre, Gravataí e inclusive o Vale dos Sinos, até Triunfo e a divisa com Rio Pardo. A denominação é a mais antiga para toda a área Norte da Lagoa dos Patos. Para que se possa ter uma idéia, os lagunenses que vieram na tropa de João de Magalhães chegaram a essa região em 1725, quase cem anos antes dessa passagem do botânico.

No dia 15 de junho, o francês se aproxima dos limites atuais do território de Viamão, mas ainda está numa estância que não denomina em seu relato. Saint-Hilaire apenas descreve o que encontra: “uma casinha mal construída, de pau a pique e barro, mas coberta de telhas. Ao redor viam-se várias carroças; aos lados, laranjeiras, currais e algumas casas de negros”. Ali passou a noite. No dia seguinte (16 de junho), ele já está noutra estância, que pelo título do capítulo anotado por Saint-Hilaire, deduzimos chamar-se “Pitangueiras”. Ele anota que, ao conversar com seu hospedeiro, esse explica que a cultura dominante nas cercanias é a mandioca e que a terra é lavrada a arado e semeada a mão.

Depois de ensinar alguns homens que encontrou nesta estância a jogar dominó, ele os descreve: “eram todos brancos e tinham mais ou menos a aparência e os modos dos nossos (franceses) burgueses do campo. Todos traziam calça de algodão ou de lã, botas, esporas de prata, uma jaqueta também de lã e por cima um poncho" (p.38).

Ele registra seu deslumbramento com a paisagem que avista desse ponto:

– Nada é tão belo como os campos hoje percorridos. Os de Curitiba são ondulados e os grupos de araucárias que se vêem nos fundos tornam a paisagem um pouco austera. Aqui o terreno é mais uniforme (…) com pastagens a perder de vista. Todavia nada há de monótono no aspecto desse campo, animado que é por uma multidão de animais de criação, eqüinos e bovinos. Descreve ele, acrescentando que na volta estão moitas de matos e que, de tempos em tempos, no percurso, se notam trechos do lago que os persegue desde de Itapeva. Ele imagina que as muitas lagoas da costa são uma só. Depois foi descobrir que esta última que avistava era a Lagoa dos Barros.

BUTIÁS

Deixando para trás o que agora chama de “Fazenda do Arroio”, o francês registra uma travessia por um “campo semeado de butiás, onde o terreno mostra uma mistura de areia e humus quase preto”. Ele constata que a presença dos butiás coincide com a de outras plantas: “…a Rosácea, a Labíada e a Verbenácea”, por exemplo, não encontradas onde não há butiazeiros. “Onde deixei de encontrar butiás, a terra apresentou-se menos silicosa e os pastos eram principalmente de gramíneas, dispostas em tufos espessos.” Na forma do famoso cocuruto que traí os goleiros nos campos da várzea.

CONTEXTO DA ÉPOCA

Em 1820, Dom João VI ainda está no Rio de Janeiro, cidade declarada por ele como sede do novo Reino de Portugal, Brasil e Algarves, mas estoura em Portugal a Revolução do Porto, que exige o seu retorno. As cortes, uma assembléia do reino que há 120 anos não era convocada, foi chamada para deliberar sobre uma nova constituição. Na prática, a nobreza e as elites portuguesas estavam conspirando para levar de volta a Portugal o centro do reinado, trazido para o Rio de Janeiro com a fuga da família real em 1808. Ao mesmo tempo, “com quase meio século de atraso, Brasil e Portugal eram finalmente capturados pelos ventos soprados nos Estados Unidos (com a independência), em 1776, e na França (com a Revolução Francesa) em 1789,” conforme classifica Laurentino Gomes no livro 1822 – Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado (p. 86). Ventos estes que colocaram os reis do mundo ocidental em xeque, e alguns em xeque-mate.

DEPOIS DA FUGA, A RECONCILIAÇÃO COM A FRANÇA

Neste ano em que Saint-Hilaire está no Brasil, a França está sob o regime de uma monarquia constitucional, com o trono restaurado a Luís XVI depois da derrota de Napoleão. Dom João, que havia deixado Portugal justamente fugindo de Bonaparte, agora tem muito interesse em melhorar e renovar sua relação com Paris. Essa é uma das razões de ter dado permissão a viagem expedicionária do botânico que nesse momento cruza os Campos de Viamão.

Notas:

*Fonte: SAINT-HILAIRE, Auguste de, Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821). Companhia Editora Nacional. Tradução do original (1839) de Leonam de Azeredo Pena. São Paulo, 1939 (2a. edição). Consulta em Brasiliana Eletrônica (www.brasiliana.com.br).

*Apoio na pesquisa: Eliani Vieira

*Ilustração: Xico

Viamão – Histórias de sua História – Vitor Ortiz e colaboradores: Eliani Vieira e Xico.

Caríssimo Dr. Edson,

Segue o primeiro artigo que, já revisado para outras publicações. Disponibilizo para o seu blog.

Se julgares melhor ir publicando aos poucos, vou enviando os demais à medida em que conseguir revisá-los. Talvez na freqüência de um por semana (não sei se isso é bom pra vc).

Este primeiro revisei agorinha mesmo pra te enviar.

Por favor de os créditos para

PESQUISA: Eliani Vieira e ILUSTRAÇÕES: Xico

Me confirme o recebimento.

Grato

Vítor Ortiz

(51) 9603.8565

 

DA SÉRIE

Viamão – Histórias de sua História

 

Autor: Vítor Ortizclip_image002AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE I

 

O botânico francês

que descreveu Viamão de 1820

 

Para ter uma idéia do que havia em Viamão no início do século XIX, época de Dom João VI e Dom Pedro I, vamos visitar a descrição dos então chamados Campos de Viamão narrada pelo expedicionário Auguste de Saint-Hilaire que percorreu o caminho entre Torres, Osório, Tramandaí, Viamão e Porto Alegre há cerca de 200 anos.

 

Uma das delícias do fazer do historiador é a descoberta do passado aparentemente inacessível, o que ocasionalmente é possível, inclusive em detalhes, quando as lentes documentais permitem que o nosso olhar ultrapasse as barreiras cronológicas, como na clássica viagem pelo Túnel do Tempo (seriado que fez grande sucesso na televisão nos anos 70). O túnel do historiador é composto de suas fontes documentais e a sorte é grande quando, para investigar o passado, encontra-se um relato sobre a época que está sendo estudada, produzido por alguém que lá esteve em data remota.

 

É essa uma das riquezas dos registros que o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire fez na obra Viagem ao Rio Grande do Sul, publicada em 1939, na França, parte de todas as anotações deixadas por ele sobre sua longa viagem de seis anos pelo Brasil, onde percorreu desde os sertões nordestinos até o pampa, no extremo sul, incluindo a então Província Cisplatina (Uruguai), entre 1816 e 1822. Para a história de Viamão, os registros de Saint-Hilaire são como a carta de Pero Vaz de Caminha para o Brasil ou, com os devidos descontos, a Odisséia para a história da Grécia clássica. Ou seja, o mais importante, e também antigo, relato escrito sobre o lugar.

 

Durante o século XIX, especialmente os franceses realizaram diversas expedições científicas e artísticas nas américas, continente que, para a Europa, ainda era um mundo novo e pouco conhecido. Saint-Hilaire desembarcou no porto do Rio de Janeiro em 1816, no mesmo ano da Missão Francesa liderada por Joaquin Lebreton (um dos estruturadores do Museu do Louvre na era napoleônica), que por sua vez trouxe consigo diversos artistas renomados na Europa para pintar o Brasil e fundar aqui uma academia de artes e ofícios, a primeira do país, nos moldes de uma universidade, a exemplo da Academie Royale, de Paris. Na órbita de ambos, de Saint-Hilaire e de Lebreton esteve a intermediação direta ou indireta do grande expedicionário alemão Alexandre Humboldt, que auxiliou tanto a um como a outro, intermediando as relações com a corte portuguesa no Brasil para que as iniciativas fossem autorizadas. Humboldt havia realizado uma extraordinária expedição exploratória de pesquisa pela América entre 1799 e 1804, cujos relatos foram sintetizados no memorável livro Viagens intermináveis pela América do Sul, tornando-se um dos europeus mais famosos da época, atuando inclusive como embaixador e como mecenas de importantes artistas..

 

O PAI DO FRIO

Na última etapa de suas viagens pelo Brasil, Auguste Saint-Hilaire percorreu o Rio Grande do Sul e o atual território do Uruguai descrevendo o dia-a-dia da viagem, os detalhes da paisagem, o clima, a gente que encontrou, alguns hábitos como o mate, a vegetação, a economia do gado, as plantações, os povoados e a arquitetura. O marco de sua viagem para este trabalho é sua passagem por Viamão e a descrição pormenorizada que fez das estâncias, da paisagem e inclusive da Igreja Nossa Senhora da Conceição.

 

No dia 05 de junho de 1820, a expedição de Saint-Hilaire ultrapassa o rio Mampituba (que ele anota e explica significar na língua indígena “Pai do Frio”), antigo limite a sul do território português nas américas, entrando na “Capitania do Rio Grande”. Uma légua depois, avista Torres, “chegando aos montes que têm esse nome”. Ele conta que, nessa época, haviam iniciado ali a construção de uma igreja (a de São Domingos, inaugurada em 1824) a partir da idéia de ai instalarem uma paróquia, o que equivalia a criação de um município. Para acessar ao serviço religioso, os moradores de lá tinham que percorrer nessa época cerca de 100km até a paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Arroio (atual município de Osório).

 

Ele narra o que percebeu na paisagem dizendo de início que, “de Laguna até aqui (Torres), a costa é muito baixa e muito castigada pela fúria de um mar perigoso para as pequenas embarcações…”. Conta ainda que estavam construindo nesse lugar também um forte, onde trabalhavam 30 prisioneiros da batalha de Taquarembó (dos quais 29 eram índios). Tal batalha, ocorrida naquela época, segundo anotações do próprio botânico, teria resultado na morte de cerca de 500 homens do exército de Artigas e outros 400 presos pelos portugueses. Referindo-se aos índios, Saint-Hilaire diz que a maior parte do grupo mostra traços de sangue espanhol:

 

       Uns vieram das Missões, outros de Entre-Rios e outros do Paraguai. São baixos, têm o peito de largura exagerada, os cabelos negros e lisos, o pescoço curto… Descreveu-os.

 

LAGOA DO INÁCIO

Seguindo viagem em direção ao Sul, Saint-Hilaire chegou a um “grande lago”, segundo sua descrição, “que chamam de Lagoa do Inácio”. Ele constata que as culturas de plantio no sitio que se localiza na margem oposta é principalmente de subsistência – o milho, a mandioca e o feijão – tendo também o proprietário do sítio uma grande plantação de cana para a produção de água ardente. Afirma ainda ter visto algodoeeiros ao redor das choupanas onde pernoitou.

 

TRAMANDAÍ

No dia 11 de junho ele chega a Tramandaí, cujo nome advém do rio (na verdade um braço que liga uma das lagoas do litoral ao mar) que desemboca no oceano nessa altura do trajeto da viagem. “O terreno é o mesmo de sempre, arenoso e chato, apresentando pastagens semeadas de moitas e cobertas de uma erva espessa e amarelada. Vemos intermitentes trechos do lago, mas depois do Sítio do Inácio as montanhas (da Serra do Mar) se distanciam e tomam a direção sudoeste.”

 

Novamente ele encontra índios aprisionados sendo escoltados em direção a Torres. E observa que, “depois da saída dos jesuítas, os índios das Missões ficaram entregues aos soldados e homens corrompidos, vivendo atualmente da pilhagem, no meio das desordens da guerra, não sendo de admirar que suas mulheres não mais conheçam o pudor” (p. 32).

 

Notas:

1- A Missão Francesa chegou ao Rio em março de 1816 e resultou na criação da Academia Real de Belas Artes no Rio de Janeiro. Fizeram parte do grupo trazido para o Brasil alguns expoentes das artes e ofícios, como o pintor neoclássico Jean-Baptiste Debret, Auguste-Henri-Victor Grandjean de Montigny (arquiteto), Auguste Marie Taunay (escultor), Charles Simon Pradier (gravador), os irmãos Marc e Zepherin Ferrez (escultor e gravador), entre outros mestres de ofício. Sua chegada está relacionada a presença da família real e à transferência da corte para o Brasil em 1808, o que trouxe também a necessidade de estruturação da ex-colônia, copiando o modelo europeu.

 

2- Baseado na obra Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821), segunda edição da tradução de Leonam de Azevedo Pena, Companhia Editora Nacional (1939), disponível no acervo digital da Brasiliana (www.brasiliana.com.br).

 

A dor que aprisiona – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 04 Novembro 2014.

 

2014 – 11 – 04 Novembro – A dor que aprisiona – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

A dor que aprisiona

 

S

e “a dor ensina a gemer” também nos mostra os caminhos de humildade, de fé, de respeito e de mostrar-nos humanos e limitados. A dor é a manifestação de que algo não está bem com nosso corpo. É o sofrimento de algum órgão ou parte do corpo que nos avisa pela dor. No entanto quantas vezes a dor é a enfermidade principal. Mesmo secundária a alguma moléstia, enfermidade ou dano. A dor torna-se a entidade principal, preponderante, sufocante da vida e da liberdade da pessoa. Cada “pé conhece o sapato e local onde lhe aperta”, em outros termos, cada um sabe do seu sofrimento e da dor que lhe acompanha. É comum que o médico peça ao paciente para dar uma nota de 1 a 10 da “sua” dor e em muitas unidades de tratamento a medicação analgésica é disponibilizada por essa nota pessoal. Observe: nota pessoal. Cada pessoa tem os seus limiares de dor ou de suportar a dor. Aquilo absolutamente terrível para uns pode não ser para outros.

 

Cr & Ag

 

Há dores que ofendem ao corpo, outras que laceram a alma. Muitas tiram da pessoa a sua graça e alegria de viver e nesse balanço muitos se digladiam entre sentimentos negativos de vontade de morrer ou de antecipar a morte. Vendo na morte a saída honrosa (ou não) do brutal sofrimento. “Deus dá a cruz de acordo com as costas pode carregar” apregoa a fé cristã. Há momentos em que o sofrimento faz com que a pessoa na dor extrema do corpo lacerado e da alma abandonada perguntar: – “Pai por que me abandonaste!” – o mais puro e evoluído espírito que já singrou esse planeta de dor levantou os olhos aos céus e fez essa pergunta humana. Há que respeitar o sofrimento das pessoas e essa é a condição básica em ser médico. Na origem da palavra está a capacidade e necessidade de aliviar a dor e o sofrimento. Curar é secundário na escala, na hierarquia da dor.

 

Cr & Ag

 

Parece acontecer geralmente o contrário naqueles doentes que já passaram por diversos médicos e outros profissionais da saúde ou até da espiritualidade e infelizmente não encontraram o fim do sofrimento. Muitos desses profissionais, assim como até o sofredor, acham-no “desenganado”. Acumulam-se sacolas de exames, dezenas de receitas, peregrinação sem fim e a cruel companheira (a dor) permanece ao seu lado, na frente e atrás, dentro de si dia e noite, horas sem fim, azedando e tisnando o horizonte do sofredor. Quantas criaturas andam assim perambulando pelos consultórios, clínicas diversas, hospitais, templos religiosos e curandeiros? Quantas pessoas perdem a sua vida pessoal, familiar, profissional e social? E perdem até a fé na espiritualidade por se sentirem abandonados e minimamente aliviados do sofrimento. Essa fase derradeira espelha o pior da degradação da alma diante da dor.

 

Cr & Ag

 

A dor ensina que pudor é contingência da saúde. A enfermidade torna-nos devassáveis a quaisquer mãos, olhos e instrumentos que possam auxiliar no diagnóstico, no alívio do sofrimento e talvez na cura. E são as UTI esses templos que as horas se arrastam interminavelmente, como o companheirismo e irmandade do sofrimento e das visitas esperadas da morte. O lugar que é o último reduto da vida é também a antessala da morte. Travamos a batalha final da grandiosidade da vida e da morte, do valor da saúde e do entendimento que orgulho, riqueza e poder tornam-se meras secreções finais de uma alma sombria diante do retardado, mas inevitável a ser enfrentado, mesmo nos derradeiros momentos, com amor, gratidão e fé. 

Refém do Medo – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 28 Outubro 2014.

2014 – 10 – 28 OUTUBRO – Refém do Medo – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Refém do Medo

 

O

 medo é uma manifestação natural, um sentimento intrínseco do animal que somos, uma defesa que nos avisa e protege do perigo ou de qualquer coisa que possa nos magoar ou ofender mental e fisicamente. O medo exercitou nossas habilidades e estratégias de sobrevivência entre os dinossauros, nas savanas africanas ou nas selvas de concreto e plástico. Esse é o medo que nos interessa e empurra-nos a evoluir, no entanto em quantas e diversas situações somos vítimas da manipulação interior e exterior desses medos. Evitaremos de aprofundar uma classificação psicológica dos graus do medo e vamos enveredar pelo caminho do medo que nos aprisiona, que nos laça e garroteia, que nos torna submissos e, pior ainda (muito pior!), submissos àqueles que nos manipulam nas brechas das nossas fraquezas.

 

Cr & Ag

 

A mulher que é espancada frequentemente está nesse cenário do medo que constrói fantasias e armadilhas que buscam justificar para si e para os outros as surras que leva. Exemplos de desculpas: “eu tiro ele do sério”; “ele é muito bom, mas quando bebe…”; “está com problemas no serviço”; “ele puxou esse gênio da família dele”; e quantas outras atenuações. A sabedoria popular acredita que até apanhar “vicia” e lembra-se a anedota do português Manuel que morreu e deixou a Maria de viúva depois de quase cinquenta anos de surras. Contam que tempos depois da morte do Manuel os vizinhos escutavam barulhos de surras e a Maria gemendo. Pensaram inicialmente em fantasmas e assombrações até que vencendo seus ‘medos’ foram espiar pelas frestas da casa e viram a Maria jogando os tamancos do Manuel para o alto e aparando-os nas costas já bem lanhadas.

 

Cr & Ag

 

O medo do quarto escuro ou da escuridão faz a criança mais cautelosa e arisca. Logo esse medo pode se transporta para a escola nova ou para uma turma onde será vítima ou mentor do exercício do medo. O medo nas escolas ocupa um magnífico capítulo de variados matizes como o medo de tantos professores em querer disciplinar seus alunos diante do abuso de legislações oriundas da vontade exitosa de mentes que destroem a família, a moral e os pilares do convívio social. Isso não ocorre por mera casualidade, isso está dentro de um contexto em primeiro arrasar as estruturas naturais e vigentes na democracia para a seguir implantar (pelo exercício do medo) as ditaduras. Aumentam os temores de professores, que ainda são realmente professores, de atuarem para educar os jovens privilegiados e intoxicados pelas cotas.

 

Cr & Ag

 

Há cerca de 4 a 5 vezes mais seguranças privados no país do que soldados no Exército. Gasta-se bilhões na segurança privada, do cão ao alarme de penúltima geração. Isso cresce vertiginosamente pela absoluta sensação de insegurança (medo!) das pessoas honestas. As casas tornam-se jaulas que aprisionam o homem e permitem a liberdade das feras. “A Brigada prende e o delegado solta”; “o delegado prende e o juiz solta” – o resumo macabro de tudo isso é que o criminoso será solto. A poucos dias um “estuprador primário” preso em fragrante com seu comparsa foi liberado para “responder em liberdade o processo” pela “autoridade judicial”, noticiou a imprensa. Assim parece que o primeiro estupro é normal para quem o liberou.

 

Cr & Ag

 

Estou enviando essa crônica sem saber o resultado do pleito eleitoral e assim também não sei se o medo venceu ou…

As tormentas e Santa Bárbara – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 21 Outubro 2014.

2014 – 10 – 21 OUTUBRO – Oração de Santa Bárbara – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

As tormentas e Santa Bárbara

 

M

inha amada mãe Dora era católica e sua fé fez milagres. Como com este seu filho que estava “desenganado e mandado do hospital para morrer em casa” sendo essa passagem já conhecida de muitos que me acompanham nestes quase vinte anos de cronista. Estamos numa estação, a Primavera, caracterizada pelas tormentas com chuvas intensas, raios e trovoadas. A Primavera é daquelas damas bipolares e de intensa TPM, pois de um dia luminoso com as flores de cenário e os pássaros em alegre cantoria sendo os atores acompanhados de perfumes. Pois sem mais nem menos, o céu escurece e parece que vai desabar em nossas cabeças ou para lavar nossos pecados. Nasci e morei ali onde é a sede atual do PTB, junto à praça. E minha mãe nas tormentas distribuía panelas e latas para aparar as goteiras do telhado. Um lençol cobria o espelho da penteadeira para não atrair raios. Colocava os filhos sob a sólida mesa da cozinha para proteger caso o telhado desabasse. Queimava um ramo de palmeira abençoado no Domingo de Ramos e com o terço entre os dedos, orava. Guardo no coração essa imagem.

 

Cr & Ag

 

O Domingo de Ramos é o domingo anterior à Páscoa, Desde a véspera, o povo estava em preparativos. Logo uma grandiosa procissão e entre outras devoções, as crianças empunhavam um ramo de palmeira, que ao final na Igreja seria abençoado e guardado nas casas para ser usado nas tormentas atmosféricas. Não recordo da prece usada na época, mas busquei no doutor Google esta oração:

Oração de Santa Bárbara

“Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura. Ficai sempre ao meu lado para que possa enfrentar de fronte erguida e rosto sereno todas as tempestades e batalhas de minha vida, para que, vencedor de todas as lutas, com a consciência do dever cumprido, possa agradecer a vós, minha protetora, e render graças a Deus, criador do céu, da terra e da natureza: este Deus que tem poder de dominar o furor das tempestades e abrandar a crueldade das guerras. Por Cristo, nosso Senhor. Amém”

 

Cr & Ag

 

Muitos conhecem o ditado popular de a criatura em desespero ou sob ameaça “somente se lembra da Santa Bárbara na hora de tormenta”. O Domingo de Ramos festeja a entrada magnífica de Cristo em Jerusalém, logo após ressuscitar Lázaro. E o mesmo povo alguns dias depois estaria crucificando-O. É uma festa importante na cristandade. No império russo cabia ao tzar encabeçar a procissão até à Igreja. A história da jovem Bárbara que se tornou santa é empolgante, como tantas outras da fé cristã.

 

Cr & Ag

 

Estamos sob uma severa tormenta política. Quanto menos dignidade e ética mais tentam destruir a honra alheia. Princípios de poder a qualquer preço imperam ante um projeto de nação, um modelo de país e de exemplos para as gerações atuais e seguintes. Oremos para que os melhores ganhem, mas oração sem a razão básica e elementar continuaremos elegendo o ruim. Que a próxima segunda feira seja de uma Primavera sem as tormentas e decepções que conhecemos. A busca do acerto em um novo erro é imensamente melhor do que persistir no erro antigo, chafurdando na vergonha dos escândalos intermináveis e do cidadão refém da bandidagem.

 

Parábolas ou Causos – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 14 Outubro 2014

2014 – 10 – 14 OUTUBRO – Parábolas ou Causos – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Parábolas ou Causos

 

Cenário 1. Uma multidão de pessoas estava à beira de um rio traiçoeiro. Precisavam cruzá-lo de qualquer maneira. Poucos barcos e a maioria em mau estado. A elite governante atravessou embarcada numa bela lancha com incontáveis mordomias a bordo. Aos demais distribuíram latinhas para retirarem a água das canoas enquanto atravessavam remando. Alguém disse: – a estrada é ruim, mas tem uma ponte bem lá em baixo. A turma se dividiu, muitos embarcaram nas canoas sabidamente furadas e os demais foram pela estradinha buscar a ponte. A elite governante atravessou em festa o furioso rio. A maioria das canoas furadas naufragou pois os ocupantes não deram conta de esvaziar a água que teimava em entrar. O pessoal da suposta ponte passou trabalho na estrada mal cuidada pela elite governante, mas encontrou o pontilhão e atravessou o rio.

 

Cr & Ag

 

Cenário 2. O novato adentrou os portais do inferno e logo nos primeiros salões encontrou multidões mergulhadas em enormes piscinas de estrume. Mais fétido e cheio de moscas e vermes que você possa imaginar. O novato via aquele pessoal pedir que ninguém se mexesse pois as marolas de estrume logo lhes tapava a cabeça e entrava pela boca e narinas, mesmo estando nas pontas dos pés. Volta e meia alguém sussurrava: – Olha a onda! – e lá vinha mais estrume. Angustiado com a situação o novato perguntou-lhes porque não saiam dali e procuravam outro lugar. A resposta era sempre a mesma: – Neste estamos e conhecemos a merda há mais de uma década e vai que no outro é pior que aqui! – e ficaram ali. Logo nos pavilhões a frente o pessoal fazia bailes funk, bebia uísque 25 anos, comida rolava, mulheres cinco estrelas e tudo de bom, gostoso e luxúria total. E ali o novato ficou para ser seduzido e torturado.

 

Cenário 3. Três amigos viamonenses nos tempos de antanho foram caçar perdizes, cerca de um dia de viagem de Viamão – ou do Capelão. Nas carroças estavam as criaturas, seus cães perdigueiros e o resto da tralha. Um dos amigos tinha fobia. Pior ainda, terror mórbido por cobras. No anoitecer estava um deles defecando escorado num tronco de figueira quando passou-lhe perto uma enorme e roliça cobra preta. Certamente fugindo do cheiro dele. Mais depressa que um corisco, deu uma paulada na cabeça da cobra matando-a. Enquanto terminava a obra sua mente tecia um golpe no medroso amigo. Combinou com o outro. Após a janta e uma conversa apagaram os candeeiros e foram dormir. Esperaram que o medroso começasse a ressonar e deram-lhe uma garfada no pé após deitarem a cobra enrolada aos pés da cama. O medroso acordou-se num griteiro e acenderam um fósforo e viu-se a enorme cobra preta que logo foi triturada e amassada a pauladas pelos “fieis” amigos. Tomado pelo pânico de ter sido picado queria voltar, mas os cavalos estavam soltos no campo. Era choro e ranger de dentaduras e pivôs. Eis que um dos amigos falou que sabia de um antigo remédio que seu avô tomara em semelhante situação. O medroso exigiu que contasse apesar da sua negativa. Seria um chá com verdes e estrume de cachorro. Novamente chorando e com dor já paralisando a perna e outras partes do corpo, exigiu o chá com cocô de cachorro. E como a coisa custasse a ficar ponta na fervura, pegou algumas fezes mais endurecidas e começou a mastigas e comer “para adiantar o efeito”. Ao saber pelos amigos da onça da maldita brincadeira, quase deu morte na caçada e as famílias ficaram inimigas pelo resto dos tempos.

 

Cr & Ag

 

Deus escreve certo pelas linhas tortas que a humanidade traça. A leitura e os ensinamentos dos fatos e episódios da vida são da capacidade de cada criatura. Uma certeza – nem sempre os laureis acadêmicos e os títulos fazem as pessoas mais aptas ou mais nobres. Outra certeza – os vermes habitam e regozijam-se no lixo e nos restos da dor e do sofrimento de suas vítimas.

Peixes & Lágrimas – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 08 Outubro 2014

2014 – 10 – 08 Outubro – Peixes & Lágrimas – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Peixes & Lágrimas

 

A

ssim como muitos vocês amigos e-leitores dessa sempre magnífica e indispensável (meus trezentos leitores acham!) coluna estou intoxicado pela propaganda eleitoral. Os gases exalados ou eliminados soam como muitas siglas. Escrevo enquanto você ainda coloca o voto na urna eletrônica tão confiável quanto, quanto… Talvez o peixe panga? Não conhece o peixe panga? Você come peixe? Qual? Pois muitas pessoas perguntam ao médico sobre esse tal de “peixe panga” vendido nos mercados. Muitos já consultaram o doutor Google e trazem lendas urbanas ou realidades assustadoras. Os caminhos de uma vida mais saudável passam necessariamente pela mudança de hábito alimentar e a ingestas de peixes e frutos do mar estão nessas prioridades. Sabe-se que esse peixe é importado do Vietnam, sendo fundamental nas divisas econômicas daquele país. É vendido aqui no Brasil muito mais barato que a grande maioria dos outros.

 

Cr & Ag

 

Diz-se que os volumes importados são maiores do que 50% da maioria dos pescados nacionais. Muitos acreditam estar contaminados por metais pesados e outras substância tóxicas além de possuir um parasita com potencial danoso ao ser humano se consumido em carnes mal cozidas ou mal assadas. Alega-se que uma pesquisa da Proteste de 2012 não encontrou nada desabonador e que três missões do governo brasileiro visitaram o Vietnam e liberaram a importação e consumo. Aqui está o nó da questão. Há diferenças nos veículos e nos alimentos vendidos na comunidade europeia e nos Estados Unidos em relação ao Brasil. Para pior aqui. As nossas autoridades e o nosso governo são confiáveis? Ou não controlam ou dizem que nada sabiam. Não passam três meses sem que um novo escândalo do leite aconteça no Rio Grande do Sul. E quantas indústrias precisam ser fiscalizadas? E controlarão a produção num país do outro lado do mundo?

 

Cr & Ag

 

Lembrem-se das próteses de silicone francesas que usavam silicone ou outros produtos inadequados? Várias dezenas de milhares foram colocadas no Brasil. Deu em que além do prejuízo dos pacientes? E estavam autorizadas e liberadas pelo nosso governo. Ainda mais produtos vindos de um país socialista ou comunista na sua origem antiamericana. Esse governo preza mais a sua ideologia do que a saúde dos brasileiros. A mesma ideologia que sustenta ditaduras, como em Cuba, retirando da lei a avaliação real de “médicos” escravos trazidos para cá ou que discursa na ONU defendendo o terrorismo.

 

Cr & Ag

 

Há três tipos de lágrimas, segundo o Filósofo do Apocalipse: as lágrimas de dor, as lágrimas de alegria e as “lágrimas de crocodilo”. Há candidatos e cãodidatos. Você está derramando alguma lágrima? Qual delas? O que está ruim ainda pode piorar? Ou irá melhorar? Ou as lágrimas são pela absoluta perda de esperança nessas criaturas que buscam o poder pelo poder de locupletar-se e aos acólitos e partidos? Santa Catarina está em chamas aqui ao nosso lado. O caos da segurança pública! Onde não existem mais delinquentes ou bandidos e sim membros da comunidade em mais uma vergonhosa manipulação da mídia e do politicamente correto. País em que o governo valoriza mais o bandido julgado e condenado do que o cidadão que trabalhou e contribuiu toda sua vida para o INSS e para o Brasil… Vejam as aposentadorias do cidadão normal e trabalhador e compare com… Você sabe!

Na responsabilidade de educar – Amor e Dor – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 30 Setembro 2014

2014 – 09 – 30 Setembro – Na responsabilidade de educar – Amor e Dor! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

Na responsabilidade de educar – Amor e Dor!

 

A

precio muito conversar com pessoas anônimas, com gente do povo, sem os cuidados de estarem conversando com um médico e menos ser uma conversa dirigida como consulta. Assim tenho feito por toda a existência. Estando em outras cidades, com as pessoas do ponto do ônibus ou do metrô e com os taxistas e outros motoristas profissionais. Esses são criaturas excepcionais para termos uma visão do local, da região e de sua gente. Já cozinhamos vários temas desses personagens em outras crônicas. Outro dia, em deslocamento de hotel para aeroporto com um motorista já idoso, falávamos um pouco de tudo – futebol, política, prédios pichados, congestionamentos de trânsito – quando ele veio com o tema da educação dos filhos e alusão à “lei da palmada”. Contou que foi caminhoneiro e viajou por todo o Brasil. Tiveram dois filhos, ele e a esposa. Enquanto falava, olhava-me pelo espelho retrovisor interno como se não bastassem as minhas respostas e considerações e precisa-se ver meu rosto. Isso também me oferecia uma visão, um panorama e detalhes da vida repartida naquele breve caminho.

 

Cr & Ag

 

Contava-me que um dos filhos fora tranquilo e maduro para sua idade, enquanto o outro forçava caminhos sombrios, com maus e péssimos amigos e companhias. Horas de conversas, orientações, exemplos da família e de outras pessoas e fazia por estender as paradas em casa para que o rapaz mudasse de trajetória. Nada parecia funcionar. Um dos amigos preferenciais do jovem era viciado em drogas e sabidamente ladrão. No retorno de uma das suas viagens, encostou o caminhão com um mau pressentimento e uma angústia no peito. Logo perguntou pelos filhos. Um estava em casa lendo ou estudando e o outro estava sumido. Saiu em desespero a procurá-lo. Encontrou-o com o mau amigo e haviam roubado dois cavalos.

 

Cr & Ag

 

Fez devolver os cavalos e levou-o para casa. Ali chegando, retirou a cinta da cintura e passou a sová-lo. Contando a surra, vi seus olhos marejarem de lágrimas e a face contorcida de dor. – Ele gritava que iria embora de casa. Disse-lhe que poderia ir, mas que não voltasse nunca mais, pois se não quisesse estudar e trabalhar como o irmão e toda a família, que só lhe servia conviver com viciados e ladrões, que ele não impedia. O rapaz foi para seu quarto e ele disse trancar-se no banheiro e chorar como nunca na sua vida. O tempo que se seguiu foi de muito sofrimento para todos. Num pequeno complemento, disse-lhe que dói muito mais em nós do que nos filhos qualquer puxão de orelha, mais ainda uma surra.

 

Cr & Ag

 

O rapaz continuou em casa. Começou a estudar com mais dedicação e pediu um trabalho. Ele conseguiu um serviço na empresa de um amigo com o detalhe de que ele pagava o salário, mas que o jovem nunca soubesse. Que achasse ser como qualquer dos outros empregados apesar de ser menor de idade. Conta com alegria que gostaria que os filhos seguissem outras profissões, mas que os dois eram caminhoneiros como ele foi. São homens de respeito, trabalhadores e bem quistos, bons esposos e melhores pais. Disse que o filho antes problemático conta para todos que a sova que o pai lhe deu lhe o trouxe à razão e tirou-o de uma vida que já estaria morto na droga e no crime se nela continuasse. Demonstrando para todos o reconhecimento ao pai. Fez uma analogia final: – certas porcas rodam com facilidade no parafuso, mas outras têm que lubrificar muito e usar várias ferramentas para dar o aperto certo.

Vivemos uma era muito ruim para nosso povo e nossa pátria. Os exemplos são escassos nos líderes e nas autoridades. A impunidade grassa virulentamente. A lei é de levar vantagem e não ter limites ou fronteiras. A mentira é institucional. Ser honesto é um “defeito” quando tantos são criminosos de todos os naipes e cores.

Orgulho e Vergonha – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 23 Setembro 2014

2014 – 09 – 23 SETEMBRO – Orgulho e Vergonha – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Orgulho e vergonha

 

Q

uase tudo é uma questão de medida. O remédio tem a dose curativa e alguns até a dose fatal. Há também aquela dose que não fede nem cheira, sem qualquer efeito real. Assim são com nossas emoções e com nossos sentimentos. Devemos buscar o equilíbrio seja na balança da deusa Themis, ou nos sentimentos, ou na vida em qualquer cenário. O orgulho é visto com uma aureola pecaminosa, mas nem sempre deve ser assim. O orgulho é uma das manifestações mais humanas. Real e estimulante. Sentimos orgulho quando nosso time vence ou sagra-se campeão. Orgulhamo-nos de nossas origens, do pampa gaúcho e das nossas tradições. Orgulho aflora nas vitórias da pessoa, da família ou da pátria. O orgulho se verte em lágrimas e na voz embargada quando um Ayrton Senna ou um Pelé é vencedor e ali sentimos como sendo cada um de nós. O orgulho anabolizado, excessivo, exacerbado transmuta-se naquilo odiosamente entendido como soberba. A soberba embrutece o coração e ensombrece a alma de seu portador.

 

Cr & Ag

 

O orgulho é primário. A vergonha é secundária. Tanto no vocabulário a letra “o” antecede a letra “v” como na vida. Alguém acometido de vergonha dificilmente sentirá um orgulho pleno e sem culpa. A vergonha tende a espreitar os caminhos, evita exteriorizar-se à luz do dia, fica no subterrâneo existencial da alma. O torcedor dessa “pátria de chuteiras” evita sair com a camiseta do seu time após uma goleada ou outro resultado constrangedor. Vários até sonegam serem torcedores do time tal. Desviam do assunto futebol e embarcam em qualquer outra canoa menos furada que a sua.

 

Cr & Ag

 

 Proponho um singelo exercício – você tem uma pessoa muito íntima e descobre que ela é criminosa, igual aos outros criminosos. Continuará sentindo orgulho daquela criatura? Ou vergonha? Mesmo naqueles casos que a força do “amor” empurre-o para incontáveis justificativas para explicar, referendar ou atenuar seus crimes, qual seria a sua atitude? Agora se transfira para a política brasileira. Um brilhante advogado observou que certas siglas partidárias não mais ostentam no peito e empunham bandeiras com a graça e a liberdade orgulhosa de outros tempos. É uma realidade. Até o presente, políticos consagrados pelo voto e por seguidores de suas promessas não tem a mesma exposição. Teriam vergonha de suas legendas partidárias? Ou o orgulho em alto e notável sonoridade ao dizer-se “sou de tal partido”. Onde estão? “Tão tudo mocozado por aí!” – entrega um conhecido mecânico.

 

Cr & Ag

 

 Getúlio Vargas, Juscelino, Jango, Brizola, os presidentes da ditadura militar e muitos outros trazem a marca da simpatia ou da antipatia por seu governo ou ideologia, nunca pela honestidade e do maremoto de escândalos e de corrupção. Tudo que fizeram, fazem e farão em prol do socialismo/comunismo no Brasil e nada do gênero descoberto e provado com os presidentes da ditadura. Realidade. Governos que privilegiam a desonestidade, que premiam a criminalidade e castigam o brasileiro e a brasileira que entregaram vidas de trabalho e contribuições para a previdência oficial. Esses brasileiros têm seus desmilinguidos proventos de aposentadoria diminuir ano a ano além de ser extorquido pelo “fator previdenciário” no ato funesto de aposentar-se. Para muitos é impraticável retirar a cangalha do pescoço. Vários pela ideologia, outros pelos cargos de confiança ou aboletados pelo poder. Infelizmente nem todos sentem o odor fétido do seu mau hálito, do chulé ou da bunda suja apesar de transformarem a vida dos outros a sua volta num inferno. Quem negocia e pactua com coisa-ruim cheira a enxofre. Há que acredite que pactuar com o diabo ou aceitar suas regras é “normal, todos fazem, ou vale pela governabilidade”.

Entre San Juan e Mendoza – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 16 Setembro 2014

2014 – 09 – 16 SETEMBRO – “Entre San Juan e Mendoza” – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Entre San Juan e Mendoza

 

S

into-me um privilegiado por muitas coisas, mas especialmente por desfrutar de tempo para conviver com meus netos. São três. Dois residem em Roraima. E o Lucas está aqui residindo no apartamento ao lado. Estamos na transição do encantamento pela tecnologia que mistura deslumbramento pelas suas infinitas possibilidades como pelo sufocamento da imersão em bytes e redes sociais. Assim as pessoas pouco conversam dentro e fora dos lares. Até as necessidades profissionais sucedem-se em reuniões virtuais. Grandes telas iluminadas pelos cômodos das casas e nas paredes de restaurantes, bares ou qualquer local de convivência captam e mesmerizam a atenção. Pais que se “aliviam” de conviver com os filhos permitem o uso e abuso dos jogos eletrônicos enquanto escapam da aspereza diária da vida e dos relacionamentos e transferem para alguma hora ou dia incerto as suas responsabilidades e deveres inalienáveis da paternidade.

 

Cr & Ag

 

O cronista ao ser lido e digerido intelectualmente pelos leitores permite-se ingressar nas suas “linhas do tempo”, aproveitando o gancho do “face”. A leitura extensiva até de escassa quilometragem como uma singela crônica é raramente efetuada. Testes revelam que os assíduos frequentadores das redes deliciam-se mais por imagens ou curtíssimas frases – muitas simplórias – do que pelo esforço humano da leitura seguida de raciocínio, discussão interna e externa e do entendimento. Felizmente muitos de nós carregamos nos “discos rígidos” ou nos escaninhos do amor transmitido principalmente pelos pais e irmãos as frases, estórias, relatos diversos, contos, episódios, experiências e uma infinidade de recordações conscientes e inconscientes que perfazem e constituem aquilo que somos ou que deixamos de ser.

 

Cr & Ag

 

A frase título “entre San Juan e Mendoza” era usada pelo meu pai Aldo para significar a indecisão. A hesitação em optar entre alguma coisa. Eu construí uma estória em que imaginava um padre que cuidava dos seus fieis em duas cidades, San Juan e Mendoza. Uma cidade torcia pelo Grêmio e outra para o Internacional. Rivais. Não se afinavam. E o padre ali como algodão entre cristais. Eis que o padre resolveu fazer uma capela, uma igreja exatamente no meio do caminho, assim obrigando a que todos viessem aos cultos e cerimônias, misturando-se. Logo deixariam parcialmente a rivalidade, pois os vínculos afetivos iriam se intrometer e acalmar a fúria e o ódio separatório. E gremistas e colorados casariam entre si e seus filhos…

 

Cr & Ag

 

Está se lambendo e espumando nos cantos da boca, sossegue um pouco.  Não enveredarei pela disputa eleitoral e o San Juan e Mendoza de cada eleitor do Brasil espoliado por mentirosos de plantão e gatunos… A construção dessas personalidades familiares e sociais, que somos direta ou indiretamente responsáveis, trilha o caminho que a humanidade perfaz desde tempos imemoriais. Inclusive antes das cavernas onde os sons guturais já tinham um significado e uma intenção. Trazemos cargas genéticas e espirituais que vêm para serem buriladas, aperfeiçoadas, iluminadas. Responsabilidade. Tarefa vital. Chamemos ou interpretemos com palavras, gestos, atitudes e finalmente a pergunta: – que pessoas deixaremos para a humanidade e para o planeta? Estendendo: – que mundo deixaremos para os nossos descendentes?

 

 

 

 

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