De mal com a vida – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 09 Setembro 2014

2014 – 09 – 09 Setembro – De mal com a vida – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

De mal com a vida

 

A riqueza de uma língua não está nas ervilhas do vocabulário, mas na profusão criativa de termos que adornam e aperfeiçoam os significados e expressam o íntimo e as necessidades das pessoas. Num certo restaurante, aguardava à fila para pagar a conta do almoço. Uma distinta senhora a minha frente dirigiu-se para a idosa de cabelos mal oxigenados e com a cara de réu e disse-lhe: – Venho ao seu restaurante a algum tempo e quero elogiar o bufê e o atendimento, além do maior cuidado com os pratos. A idosa de cabelos tubianos como cavalo de índio, olhou-lhe com cara de poucos e escassos amigos e sequer um “muito obrigado” saiu de seus lábios. A distinta senhora, já com seus familiares, contou o fato. Um atribuiu como grossura e outro acompanhante como ela está de mal com a vida.

 

Cr & Ag

 

Todos temos aqueles dias que levantamos de pé trocado ou que o azedume, até por causas inconscientes, arruína a jornada diária na proporção da capacidade e habilidade de cada um em não levar para seu ambiente de trabalho ou para o trato com as outras pessoas as suas broncas e desajustes. Muitos conseguem. Outros infelizmente não. Um certo médico era famoso por suas luas. “Ele é de lua, mas é um bom médico!” – diziam pacientes muito pacientes. Se me entendem. Uma funcionária do Bloco Cirúrgico afetada pelo humor agressivo do colega, sussurrou para outra funcionária: – Anda descornado! – de um jeito ou de outro a cadeia ou a corrente negativa já atingiu outra pessoa. Quem?

 

Cr & Ag

 

Dormir com os pés destapados ou para fora da cama também extradita a situação salobra. Essas situações são frequentes quando a condição da azeda, amarga criatura ou de maus bofes é de superioridade hierárquica ou de poder e mando sobre os demais. E muitos desses demais tornam-se suas vítimas eventuais ou de rotina. Ninguém suporta os reclamões ou o mau humor refratário. Sintam que certas correntes ideológicas, já que estamos em época eleitoral, e segmentos profissionais são de características as dores e os sofrimentos que sempre são causados pelos outros – eximem-se da culpa! – atrapalham e emperram as suas existências e da sociedade. Trazem o ateísmo nos corações de aço, pois rejeitam um mundo ou uma sociedade com patrões e empregados. Quem rejeita patrão, logo rejeita Deus, o maior de todos os patrões?

 

Cr & Ag

 

Há criaturas que se aprazem de transferir o fel de suas veias e contaminar o mundo com sua virulência sempre exigindo dos outros o cumprimento de suas responsabilidades e deveres e descontentes com a lei para todos. São cronicamente “perseguidos”, principalmente por sua personalidade deletéria e o assédio do lado negro da força. Sim! São criaturas que o tempo está nublado ou tormentoso a sua volta e geralmente com pouca sorte na vida ou explorados por alguém ou pelo sistema. A enfermidade ou a doença mental de alguns jamais servirá de desculpa absoluta.

 

Cr & Ag

 

Se está de fiofó azedo, que vá adoça-lo! Se o motivo está no sexo, trate-se. Se a causa é ideológica, amadureça ou espere renascer. Sempre será ruim pagar as contas dos outros, seja pelo estado de mal com a vida, seja por supostas dívidas de ancestrais desde o descobrimento do Brasil-zil- zil que nos imputam como responsáveis, das diferenças sociais dos vagabundos convictos ou de quem nunca fez realmente por merecer.

Pedaços – Lúcia Barcelos – Setembro 2014

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Pedaços

 

Talvez a sombra que me segue saiba dos meus passos,
Nas horas em que o sol me abraça e que me aquece.
E neste andar o suor escorre pelos braços,
E neste pensar se pensa o que jamais se esquece!
E os ventos que noutro tempo ouvia,
Talvez durmam nestas horas cálidas…
E quando olho para a areia quente vejo vagos traços
De uma vida toda que antes eu vivia.
Calam-se, no campo, algumas flores pálidas,
Enquanto as agulhas da memória bordam poesia!
Mas eis que de repente o vento pode despertar,
Apesar da sutileza dos meus passos,
E tudo, em versos soltos, transformar,
Ao desfazer este poema em pedaços!

 

Lúcia Barcelos

Negro José – Edson Olimpio Oliveira – Memória

Negro José!

 

 

 

A chuva inclemente, como um mandado divino, tentava lavar o sangue derramado numa guerra insana. Insana como qualquer guerra. Essa ainda era pior. Dizimou durante mais de uma década os sonhos de irmãos numa arena sem limites geográficos nítidos a não ser os marcados pelas patas dos cavalos, pelas rodas das carroças e carretas puxadas por bois e homens, pelas furnas cavadas pelos petardos da artilharia, pelas trincheiras transformadas em covas rasas abrigando mutilados e pelas covas plantadas quando tempo havia para sepultar os mortos…  O inverno invadiu o mês de dezembro afugentando o verão tal qual uma carga de cavalaria rasgando a várzea barrenta. O frio e a chuva deprimiam ainda mais um povo que contava seus mortos e aguardava em vão o retorno de algum filho sobrevivente. Numa guerra não há vencedores, todos perdem. Alguns perdem mais. Outros perdem menos. Se é que seja possível medir a dor de almas dilaceradas.

 

 

 

Negro José. Esse era o nome com que era chamado por quem ainda tinha uma réstia de respeito. Para muitos era somente o Negro. Um dos caminhos de acesso ou saída de Viamão passava pela localidade onde está Gravataí. Ali estava uma muralha natural, o rio e o alagadiço pantanoso de suas margens. Ali um poderoso e rico estancieiro mantinha uma balsa e negros escravos para fazer a travessia segura. E para tal cobrava – a portagem. A guerra exigiu que fossem republicanos ou imperialistas. Deviam tomar lado. A família dividiu-se e com eles esboroou-se a riqueza. Os negros libertos foram formar ombros com os lanceiros negros. E o ainda jovem José, ficou cuidando da mãe e da irmã e principalmente em manter a travessia do rio sempre aberta.

 

A sua força física crescia e se comparava aos esforços dos bois que tracionavam as cordas da balsa. A todos os viajantes ele servia sem exigir nenhum pagamento. Entendia no corpo e na alma a miséria que banhava a terra. Dias e noites. Invernos e verões. Ali estava ele em plantão permanente para seu sagrado ofício. Conquistou o respeito necessário de homens que viam inimigos em qualquer sombra. Transportava militares, ricos e pobres, fugitivos e pessoas de todos os confins.

 

Numa noite, abrigava no galpão logo na barranca do rio um grupo de combatentes farrapos, quando chegou um pelotão de imperiais comandados por um emissário do imperador que trazia propostas de paz na bagagem. Deu-lhes pouso também, abrigando-os da tormenta infernal. Foi somente com sua coragem e dignidade aliadas a um corpo privilegiado pela natureza que impediu mortes em sua casa. Mas o embate trouxe-lhe um ferimento por estocada de adaga que penetrou em seu tórax. Daí em diante sua saúde nunca mais foi a mesma. Por ter salvado o emissário real que depois se soube ser parente do imperador, recebeu uma carta do império com sua alforria e de toda a família e ainda uma gleba de terras onde vivia. E foi mantendo vivo esse importante emissário que a paz foi encaminhada e alinhavada.

 

Nenhum de seus irmãos retornou para casa. A mãe morreu com o coração partido pelo sofrimento. A única irmã casou-se e foi morar na fronteira com o Uruguai. Ficaram ele e a esposa e as cicatrizes da guerra. A guerra findara no papel assinado, mas continuava em muitas mentes. Continuava transportando homens e animais e livrando-os dos atoleiros movediços e mortais que continuavam a engolir os audazes e afoitos.

 

Negro José recebeu um presente a longo tempo ansiado – a gravidez da esposa. O pulmão ferido respirava com muito mais ardor. Os novos dias corriam céleres. Suas largas risadas se misturavam com a música dos sinos diferentes colocados nos dois extremos seguros da travessia. A alegria retornou estrepitosa. Eis que certa noite a dama de negro veio ao seu humilde lar. A amada esposa sentia dores lancinantes e logo um jorro de sangue encharcou seu leito. Montou cavalo e foi em busca desesperada do médico ou da parteira. Encontrou a parteira. A velha acudiu-lhe com a máxima presteza. Os esforços desesperados não conseguiram salvar mãe e filho. O véu da morte cobriu sua vida. Somente a fé e o trabalho o mantinham vivo na triste solidão.

 

Persignava-se como sua mãe lhe havia ensinado desde criança e como sua esposa querida sempre fazia antes do sono. A tristeza reabriu a ferida de seu pulmão. Um sangue escuro tingia o seu escarro. Acessos de tosse cortavam suas noites e destruíam o descanso. Persistia em seu ofício a qualquer hora e em qualquer clima. A vida lhe fugia lentamente. A tuberculose corroia seu corpo e os músculos antes poderosos eram tragados pela moléstia. Definhava. Em curtos sonhos encontrava seus amores sepultos.

 

Negro José terminara uma oração ajoelhado perante um antigo crucifixo de madeira e bronze. Era noite de natal. No povoado próximo as casas tentavam se iluminar e as pessoas dirigiam-se à igreja para a Missa do Galo guiados pelos badalos da torre cristã. Havia chovido torrencialmente nas duas últimas semanas. Um vento frio extemporâneo cortava as faces e mãos descobertas. Ali estava ele em sua tarimba coberto com uns pelegos velhos. Batem à porta. Toc, toc, toc. Três pancadas leves e uma pausa. Novamente três pancadas e nova pausa. Seus ouvidos jamais pregaram peças confundindo o chamado de pessoas com o açoite do vento ou o rumor das folhagens. Levantou-se. Abriu a porta. Ali estava um menino de cerca de cinco a sete anos de idade. Pele alva. Cabelos negros encaracolados. Olhos claros, quase azuis. Andrajoso. O menino falou-lhe:

 

— Negro José, preciso passar para o outro lado.

 

Negro José sentia que a sua voz trazia algum tipo de sentimento ou mensagem que sua mente não conseguiu traduzir. Mas essa também nunca foi sua preocupação principal, precisava executar o seu ofício. A noite em breu só permitia escutar os ruídos dos sinos e da correnteza do rio alimentado pela chuvarada. Colocou o menino na canoa que usava para o transporte de pessoas isoladas e cabresteada por uma longa corda que ele tracionava com a força de seu corpo. O menino segurando o candeeiro que iluminava seu rosto sereno. Negro José fazia uma força descomunal para avançar cada metro de rio. Nem a balsa pesava tanto. Perguntava-se se seria a fraqueza da tísica ou da correnteza do rio. Jamais havia forcejado tanto.

 

As mãos calejadas de uma vida dedicada ao rio começaram a sangrar. Dores atrozes desciam pelos braços escorridos do seu sangue. Olhava o menino e dizia para si mesmo:

– Tenho que vencer, a vida dele depende de mim.

 

A tosse turvava-lhe mais a visão. Conseguiu chegar à outra margem. O alagamento no sarandizal ainda fazia restar mais uns dois quilômetros à segurança fora do pantanal traiçoeiro. Extenuado. Ofegante e sangrando. Teria que fazer o resto do caminho até o sino a pé. Paroxismos musculares jogaram sua face na lama. Levantou-se buscando energias derradeiras e colocando o menino abraçado às suas costas reiniciou a jornada. O céu abriu-se e uma estrela cintilante e solitária surgiu como a marcar o local do som do sino. Cada passo fazia suas pernas penetrarem mais fundo na água e na lama pegajosa. A criança às suas costas parecia pesar toneladas. O sino continuava a chamá-lo. A estrela limpava sua retina e buscava algum equilíbrio num velho bastão de angico. O sangue escorria das mãos do negro tingindo o bastão de rubro. Eis que um tapete prateado formado pela luz da estrela solitária abriu-se a sua frente na derradeira subida. O peso desapareceu. O menino pesava agora como qualquer outro menino. A luz iluminava pessoas que agrupadas esperavam a sua chegada.

 

– Quem seriam elas? – perguntava-se. Estranhamente não sentia mais qualquer dor. A estrela pareceu descer do céu.

 

Negro José escutou a voz do menino: – Negro José, vais conhecer o meu Pai e a minha Mãe.

 

— Eis meu Pai! Eis minha Mãe! – disse-lhe novamente o menino.

 

Negro José viu um senhor de longa barba branca e uma senhora muito bela envolta num manto prateado e logo vindo por detrás deles, com os braços abertos para abraçá-lo seus irmãos, sua mãe e sua amada esposa com seu filho nos braços.

 

 

 

Dia seguinte, Negro José foi encontrado morto com o velho crucifixo de madeira e bronze enrolado nas mãos ensangüentadas com dedos entrelaçados em posição de oração. Uma infinidade de pássaros o rodeava na terra e no céu. Um sarandi abriu-se em flores brancas e perfumadas. O local passou a ser conhecido como Passo dos Negros e o povoado como Aldeia dos Anjos, hoje Gravataí. E sempre que alguém necessita de uma travessia segura e faz uma prece aos céus, a mão forte de um negro surge para conduzi-lo.

 

 

 

 

 

Letras de Sangue – Edson Olimpio Oliveira – Memória 19 Novembro 2006

Novembro 19-2006 – Letras de Sangue – Poema – Edson Olimpio.

 

Letras de Sangue!

 

Por Edson Olimpio Silva de Oliveira

 

I

Sombras! Sombras de dor e morte rondam uma alma dilacerada.

Sombras! Sombras sussurram e agulham um coração gemente.

Sombras! Sombras ecoam palavras de ódio dela, minha amada.

Sombras! Sombras riscam na névoa torporosa um espírito plangente!

 

II

Ah! Como sempre te amei vibrando cada fibra do meu ser.

Ah! Ainda ouço teus risos iluminando presentes desejados.

Ah! Como sempre busquei satisfazer todos teus anseios.

Ah! Ainda ouço teu pranto e pérolas ardentes de teus olhos rolados.

Ah! Como sempre sepultei minh’alma para sempre te ter.

Ah! Ainda ouço o batuque num peito sofrido de amores alheios!

 

III

Amor! Amaste quem não te queria, num ciclo sem fim.

Amor! Buscaste prazer e luxo em leitos de cetim.

Amor! Amaste palavras vazias e carinhos pérfidos.

Amor! Buscaste companhia em corações perdidos!

 

IV

Rosas! Rosas rubras, perfeitas, perfumadas com o hálito do amor.

Espinhos! Espinhos coroam a beleza, mas tocados – vem a dor.

Rosas! Rosas brancas querem refletir pureza da alma apaixonada.

Espinhos! Espinhos são pensamentos, palavras, gestos tormentosos.

Rosas! Rosas douradas pelo sol da devoção que anseiam amor – mais nada.

Espinhos! Espinhos escrevem com tinta de rubis pranteados e dolorosos!

 

V

Sangue! Sangue é vida, é luz, é eternidade – recusaste!

Sangue! Sangue derramado de meus lábios e vertidos em escrita – recitei!

Sangue! Sangue que trocaste por mentiras e enganoso amor – encontraste!

Sangue! Sangue neste poema de letras escarlates – um dia muito te amei!

As cores da alma – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 02 Setembro 2014

2014 – 09 – 02 Setembro – As cores da alma – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

As cores da alma

 

M

uitos anseiam em acreditar, usar e mobilizar-se pelo pensamento positivo, pela irradiação de boas ideias e de energias que trarão mais luz, alívio, cura e harmonia. Em todas as terapias ensinam-se ou motivam-se aos pacientes e principalmente aos impacientes. No entanto, muitos se negam a aceitar que forças contrárias de tamanho e intensidade semelhante ou até maiores são mobilizadas de forma hostil consciente ou inconscientemente. Aqui nesse teatro da vida expõe-se o chamado olho grande ou olho gordo. Muda-se o nome, persiste o mal. Não precisamos acreditar ou ter fé para que energias invisíveis aos nossos sentidos imediatos estejam ocorrendo. Você está usando seu telefone ou smartphone e recebendo mensagens ou observando uma infinidade de coisas e fatos que parecem magia, feitiçaria ou milagre. Não muito tempo atrás era impensável para muitos que agora se deleitam nas redes sociais. Mas você não vê nenhuma alteração no ar ou no espaço a sua volta para que tal aconteça e esteja disponível.

 

Cr & Ag

 

Há pessoas que carregam algum tipo de energia positiva que outros se sentem bem estando com elas. O contrário é verdadeiro. Há pessoas que visitam tua casa e o cão adoece, as plantas murcham, aparelhos elétricos queimam e segue o cortejo. Há pessoas que conversam contigo ou estão juntos e te sentes sonolento, cansado, deprimido ou nauseado. Ou dores de cabeça. Muitas vezes custa-se a perceber-se a origem dos males e pode-se custar mais ainda para aceitar a sua origem. E nem é preciso a criatura estar presente para sua energia canalizar-se em algum malefício. Há pessoas que tem tais aptidões ou propriedades e que gostam de as possuir, mas outros afastam-se para não causar mal.

 

Cr & Ag

 

Faz pouco tempo e de forma muito moderada tenho usado ou visitados as redes sociais especialmente para publicar meus textos ou colunas e algumas imagens. Observo pessoas que fazem enorme exposição de suas vidas cotidianas para um universo de luz e sombra. Expõe sua pessoalidade e sua intimidade num grau crescente e compulsivo, tanto de banalidades como de fatos e situações que mereceriam resguardo. Há quem fique permanentemente conectado numa vida virtual sua e dos outros, muitos num voyeurismo sem limites ou fronteiras com o guru de bolso dando sinal a toda hora. Algumas pessoas não fazem as refeições sem estarem livres do guruphone, outras até na hora (minutos) do sexo estão com os sentidos divididos.

 

Cr & Ag

 

É muito comum nas salas de espera dos consultórios, as criaturas que necessitam da audiência para contar suas dores, enfermidades, sofrimentos ou suas alegrias e o resumo da família e da vida. Há plateia sedenta disso. Como num acidente de trânsito ou num incêndio, por exemplo, reúnem-se pessoas, até atrapalhando o atendimento aos feridos, para observar, curtir de alguma forma o ocorrido. Colhe-se aquilo que se semeia, mas com a influência ou interferência até do sobrenatural de almeida. Cuidado!

Vai faltar defunto – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 26 Agosto 2014

2014 – 08 – 26 Agosto – Vai faltar defunto – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Vai faltar defunto

 

Todos são amigos. Todos conviveram com o pernambucano Eduardo Campos tragicamente falecido. Todos compartilham de suas ideias e de seus ideais. E por aí segue o cortejo da falsidade e da entronização da canalhice. O tricolor porto-alegrense venderá sucatas de seu finado gramado e estádio de futebol – uma suposta relíquia que renderá milhares de reais ao clube. Imaginem, com essa onda de lotear, rifar e leiloar pela internet qualquer coisa se fizesse o mesmo com os despojos de importantes e significativas pessoas? É do contexto que morto é pessoa dotada das qualidades luminosas e até da ausência dos piores defeitos nesse BraZil de criminosos idolatrados, daí vem o uso de seus nomes em estradas, aeroportos e assemelhados.

 

Cr & Ag

 

E vai piorar, pois essa enfermidade ética, essas distorções morais estão expressas naquele mesmo manual de que “tudo vale na política e no amor”. Amor ao poder, certamente. É o manual da governabilidade e do toma lá e dá cá, recheado de ministérios e secretarias na pérfida orquestração do poder a qualquer preço e condição. E vai piorar a medida que os dias encurtam o prazo do voto na urna suspeita. Suspeita? Imagine, temos o mais perfeito sistema de votação do planeta. E quem discordar é “impatriota e contra o BraZil”. Na democracia americana o pessoal mete bala às claras nos candidatos e presidentes, mas no BraZil as criaturas morrem de desastres de carro, avião, helicóptero, pela via curta do suicídio ou do coração. Ou natural ou pelas leis da vida. Somos mais civilizados que eles!

 

Cr & Ag

 

Acreditamos demais no sobrenatural de almeida, temos fé excessiva no astral da silva e o pensamento mágico, como a eleição do Collor, tende a repetir-se. Aposta-se em quem não fez e sabe-se que não fará. Acredita-se que do nada sairá o futuro grandioso de um povo rico, num país rico, de pouco trabalho e de muito futebol sem os 7×1 e os estupros e estelionatos eleitorais. Acredita-se num país em que estudar e trabalhar é coisa de mané e que patrão é o demônio com chifres disfarçados. Acredita-se que os criminosos jamais devam ser presos e se algum dia forem condenados, aparecerá algum jornalista oligofrênico nota dez, para abrir a bocarra aos sete ventos anunciando a sua prisão de trocentos anos, numa terra com S ou Z de pena máxima de trinta anos que somente os abandonados pelo capeta e pelos partidos, pelas ideologias ou pelos direitos (des)humanos farão cumprir-se. “Ooops! 1/6 da pena Edinho!” – alfineta o amigo leitor.

 

Cr & Ag

 

É a pátria do futebol e dos herdeiros políticos. E como tem herdeiros! Isso é próprio do populismo de havaianas e charuto Havana entre os dedos. Conhece o pessoal que trabalha mais de cinco meses por ano somente para bancar esse desgoverno e as falcatruas escancaradas e mascaradas de lapsos de competência ou que “era excelente negócio naquele momento”? E o exemplo de Pasadena é a ponta do grafite nesse mega lápis de pau-brasil. Onde não sei e não vi ou nunca escutei nada é a defesa suprema e aceita. Caindo de Maduro tem as Chaves certas e incertas da ditadura e do populismo que é apoiado pelo desgoverno do BraZil. Imitamos ao pior, como crianças que apesar dos conselhos paternos e dos evidentes descaminhos, escolhem andar e acolher e copiar o ruim.

 

Cr & Ag

 

 

Muitos leitores não gostam, alguns odeiam, outros se sentem nauseados e tem ojeriza pela política nacional e pedem que o cronista faça seus textos fora disso. Mas como evitar?

Conflitos na educação – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 19 Agosto 2014

 

2014 – 08 – 19 Agosto – Conflitos na educação – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Conflitos na educação

 

Eis que a Comissão estadual de educação quase impingiu às escolas particulares regras anômalas, descabidas e possivelmente absurdas que impediriam dos alunos comprovadamente delinquentes serem afastados, punidos ou terem suas matrículas não renovadas. Somente não conseguiu pelo clamor popular iniciado no programa Guaíba Hoje do jornalista Rogerio Mendelski. Ainda desejavam serem esses delinquentes “tratados” pela escola. A ideologia marca certas posições e denuncia o atraso ou a malversação da vida dos outros pela intromissão absurda e descabida. A escola já está privada de terem mestres e professores, pois passaram a ter tios e tias ou “trabalhadores em educação”. Esse é o caminho da desconstrução e da destruição dos valores básicos que faz a humanidade conviver em civilidade dentro de normas para todos.

 

Cr & Ag

 

A escola deve informar a partir da alfabetização agregando conhecimentos e capacidade de buscá-los e complementar a educação familiar, que infelizmente está carecendo e regredindo a olhos arregalados de muitos de nós. Pais ausentes do lar pessoalmente ou fisicamente, casais em conflitos não resolvidos, a droga e o desamor de todas as cores são parte dessa pujante formação de menores com sérios e graves problemas de conduta e personalidade. Desde o Éden tudo se ancora e sustenta por três pilares universais: Disciplina, Amor e Humildade. Absolutamente e somente nessa ordem: disciplina à amor à humildade. Aqui vai um grande reconhecimento ao trabalho de uma vida ao Professor e Psicólogo Antônio Veiga e sua perene pregação dos melhores valores da humanidade.

 

Cr & Ag

 

Nas quatro paredes indevassáveis do consultório médico, nesse santuário em que o paciente é a criatura mais importante naquele tempo, escutamos o clamor dos verdadeiros mestres ofendidos em seu nobre ofício e tantas vezes em sua honra por alunos sem limites e por pais permissivos em suas culpas de maus pais. Vergonhosamente importantes aplicadores das leis e mantenedores da ordem, que deveriam zelar pela maioria da sociedade e dos cidadãos decentes, buscam os meandros, os labirintos e os descaminhos das palavras, pontos e vírgulas da lei para beneficiarem os delinquentes e toda sorte de malfeitores. Aqui também contribui uma imprensa que nem sempre livre de cabrestos ideológicos ou pecuniários ou por insuficiência intelectual em seu ofício informa mal repetidamente.

 

Cr & Ag

 

O prejuízo vai muito além daquelas crianças e de suas famílias que em colossal esforço levam seus filhos aos bancos escolares e que serão vitimados pela exceção favorecida e com a cumplicidade criminosa dos apoiadores. Ou quem apoia delinquente não é cúmplice? Qual a tua opinião se teu filho ou filha for impedido de estudar, ameaçado, espancado, sofrer ameaça ou violência sexual? Ou se espanca um professor ou destrói seu patrimônio? Pensa como pai do infrator ou como das suas vítimas? Todos serão e continuarão prejudicados pelos “coitadinhos e mal compreendidos”? Seria a mesma gente que prefere o criminoso solto nas ruas e invadindo lares estuprando, roubando, assassinando e traficando em vez de preso em “cadeias ruins ou desumanas”? O dever do Estado está em zelar e proteger o cidadão até dele mesmo, mas jamais prejudicar a maioria favorecendo a minoria.

 

Cr & Ag

 

Quantas escolas públicas não formam nem informam mais pela proibição da verificar e comprovar os méritos dos seus estudantes. Quantos fazem de conta que educam e quantos fazem de conta que aprendem? Vergonha e realidade. Uma pichação: “Todo político é ladrão, mas nem todo ladrão é político”. Onde está o erro essencial? Há políticos ladrões, como há médicos ou leiteiros, no entanto, há muito mais ladrões que se elegem pelo voto de criaturas que tiveram escolas e famílias ruins, relapsas, absurdamente permissivas ou deficientes.

Profissões em extinção – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 12 Agosto 2014

 

2014 – 08 – 12 Agosto – Profissões em extinção – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

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Profissões em extinção

 

Na minha infância e juventude Viamão dispunha de várias e eficientes costureiras ou modistas como também eram designadas. E minha saudosa mãe Dora foi a melhor e mais conceituada delas para roupas femininas. Sim, esse detalhe era real – costureiras para homens e mulheres ou somente para um sexo. Algumas especializadas em certas roupas, como as gauchescas, as de casamento e até as de enterro. Os alfaiates sempre foram em menor número. Poucas lojas dispunham de roupas, destacavam-se A Quitandinha do Jacob Dubin, a Casa Veiga dos irmãos Carlos e Djalma e algumas roupas menores e armarinhos no querido Seu Etel Nunes.

 

Cr & Ag

 

Logo os viamonenses desbravaram e apreciaram a variedade, preço e qualidade das lojas de Porto Alegre, como Renner e Guaspari ou as ModasTabajara (e a dona Zilda). Em todo roupeiro havia roupas de trabalho e de festa. Fazia-se enorme esforço para no casamento usar um terno feito por alfaiate qualificado. E as mulheres casavam com vestidos belíssimos feitos exclusivamente para elas e que guardariam para os demais anos da sua vida e nos melhores sonhos ser usado pela filha dileta ou pela neta. Os clientes identificavam-se com os lojistas (donos) e seus vendedores.

 

Cr & Ag

 

Mascates! Havia um árabe numa camionete antiga e depois numa Vemaguete – lembra-se da DKW? – que trazia roupas femininas, algumas masculinas, como as camisas Volta ao Mundo e gravatas, roupas de cama e até “ouro”, como algumas joias e relógios. Na época certa do mês lá estava ele na nossa rua e as mulheres e crianças em torno do veículo numa curiosidade e encantamento similar ao que o cego sentiu ao ver a luz. Anotava na caderneta e pagava-se em prestações quase eternas, pois as compras se repetiriam. Menos ao caloteiro.

 

Cr & Ag

 

Caloteiros! Havia uma classe especial de cobradores de alguma empresa de Porto Alegre – os Homens de Vermelho! Não que fossem todos colorados, mas usavam roupa completa toda vermelha. Imaginem a situação de uma criatura toda de vermelho batendo à tua porta, numa época em que todos se conheciam e cuidavam das vidas dos outros. Muita bala e faca correram nessas cobranças. Os caloteiros profissionais é um desses “ofícios” que prospera no brasilzão padrão FIFA.

 

Cr & Ag

 

O saudoso Delfino Vieira de Aguiar, grande caçador de marrecão era guarda-fios do telégrafo. Muitos nem sabem o que é telégrafo. Outro amigo do seu Aldo, meu pai, trabalhava com couro cru (Reni Correeiro) fazendo peças que encantavam por sua qualidade, beleza e funcionalidade. Na capital ainda havia alguns Cubeiros. Não que fossem de Cuba, certamente nem a conheciam, mas encarregavam-se de retirar das residências, carregando às costas somente protegidos por uma capa de couro, cubos de madeira com os dejetos das pessoas. Não havia esgotos nas casas e aquelas que não dispunham de pátio para o poço negro ou algum lugar para jogar os penicos lotados… Os pais mostravam aos filhos aqueles homens e orientavam-nos a valorizar o estudo e buscar um trabalho menos penoso.

O Samba do Motoqueiro Doido – Edson Olimpio Oliveira – MEMÓRIA–Rir ainda é um bom remédio.

 

A Moto na História ou o

Samba do Motoqueiro Doido!

 

 

A madrugada já nos espreitava. Mas o companheiro continuava com o caneco de cerveja sendo brandido como bandeira desfraldada na mão direita. A lua manhosa, tendo nuvens a adorná-la como cabeleira prateada, como que insistia em continuar roçando-se nas marolas do Rio da Plata.

 

—- E saibam vocês que a Era da Pedra Lascada tem esse nome porque não havia pneu que agüentasse naquela época. Os caras além de enfrentar os dinossauros, que seriam como as carretas e jamantas hoje, também já insistiam que trail ou trilha é diversão. Vê se pode, meu? – argumentava o companheiro.

 

Estufou o peito aspirando e nevando de branco a ponta do nariz com a espuma:

E a moto também está nas Sagradas Escrituras. Deus já tinha feito o Paraíso, o Adão e a Eva. E para complicar tinha a Serpente sempre botando minhoca. A dupla só queria se distrair comendo maçãs. Então Deus fez a moto. Fez atrasado, pois quando chegou o rolo já estava feito e ainda acabou com a briga do Caim e do Abel sobre quem pilotaria nos finais de semana. Depois teve a transa da Motocicleta de Noé. Era uma moto anfíbia gigantesca que salvou do afogamento uma pá de bonecos e uns bichos e bichas. Ai começou a bichice na história. – reuniam-se curiosos em torno do ‘orador’ que continuava:

 

Dizem que o Maluf e a ex-Suplicy até estão pensando numa semelhante para as inundações em Sampa. Ainda nas Escrituras tem o caso de um tal de Moisés que saiu do Egito e foi para a Palestina. Daí deu origem ao Rally dos Faraós, Paris-Dakar e outros. E por sinal despertou o ciúme na região daí vindo a briga entre judeus e palestinos até hoje. A moto foi muito importante na Grécia antiga, tinham uns caras que moravam num morro chamado Olimpo, aqui seriam favelados, que queriam motocicletas só para eles e aí deu aquela briga da Motocicleta de Tróia que teve depois um parente no Brasil, outro Ulisses. Mermão, teve até um rei, tal de Nabucodonosor ou Trabucodonosor que fez seus jardins suspensos na Babilônia para ter estacionamento para sua coleção de motocicletas protegidas do sol infernal.

 

— O cara baixou o espírito do velho Rui Barbosinha em duas rodas – exclamou um companheiro enquanto procurava algo nos bolsos do colete repleto de adereços.

 

— As provas de supercross começaram em Roma no velho Coliseu, cara. Quem perdesse era devorado pelos leões. Parecido com o esquema do leão do imposto de renda por aqui. E vocês sabem como o Brasil foi “inventado”? Os espanhóis e os portugas queriam descobrir um caminho para trazer as motos orientais para o ocidente e a desculpa era de namorar as índias. Então numa dessas viagens os carinhas chegaram à Bahia, onde aportaram com o consentimento do ACM e com o trato de colocarem uma fitinha do Senhor do Bom Fim no punho da moto. Ainda tem o caso do Dom Pedro que soltou o berro no riacho Ipiranga empinando uma Ténéré e nos liberando de Portugal que se adonava de nossas motos e de nossas mulatas. E por falar em mulata, a tal de lei Áurea foi a liberação total da motocicleta para todas as raças. Legal, heim? – empolgava-se o nosso companheiro.

 

E com os lábios revestidos da deliciosa espuma da cerveja portenha, o companheiro com os olhos em transe continuava:

 

 — O tal de Hitler se ferrou na Rússia porque insistiu em usar moto street na neve. Além disso, a gasolina congelava nos tanques. E Pearl Harbor? A eterna briga de Harley e Indian contra a Suzuki, Honda, Kawasaki e Yamaha. Que pauleira, meu! E até novos países surgiram por causa das motos, mermão. O veterano Quintino do Rio das Ostras enriqueceu exportando esses bichos para a Ostrália. E a moto no futebol? O Garrincha tinha as pernas tortas de tanto andar de moto, meu. – passou o antebraço na boca. O suor brotava de seu pescoço parecendo drenar das veias dilatadas. Pensei que ia parar. Enganei-me. Continuou:

 

E o Pelé criou o gol de motocicleta, consagrou-se e até hoje continua botando as bolas para dentro. Dizem que é o maior consumidor do remédio que propagandeia. Acreditem se quiserem. Sabem o Denílson do Penta? Toda aquela habilidade de drible foi conseguida pilotando como motoboy em São Paulo.  Mas é a vida, meu. Cerveja é moto engarrafada. E se o “companheiro” Lula aproveitasse a barba, fizesse algumas tatuagens e pilotasse moto já seria presidente, ainda mais com o apoio dos mais de 10 milhões de bauzeiros, motoqueiros e motociclistas e mais cinco votos que cada um representa. Principalmente se contasse com a bênção do grande Pateta dos Abutres. E ainda fazendo a reforma motoagrária! Todos deveriam ter acesso à moto e tem gente com moto demais e outros sem nada. Os políticos deveriam criar um Programa de Apoio a Moto, financiamento em dez anos, sem juros e sem entrada, assim a fundo perdido tipo negócio de governo com bancos. Aí periga aparecer algum PC Farias ou Valdemar Dinis ou mensalão.  Enquanto isso alguns curtem a motovirtual (alô Adams) que foi pra isso que inventaram a internet, pô meu!

 

Apesar da sonolência estar “capotando” a sua platéia agora restrita ao garçom e dois outros motociclistas, o homem continuava seu discurso, ou melhor, moto-discurso:

 

Mermão, moto é a mulher que deu certo. Com todas as vantagens, meu. Só fala e berra quando a gente aperta o botão e dá partida. E sem sogra, nem cunhado. E dá mais uma aí, meu, vamos tomar a saideira que amanhã (hoje) temos um bom encontro para curtir e depois afinar nossas máquinas na estrada. – arrematou com os olhos avermelhados e vidrados.

 

E, segundo outro companheiro, existem dois tipos de seres humanos: os que amam motocicleta e os que ainda não sabem que amam. Em tempo, o motociclista autor do discurso acima ainda menciona que o garçom que atentamente lhe escutava, também é cantor de tangos e bailarino no Caminito e que quer a sua “autorização para fazer desse samba um gardelaço, isto é, um tango a la Gardel”. Pode? É difícil controlar o homem!

 

 

 

 

 

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Um verão extemporâneo – o Vento Norte – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 05 Agosto 2014

 

2014 – 08 – 05 Agosto – Um verão extemporâneo – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

http://www.edsonolimpio.com.br

 

Um verão extemporâneo – o Vento Norte

 

Muitos acreditavam ser o vento Norte um portador de moléstias, desastres e um mensageiro das desgraças. As pessoas desciam pela rua Dois de Novembro com flores nas mãos, um amargo de boca e sentimentos dolorosos realçados pela memória ou por esse hálito  quente como vindo das bocarras do Inferno mirando os sólidos portões de ferro do Cemitério central. Outros gastavam os joelhos e calejavam as pontas dos dedos serrilhando as contas do rosário. Preces e lágrimas. Antes e depois. Os cães não acompanhavam seus donos e amigos e abandonavam-se numa sombra qualquer numa letargia de dar dó. A vida era diferente. As pessoas eram diferentes. Amava-se diferentemente. Amava-se por toda a vida. Muitos se amavam eternamente.

 

Cr & Ag

 

Hoje, domingo, amanheceu com um sol ardido. Ardido e dolorido, parcialmente pelo buraco na camada de ozônio, mas principalmente pelo vento Norte. A brisa das primeiras horas matutinas ganhou uma força especial, talvez açulada pelos demônios da dor e dos sofrimentos de alma e corpo, e um vento em rajadas. Zumbia em menosprezo por todos nós nas cumeeiras do prédio. Vento zombeteiro como só ele. Alguns escutam as vozes de entes amigos que partiram dessa para outra qualquer na sua sibilância. Outros se entreolham como se suas consciências falassem e seus pecados borbulhassem na alma que ousam sempre desdenhar.

 

Cr & Ag

 

Há quem sinta o odor de enxofre e assim espalham sal grosso no exterior de suas portas e janelas e trancam-se na casa, agora refúgio. Uma vela acesa para Nossa Senhora ou para algum santo ou santa venerados. A humanidade aproxima-se do Criador sempre que o temor é maior que seu domínio ou suas forças para enfrentar a adversidade. Sem telefones ou internet, sem a fragilidade fugaz das redes ditas sociais, a criatura sabe que depende de si e dos seus num curto perímetro.

 

Cr & Ag

 

Não era dia de lavar as roupas guardadas ou colocar a roupa de cama no alambrado ou na janela como é a rotina da dona de casa rural e de antanho. Visitas? Somente em extrema e derradeira necessidade, como enfermidade ou velório. Havia quem postergasse o sexo, no entanto, outros executavam a talvez derradeira. A última será… a última! Credo em cruz ou cruz credo. Agosto, nome do mês dado pelo imperador romano César Augusto em sua homenagem, também é o mês do “cachorro louco”. A natureza prega suas peças até nos cães aumentando incidência do cio nas cadelas e tornando os machos desvairados pelos feromônios (“odor de estrógeno”), como a maioria dos machos e nas lobas da Globo, por exemplo.

 Amor perdido

Cr & Ag

 

Melhor ou pior se comparado com nossos dias? Tudo ao seu tempo, necessidade e evolução. O vento Norte está aí antes de nós e certamente ficará varrendo as cinzas da humanidade e espetacularmente a soberba, a ganância, a fome de poder, a necessidade de séquito e de adoradores, a cobiça material e moral e tantas irrelevâncias ardorosamente defendidas com a vida dos outros.

 

 

 

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