Viamão e suas faces – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 17 Junho 2014

 

2014 – 06 – 17 Junho – Faces de Viamão – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Viamão e suas faces

 

O

 prefeito Bonatto e seus colaboradores estão mostrando os frutos de seu trabalho. Nunca será o necessário e nem aquilo que a todos satisfaça, mas será algo que esperamos frutifique e evolua. Mexeram nesse vespeiro ou feudo multicolorido dos carros de praça ou táxis. A ancestral praça de táxis situava-se onde hoje está o Largo Adônis dos Santos ou da Caixa D´Água. Ali também estava a estação rodoviária no prédio do agora Gullas. Incrivelmente Viamão já teve uma estação rodoviária! Entre frondosos cinamomos ou paraísos estacionavam os carros de praça de lendas de um passado não tão remoto: meus tio Eninho (pai do Danilo), Álvaro (pai do Sílvio Boca) e Carlinhos, do Osvaldo Mulato, do Darci Sandália (pai do Elmo), do Nenê, do Waldeliro (meu sogro), do Zé Russo entre outros. Eram veículos grandes e sólidos, importados na época. Com o surgimento do fusca, esse se tornou a seguir o veículo dos taxistas brasileiros. E por longo tempo imperou o táxi de duas portas. Absurdo? Não para aquele contexto e ideias. O táxi é uma concessão pública, mas sempre simbolizou uma capitania hereditária, como aquelas depois do descobrimento do Brasil. E ninguém tinha coragem para mexer nesse ninho de ofídios (de algum tempo).

 

Cr & Ag

 

Agora os taxis são quatro portas para mais acesso e mobilização dos passageiros, muitos com ar condicionado escrito nos vidros e quase ou nunca ligados, e com as cores e logomarcas da cidade de Viamão. Um avanço necessário e significativo. Há muito que rodar nessa estrada, como cursos permanentes de reciclagem em direção e etiqueta funcional para segurança e bom trato com o passageiro. Controle das revisões veiculares. Indumentária adequada e limpa. Proibir-se o fumo no interior dos veículos, mesmo sem passageiros – muitas queixas do mau odor principalmente em dias de chuva. Organizar e disciplinar a venda da concessão onde fortunas se carreiam para os bolsos de alguns e nada para a municipalidade que poderia destinar para a saúde, por exemplo, gravado em lei complementar. Conta-se que o Barbaroti somente se ajoelha para o Pai do Céu e traz boa vontade e qualidade auditiva para escutar os anseios e necessidades da sociedade. Assim foi a troca de fluxo e reorganização das ruas centrais que ninguém conseguiu entender o porquê do ex-prefeito Alex Boscaini ser irredutível ou teimoso, ou ainda, não exercer o seu poder lhe dado pelo voto popular e persistir no erro.

 

Cr & Ag

 

A cobrança pelo estacionamento temporário nas ruas centrais é outra medida moderna e indispensável para romper o lacre de posse do estacionamento de alguns que se acham proprietários das vagas. Em 1981, quando então fiz parte do Lions Club de Viamão, mostrei que tal modelo de estacionamento já funcionava em Uberaba, terra do Chico Xavier, com jovens retirados da pobreza e da marginalidade para ofício honesto e complementar da escola, sempre com monitores por áreas. Os guardas municipais não precisam andar em tribo, no máximo seriam em duplas, muito menos acamparem em certas esquinas ou outros lugares durante o trabalho. Jamais generalizo e quem me acompanha aqui ou no site sabe que a generalização é a filha bastarda da burrice. Assim aqueles que se sentirem dodói certamente são os que não querem o bem da cidade, do seu povo e do seu ofício ou profissão.

 

Cr & Ag

 

E no consultório, a paciente diz ao seu médico:

– Meu marido é um pouco tímido, mas é muito mais fechado. Parece um cofre! Não se abre nunca. Quase nunca. E olha que eu tento.

– O ser humano precisa ser decifrado, entendido e ser amado. É da nossa essência. São os cofres mais fechados que trazem os maiores tesouros. Podes abrir como a assaltante – explodindo-o. Ou como o perito que busca entender o seu modelo, os menores sinais e tem a sutiliza e a delicadeza necessária para abri-lo. A chave está contigo e com ele, chama-se Amor.  (Nota do Cronista: voltaremos ao tema. Visite nosso site e veja crônicas, lendas, contos e imagens e desejando receber textos anteriores, peça pelo e-mail.)

Viamonenses por opção e coração!

Reunião ALVI 3

1 – Dirk Hesseling -  natural da Holanda

2 – Baltasar Molina – natural do Uruguai

Uma reunião da ALVI – Associação Literária de Viamão com brasileiros de todas as paragens e dois caros colegas e amigos que nos enobrecem. Viamão é “uma pátria amada” por pessoas de todas as naturalidades que aqui vem trabalhar, residir e enriquecer a nossa cidadania e a nossa querida Terra Setembrina dos Farrapos.

Klaus Haus–restaurante em Morro Reuter / RS–Junho 2014

Fogão a lenha - Restaurante em Morro Reuter - Klaus Haus

Klaus Haus - Morro Reuter - 36 doces

Klaus Haus – Restaurante em Morro Reuter / RS.

Num sábado em que a temperatura despencava para 5 graus centígrados e recebíamos a dolorosa notícia do falecimento do grande cidadão e futebolísta Fernandão – Fernando Lúcio da Costa – este singelo restaurante na serra gaúcha oferece uma comida deliciosa inclusive com o fogão à lenha sendo reabastecido constantemente. Comida caseira e bom atendimento por custo real. Um bufê de sobremesas com 36 variedades. Observa-se que é uma construção muito antiga cuidada com carinho tradicional dos descendentes alemães.

Trabalhadores Anônimos em Viamão–Junho 2014

Trabalhadores Anônimos - Limpando Viamão

Trabalhadores Anônimos!

Numa cidade infestada de pichadores impunes e pessoas “sugismundas”, poucos se apercebem que as ruas estão limpas pelo trabalho dedicado de pessoas cordiais e com esses belos sorrisos estampados nos rostos numa manhã de 8 graus centígrados.

Moradores de rua em Viamão–Junho 2014

 

Moradores de rua - Viamão

Moradores de rua 2 - VM

Moradores de rua caninos.

O carinho e o amor de pessoas que respeitam a vida cuida desses amigos anônimos do homem a milhares de anos. O frio e a umidade castiga-os. Ganham roupas e camas quentes, ração e um pote de água e o carinho de todos.

A Negra Paciência–Edson Olimpio Oliveira–Crônicas & Agudas–Série Especial Memória Negritude

M E M Ó R I A

A Série Memória reapresenta textos publicados em crônicas, contos ou lendas do autor em antologias e em jornal.

 

 

A Negra Paciência!

 

Uma Saga de Amor.

 

Os dias se arrastavam no tranco das carretas pesadas dos mascates que faziam a festa daquela vila em torno da sua capela. Campos de Viamão era um de seus nomes. Um povoado como tantos outros perdidos na imensidão de terras em que as únicas cercas eram aquelas marcadas pelas patas dos cavalos e pelo aço das lâminas sedentas de sangue. O gado criava-se solto e as marcas de seus donos refletiam o seu poder e a sua riqueza. O Brasil português terminava em Laguna numa fronteira invisível aos conquistadores da terra. O inverno precoce já se anunciava naquele abril dum ano esquecido. O hálito gélido do minuano estava se alternando com dias sonolentos de um mormaço que afogueava os cães, fazia a peonada buscar uma sombra de figueira e deixava os escravos com o compromisso de abanar os mais abastados.

 

 

                               Paciência! Somente Paciência era o seu nome. Os negros e escravos não tinham sobrenome. Muitos nem conheciam seus pais. Mas todos conheciam seus donos. A negra Paciência acompanhava esta família a duas gerações. Não mais existiam escravos nesta casa ou nesta família, ao contrário de muitos outros estancieiros. Os seios fartos mostravam sua aptidão de ama de leite. E foi assim que amamentou seu atual patrão. No lugar do seu filho devorado por uma febre maldita e fatal, o leite continuou jorrando para alimentar aquela criança prematura que perdera a mãe em seu nascimento. Uma mãe sem filho. Um filho sem mãe. – Uma curiosa armadilha de deuses preocupados com as guerras e alheios à dor e ao sofrimento das criaturas. – dizia em tom solene aquele homem que um dia envergou a farda do império como cirurgião e agora devotava sua vida cuidando de gente e de gado nessas paragens tempestuosas..

 

A casa grande guardava dentro de suas grossas paredes a alegria e muito da dor de seus moradores. O fardo inexorável do tempo já lhe arqueava as costas. Na grande cozinha um fogão faminto por mais e mais lenha permanecia sempre aceso. Dias e noites. A qualquer hora aquela mulher estava ali em seu posto. – Parece que tu nunca dormes Paciência! – dizia-lhe o patrão. Somente um sorriso afetuoso trazia a resposta. A grande chaleira de ferro sempre com água quente. Vezes que tropeiros e viajantes buscavam pouso ou quando o patrão retornava das longas viagens, a negra Paciência parecia saber a hora da chegada, pois ali esperava com sua deliciosa comida quente. O seu coração sentia como se fosse avó daquelas duas crianças filhos do patrão. A ternura e o amor devotado era resultado de um espírito grandioso manifestado numa vida de amor e perdão.

 

A Páscoa se anunciava. A negra Paciência já fazia os doces, muitos doces para a festa que fazia do povoado um lugar mais alegre com os risos das crianças. – Cristo daí paz e amor a esta família e liberdade a todos os meus irmãos. Faça com que todos os patrões libertem seus escravos como fez meu antigo patrão. – orava ajoelhada fitando a cruz dourada colocada em oratório na cabeceira da mesa grande.

 

Tiros de mosquetão. Berros de garrucha. – Cristo nos ajude! – gritou instintivamente Paciência. Bandoleiros portugueses e espanhóis infestavam essa terra numa sina de roubar e matar. Como se isso não bastasse, violavam as mulheres e queimavam as casas. Gritos de dor e morte. O patrão e a peonada estavam nas lides de tropeada. Logo os empregados estavam mortos ou dominados. Correu para o quarto da patroa encontrando-a com armas à mão e as duas crianças acotoveladas num canto. Essa parte da casa tinha portas e janelas de madeira reforçada. A algazarra e os relinchos de cavalo cruzavam pelo pátio iluminado por tochas de fogo como num ritual macabro. Escutava-se que já estavam dentro da casa. A patroa ordena-lhe que abra o alçapão escondido sob um grande tapete no assoalho. Por ali desceria ao porão e por uma abertura dissimulada poderiam buscar auxílio e proteção na vila. Manda-a descer com as crianças. – Vem patroa! Vem patroa! Por Cristo e seus filhos vem… – não pode concluir a frase. Da janela arrombada um tiro de escopeta tingiu de rubro a longa camisola branca que a luz do candeeiro fazia a vida tornar-se espectro.

 

Paciência caiu escada abaixo. Com a agilidade de uma pantera negra acuada protegendo sua ninhada ergueu-se com as crianças nos braços. O peso da idade dera lugar ao fardo da responsabilidade e do amor. Esgueirou-se pela fresta de pedras e ganhou a companhia da lua correndo pelo mato. O fogo voraz que se alastrava pela casa lançava fagulhas que como estrelas da morte singravam o manto negro do firmamento.

 

Alguém está fugindo! – gritou uma voz assassina.

Traga-lo! – berrou um demônio castelhano que comandava a horda.

 

Um homem esporeou seu cavalo. Não deixavam testemunhas vivas. Paciência conhecia aqueles matos como a sua cozinha. Trilhas que levavam à vila e à igreja eram como as veias do dorso de suas mãos. A cavalo seria mais difícil segui-la. Sabia disso. A vila já saíra de seu torpor, pois alguém tocara o sino da capela e vislumbrava-se o fogo lambendo o céu. – Ele está perto! – pensava com o coração em desabalada carreira. Escutava o mato se quebrando e o fôlego das ventas demoníacas em seu encalço. Sabe que será alcançada logo. Então, num derradeiro esforço esconde os dois irmãos no oco da velha figueira. Cobre-os com a sua sobre-saia negra.

 

Ali está o predador maligno frente a frente com sua presa. E sem esperanças um raio de aço e morte desce sobre Paciência. E mais outro. A negra ajoelha-se e vislumbra seu algoz com a lua ancestral por testemunha. O maldito pouco pode saborear sua vitória. Estampidos e o cheiro da pólvora preta se acompanham de densa fumaça. Ele tomba mortalmente atingido pelo povo da vila que acudiu. A montaria dispara alucinada.

 

A fenda fatídica jorrando a rubra vida que se esvaía descia do pescoço ao meio dos seios. O sangue afogava-lhe a respiração e com os olhos arregalados e a mão apontava para o esconderijo da figueira. A mão! Enrolada na mão direita estendida em flecha estava o símbolo de sua fé – um crucifixo. As crianças foram salvas. Ninguém mais sobreviveu ao cruel assalto. Logo o pai encontrou os filhos.

 

A negra Paciência foi sepultada com honras de heroína ao lado da patroa. E ali naquele local onde seu sangue foi derramado, ali naquele local que se chamaria de Várzea de Dom Diogo – hoje Campo do Tamoio, verteu na manhã de Páscoa uma fonte de águas cristalinas. Logo foi chamada e conhecida – a Fonte da Paciência! Durante muito tempo as mães iam ali buscar a água que aliviava ou curava seus filhos orando pela proteção da Mãe-negra. Ali seus irmãos libertos construíram um arco de pedras em gruta como o oco da figueira protetora. Um útero de pedras para crianças renascidas, libertadas do abraço da Morte pelo Amor.

 

 

O tempo pode toldar o fluxo da memória de um povo. O amor e a gratidão, mesmo com o esquecimento dos fatos, ainda marcam o local da Fonte da Paciência – a fonte do amor da negra Paciência! Alguns corações desejam ver ali a negra protetora na lua de Páscoa esquecendo que seu amado Cristo transformou seu sangue numa fonte de vida e esperança, sem espectros!

 

 

Nota do Autor:    Viamão, uma cidade histórica, lembrada por ter sido Capital do Rio Grande do Sul, cantada em verso e prosa como a Setembrina dos Farrapos, tem a segunda grande Igreja construída neste Estado. Aqui no Centro da cidade, à rua Luiz Rossetti ainda se vê a Fonte da Paciência. Abandonada. Destruída. Reconstruída várias vezes pelo humor dos que preservam o patrimônio e a memória de um povo. Felizmente ainda está ali!

 

Ganhos e Perdas – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 10 Junho 2014

 

2014 – 06 – 10 Junho – Ganhos e Perdas – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Ganhos e Perdas

 

V

iamão está inserindo seu nome no cenário mundial do século XXI hospedando a seleção de futebol do Equador no hotel Vila Ventura nesta edição da Copa do Mundo Fifa de Futebol. O Vila Ventura venceu por seu méritos e esforços de seus proprietários e funcionários uma feroz competição com hotéis e regiões de reconhecida atividade turística no Rio Grande do Sul, como por exemplo, Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Gramado-Canela e com Porto Alegre. É um fenomenal ganho para a cidade que deverá usar para conquistar novos empreendimentos e sair de um marasmo secular. Viamão, como espelho de um Brasil enfermo pela politicagem desenfreada e altamente corrompida, vem pensando na próxima eleição por seus representantes políticos e por suas entidades partidárias – jamais generalizando! Eis que investidores do segmento chamado “capitalista” apesar do desdém inflamado e ciumento apostaram e arriscaram seus pescoços e bolsos num empreendimento no “sertão viamonense”. Diga-se que muitos apostavam e até desejavam a sua ruína e fracasso. É contagiante ver a alegria dos funcionários dessa empresa e sentir que além do trabalho e do sustento pessoal e de suas famílias está a felicidade do reconhecimento e do sucesso de suas atividades.

 

Cr & Ag

 

O maior adversário de Viamão sempre foi o sentimento de menos valia e de inferioridade de parcela significativa de seus habitantes. Chamada de cidade dormitório de Porto Alegre, clip_image002a filha que cresceu e deu frutos, a maioria de seus moradores são nativos das mais diversas regiões do Estado, do Brasil e do mundo e dolorosamente custam a romper com seus cordões umbilicais. Assim não se assumem como viamonenses e quando perguntados longe daqui dizem que “moram em Porto Alegre”. Quando fundei a 1ª. Capital Equipe, com o logo ao lado, acrescentei como a 1ª. Capital de TODOS os Gaúchos. Ainda semana passada expliquei ao caro Dirk Hesseling o porquê que Viamão é a 1ª. Capital realmente de TODOS os gaúchos e gaúchas. Há muitos que entendem assim e outros fazem uma leitura escorada na sua humildade, inferioridade ou acanhado entendimento.

 

Cr & Ag

 

Vários tratados entre Portugal e Espanha esbarravam na realidade regional e assim o Brasil terminaria ao sul em Laguna, Santa Catarina. A Coroa Portuguesa cravara suas garras nas franjas do Rio da Prata com a Colônia do Sacramento, um espinho cravado na goela castelhana. Na atual Rio Grande, entrada da Lagoa dos Patos havia fortificações portuguesas como o Forte de Jesus, Maria e José e ali veio ficar o representante do rei de Portugal. Amigos muambeiros no melhor sentido, quando visitam o Chuí, muitos vão conhecer a fortaleza de Santa Tereza dentro do Uruguai. Outra construção portuguesa. Quando os castelhanos da Argentina invadiram a Província Cisplatina (Uruguai) avançaram com suas tropas até Rio Grande e por mar até Desterro (Florianópolis). O corajoso representante português abandonou seus homens, civis e militares, e veio refugiar-se nos Campos do Viamão. Aqui se instalou e os fazendeiros começaram a se unir para enfrentar o inimigo que planejava possuir essas terras. Além da criação de gado, imensas boiadas selvagens (gado chimarrão) vagavam por toda a Província da São Pedro e Cisplatina. As rotas de muares vindo das minas do Peru eram pelas Missões. E as rotas dos gados vindos dos Campos do Viamão subiam a serra, passavam por Lages, região de Curitiba e até Sorocaba em São Paulo e dali tanto para as Minas Gerais quanto para demais territórios. Itapuã fechava o estuário do hoje Guaíba e Rio Pardo, chamada de Tranqueira Invencível, vedavam os rios aos castelhanos que eram fustigados incansavelmente pelas nossas guerrilhas. O sentimento de pátria brasileira nasceu nestas terras através desses fatos muito resumidamente relatados. E nasceu aqui em Viamão, a 1ª. Capital de Todos os Gaúchos. Quem ama não se esconde e não deturpa a verdade e contar a história ao seu gosto e desprazer é comum nos sistemas e regimes em que até as imagens são retiradas das fotografias e os textos dos livros. Parabéns Vila Ventura! Parabéns Viamão e viamonenses de todas as origens identificados pelo amor a esta terra sagrada!

Caminho do Viamão em Tainhas-RS 002

Caminho do Viamão em Tainhas-RS 003

Mapa do Caminho do Viamão – ou mapas que os viamonenses ainda desconhecem!

A Negra e a Cobra – uma lenda de Viamão – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

M E M Ó R I A – uma lenda de Viamão

A Negra e a Cobra!

                                                                              O caso relatado a seguir pode ser considerado mais uma dessas histórias fantásticas que preenchem os vazios das conversas entre avós e netos. Ou que faz as horas dolentes de noites quentes terem muito mais conteúdo. E que o suor não seja apenas do calor, seja aquele suor frio que vão fazer, ou já fizeram as pessoas espiarem os cantos do quarto e, com o coração aos sobressaltos, horrorizar-se com qualquer sombra sob a cama ou a mover-se sorrateiramente.

                                  

 A vida era muito dura, para todos naquela fazenda. E seus trabalhadores e proprietários traziam no corpo e na alma as suas cicatrizes. Tanto da labuta sem férias ou qualquer descanso, quanto das feridas que teimavam em não cicatrizar pela Revolução de ‘23.  Ali trabalhava e vivia desde seu nascimento uma negra de nome Domiciana.

Domiciana! Ao balanço de seus 20 anos, tornara-se uma mulher de poucas e necessárias palavras. Isso desde o trágico acidente que matara seu marido. Contam que durante uma doma, o bagual xucro como o vento pampeano, empinara e caíra de lombo, prensando o cavaleiro debaixo de si. Com a bacia quebrada e hemorragia interna, morrera lentamente com a cabeça no colo daquela mulher. Nunca a viram derramar uma lágrima. Diziam que as lágrimas tinham sido enterradas junto com o finado. Mas ele havia depositado em seu jovem ventre a semente daquele amor aquecido nos pelegos, nas noites em que o vento minuano era o milongueiro mais escutado nas revessas daquele pampa.

Ninguém engomava uma camisa como ela e os beijus que fazia na velha tafona eram inigualáveis.  Também era de suas mãos que saía um churrasco de charque com aipim assado nas brasas do fogo de chão, o prato predileta da Vó Quita, a matriarca da estância. 

O Parto! Ganhara o filho:

solita, mas com Deus – completava fazendo o sinal da cruz com os dedos da mão unidos num toque final nos lábios e os olhos virados para algum ponto do céu.

Partejara no casebre de madeira no meio do laranjal. E com o sal da gamela e a água do poço, abençoou e banhou o filho. Assim como sempre escutara da falecida mãe que havia feito consigo. Da mesma forma a sua avó… Uma tradição familiar dessas mulheres acostumadas a lidar com a dor e a solidão. A solidão essa companheira inseparável de corpos e corações.

Sebastião! O negrinho, forte e vivo, chamou-se Sebastião, em homenagem ao seu pai. Mas logo ganhou o carinhoso apelido de Gorgulho pela esposa e filhas do estancieiro, onde disputava o colo e a atenção mais que potrilho de campeão.

Domiciana, sempre após o café dos patrões, tomava o seu canecão de café com leite e canela, onde mergulhava sete pregos enferrujados – uma simpatia da Vó Quita – para o leite ficar mais forte. E o Gorgulho estalava os beicinhos ao mamar e espremer aqueles formidáveis seios.

Lá por volta do 6º mês de idade, o negrinho parou de ganhar peso e ficou meio “murcho”. Domiciana amanhecia com os peitos quase vazios. De início achavam que estava “secando o leite”. Ela não sabia o porque, pois ele até:

— mamava de madrugada! – sustentava com olhar espantado.

Realmente, escutavam o negrinho chorar e após acalmar-se em certo período da noite.

A família estava preocupada, tinham tentado benzimentos, chás, simpatias e… Nada dava certo. Só faltava chamar o “doutor do povo”. Uma noite, Domiciana recolheu-se ao seu rancho meio febril.  O patrão ordenou ao peão Crescêncio que se ouvisse algo que fosse acudi-la.

Na madrugada, Gorgulho chorava sem parar. Crescêncio, que já havia dormido com o pala por cima, saiu à rua e espiando por uma fresta da janela de correr do casebre, sentiu o seu vivido coração quase explodir de pânico.  Acordou o patrão e foram todos, sob sua orientação, pé ante pé, espiar o que se sucedia.

A cobra! Uma cena capaz de arrepiar ao mais valente. A luz bruxuleante e fugidia do candeeiro de querosene fazia o réptil visível. Uma cobra. Uma cobra preta. Enorme. Enrolada num canto do travesseiro de palha. A mãe em sono febril. Delirante. O animal mamando na teta da negra agitada. Ao choro do negrinho, a cobra colocava o rabo em sua boca. Ele chupava a cauda parando de chorar. Depois de certo tempo, ao não sair nada, voltava a chorar.

Nas sombras malignas, o horror aumentava.

Arrombem a porta! – berrou o patrão a plenos pulmões.

Invadiram o rancho, matando a cobra. Após, em alarido, a peonada se reuniu na frente da mangueira vendo aquele enorme réptil pendurado nos varais do alambrado. Escorria sangue, pouco E leite, muito, de sua cabeça parcialmente esmagada.

Daí, em diante, a saúde voltou para Domiciana e Gorgulho.

A lenda. O causo. E o acontecido mais uma estória se tornou. Para muitos, somente uma lenda. Para quem viveu aqueles momentos, uma marca eterna, como a vida e os mistérios da natureza. Ainda hoje está enterrado na figueira secular daquela estância um facão com Gorgulho gravado no chifre da sua empunhadura. A árvore cresceu e abocanhou a lâmina profundamente. Ali está proteger todas as crianças e suas mães das serpentes.

Republicada em Dezembro de 2006 no Jornal Opinião e publicada na Coletânea Escritos III da Academia de Letras de Porto Alegre organizada por Benedito Saldanha em 2010.

2010 - Escritos III

Entre cães e cavalos – as lições esquecidas! 2a. parte/2 – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas –

 

2014 – 06 – 03 Junho – Entre cães e cavalos – as lições esquecidas! – 2 – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Entre cães e cavalos – as lições esquecidas! – 2ª. Parte/2

 

T

alvez herdando de ancestrais, alguns dos antigos habitantes dos pampas deixavam ao cavalo a escolha do local onde construir sua habitação por mais singela e humilde que fosse, assim como as melhores casas dos mais abonados. Onde o cavalo escolhesse para pastar com apreciável sossego ou onde por primeiro fosse comer a ração que seu dono deixasse, ali seria o melhor local para se morar e criar raízes com a família. O desavisado ou descrente poderia escolher a margem da lagoa serena ou à proximidade da frondosa figueira, no entanto se ali o cavalo não tivesse a sua preferência, nem para descansar ou amamentar seu potrilho o lugar seria inadequado. Curioso? Não para aquele cavaleiro e seu formidável companheiro.

 

Cr & Ag

 

Também a tradição ensinou a construir moradias como o sábio pássaro joão-de-barro – com a frente para o norte ou as costas viradas para a inclemência do vento e do frio vindos da Antártida, como o vento Minuano. O cão escolhe o seu dono. Numa família numerosa o cão persiste e mantém a sua escolha individual. Até o filhote escolhe aquele que será para sempre o seu amigo. A sabedoria dos antigos deixava o cão do homem escolher o local do seu quarto que até poderia ser diferente daquele que foi construído com tal finalidade. O cão aceitando dormir, comer e viver com tranquilidade naquele cômodo, selava a propriedade e no seu local predileto ficaria a cama de seu amigo/dono. Caso o cão renegasse aquele ambiente, alguma desgraça anunciada se sucederia caso seu dono ali fizesse seu quarto. O cão do homem teria acesso sempre ao seu quarto, tanto para sua segurança quanto a potenciais inimigos quanto às ameaças invisíveis. Nesse aspecto os gatos são considerados em muitas culturas, como a egípcia, seres com visão e abertura para o mundo espiritual.

 

Cr & Ag

 

O Criador dotou-nos de duas linguagens absolutamente universais com as quais nos comunicaremos com seres deste planeta ou de outros sistemas. E para conter os apressados – nada a ver com o inglês, com o esperanto ou com o mandarim. A música que com apenas sete letras articula infindáveis melodias agradáveis ou não aos nossos sentidos é uma das linguagens. Há animais em que se identificam várias dezenas de sons de comunicação, desde um humilde grilo à beleza e arte de um golfinho. Sabe-se que a primeira comunicação com seres extraterrestres será por música. A outra linguagem é a corporal, desde os mais simples e simbólicos gestos de aceitação ou de fome até aos mínimos trejeitos que identificam as necessidades de um recém-nascido ou os subterfúgios da canalhice de um político.

 

Cr & Ag

 

O mesmo Criador deu-nos um Mestre que nos acompanha e ensina em nossa existência – nosso corpo. Nosso corpo não é somente o casulo, a casca ou a moradia de uma alma imortal. Nosso corpo é nosso mestre e felizes e sábios são aqueles que desnudam a suas informações e ensinamentos. Quando se diz que “a dor ensina a gemer” para demonstrar a forma de aprender pela via do sofrimento e da dificuldade, poucos nos atemos que a dor será algo etéreo sem um corpo em que possa se manifestar e que esse corpo tem as nuances de identidade com outros seres vivos como tem solenes particularidades com o espírito que dele desfruta. Nessa pequena caminhada de duas simples crônicas caminhamos juntos com magníficos amigos e descobrimos ou reafirmamos o universo contido em cada um de nós separados desde o Éden, mas caminhando e buscando a Luz da unidade primordial com o Pai e Criador Universal. Assim concluímos esse espaço com as duas leis básicas, primordiais, iniciais de tudo e do nada – a Lei da Unidade e a Lei da Dispersão! (Nota do Edson: sigam-nos em http://www.edsonolimpio.com.br)

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Entre cães e cavalos – as lições esquecidas! 1a. parte/2 – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 27 Maio 2014

 

2014 – 05 – 27 Maio – Entre cães e cavalos – as lições esquecidas! – 1 – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Entre cães e cavalos – as lições esquecidas! – 1ª. Parte/2

 

A

 tradição oral, as conversas à beira de uma fogueira desde tempos imemoráveis, os ensinamentos passados dos mais velhos e veteranos aos mais novos, dos mestres aos alunos têm seus tempos contados e nas grandes comunidades caminha a passos largos para o descrédito e ao esquecimento. Jamais se escreveu tanto e publicou-se tamanha montanha de livros e revistas, no entanto o aproveitamento desses enormes conteúdos se volatilizam na transitoriedade da internet. A frugalidade dos relacionamentos se espelha no desdém dos milenares ensinamentos. Numa aula de ilustre mestre e pesquisador, a turma de médico, cirurgiã-dentista e psicólogos tratavam das escolhas das pessoas em relação as suas casas ou moradias. Complementando trouxemos a tradição daqueles homens que desbravaram o território rigoroso da antiga província de São Pedro, atual Rio Grande do Sul e de suas habilidades quase esquecidas e as relações com os cães e os cavalos.

 

Cr & Ag

 

Achados arqueológicos sugerem que o gato está 10 mil anos atrasado em seu contato com os humanos. Quando o gato aproximou-se do homem primitivo encontrou o cão como seu amigo e companheiro e que não aceitou essa intromissão e o ciúme tornou-os inimigos. Ao gato coube a casa e… os ratos, o afago das mulheres e o sono descompromissado com a guarda e com a caça. O cavalo é em todas as etnias um companheiro do homem. Os índios da América logo conquistaram e cultivaram um relacionamento magnífico com o cavalo, dos comanches do Norte aos charruas do Sul. Das distâncias vencidas com maior agilidade e rapidez, dos novos territórios de caça à guerra, ali cavalo e cão são os parceiros do homem e a história é pródiga em narrar os feitos épicos. Cavalo e cão nunca disputaram o espaço nas terras, na casa ou no coração do homem. É fantástica a cena do homem trotando o corcel com o cão abrigando-se do sol ou da chuva na sombra do cavalo, inclusive entre suas pernas numa incrível harmonia de movimentos.

 

Cr & Ag

 

Em condições adversas como numa noite em breu absoluto, numa tormenta, cavaleiro ferido ou perdido, evitando uma tocaia criminosa ou de um animal, encontrando água no deserto está o cavalo conduzindo seu cavaleiro à segurança. O cavalo árabe com mais de 5 mil anos de intensa vivência com o homem é um soberbo exemplo. A mística confunde-o com o Bem no cavalo de São Jorge contra o demoníaco dragão. Ou com o Mal nos Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Acredita-se que o garboso cavalo montado por Bento Gonçalves na estátua defronte o Colégio Júlio de Castilhos em Porto Alegre, seja um árabe. A cauda elevada e a cabeça pequena em aparência elegante e nobre remetem ao cavalo árabe, mas documentos históricos datam da segunda década do século passado os primeiros registros do cavalo árabe no Rio Grande do Sul. Uma curiosidade: a bela cauda erguida como a batuta de solene maestro deve-se a ausência de uma das vértebras de sua coluna espinhal.

 

Cr & Ag

 

Creditam-se aos germânicos grandes desenvolvimentos em novas raças caninas, assim como na preservação da pureza de outras raças. O maior poeta italiano de todos os tempos e um dos maiores da humanidade, Dante Alighieri em sua célebre obra A Divina Comédia em que trata de sua viagem ao Inferno, Purgatório e Paraíso acompanhado do poeta romano Virgílio e de sua amada platonicamente Beatriz menciona os cães guardiões dos portões do Hades ou Inferno. Esses cães seriam os Rottweiler, nome devido terem sido encontrados ainda puros na região alemã de Rottweil. Esses cães eram usados pelas legiões romanas em seus três portes diferentes. Os pequenos para alerta e manter os acampamentos limpos, principalmente de outros animais invasores. Os cães de porte avantajado eram usados como animais de carga e os de porte médio para guarda pessoal e para os combates nas ferozes batalhas. (Nota do Edson: o tema continua na próxima semana, na coluna seguinte. Aguardem!)

Qual a origem deste cão ou de seu dono?

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