Grossura! – por Edson Olimpio Silva de Oliveira – Jornal Opinião de Viamão – 23 Maio 2010

5 Mai 23 – Grossura – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Grossura!

– Série Humor ainda é um bom remédio! –

– É mais grosso que dedo destroncado! Ou ainda: – Não é mais grosso por falta de espaço! A sabedoria popular gauchesca é repleta desses termos que retratam a falta de uma postura mais educada, mais refinada, mais condizente com o ambiente ou com a posição social da criatura. – Estamos na época em que tudo pode pra quem se sacode! – Outro ditado querendo liberar o que deveria ser privado.

Os novos ricos ou os emergentes que estão galgando a pirâmide social são exemplares nessas gafes ou despropósitos. Alguém consegue imaginar uma guerra de miolo de pão numa janta do Lions com médicos jogando as bolas de massa socadas na cabeça dos outros? Há testemunhas vivas. Ou a criatura limpando as unhas com o pálido? Às vezes fica difícil saber onde termina a grossura e começa o relaxamento.

– Tá com uns pilas no bolso e já acha que é gente! – diz outra sabedoria popular gaudéria. Verdade. Os novos ricos são desvairados (alguns mermão!) e falar alto e gargalhar em recinto público parece normal em suas cabeças adornadas. No reino da cabeçolândia as pessoas não conseguem fazer uma refeição e conversar sem berrar e saírem com os tímpanos doloridos. Tem um restaurante praiano que a comida é boa em qualidade e variedade. Um ambiente amplo e sem ostentação, mas a grossura começa pelo garçom que atende com um palito entre os dentes. E se quiseres fazer uma refeição mais civilizada, pois em praia as opções são escassas, chegue antes das 11,30h, pois depois é “um pega pra capar”. Como um enxame de gafanhotos, atiram-se no bufê livre. Criaturas enchem os pratos como se fosse a última ceia. Morros imensos, caindo rodelas de tomate e alface pelo caminho. Ainda pegam um pratinho auxiliar e colocam pilhas de pastéis e outros etecéteras. Tal qual uma briga de foice no escuro, é garfo e faca brandidos de fazer inveja às guerras farroupilhas. E ainda escutas, gordas imensas (perdão pela redundância) explicarem para outras no mesmo descaminho que começaram “um regime”. Filho de emergente corre desatinado entre as mesas, chora e ri e atira-se no chão sob a complacência dos pais engalfinhados na bóia. Só chamando assim mesmo. Uma selva! Muitos jamais comem frutas e são raros os demais vegetais em suas casas, mas no restaurante misturam tudo no mesmo prato: – É muito bom pra saúde! – escutas.

A batalha final trava-se nos doces. – Credo, olha só ela se serve de doce no prato de comida! – diz ferozmente cuspindo sementes de melancia que ricocheteiam no prato e caem na mesa ao lado. – Que coisa feia, pra isso tem os pratinhos! – completa. Enquanto o casal acaba com a Pepsi 2L, empurram os pratos e a tolha para o centro da mesa. Tapam a boca para arrotar. Escondem a boca, jamais o cheiro e o barulho. Vem a sessão de palitamento de dentes enquanto o café preto geralmente frio e doce escorrega goela abaixo. Completando ele pergunta sinistramente: – Deu pra comer! – ao que ela responde com sorriso maroto do implante dentário: – Hehehehe, agora comi sem dar! De noite quem sabe…

O Povo da Rua! – por Edson Olimpio Silva de Oliveira – Jornal Opinião de Viamão – 05 Maio 2010

5 Mai 05 – O Povo da Rua – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

O Povo da Rua!

Ou seria um título melhor – Os Povos das Ruas? Apenas para efeito e consideração prática temos dois: o povo de rua que tem pátria, isto é, tem casa ou toca-lar para onde retornar. E o povo da rua que não tem pátria, sem moradia, zumbis ou párias da sociedade que em desabalada carreira passa a sua volta, fechando as narinas para seu odor de morte anunciada ou para nossos monumentais ungidos pelo poder das urnas que o usa como asfalto na estrada pedagiada e com sobrepreço de suas carreiras.

No povo da rua com pátria encontram-se os fileiros. Esse bando de criaturas que ou ama ou odeia filas, mas elas sempre fazem parte das suas vidas. Filas ou bichas no gauchês. Fila no caixa do mercado – gigantescas no Big e no Nacional, filas nos caixas de bancos, se tem caixa tem fila, fila no cinema, fila no trânsito, fila no banheiro, fila no motel… Centenas! E a fulminante e mortal fila para atendimento na saúde. Emergências superlotadas, congestionamento de ambulâncias e macas nos corredores. Fila para conseguir um leito ou para receber remédio e transplante. E as filas de festas – ingressos para carnaval, jogos de futebol e outras relíquias. Esse pessoal cria know-how especializando-se para cada situação. Cadeiras de praia, garrafas térmicas, mijador (recipientes para urinar na fila), chimarrão, comida variada, som, celular carregado e muito papo para rolar com os vizinhos. Acrescentam-se os vendedores de filas, como a posição na fila, fazer alguma propaganda e aplicar algum golpe nos espertos de plantão.

E o povo sem pátria, sem lenço e sem documento, como a música famosa que nasce, resiste, sobrevive e morre nas ruas. Seres encardidos, sombrios. Olhar feroz, olhar de cão pidão ou olhar de peixe morto – opaco, perdido, terminal, sem qualquer horizonte, afogado na dor ou no vício. Existe vício sem dor? Claro que não, perdoem a redundância. Uma escada, um canto de parede, uma marquise, um viaduto, um banco qualquer, árvores quando existiam, portaria de igreja, um jornal ou caixas de papelão. Qualquer fantasmagórico teto ou a mortal cobertura do álcool e do crack. A fuga dos albergues ou de qualquer instituição que crie disciplina e cerceie a liberdade de quem não tem liberdade alguma. Prisioneiros da mente doente, em grades permanentes das vidas do futuro pelo minuto seguinte. A vida nos bueiros, literalmente. Essa legião é alargada e engrossada nas suas fileiras pela droga que traz o inferno para corpos degradados e almas sugadas, flageladas no poço da maldição. Muitos já tiveram uma pátria, uma família, pessoas que os amavam e um trabalho. E agora? Um destino inexorável onde jamais a morte liberta. Ao contrário, serão maiores as dores e o sofrimento. Raciocinemos sem romantismo!

Vida depois da Morte ou Vida depois da Vida! – por Edson Olimpio Silva de Oliveira – Jornal Opinião – 05 Maio 2010

5 Mai 05 – Vida depois da Morte ou Vida depois da Vida! Crônicas e Agudas – Jornal Opinião

Vida depois da Morte ou Vida depois da Vida!

– Eu é que não sei o que tem depois, pois ninguém que morreu voltou para contar! – Essa é uma das várias formas de serem expressas as angústias ou temores de diversas pessoas. Piora quando quem assim se expressa conclui: – Temos que aproveitar tudo que dá agora, pois depois ninguém sabe!

 

Quase que invariavelmente quem assim se manifesta professa alguma religião. Nunca vi algum ateu dizer isso. E maciçamente são cristãos. Ou assim se dizem e rotulam. De um modo geral somos primitivos em nossos raciocínios e sentimentos. E um dos sentimentos e necessidades primitivas do ser humano é ser tribal. Pelo bem e pelo mal. É como se o lobo que habita o nosso íntimo buscasse a sua alcatéia e assim sentir-se protegido e poderoso.

As três maiores religiões ocidentais tem em seus alicerces os ensinamentos dos grandes profetas do Antigo Testamento que nós cristãos aceitamos. Todos eles pregavam o Deus Superior e uma vida depois desta vida. Com Cristo aconteceu a sublimação e o aperfeiçoamento de todos os ensinamentos e para nós – Deus Filho torna-se um ser humano. E como ser humano vive, sofre e sente todas as qualidades e dores dos seres humanos. E sempre ensinou-nos que há uma vida depois dessa vida. Esse é um dos pilares basais em qualquer religião ocidental ou oriental. Observem os magníficos ensinamentos de Buda e de Maomé. Observem que até entre as mais diversas civilizações em épocas e regiões distantes entre si acreditam e vivem a vida do agora sabendo de uma vida depois dessa.

Alguns pregam que isso faz parte da necessidade do ego humano e nesse caminho dezenas de versões se acumulam. Muitos psiquiatras enveredam por essa sombria vereda, no entanto, centenas de outros tratam seus enfermos em “hospitais espíritas”. Os ensinamentos espíritas vertidos por Kardec trouxeram o renascimento do amor pleno e incondicional – o amor de Cristo – com a denominada “fé raciocinada”, significando que tudo que ofender a razão, pode ser ruim para o ser humano. Eu acrescento que toda a ideologia ou toda a fé que busca a aniquilação das outras e o sectarismo ou o radicalismo vassalo está sendo odiosamente manipulada ou muito mal entendida. A unidade de um Deus de Amor jamais terá a face sangrenta da morte ou a posse do irmão para aumentar seu poder.

O grande debate deveria estar centrado pelo título desse ensaio em como é ou pode ser a vida depois da morte. Ou o que nos espera depois dessa passagem aqui na terra? O que acontece com o espírito imortal que vive e usa esse habitáculo que denominamos de corpo? Para muitos o livre arbítrio ou o uso da razão que permite à ovelha permanecer com seu pastor ou rebelar-se contra o falso pastor é uma “maldição” da humanidade.

Nos idos da metade da década de 1980, buscava explicações para “fenômenos” comuns à vida do médico. Isso me permitiu acrescentar a uma base cristã e católica de meus pais e principalmente de minha mãe Dora o estudo de novas filosofias e tentar extrair da fé de outros, novos ensinamentos. Pelo motociclismo fiz centenas de amigos e desbravei terras que jamais sonhei existir e conhecer, pois foi o motociclismo que me aproximou de um grupo que estudava a “vida depois da morte” e até as “vidas passadas”. Tinha a liderança nacional pela médica paulista neuro-psiquiatra Maria Júlia Prietto Peres e do emérito professor e mestre psicólogo Antônio Veiga. Pelas intricadas teias das existências, o Veiga é um viamonense e professor de diversas universidades e Maria Júlia com uma cunhada viamonense – a querida Mara Peres Ramos. O intuito era de um grupo de estudos e pesquisas, sem qualquer vínculo religioso, como outros que se formaram pelo mundo afora que buscava a vertente da vida depois da vida e a reencarnação. Depois de vários anos, seguimos caminhos diversos os membros da época. Mantenho ainda contato com o Veiga e seu estudo e trabalho contínuo da pesquisa e da iluminação do ser humano. Inúmeros são os médicos e psicólogos que foram e são seus alunos e eternamente gratos pelos horizontes de amor que ousa e persiste ensinar e difundir. O amor se constrói e sedimenta com disciplina e dor e mesmo os mais empedernidos, refratários e primitivos em suas essências vitais serão compelidos a evoluir.

Chico Xavier! – ) Homem Escolhido. – por Edson OLimpio Silva de Oliveira – Jornal Opinião – 21 Abril 2010

4 Abr 21 – Chico Xavier – O Homem Escolhido – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

Chico Xavier – Um Homem Escolhido.

Respeitosamente às opiniões divergentes, entendo o Espiritismo como uma filosofia que transcende à vida. A humanidade renasce após cataclismos e assim foi no pós-revolução francesa em que os ideais de liberdade, fraternidade e humanidade ocuparam e mente e o vazio de muitos corações empedernidos. Ali o francês que conhecemos como Kardec compilou amorosamente as bases de uma religião e de uma filosofia gerada em Cristo. Como quando os apóstolos iniciaram a jornada de pregação, os espíritas assim chamados foram perseguidos e muitas vezes brutalizados pela insanidade e ferocidade de quem dizia ter “a palavra de Deus” em seus lábios. E pela primeira vez, o mundo ocidental teve uma nova visão e um maior entendimento da vida e da morte.

A reencarnação aceita ancestralmente por povos de todo o planeta encontrou na doutrina Espírita o seu véu dissipado com os textos kardecistas sendo lidos, ouvidos e raciocinados com amor incondicional, o real e verdadeiro amor cristão por pessoas de todas as cores, credos e ideologias. Essa fundamental diferença a filosofia espírita carrega desde suas origens – aceitar e amparar a todos no amor de Cristo.

Cristo nunca torceu para Grêmio ou Internacional, PT ou PSDB, exemplificando e pensando em conjunto com o amigo e irmão que me acompanha. Cristo sempre carregou a bandeira do amor e do perdão. O nosso parco e, por vezes, tacanho entendimento subverte as verdades divinas. Isso faz parte da nossa humanidade que está aqui para evoluir e iluminar-se pelo entendimento. Sintam como a humanidade do homem Cristo nas extremas agonias do sofrimento disse: – Pai, por que me abandonaste? Para logo a divindade do homem manifestar-se com o maior amor jamais sentido e demonstrado: – Pai! Perdoa-os porque eles não sabem o que fazem!

Brasil! A pátria de todas as pátrias tornou-se refúgio e lar do Espiritismo. Aqui se iluminou e rompeu dogmas unindo ciência e fé. A mediunidade expressa por incontáveis pessoas que sequer tinham esse novo entendimento floresceu e perfumou-se. Há poucos dias estreou nos cinemas o filme sobre Chico Xavier. Num formato diferente dos tradicionais documentários, como outro dia assisti do iluminado Divaldo Pereira Franco, o filme mostra e relata as vertentes do Chico criança, jovem, funcionário público, gente como nós, médium mundialmente reconhecido e do Chico que deixou a imagem mental que todos que o conheceram carregam. Estriba-se com memorável e antológico caso do Judiciário brasileiro que pela primeira vez aceita um texto psicografado para absolver e libertar um jovem quase condenado pelo assassinato de seu melhor amigo.

Em 1983, eu e a Cledi colocamos a Cynthia e o Duda no carro e fomos à distante Uberaba para conhecer Chico Xavier. Infelizmente Chico havia viajado e somente podemos conhecer um pouco da realidade de luz de uma de suas obras de amor ao próximo. Aprendi com meu amigo querido e de quem tive a honra e o privilégio de ser seu médico e privar da sua casa e amizade, o jesuíta Padre Raphael Ignácio Valle, simplesmente Padre Valle ou Padre Inácio – discípulo do Padre Reus e um dos criadores da Romaria da Medianeira – que precisamos conhecer e entender para amar e somente assim escolher os nossos caminhos com o livre arbítrio que o Criador nos deu.

Heróis Anônimos! – A Saga dos Esquecidos – por Edson Olimpio Silva de Oliveira – Jornal Opinião – 14 Abril 2010

 

Heróis Anônimos! A Saga dos Esquecidos – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião 14 Abril 2010

Heróis Anônimos! – A Saga dos Esquecidos.

 

Numa era de idolatrias nacionais e estrangeiras, numa era em que os holofotes são direcionados aos ungidos do poder e da glória, numa era em que alguns são semideuses ou quase imortais e disputam o trono como as divindades do Olimpo, numa era em que riqueza e poder e glória são sinônimos de sucesso, ali por trás dos panos e na obscuridade dos bastidores está uma legião de pessoas quase iguais a nós – os Heróis Anônimos. Assemelham-se por sua configuração humana, mas diferenciam-se por fazerem a diferença na evolução da humanidade. Não são sumidades científicas e jamais fascinarão o mundo ou escreverão seus nomes entre os gênios, mas eles criaram as bases e os alicerces para que o mundo evoluísse e tornasse-se um lugar melhor e mais digno para vivermos.

São tantos e nas mais diversas categorias profissionais e nas mais diversas funções. O bombeiro que balança um nenê em seu colo enquanto seus colegas tentam as manobras para ressuscitar a mãe sucumbida no desastre. O amor que resplandece numa cena despercebida e num plano secundário. Bombeiros molhados e imundos e feridos numa insana busca de sobreviventes nos desastres das enchentes ou dos terremotos. O popular na luta para resgatar das ferragens do carro acidentado com as labaredas iniciando-se as pessoas presas enquanto o socorro especializado tarda trancado num trânsito esgoelado e maluco. O policial cujo principal escudo é o seu corpo na luta pela defesa da sociedade ante a ferocidade insana da marginalidade crescente e protegida. A mãe que organiza uma ONG e que nela outros se associam a perambular pelos bares da noite tentando tirar os jovens do álcool e das drogas e, por conseguinte, dos acidentes de trânsito.

As professoras, jamais tias, que nas creches, maternais e escolas de infância inicial trabalham por amor substituindo pais e mães prisioneiros da sociedade de consumo crescente e dos impostos e taxas extorsivas dos governantes de plantão. Um peito, um gesto, uma palavra, um amor manifesto e os ensinamentos necessários na ausência relativa da família. Professores e terapeutas nas escolas das crianças com déficit físico ou mental escrevem diariamente páginas de amor e dedicação aos filhos que não gestaram, mas que se doam a cuidar e amparar.

As funcionárias dos postos ou unidades de saúde são os para-brisas ou para-choques dos desgovernos da saúde pública e alvos da raiva e das culpas pessoais de tantos que tentam proteger e cuidar. No lugar de um singelo agradecimento, quase sempre queixas. A insensatez é um privilégio da escassa iluminação do espírito e a raiva popular estranhamente não reflete a repulsa ao governante ou político demagogo ou francamente mentiroso.

Revolta-nos o lixo espalhado pelas ruas. Quem produz e quem espalha o lixo? Quem repetidamente amontoa seu lixo pessoal e doméstico em recipientes ou locais impróprios? No entanto, São raros o simples bom dia ou boa tarde aos lixeiros na sua sanha de livrar-nos da podridão crescente. Os moradores de rua – pessoas e animais – são febrilmente auxiliados e acompanhados por legiões de voluntários que ousam buscar um alívio para a fome, frio, abandono e dor. O sopão da madrugada e o café quente para quem encontra refúgio na caverna de caixas de papelão ou marquises desoladas…

Essa gente não é candidata ao teu voto. São candidatas ao amor cristão e um mínimo agradecimento ou reconhecimento deveria receber de cada um de nós!

Hipocrisia! – por Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas e Agudas – Jornal Opinião – 04 Abril 2010

4 Abr 07 – Hipocrisia – Coluna Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão

Hipocrisia!

Vivemos alguns, somos engolidos outros por um mundo de regras de convivência, de leis e de normas gerais. Criou-se a denominação do politicamente correto como uma forma de dourar a pílula ou até de tragar o intragável. A imensa maioria das pessoas não é o que é. É o que lhes permitem ser. Somos seres teatrais em quase constante representação. Estamos permanentemente fantasiados no palco iluminado ou sombrio da vida. Pense a sua vida! Pense em quantas vezes consegue exprimir-se ou manifestar seus sentimentos de forma plena ou o temor de magoar alguém ou de ser afligido por alguma lei maquiavélica lhe impedem de ser “real”.

Nem tudo que está na lei é ético ou é moralmente correto. Tens dúvidas? Observe ou relembre as qualidades éticas e morais de maioria dos nossos congressistas. Basta? A mui famosa Constituição Cidadã de 1988 não foi aprovada por grande parte dos políticos, inclusive de muitos que estão no poder e que agora a defendem com unhas e dentes. Raras são as pessoas que podem e tem a capacidade de dizerem o que pensam publicamente e sobreviverem ao tsunami de processos da ideologia contrária. Outro dia assisti a um debate sobre homossexualismo na TV com o pastor Silas Malafaia. Pastor Silas – não precisa comungar com sua religião nem com as centenas de milhares que o acolhem, mas é um homem iluminado e incomum.

Alguém não está saturado da brutal violência do dia-a morte-dia? Somos caçados por hordas ou falanges de marginais, a todo o momento e em todo lugar. Vivemos reclusos e gradeados enquanto “faltam recursos” para a polícia deslindar os crimes e sobra caridade para certos juízes soltarem a bandidada. Comenta-se que o governo aprovou uma lei dando entre “otras cositas” quase dois salários por mês para os presidiários – e os aposentados e as vítimas deles? Os movimentos de direitos humanos raramente visitam as vítimas ou sequer acompanham seus dramas, no entanto, lastimam e protestam pelas “más condições das cadeias e dos presos”. Uma coisa jamais deveria excluir a outra. A mídia amiga de criminosos faz levantamento de quantos criminosos morreram em tal período e raramente dos policiais que tombam no exercício da defesa da sociedade contra a escória crescente.

– O Cara reagiu e foi morto!

– Ela acelerou e ele atirou e a bala acertou ela na cabeça e vai ficar vegetativa!

– Ela gritou e o guri cravou a faca nela, devia ter entregado a bolsa ou dado pra ele e hoje taria cuidando dos filhos!

Acima estão três frases repetidas nas crônicas policiais e nas entrevistas do rádio e da TV. Nós deixamos de ser vítimas e o bandido tem a atenuante de que reagimos, ou que ele estava drogado, ou que era inexperiente e garoto (1,80m, 17 anos e 75kg). Somos duplamente culpados por não fazer tudo – Tudo! – que o marginal deseja e ainda por exercer o princípio ou o instinto mais básico do ser humano – reagir para sobreviver! Poderia ser uma ironia, mas é realidade. Um famoso jornalista viamonense dizia no rádio quando algum bandido morria – “um a zero pra nós, esse não incomoda mais!” O marginal “que é o produto de uma sociedade cruel e capitalista” está exercendo a sua antiga profissão. Nós é que não colaboramos – ironia!

“A bandidagem no Congresso desarmou a sociedade” – dizia um amigo durante uma festa. “Para o cidadão honesto e trabalhador ter uma arma para defender-se, defender a sua família e a sua propriedade é crime, para o bandido é instrumento de trabalho. Anistias, regime aberto, progressão de pena, deixa passar por falta de recursos humanos, solta, pois as prisões estão cheias demais, é “de menor” de idade, isso é delito pequeno, vamos recorrer, bandido também é gente, estava drogado e não sabia o que fazia, é doente, é o Estatuto do Menor e do Adolescente, foi crime político, merece asilo, pois é refugiado político” – expressões! Dezenas de outras estão aí nas bocas e ouvidos para o deleite da criminalidade e sofrimento do cidadão, trabalhador e ser humano de categoria inferior, pois é presa.

Martin Luther King Jr. – Carta da Prisão de Birmingham – 16 de abril de 1963

 

terça-feira, 16 de abril de 1963

Martin Luther King Jr. escreve a célebre “Carta da Prisão de Birmingham” para protestar contra a segregação racial

A “Carta da Prisão de Birmingham” é uma carta aberta escrita em 16 de abril de 1963, por Martin Luther King Jr., um líder norte-americano dos direitos civis.

King escreveu a carta da prisão da cidade de Birmingham, Alabama, onde foi confinado depois de ser preso por sua participação na campanha de Birmingham, um planejado protesto não violento realizado pelo “Movimento para os Direitos Humanos Cristão do Alabama” e a “Southern Christian Leadership Conference” contra a segregação racial pelo governo da cidade de Birmingham e os comerciantes da região central.

A carta de King é uma resposta a uma declaração feita por oito clérigos brancos do Alabama em 12 de abril de 1963, intitulado " Um apelo à unidade".

Os clérigos concordaram que as injustiças sociais existiam, mas argumentavam que a batalha contra a segregação racial deveria ser combatida apenas nos tribunais e não nas ruas.

A carta inclui a famosa declaração "A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em toda parte", bem como as palavras atribuídas a William Ewart Gladstone citado por King: “A justiça muito lenta é justiça negada".
A carta de King diz:

Meus caros amigos clérigos,
Durante meu confinamento aqui na prisão municipal de Birmingham, deparei-me com sua declaração recente chamando minhas atividades atuais de “insensatas e inoportunas”. Raramente paro para responder a críticas do meu trabalho e ideias. Se tentasse responder a todas as críticas que passam pela minha mesa, minhas secretárias mal teriam tempo para outra coisa que não para essas correspondências no decorrer do dia, e eu não teria tempo algum para o trabalho construtivo. Mas, como sinto que vocês são homens de genuína boa vontade e que suas críticas são expostas com sinceridade, quero tentar responder a sua declaração em termos que espero que sejam pacientes e razoáveis.

Acho que devo mencionar por que estou aqui em Birmingham, já que vocês foram influenciados pela visão que se opõe aos “forasteiros invasores”. Tenho a honra de servir como presidente da Conferência Sulista de Liderança Cristã (Southern Christian Leadership Conference), uma organização que opera em todos os estados sulistas, com sede em Atlanta, Geórgia. Temos cerca de oitenta organizações filiadas por todo o Sul, e uma delas é o Movimento Cristão pelos Direitos Humanos do Alabama (Alabama Christian Movement for Human Rights). Frequentemente, compartilhamos pessoal, recursos educacionais e financeiros com nossos afiliados. Muitos meses atrás, a afiliada aqui em Birmingham pediu-nos para ficar de sobreaviso para tomarmos parte em um programa de ação direta e pacífica, se isso fosse considerado necessário. Nós prontamente concordamos, e, quando o momento chegou, honramos nossa promessa. Assim, eu, junto a vários membros do meu pessoal, estou aqui porque fui convidado. Estou aqui porque tenho vínculos organizacionais aqui.

No entanto, mais fundamentalmente, estou em Birmingham porque a injustiça está aqui. Assim como os profetas do século VIII A.C. abandonaram suas vilas e levaram seu “assim disse o Senhor” muito além das fronteiras de suas cidades natais, e assim como o Apóstolo Paulo abandonou sua vila de Tarso e levou o evangelho de Jesus Cristo às mais remotas partes do mundo greco-romano, também eu sou compelido a levar o evangelho da liberdade para além de minha própria cidade natal. Como Paulo, devo constantemente responder ao chamado macedônio por ajuda.

Além disso, estou ciente do inter-relacionamento entre todas as comunidades e Estados. Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos em uma rede inescapável de mutualidade, atados em um único laço do destino. Algo que aja sobre alguém diretamente age sobre todos indiretamente. Não podemos nunca mais nos permitir viver com a ideia estreita, provinciana, do “forasteiro agitador”. Qualquer pessoa que viva dentro dos Estados Unidos não pode jamais ser considerada um forasteiro em qualquer lugar dentro de suas fronteiras.
Vocês deploram as manifestações que estão ocorrendo em Birmingham. Mas sua declaração, sinto dizer, deixa de expressar preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações. Tenho certeza de que nenhum de vocês gostaria de descansar contente com o tipo raso de análise social que trata meramente dos efeitos e não ataca as causas subjacentes. É lamentável que as manifestações estejam ocorrendo em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa.

Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: coleta dos fatos para determinar se existem injustiças; negociação; auto-purificação; e ação direta. Efetuamos todos esses passos em Birmingham. Não pode haver nenhum ganho em enunciar o fato de que a injustiça racial engole essa comunidade. Birmingham é provavelmente a cidade mais completamente segregada dos Estados Unidos. Sua feia história de brutalidade é amplamente conhecida. Os negros experimentaram um tratamento grosseiramente injusto nos tribunais. Houve mais bombardeios não solucionados de casas e igrejas negras em Birmingham do que em qualquer outra cidade no país. Esses são os fatos duros e brutais do caso. Com base nessas condições, os líderes negros tentaram negociar com as autoridades da cidade. Mas os últimos recusaram-se consistentemente a tomar parte em negociações de boa fé.

Então, no último mês de setembro, surgiu a oportunidade de falar com os líderes da comunidade econômica de Birmingham. No decorrer das negociações, certas promessas foram feitas pelos comerciantes – por exemplo, de remover os sinais raciais humilhantes das lojas. Com base nessas promessas, o reverendo Fred Shuttlesworth e os líderes do Movimento Cristão pelos Direitos Humanos de Alabama acordaram uma interrupção das manifestações. Com o passar de semanas e meses, percebemos que éramos as vítimas de uma promessa quebrada. Alguns sinais, removidos por pouco tempo, retornaram; outros permaneceram. Como em muitas outras experiências anteriores, nossas esperanças tinham sido destruídas, e a sombra de uma decepção profunda caiu sobre nós. Não tínhamos alternativa a não ser nos prepararmos para a ação direta, por meio da qual exibiríamos nossos próprios corpos como um meio de apresentar nossa causa à consciência das comunidades local e nacional. Cientes das dificuldades envolvidas, decidimos empreender um processo de auto-purificação. Iniciamos uma série de oficinas sobre o pacifismo, e repetidamente nos perguntávamos: “Vocês são capazes aceitar golpes sem retaliar?” “Vocês são capazes de resistir à provação da cadeia?” Decidimos marcar nosso programa de ação direta no período de Páscoa, percebendo que, exceto pelo Natal, é o principal período de compras do ano. Sabendo que um programa vigoroso de retração econômica seria o efeito colateral da ação direta, sentimos que esse seria o melhor momento para aplicar uma pressão sobre os comerciantes em prol da mudança necessária.

Então, demo-nos conta de que a eleição para prefeito de Birmingham ocorreria em março, e rapidamente decidimos postergar a ação para depois do dia de eleição. Quando descobrimos que o Comissário de Segurança Pública, Eugene “Touro” Connor, havia reunido votos suficientes para ir ao segundo turno, decidimos mais uma vez postergar a ação para depois do dia do segundo turno, para que as manifestações não pudessem ser usadas para obscurecer os temas. Como muitos outros, esperávamos ver a derrota do Sr. Connor, e com esse fim aguentamos adiamento após adiamento. Tendo ajudado nessa necessidade da comunidade, sentimos que nosso programa de ação direta não poderia mais ser atrasado.

Vocês podem muito bem perguntar: “Por que ação direta? Por que sit-ins, marchas e assim por diante? Não seria a negociação um caminho melhor?” Vocês estão bastante certos em clamar por negociações. Na verdade, esse é o real propósito da ação direta. A ação direta pacífica busca criar uma tal crise e promover uma tal tensão que a comunidade que constantemente se recusou a negociar é forçada a confrontar o tema. Ela busca, assim, dramatizar um tema que não pode mais ser ignorado. Minha referência à criação de tensão como parte do trabalho do resistente pacífico pode soar um tanto chocante. Mas devo confessar que não tenho medo da palavra “tensão”. Opus-me veementemente à tensão violenta, mas há um tipo de tensão construtiva, pacífica, que é necessária para o crescimento. Assim como Sócrates sentiu que era necessário criar uma tensão na mente para que os indivíduos pudessem ascender da servidão de mitos e de meias verdades ao reino livre de amarras da análise criativa e da avaliação objetiva, também nós temos de ver a necessidade de impertinentes pacíficos para criar o tipo de tensão na sociedade que ajudará os homens a ascenderem das escuras profundezas do preconceito e do racismo às alturas majestosas da compreensão e da fraternidade. O propósito de nosso programa de ação direta é criar uma situação tão recheada de crise que inevitavelmente abrirá as portas à negociação. Eu, portanto, concordo com vocês no seu clamor por negociações. Nossas amadas terras do Sul têm estado atoladas por tempo demais em um trágico esforço para viver em um monólogo ao invés de em um diálogo.

Um dos pontos fundamentais em sua declaração é o de que a ação que eu e meus associados tomamos em Birmingham é inoportuna. Alguns perguntaram: “Por que vocês não deram à nova administração da cidade tempo para agir?” A única resposta que posso dar a essa indagação é que a nova administração de Birmingham tem de ser incitada tanto quanto a que está de saída, antes que ela aja. Estaremos tristemente enganados se sentirmos que a eleição de Albert Boutwell como prefeito trará uma época de ouro a Birmingham. Embora o Sr. Boutwell seja uma pessoa muito mais tolerante do que o Sr. Connor, ambos são segregacionistas, dedicados à manutenção do status quo. Tenho esperança em que o Sr. Boutwell será razoável o bastante para notar a futilidade de uma resistência ampla ao fim da segregação. Mas ele não notará isso sem a pressão dos partidários dos direitos civis. Meus amigos, tenho de dizer a vocês que não obtivemos um único ganho em direitos civis sem uma firme pressão legal e pacífica. Lamentavelmente, é um fato histórico que grupos privilegiados raramente renunciam aos seus privilégios por vontade própria. Indivíduos podem ver a luz da moral e renunciar voluntariamente às suas posturas injustas; mas, como Reinhold Niebuhr lembrou-nos, grupos tendem a ser mais imorais do que indivíduos.

Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido. Francamente, ainda não tomei parte em uma campanha de ação direta que fosse “oportuna” na visão daqueles que não sofreram indevidamente da doença da segregação. Já faz anos que ouço a palavra “Espere!” Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse “espere” quase sempre significou “nunca”. Temos de chegar à percepção, junto com um de nossos eminentes juristas, de que “a justiça adiada por muito tempo é justiça negada”.

Esperamos por mais de 340 anos por nossos direitos constitucionais e concedidos por Deus. As nações da Ásia e da África estão dirigindo-se com uma velocidade a jato rumo à conquista da independência política, mas nós ainda nos arrastamos a passo de cavalo e de charrete rumo à conquista de uma xícara de café em um aparador. Talvez seja fácil àqueles que nunca sentiram os dardos perfurantes da segregação dizer “espere”. Mas quando você viu bandos perversos lincharem suas mães e pais à vontade e afogar suas irmãs e irmão a seu capricho; quando você viu policiais cheios de ódio amaldiçoarem, chutarem e até matarem seus irmãos e irmãs negros; quando você vê a vasta maioria de seus vinte milhões de irmãos negros sufocando-se em uma jaula hermética da pobreza em meio a uma sociedade de abundância; quando você de repente descobre sua língua travada e sua fala gaga ao tentar explicar a sua irmã de seis anos de idade por que ela não pode ir ao parque de diversões público cuja propaganda acabou de passar na televisão, e vê lágrimas jorrando dos olhos dela quando lhe é dito que o Funtown está fechado para crianças de cor, e vê ameaçadoras nuvens de inferioridade começando a se formar no pequeno céu mental dela, e a vê começar a distorcer sua personalidade ao desenvolver um rancor inconsciente contra as pessoas brancas; quando você tem de inventar uma resposta a um filho de cinco anos de idade que está perguntando: “papai, por que as pessoas brancas tratam as pessoas de cor tão mal?”; quando você faz uma viagem através de seu estado e descobre ser necessário dormir noite após noite nos cantos desconfortáveis de seu carro porque nenhum motel o aceita; quando você é humilhado entra dia sai dia por sinais irritantes dizendo “branco” e “de cor”; quando seu prenome torna-se “neguinho”, seu nome do meio torna-se “menino” (não importa sua idade) e seu sobrenome torna-se “John”, e sua mulher e mãe nunca são chamadas pelo título respeitável de “Sras.”; quando você é perseguido de dia e assombrado à noite pelo fato de que você é um negro, vivendo constantemente na ponta dos pés, sem saber exatamente o que esperar em seguida, e é atormentado por medos interiores e ressentimentos exteriores; quando você está sempre lutando contra uma impressão degradante de “não ser ninguém” – então você entenderá porque achamos difícil esperar. Chega um momento em que a capacidade de suportar esgota-se, e os homens não estão mais dispostos a mergulhar no abismo do desespero. Espero, senhores, que vocês possam compreender nossa impaciência legítima e inevitável. Vocês manifestam uma boa dose de ansiedade quanto à nossa disposição de violar as leis. Essa é certamente uma preocupação legítima. Como nós exortamos tão ativamente as pessoas a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte que baniu a segregação em escolas públicas, à primeira vista pode parecer um tanto paradoxal que nós conscientemente violemos leis. Também se poderia perguntar: “Como vocês podem advogar a violação de certas leis e a obediência a outras?” A resposta está no fato de que existem dois tipos de leis: as justas e as injustas. Eu seria o primeiro a advogar a obediência a leis justas. Tem-se uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. De modo contrário, tem-se uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas. Concordaria com Santo Agostinho em que “uma lei injusta simplesmente não é lei”.

Agora, qual é a diferença entre as duas? Como se pode determinar se uma lei é justa ou injusta? Uma lei justa é um código produzido pelo homem que se ajusta à lei moral ou à lei de Deus. Uma lei injusta é um código que está em desacordo com a lei moral. Para colocar nos termos de Santo Tomás de Aquino: uma lei injusta é uma lei humana que não está radicada na lei eterna e na lei natural. Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta. Todos os estatutos segregacionistas são injustos porque a segregação desfigura a alma e danifica a personalidade. Ela dá ao segregador uma falsa impressão de superioridade e aos segregados, uma falsa impressão de inferioridade. A segregação, para usar a terminologia do filósofo judeu Martin Buber, substitui uma relação “eu-você” por uma relação “eu-isso” e acaba por relegar pessoas à condição de coisas. Portanto, a segregação não é apenas política, econômica e sociologicamente doentia: é moralmente errada e pecaminosa. Paul Tillich disse que o pecado é uma separação. A segregação não é uma expressão existencial da trágica separação do homem, da sua horrível alienação, da sua terrível pecaminosidade? Sendo assim, posso exortar os homens a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte, porque ela é moralmente correta; e posso exortá-los a desobedecerem a normas segregacionistas, porque elas são moralmente erradas.

Consideremos um exemplo mais concreto de leis justas e injustas. Uma lei injusta é um código que um grupo majoritário em termos de poder ou de número compele um grupo minoritário a obedecer, mas ao qual não se sujeita. Isso é a diferença tornada legal. Pela mesma razão, uma lei justa é um código que uma maioria compele uma minoria a seguir e que ela própria está disposta a seguir. Isso é a igualdade tornada legal. Deixe-me fazer outro esclarecimento. Uma lei é injusta se for imposta a uma minoria que, por ter o direito de votar negado a si, não participou da decretação ou da criação da lei. Quem pode dizer que o parlamento do Alabama que constituiu as leis segregacionistas daquele Estado foi democraticamente eleito? Por todo o Alabama, todos os tipos de métodos tortuosos foram usados para impedir os negros de tornarem-se eleitores registrados, e há alguns municípios em que, embora os negros componham a maioria da população, um negro sequer está registrado. Qualquer lei decretada sob essas circunstâncias pode ser considerada democraticamente estruturada?
Às vezes, uma lei é justa no papel e injusta na sua aplicação. Por exemplo, fui preso por uma acusação de fazer uma passeata sem autorização. Agora, não há nada de errado em existir uma norma que exija uma autorização para uma passeata. Mas essa norma torna-se injusta quando é usada para manter a segregação e negar a cidadãos o direito fundamental da primeira emenda à Constituição de reunião pacífica e de protesto.

Espero que vocês sejam capazes de observar a distinção que estou tentando mostrar. De modo algum, defendo a evasão e o desafio à lei, como faria o segregacionista furioso. Isso levaria à anarquia. Alguém que viole uma lei injusta tem de fazê-lo abertamente, amorosamente, e com disposição para aceitar a pena. Argumento que um indivíduo que viola uma lei que a consciência lhe diz que é injusta, e que aceita de bom grado a pena de prisão a fim de despertar a consciência da comunidade quanto à sua injustiça, está na verdade exprimindo o mais elevado respeito à lei.

Obviamente, não há nada de novo nessa forma de desobediência civil. Ela foi manifestada de maneira sublime pela recusa de Shadrach, Meshach e Abednego a obedecerem às leis de Nabucodonosor, sob o argumento de que estava em jogo uma lei moral mais elevada. Foi praticada soberbamente pelos primeiros cristãos, que preferiam enfrentar leões famintos e a dor torturante do talho a submeter-se a certas leis injustas do Império Romano. Até certo ponto, a liberdade acadêmica é uma realidade hoje porque Sócrates praticou a desobediência civil. Na nossa própria nação, o Boston Tea Party representou um ato imponente de desobediência civil.

Nunca devemos nos esquecer de que tudo que Adolf Hitler fez na Alemanha era “legal” e tudo que os combatentes húngaros da liberdade fizeram na Hungria era “ilegal”. Era “ilegal” ajudar e confortar um judeu na Alemanha de Hitler. Ainda assim, tenho certeza de que, se tivesse vivido na Alemanha naquele tempo, teria ajudado e confortado meus irmãos judeus. Se vivesse hoje em um país comunista onde certos princípios caros à fé cristã foram suprimidos, defenderia abertamente a desobediência às leis antirreligiosas do país.

Tenho de fazer duas confissões sinceras a vocês, meus irmãos cristãos e judeus. Primeiro, tenho de confessar que ao longo dos últimos anos decepcionei-me seriamente com os brancos moderados. Quase cheguei à lamentável conclusão de que a maior pedra no caminho dos negros em seu avanço rumo à liberdade não é o White Citizen’s Counciler ou o membro da Ku Klux Klan, mas os brancos moderados, que são mais zelosos da “ordem” do que da justiça; que preferem uma paz negativa que é a ausência de tensão a uma paz positiva que é a presença da justiça; que dizem constantemente: “concordo com vocês quanto ao objetivo que buscam, mas não posso concordar com seus métodos de ação direta”; que acreditam paternalisticamente que podem fixar o cronograma para a liberdade de outro homem; que vivem sob um conceito mítico do tempo e que constantemente aconselham o negro à espera por uma “época mais apropriada”. A compreensão superficial de pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão completa de pessoa de má vontade. A aceitação morna é muito mais atordoante do que a rejeição total.

Eu tinha tido esperanças de que os brancos moderados compreenderiam que a lei e a ordem existem para o propósito de estabelecer a justiça e que quando fracassam nesse propósito tornam-se represas estruturadas perigosamente que bloqueiam o curso do progresso social. Tinha tido esperanças de que os brancos moderados compreenderiam que a atual tensão no sul é uma fase necessária da transição de uma detestável paz negativa, em que os negros passivamente aceitavam suas injustas situações difíceis, para uma paz positiva e substantiva, em que todos os homens respeitarão a dignidade e o valor da personalidade humana. Na realidade, nós que nos envolvemos em ações diretas pacíficas não somos os criadores da tensão. Tão-somente trazemos à superfície a tensão oculta que já existe. Descortinamo-la, para que possa ser vista e tratada. Como um furúnculo que não pode ser curado enquanto estiver coberto, mas que deve ser exposto com toda a sua feiura aos remédios naturais do ar e da luz, a injustiça tem de ser desvendada, com toda a tensão que sua exposição gera, à luz da consciência humana e ao ar da opinião nacional, antes que possa ser curada.

 
Em sua declaração, vocês afirmam que nossas ações, embora pacíficas, devem ser condenadas porque precipitam a violência. Mas essa é uma afirmação lógica? Isso não equivale a condenar um homem roubado porque sua posse de dinheiro precipitou o ato mau do roubo? Isso não equivale a condenar Sócrates porque seu compromisso inabalável com a verdade e suas investigações filosóficas precipitaram o ato do povo mal orientado pelo qual o fizeram beber a cicuta? Isso não equivale a condenar Jesus porque sua singular consciência divina e devoção inesgotável à vontade de Deus precipitaram o ato mau da crucificação? Devemos notar que, como os tribunais federais consistentemente afirmaram, é errado incitar um indivíduo a interromper seus esforços para obter seus direitos constitucionais básicos porque a jornada pode precipitar a violência. A sociedade tem de proteger o roubado e punir o ladrão. Também tinha tido esperanças de que os brancos moderados rejeitariam o mito concernente ao tempo em relação à luta pela liberdade. Recebi há pouco uma carta de um irmão branco do Texas. Ele escreve: “Todos os cristãos sabem que as pessoas de cor um dia receberão direitos iguais, mas é possível que vocês estejam com uma pressa religiosa grande demais. A cristandade precisou de quase dois mil anos para alcançar o que tem hoje. Os ensinamentos de Cristo demoram a chegar a Terra.” Essa concepção decorre de um trágico conceito errôneo do tempo, da noção estranhamente irracional de que há algo no próprio curso do tempo que inevitavelmente curará todos os males. Na realidade, o tempo em si é neutro; pode ser usado quer destrutivamente, quer construtivamente. Cada vez mais, sinto que as pessoas de má vontade usam o tempo de modo muito mais eficaz do que as pessoas de boa vontade. Nós nos arrependeremos, no tocante a essa geração, não apenas das palavras e ações odiáveis das pessoas más, como também do silêncio espantoso das pessoas boas. O progresso humano nunca advém da roda da inevitabilidade; ele deflui dos incansáveis esforços de homens dispostos a serem colegas de trabalho de Deus, e, sem esse trabalho duro, o próprio tempo torna-se um aliado das forças da estagnação social. Temos de usar o tempo criativamente, com base no conhecimento de que o tempo sempre está pronto para fazer o certo. Agora é a hora de tornar real a promessa de democracia e de transformar nossa iminente elegia nacional em um criativo salmo da fraternidade. Agora é a hora de alçar nossa política nacional da areia movediça da injustiça racial à sólida rocha da dignidade humana.

Vocês falam de nossa atividade em Birmingham como extrema. A princípio, fiquei um pouco decepcionado com o fato de amigos clérigos considerarem meus esforços pacíficos como os de um extremista. Comecei a pensar sobre o fato de que me situo no meio de duas forças opostas na comunidade negra. Uma é a força da complacência, composta em parte por negros que, como resultado de longos anos de opressão, estão tão carentes de amor-próprio e da sensação de “ser alguém” que se adaptaram à segregação; e em parte de alguns negros de classe média que, devido a certo grau de segurança acadêmica e econômica e porque se beneficiam de algum modo da segregação, tornaram-se insensíveis aos problemas das massas. A outra é uma força da amargura e do ódio, que chega perigosamente perto de defender a violência. Manifesta-se em vários grupos nacionalistas negros que estão brotando por todo o país, sendo o maior e mais conhecido o movimento islâmico de Elijah Muhammad. Alimentado pela frustração dos negros pela existência contínua da discriminação racial, esse movimento é composto de pessoas que perderam a fé nos Estados Unidos, que repudiaram completamente o cristianismo e que concluíram que o homem branco é um “demônio” incorrigível.

Tentei me situar entre essas duas forças, dizendo que não precisamos imitar nem a inação dos complacentes nem o ódio e o desespero dos nacionalistas negros. Porque existe a maneira muito melhor do amor e do protesto pacífico. Sou grato a Deus por, mediante a influência da igreja negra, a maneira do pacifismo ter-se tornado uma parte essencial de nossa luta. Se essa filosofia não tivesse surgido, muitas ruas do sul estariam agora, tenho certeza, com rios de sangue. Estou ainda mais certo de que, se nossos irmãos brancos repudiarem aqueles de nós que empregam ações diretas pacíficas como “um bando de inflamados” ou “forasteiros agitadores”, e se se recusarem a apoiar nossos esforços pacíficos, milhões de negros buscarão, por frustração e desespero, consolo e segurança em ideologias nacionalistas negras – uma evolução que inevitavelmente levaria a um assustador pesadelo racial.

Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre. A ânsia pela liberdade por fim manifesta-se, e foi isso que aconteceu com o negro americano. Algo em seu interior lembrou-lhe de seu direito inato à liberdade, e algo exterior lembrou-lhe que ele pode ser obtido. Consciente ou inconscientemente, ele foi apanhado pelo espírito da época, e com seus irmãos negros da África e seus irmãos amarelos e pardos da Ásia, da América do Sul e do Caribe, o negro dos Estados Unidos está se movendo com uma sensação de incrível urgência rumo à terra prometida da justiça racial. Ao reconhecer-se esse anseio vital que se apoderou da comunidade negra, entende-se prontamente por que manifestações públicas estão ocorrendo. O negro tem muitos ressentimentos reprimidos e frustrações latentes, e ele precisa libertá-los. Então, deixe-o marchar; deixe-o fazer peregrinações pias às prefeituras; deixe-o ir em viagens pela liberdade – e tente entender por que ele tem de fazê-lo. Se suas emoções reprimidas não forem liberadas de maneiras pacíficas, buscarão expressão por meio da violência; isso não é uma ameaça, mas um fato histórico. Assim, não disse ao meu povo: “livre-se de seu desgosto”. Antes, tentei dizer que esse desgosto normal e saudável pode ser canalizado por escapes criativos como a ação direta pacífica. E agora esse método está sendo denominado de extremista. Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação do rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ame seus inimigos, abençoe aqueles que te amaldiçoam, faça o bem àqueles que te odeiam e reze por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amos um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca para”? Não era Paulo um extremista do evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”? Não era Martinho Lutero um extremista: “Aqui estou; não tenho alternativa, então que Deus me ajude”? E John Bunyan: “Ficarei na prisão até o fim dos meus dias, até que faça da minha consciência um matadouro”? E Abraham Lincoln: “Esse país não pode sobreviver metade escravo e metade livre”? E Thomas Jefferson: “Temos essas verdades como auto-evidentes, de que todos os homens nascem iguais…”? Assim, a questão não é se seremos extremistas, mas que tipo de extremistas seremos. Seremos extremistas do ódio ou do amor? Seremos extremistas da preservação da injustiça ou da extensão da justiça? Naquela cena dramática do Calvário, três homens foram crucificados. Nunca devemos nos esquecer de que todos os três foram crucificados pelo mesmo crime – o crime de extremismo. Dois eram extremistas da imoralidade e, assim, estavam abaixo dos demais. O outro, Jesus Cristo, era um extremista do amor, da verdade e do bem, e, por conseguinte, ergueu-se acima dos demais. Talvez o sul, o país e o mundo estejam com uma terrível carência de extremistas criativos.

Tivera esperança de que os brancos moderados notariam essa carência. Talvez estivesse otimista demais; talvez esperasse demais. Suponho que deveria ter percebido que poucos membros da raça opressora podem compreender os graves gemidos e os anseios apaixonados da raça oprimida, e que menos ainda têm a perspicácia para notar que a injustiça tem de ser extirpada por ações fortes, persistentes e determinadas. Sou grato, contudo, pelo fato de que alguns de nossos irmãos brancos do sul alcançaram o significado dessa revolução social e empenharam-se nela. Eles ainda são muito poucos em quantidade, mas são muitos em qualidade. Alguns – como Ralph McGill, Lillian Smith, Harry Golden, James McBride Dabbs, Ann Braden e Sarah Patton Boyle – escreveram sobre nossa luta em termos eloquentes e proféticos. Outros marcharam conosco por ruas sem nome do sul. Debilitaram-se em prisões imundas, infestada por baratas, sofrendo os abusos e a brutalidade de policiais que os veem como “sujos amantes dos negros”. Diferentemente de tantos de seus irmãos e irmãs moderados, reconheceram a urgência do momento e sentiram a necessidade de poderosos antídotos “de ação” para combater a doença da segregação. Deixem-me tomar nota de minha outra grande decepção. Decepcionei-me tão imensamente com a igreja branca e suas lideranças. É claro, há algumas notáveis exceções. Não me esqueço do fato de que cada um de vocês tomou algumas posições significativas nesse tema. Louvo-o, reverendo Stallings, pela sua postura cristã no último domingo, ao receber negros nos seus serviços de devoção de maneira não-segregacionista. Louvo os líderes católicos desse Estado por terem integrado o Spring Hill College muitos anos atrás.
Mas, apesar dessas notáveis exceções, tenho de sinceramente reiterar que me decepcionei com sua igreja. Não digo isso como um daqueles críticos negativos que sempre conseguem encontrar algo errado na igreja. Digo isso como um sacerdote do evangelho, que ama a igreja; que foi acalentado em seu seio; que tem sido sustentado por suas bênçãos espirituais e que permanecerá fiel a ela enquanto o fio da vida estender-se.

Quando fui de repente catapultado à liderança do protesto dos ônibus em Montgomery, Alabama, há alguns anos, achei que seríamos apoiados pela igreja branca. Achei que os sacerdotes, os padres e os rabinos brancos do sul estariam entre os nossos mais firmes aliados. Ao contrário, alguns foram completos oponentes, recusando-se a compreender o movimento pela liberdade e deturpando seus líderes; muitos outros foram mais cautelosos do que corajosos e permaneceram mudos atrás da segurança anestesiante das janelas de vitral.
A despeito de meus sonhos despedaçados, vim a Birmingham com a esperança de que a liderança religiosa branca dessa comunidade veria a justiça de nossa causa e, com profunda preocupação moral, serviria como canal através do qual nossas justas queixas alcançariam a estrutura do poder. Tivera esperança de que cada um de vocês compreenderia. Mas, de novo, decepcionei-me.

Ouvi numerosos líderes religiosos sulistas admoestarem seus devotos a cumprir a decisão contra a segregação porque é a lei, mas ansiei por ouvir sacerdotes brancos declararem: “Sigam esse decreto porque a integração é moralmente correta e porque o negro é seu irmão.” Em meio a barulhentas injustiças infligidas sobre o negro, observei membros da igreja permanecerem à distancia e declamarem irrelevâncias pias e platitudes carolas. Em meio a uma vigorosa luta para livrar nosso país da injustiça racial e econômica, ouvi muitos sacerdotes dizerem: “Esses são temas sociais, com os quais o evangelho não tem nenhuma preocupação real”. E vi muitas igrejas empenharem-se numa religião completamente de outro mundo que faz uma estranha e não-bíblica distinção entre o corpo e a alma, entre o sagrado e o secular.
Viajei acima e abaixo por Alabama, Mississipi e todos os outros estados sulistas. Em dias sufocantes de verão e manhãs revigorantes de outono, contemplei as lindas igrejas do sul, com seus cumes majestosos apontados em direção aos céus. Admirei os perfis impressionantes dos amplos edifícios de educação religiosa. Repetidamente, peguei-me perguntando: “Que tipo de pessoa ora aqui? Quem é seu Deus? Onde estavam suas vozes quando dos lábios do governador Barnett respingaram palavras de interposição e nulificação? Onde elas estavam quando o governador Wallace deu um toque de clarim em favor do desafio e do ódio? Onde estavam suas vozes de apoio quando homens e mulheres negros, feridos e exaustos, decidiram levantar-se dos calabouços escuros da complacência até as colinas claras do protesto criativo?”

Sim, essas perguntas ainda estão na minha mente. Em decepção profunda, chorei pela frouxidão da igreja. Mas estejam certos de que minhas lágrimas foram lágrimas de amor. Não pode existir decepção profunda onde não existe amor profundo. Sim, amo a igreja. Como poderia não amar? Estou na posição um tanto singular de filho, neto e bisneto de pregadores. Sim, vejo a igreja como o corpo de Cristo. Mas, oh!, como maculamos e deixamos cicatrizes nesse corpo por meio da negligência social e por meio do medo de sermos não-conformistas.

Houve um tempo em que a igreja era bastante ponderosa – no tempo em que os primeiros cristãos regozijavam-se por ser considerados dignos de ter sofrido por aquilo em que acreditavam. Naqueles dias, a igreja não era apenas um termômetro que registrava as idéias e princípios da opinião pública; era um termostato que transformava os costumes da sociedade. Quando os primeiros cristãos entravam em uma cidade, as pessoas no poder ficavam transtornadas e imediatamente buscavam condenar os cristãos por serem “perturbadores da paz” e “forasteiros agitadores”. Mas os cristãos prosseguiam, com a convicção de que eram “uma colônia do céu”, que devia obediência a Deus e não ao homem. Pequenos em número, eram grandes em compromisso. Eles eram intoxicados demais por Deus para serem “astronomicamente intimidados”. Com seu esforço e exemplo, puseram um fim em maldades antigas como o infanticídio e duelos de gladiadores. As coisas são diferentes agora. Com tanta frequência a igreja contemporânea é uma voz fraca, ineficaz com um som incerto. Com tanta frequência é uma arquidefensora do status quo. Longe de se sentir transtornada pela presença da igreja, a estrutura do poder da comunidade normal é confortada pela sanção silenciosa – e com frequência sonora – da igreja das coisas tais como são.
Mas o julgamento de Deus pesa sobre a igreja como nunca pesou. Se a igreja atual não recuperar o espírito de sacrifício da igreja primitiva, perderá sua autenticidade, será privada da lealdade de milhões e será descartada como um clube social irrelevante com nenhum significado para o século XX. Todos os dias, encontro pessoas jovens cuja decepção com a igreja tornou-se uma repugnância absoluta.

Talvez tenha sido mais uma vez otimista demais. Estará a religião organizada ligada inextricavelmente demais ao status quo para salvar o país e o mundo? Talvez deva dirigir minha fé à igreja interior, espiritual, a igreja dentro da igreja, como a verdadeira ekklesia e a esperança do mundo. Mas, de novo, sou grato a Deus por algumas almas nobres das fileiras da igreja organizada terem rompido as correntes paralisantes do conformismo e unido-se a nós como parceiros ativos na luta pela liberdade. Eles abandonaram suas congregações seguras e percorreram as ruas de Albany, Geórgia, conosco. Desceram as rodovias do sul em viagens tortuosas pela liberdade. Sim, foram para a cadeia conosco. Alguns foram expulsos de suas igrejas, perderam o apoio de seus bispos e colegas sacerdotes. Mas agiram com a fé de que o bem derrotado é mais forte do que o mal triunfante. Sua testemunha tem sido o sal espiritual que tem preservado o verdadeiro significado do evangelho nesses tempos turbulentos. Eles cavaram um túnel de esperança através da montanha negra da decepção. Espero que a igreja como um todo enfrente o desafio nessa hora decisiva. Mas mesmo que a igreja não venha ajudar a justiça, não perco a esperança no futuro. Não tenho medo a respeito do resultado de nossa luta em Birmingham, mesmo que nossas razões sejam no momento mal compreendidas. Alcançaremos a meta da liberdade em Birmingham e no mundo inteiro, porque a meta dos Estados Unidos é a liberdade. Não importa se estamos ofendidos e escarnecidos, nosso destino está ligado ao destino dos Estados Unidos. Antes de os peregrinos desembarcarem em Plymouth, estávamos aqui. Antes de a pena de Jefferson desenhar as palavras majestosas da Declaração de Independência através das páginas da história, estávamos aqui. Por mais de dois séculos, nossos antepassados trabalharam nesse país sem receber salários; eles colheram o algodão; eles construíram as casas de seus senhores enquanto sofriam injustiças crassas e humilhações vergonhosas – e, no entanto, com uma vitalidade sem fim, continuaram a prosperar e a desenvolver-se. Se as crueldades inenarráveis da escravidão não puderam parar-nos, a oposição que enfrentamos agora certamente fracassará. Ganharemos nossa liberdade porque a herança sagrada de nosso país e a eterna vontade de Deus estão incorporadas nas nossas sonoras exigências. Antes de encerrar, sinto-me impelido a mencionar outro ponto em sua declaração que me perturbou profundamente. Vocês calorosamente elogiaram a força policial de Birmingham por manter a “ordem” e “impedir a violência”. Duvido que teriam elogiado tão calorosamente a força policial se tivessem visto seus cães afundando seus dentes em negros desarmados, pacíficos. Duvido que teriam elogiado tão rapidamente os policiais se fossem observar seu tratamento horrível e desumano dos negros aqui na prisão municipal; se fossem vê-los empurrar e amaldiçoar velhas mulheres negras e jovens meninas negras; se fossem vê-los estapear e chutar velhos homens negros e jovens meninos; se fossem observá-los, como fizeram em duas ocasiões, negar-nos comida porque queríamos cantar nossa oração juntos. Não posso acompanhá-los no seu louvor ao departamento de polícia de Birmingham.

É verdade que a polícia demonstrou um nível de disciplina ao lidar com os manifestantes. Nesse sentido, eles se conduziram um tanto “pacificamente” em público. Mas com que propósito? Para preservar o sistema maligno da segregação. Ao longo dos últimos anos, continuamente preguei que o pacifismo exige que os meios que usamos devem ser tão puros quanto os fins que buscamos. Tentei deixar claro que é errado usar meios imorais para alcançar fins morais. Mas agora tenho de afirmar que isso é tão errado, ou talvez ainda mais errado, quanto usar meios morais para preservar fins imorais. Talvez o Sr. Connor e seus policiais tenham sido um tanto pacíficos em público, como foi o coronel Pritchett em Albany, Geórgia, mas eles usaram os meios morais do pacifismo para manter o fim imoral da injustiça racial. Como T. S. Eliot disse: “A última tentação é a maior traição: fazer a coisa certa pelo motivo errado.”

Gostaria que vocês tivessem louvado os sit-inners e manifestantes negros de Birmingham pela sua coragem sublime, sua disposição para sofrer e sua disciplina incrível em meio a uma grande provocação. Um dia, o sul reconhecerá seus verdadeiros heróis. Eles serão os James Merediths, com o nobre senso de justiça que lhes permite enfrentar bandos zombeteiros e hostis, e com a solidão agonizante que caracteriza a vida do pioneiro. Eles serão as velhas, oprimidas, castigadas mulheres negras, simbolizadas em uma velha mulher de setenta e dois anos de idade de Montgomery, Alabama, que se ergueu com um senso de dignidade e com seus iguais decidiu não viajar em ônibus segregacionistas, e que respondeu com profundidade agramatical a alguém que lhe indagou sobre seu cansaço: “Meus pé está cansado, mas minha alma está em paz.” Eles serão os estudantes colegiais e universitários, os jovens sacerdotes do evangelho e uma multidão de seus pais, corajosa e pacificamente sentando-se em aparadores e dispostos a ir para cadeia por amor à consciência. Um dia, o sul saberá que quando esses filhos deserdados de Deus sentaram-se em aparadores, estavam na verdade fazendo jus ao que há de melhor no sonho americano e o que há de mais sagrado nos valores de nossa herança judaico-cristã, desse modo trazendo nosso país de volta àqueles grandes poços de democracia que foram cavados em profundidade pelos pais fundadores na sua formulação da Constituição e da Declaração de Independência.

Nunca escrevi uma carta tão longa. Temo que seja longa demais para tomar seu tempo precioso. Posso lhes garantir que teria sido muito menor se a tivesse escrito em uma mesa confortável, mas o que mais se pode fazer quando se está sozinho em um cela apertada a não ser escrever longas cartas, pensar longos pensamentos e rezar longas orações?

Se disse algo nessa carta que exagera os fatos e indica uma impaciência imoderada, peço que me perdoem. Se disse algo que atenua os fatos e indica uma paciência que me permite conciliar-me com algo menor do que a fraternidade, peço a Deus que me perdoe.
Espero que essa carta encontre-os fortes em sua fé. Espero também que as circunstâncias em breve permitam que me encontre com cada um de vocês, não como um integracionista ou um líder dos direitos civis, mas como um colega clérigo e um irmão cristão. Tenhamos todos esperança em que as nuvens negras do preconceito desapareçam em breve e a neblina profunda da incompreensão dissipe-se das nossas comunidades cheias de medo, e que em um amanhã não muito distante as estrelas radiantes do amor e da fraternidade brilhem sobre nosso grande país com toda a sua beleza cintilante.

Sinceramente, pela causa da Paz e da Fraternidade, Martin Luther King Jr.

Fonte: www.ricardoorlandini.net

Pesquisa:

Edson Olimpio Oliveira

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Ao Amigo! – por Lúcia Barcelos

Amigo MUITO querido,

Como te quero bem,

Como admiro teu norte,

Por teus caminhos também

Como te desejo sorte!

Quanto siso em teu olhar,

Amigo MUITO bem-vindo,

Palavras a semear

Em teu trajeto tão lindo!

 

 

Amigo, te respondo em versos e rimas, e ainda assim não consigo colocar a poesia, que um poema feito para ti, mereceria!

Um GRANDE abraço

Lúcia Barcelos – Ex-Presidente de Associação Literária de Viamão – ALVI

Heróis Anônimos! – Outra Lenda Praiana – por Edson Olimpio Silva de Oliveira

Heróis Anônimos! – Outra Lenda Praiana – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião de Viamão – 17 Março 2010

Heróis Anônimos! – Outra Lenda Praiana?

– Edinho! – chamou-me um amigo durante uma festa de casamento. – Que achaste do sucedido novamente com a dupla de barbeiros? – perguntou-me interrompendo o abraço no noivo.

– Espero que nada de ruim, mas estou chegando agora e passei alguns fora da grande área (Viamão City) e não marquei nem vi nenhum dos golos do período. – disse-lhe.

– Vamos sentar ali que vou te contar tudinho! – puxando-me pelo braço com o olhar estupefato da Cledi. – Garçom traz uma Brahma Extra pra mim e uma Coca Zero pro doutor! – acenou para o garçom espavorido no meio da multidão que chega derramando bicas de suor. – Eu vou te contar e tu conta pro povo do Opinião com aquele jeito legal das tuas histórias (-Algo meio romanceado. – Nota do Editor).

Relato.

Um alucinante Sandero STEPWAY estaciona nas areias de Pinhal Beach. Descem os barbeiros e suas amadas “negas veias”. E baixam a tralha para um churrasco em local mais ermo e assim evitar o fã-clube e os clientes sem simancol – Sai um cabelo hoje? – sempre pergunta algum mais abusado. Sacos de carvão, espetos, mesa, cadeiras, isopor com preciosidades importadas e geladas, churrasqueira portátil (micro-tonel cortado ao meio) e uma costela de novilho precoce uruguaio. Ah! E uma picanha de babar na fronha e quase morrer na rede escutando Roberto Carlos. Dupla altamente organizada, assim como Pelé-Coutinho ou Batman-Robin. Tudo funciona por música e só no canto do olho. Quando estavam armando um toldo escutaram: – Socuerro! Socuerro! Socuerro! – Era um argentino gordo berrando alucinado na beira do mar. – Salvem mi madre e mi hija!

O que aconteceu? Pois a guria castelhana caiu num buraco e não conseguia sair pelo repuxo. A velha mãe do tupamaro que estava tomando banho de assento e com o fundilho cheio de tatuíras foi socorrer a moça. E o repuxo levou as duas. Dois bocas-brabas já no trago estavam passando uma redinha pelos buracos da praia e com o griteiro soltaram a rede e só se enxergavam os calcanhares batendo nas bundas e levantando areia na direção do cômoro. A desgraceira estava feita. A mulher do gordo desmaia na beira do mar. Isto tudo e mais ainda numa fração de segundos. Os salva-vidas estavam distantes. Outros praianos acudiram. Alguns ligando pro 190 e outros tirando fotos da desgraça anunciada. Para sorte deles ali estavam os homens certos na hora certa. Para piorar a rede enrolou-se nelas.

– Colega! Pega a velha gorda que eu pego a guria bonita! – rosnou ferozmente um dos barbeiros que com olhos treinados avaliou a situação mortal. E como sempre deixa o mais pesado para o colega.

A cena a seguir é digna de filme do James Bond 007. “Colega” abre sua discreta pochete, que na realidade é um cinto de mil-e-uma utilidades. Saca da navalha Solingen e coloca-a entre os dentes. O colega saca da tesoura e coloca-a entre os dentes também. Como dois coriscos jogam-se no oceano faminto de vidas humanas. Os dois barbeiros aparentemente franzinos são máquinas de músculos treinados para os combates da vida, do lençol ao tatame. Um deles – faixa preta de judô Kamikaze. O outro – mestre em capoeira Olodum. Ambos, especialistas em sobrevivência e em como se dar bem na vida. São os amigos que todos deveriam ter – especiais.

Vigorosas braçadas. Furando ondas. Atingiram os alvos, digo, as afogadas. Mergulhando e subindo a superfície soltaram-nas da teia mortal da rede dos bebuns com cortes de navalha e tesoura. E foram rebocando-as e acompanhando o repuxo até conseguirem tomar pé e daí ajudados pela platéia que já ovacionava em palmas e gritos. E completaram com respiração boca-boca, massagem cardíaca, etc. Saíram uns dois baldes de água de dentro da velha gorda que não queria parar de fazer a respiração boca-a-boca. A jovem e bela sereia argentina havia perdido uma parte do biquíni e foi prudentemente coberta com a camiseta do seu intrépido salvador.

– Soy primo do Maradona! Gracias hermanos! Muchas gracias! – gritava o argentino agradecido e tascou um beijo num dos heróis salvadores. Aqui uma controvérsia – alega um espectador que foi beijo tipo Maradona e na boca…

Concluindo. Desta vez o povo estava com mais de mil assinaturas num abaixo-assinado para o Prefeito Alex dar-lhes um Diploma de Heróis. Não aceitaram. Eles, como sempre, preferem o anonimato e a satisfação do dever cumprido.

Um Assunto (muito) Delicado! – por Edson Olimpio Silva de Oliveira

03 Mar 10 – Um Assunto (muito) Delicado! – Jornal Opinião

Tema Médico.

Um Assunto (muito) Delicado!

 

Dia Internacional da Mulher! Dia da Mulher. Enquanto para muitos é o momento de elogiar a mulher-especial que será a avó, a mãe, a esposa, a filha ou qualquer outra ou todas elas. Para outros, datas especiais em homenagem a um sexo, uma cor ou uma raça geram antagonismo e bipolaridade de sentimentos e emoções. É um tempo assim para tocar num assunto muito delicado e até considerado tabu para muitos seres humanos – a sexualidade. Apesar de vivermos numa atualidade de sexo amplo, irrestrito e abusivo, compactuamos com baixo grau de felicidade e de amor. A liberdade, a liberalidade e até a libertinagem esbarram e perseguem a busca pela realização pessoal com maior felicidade. Muitos mesmo sem saberem o que estão buscando. É inerente ao ser humano de qualquer sexo buscar a sua felicidade e compartilhar com outrem seus belos momentos e sua vida. Infelizmente muitos ainda se consomem no egoísmo.

Muitos homens ainda vestem os sentimentos dos senhores feudais dos engenhos das antigas capitanias que tinham as esposas para procriação e persistência de nobre estirpe e com as negras e índias escravas, depois com as castelhanas e francesas, a explosão do sexo com disposição em qualquer posição. Ancestral predileção pelas jovens que detém o furor da juventude com o tônus (energia de contração) de genitais que ainda não pariram. As buscas de corpos mais belos e perfeitos trouxeram as plásticas estéticas e os implantes de silicone em seios e nádegas. Explora-se a lipoaspiração e muita ginástica. Somam-se tratamentos hormonais. E a terra brasilis é prodiga em magníficos e desejados corpos nas telas de TV como nos desfiles de carnaval e espraiam-se universalmente. Silicones e lipos geram status elevado. Mas a plástica dos genitais ainda é tratada com cochichos e fica na vergonha e obscuridade. Mesmo mulheres que não engravidaram sentem suas vaginais mais abertas do que o normal. Ou os tamanhos e formatos externos da vulva. Isso aumenta percentualmente com o número de gravidezes e principalmente nos partos pela vagina. – Estou diferente depois do parto! – dizem. – O sexo já não dá o mesmo prazer! – alegam. As relações do casal espaçam-se e diminuem em qualidade. Quantas mulheres simulam o orgasmo para trazer satisfação ao homem ou para manter a harmonia da relação? Conflito do amor sem ou com pouco prazer. Ou prazer sem amor.

O homem sempre saberá se o orgasmo é real ou teatral. Geralmente não diz. Mas sabe – seu ego também está em jogo. Com a facilidade de olhar outros genitais, muitas mulheres encontram motivos de insatisfação com o aspecto e o formato dos seus. O silêncio acompanha a tristeza. Outras sofrem de cistites e escapes de urina ao esforço, ao rir ou tossir. Mais melancólica a vida pessoal e do casal. Expressões pejorativas e maldosas são ouvidas quanto à largura das vaginas. Há mulheres que trocam de parceiros em busca de prazer e realização sexual. A ignorância de soluções médicas e o temor de ofender seus homens fazem persistirem sofrimentos. Muitos homens pioram a situação pela dificuldade de desempenho sexual satisfatório – alterações de libido, ejaculação prematura, baixa rigidez do pênis, etc. Que se associam a fantasias primitivas sobre o tamanho do pênis. – Seria a vagina muito larga ou o pênis pequeno? – dúvida cruel exposta com angústia. Uma teia de angústias e constrangimentos num poço sem fundo ou a desilusão e o conformismo – sempre presente a dor da mente e do espírito?

Muitos médicos e médicas estão despreparados ou intimidados ou alheios a essa importante dificuldade do ser humano mulher. Despertem mulheres e homens! Soluções estão disponíveis com e sem cirurgia. Uma conversa franca com seu médico(a) e um adequado exame clínico serão os portais de uma nova vida com mais felicidade. Felicidade para amar e ser amada. Uma pessoa sexualmente realizada é uma pessoa mais feliz para si, para todos a sua volta e até para a sociedade. Sexo certamente não é tudo na vida, mas uma vida sem sexo feliz é uma vida incompleta com certeza. Complementando – em qualquer idade!

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