Dor de Dente!

Dor de Dente!

Há um consenso entre guerreiros que duas dores e situações dominam a valentia e numa delas o índio guapo barbaridade arria as bombachas e se acoca: disenteria e dor de dente. Um clássico dos filmes e estórias de torturas é abrir o dente da criatura e deixar o nervo exposto e aí fazer a dor varar os limites da coragem. No século XXI vivemos e consolidamos as experiências sem dor. Entendemos que conceitos como “parir com dor” ou “as dores do parto” podem e devem ser minimizadas ou abolidas.

Aqui em Viamão City, a Primeira Capital de Todos os Gaúchos, nas imediações da Escola Adventista, no centro histórico da cidade, há uma ancestral figueira. “Esgualepada” pelos maus tratos. Ali, escutava na minha longínqua infância, um homem enforcou-se, morrendo dessa forma como alívio de uma dor de dentes. Rezavam conversas que em certas noites o pessoal que ali morava na chamada Rua dos Cachorros, fundo da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, escutava o lamento de dor e ao olharem para a velha figueira viam uma pessoa balançando em seus galho já em silêncio sepulcral.

Crônicas & Agudas!

Em seus livros e palestras, Amyr Klink relata que numa de suas viagens solo, creio que para a Antártida, teve que trepanar um dente e tratar-se de uma dor que nenhum analgésico aliviava. Estava encurralado na pequena cabina de seu veleiro pelo oceano feroz e geleiras.

Outro causo viamonense aconteceu com um célebre dentista prático da zona rural – ou seria um dentista diplomado pelo costado do Centro histórico? A criatura chegou acompanhado por um cortejo. Gritava aos sete ventos: “Doutor do céu, me tira essa dor. Se não puder, me mate!” – imagine o desespero. O pequeno consultório, sala de espera e a calçada ficou repleta dos parentes. O intrépido dentista se pôs a tentar achar qual era o dente que doía. “Dói tudo, seu doutor. Não sei qual é o que dói. Pelamor de Deus, me ajude”. – os limitadíssimos recursos da época, tempos da grande guerra, exigiam atitudes heroicas e muita coragem.

O velho doutor armou-se de sua espada, digo, boticão e sacou o primeiro dente. Não aliviou nada. Sacou o segundo dente e dor somente piorava. Derramava bicas de suor. Respingava sangue para todos os lados. Algumas mulheres já ameaçavam ou tinham um vago (desmaio) e alguns valentes já botavam os guizados para fora (vômitos). Aprumou-se e rebocou com muito custo o terceiro dente.

Crônicas & Agudas!

O paciente cuspia sangue e o doutor limpava seus óculos. Entre na cena! “Doutor, acho que tem dente doendo em cima também!” – Deus do céu, piorou. As dores reflexas, em outra região, acontecem. Já tinha saído uma presa (dente canino ou aquele do vampiro). O doutor se atracou no último queixal (dente molar). “Segurem a cabeça e os ombros dele, tu aí bota as duas mãos nos carrinhos (ATM – articulação têmporo-mandibular) para não descarrilhar (luxação) e agora tem que resolver.” – berrou o doutor. “É agora ou desce!” – acordou-se do desmaio a esposa. E o dentista calçou o joelho no peito do paciente e sacou o dentão com mais raízes que a figueira da praça.

Cuspindo sangue, o homem aplaudiu e se abraçou no doutor: “Tô curado, sem dor. Salvou a minha vida” – abraçado no dentista. Escutaram-se palmas e gritos eufóricos na rua. Com a boca cheia de buchas de algodão para parar o sangramento subiu na carroça e ganhou a estrada de casa com seu povo a reboque. Isso contado e acontecido não era raro acontecer – vai extraindo enquanto doer. Daí a quantidade imensa de bocas sem nenhum dente e com próteses (chapas e dentaduras). Outra curiosidade épica: alguns pais extraiam dentes que podiam doer das filhas antes de casar, para entregar ao marido sem esses possíveis e assustadores problemas.

E há quem reclame do mundo de hoje!

2022.06.07 – Dor de dente – Edson Olimpio Oliveira

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Dormir para crescer e curar! Edson Olimpio Oliveira

“Dormir para crescer e curar!”

E o “celular”?

Ainda não desenvolveram avós eletrônicas que amparem e amem seus netos através do smartphone. O “Dormir para crescer e curar” é dessas miraculosas sabedorias que cavalgam o dorso da humanidade em todos os tempos, povos e geografias.

A era hipocrática consolidou o tripé: boa alimentação, atividade física e sono adequado como a base da boa saúde, da vida saudável. Em cavernas, tendas, locais sagrados na natureza ou em templos, a humanidade recolhia-se em sono para se encontrar com seus totens ou divindades que lhes curariam de seus males, indicariam remédios e caminhos de vida. E até a cura da infertilidade. Na antiga Grécia os templos à Esculápio e outras divindades recolhiam as pessoas para esse sono curativo. Essa união em sono da pessoa e da divindade chamou-se “incubatio” (latim) ou “incubação”.

Na era romana esses templos contavam-se às centenas pelo império. No Japão, especialmente na sagrada e imperial Kyoto um desses templos é muito famoso. Outra pincelada histórica: Hygia e Panaceia – filhas de divindades estavam “presentes” no sono e sonhos. Observe o atual significado de “panaceia” e “hígido”, como de “incubação”. O encontro em sonho do enfermo e da divindade ou sacerdote chamava-se “sumptoma”. Lembra “sintoma”?

Crônicas & Agudas

Dormimos 1/3 de nossa existência. Aos 60 anos de idade dormimos cerca de 20 anos. Os mamíferos dormem e sonham (todos?). O sono é fundamental à vida, principalmente à vida saudável. A Psicanálise e outras vertentes terapêuticas e investigativas escavam nosso íntimo para a cura ou melhora de vários males. Busca-se o sono induzido por variadas drogas medicamentosas ou não (hipnose ou mesmerismo, sonos mediúnicos, etc) – em todas as eras da humanidade.

Nós, cirurgiões, buscamos noites bem dormidas para os pacientes antes das cirurgias e melhores após. Isso é essencial para a melhor cicatrização, recuperação, equilíbrio orgânico e potencializar a imunidade. Dormir! Dormir bem para cicatrizar e curar. A quantidade de sono pode variar entre pessoas, jamais a necessidade. A necessidade de um bom sono é a base da melhor saúde.

Crônicas & Agudas

O corpo humano obedece a ciclos, fases ou estágios. Tudo na natureza está em algum ciclo – das fases lunares, a semeadura dos campos, as estações do ano, os ciclos menstruais e as gravidezes. Podemos desdenhar ou não reconhecer, mas está aí nos auxiliando ou nos confrontando com a realidade. “A noite foi feita para dormir” é outro diamante. O sono na escuridão ativa diversos processos hormonais, bioquímicos e fisiológicos benéficos ao corpo. Entenda: saúde é a base maior de tudo e para tudo!

Um par de horas antes da meia-noite e mais de dois pares de horas após são, certamente, os melhores para o repouso, para o sono reparador (crescer e curar). Equilíbrio, sem excessos. Um dia a conta chega para aquilo que não é natural e fisiológico.

Lamento sempre quando abro a caixa do WhatsApp e ali estão inúmeras mensagens postadas na madrugada, abdicando do sono necessário. Pessoas obsidiadas pelo celular buscam suas “divindades”, talvez fugas da realidade ou conforto em ‘amizades’ distantes. Já é considerada patológica. São reféns de uma falsa realidade. Reféns de uma droga eletrônica e maléfica quando mal usada.

2022.05.31 – Dormir para crescer e curar – Edson Olimpio Oliveira

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Dia do Médico GASTROENTEROLOGISTA

Dia do Médico

GASTROENTEROLOGISTA

Reconhecimento

Respeito

Gratidão!

Parabéns aos Colegas de tão bela Especialidade Médica!

A Pontada! Edson Olimpio Oliveira

A Pontada!

“É a rebimboca da parafuzeta!” – explicava o mecânico para a mulher já desacorçoada com seu carro adquirido em 72 parcelas (quase vitalícias!). Em todas as profissões escutam-se e observam-se pérolas que variam da realidade à fantasia, quando não da honestidade à trampa. Tanto do suposto profissional, como do cliente (nem sempre é uma vítima indefesa).

A Medicina, em sua milenar arte e ofício, traz consigo alguns sintomas ou diagnósticos que a interpretação já merece por si um livro de semiologia. Talvez até um tratado de “enroloterapia”. Um “nó nas tripas” cavalga entre uma obstrução intestinal – lembre o Bolsonaro e as sequelas da facada – e uma apendicite. Por lembrar da apendicite, ouve-se: “Tá com inflamação no pênis” – mas não é o “pinto” o vitimado. É o ancestral apêndice cecal. “Apendicite aguda ou pontiaguda”?

Crônicas & Agudas!

Território vasto e, por vezes, insípido e inodoro é o da “ameaça”. Há “ameaça” para tudo – ameaça de derrame, de enfarte, de hemorroidas, de congestão, de úlcera nervosa; ameaça de desmaio ou vago, também ameaça de pressão alta, entre várias outras. Uma “ameaça” pra lá de complicada é a “ameaça de gravidez”. “Ela tem essas ameaças de gravidez, suspende as regras, cresce a barriga, incha os peitos, mas monstrua uma barbaridade” – ouviu-se no plantão do “nauseocômio” da municipalidade. E tem criatura que “ameaça” com e sem aviso prévio, numa balada de encanzinar o cônjuge – “Tô com ameaça de dor de cabeça daquelas de rachar a moranga ao meio, sexo hoje nem pensar. Trata de te aquietar!” – quem já escutou uma parada dessas?

Crônicas & Agudas!

O segredo é levar a vida com bom humor e dançar conforme a música. Nenhuma ofensa ou menosprezo às manifestações de um povo que tem um dos mais caros (25% de todos os impostos federais) sistemas educacionais do planeta e também um dos piores. Abaixo do rabo do cão e do ‘cãodidato’. Tem criatura com “deploma de faculidade”, que a melhor letra é “O” ou o zero ao sentar na areia de um BBB da vida real.

“E a pontada?” – indaga o heroico sobrevivente do Brasil vampirizado por artistas e facínoras. Identificar uma “pontada” será um exercício da dedicação, acurácia do médico, talvez exames acessórios e afinidade técnica com o queixoso. A famosa “pontada no peito ou na paleta” com febre, dor ao respirar, talvez tosse, secreção, ausculta de ruídos pulmonares típicos, entre outras, fará pensar ou diagnosticar a célebre “pontada de pneumonia” – “dupla ou simples, doutor?” – indaga o impaciente. “Tá ameaçando ficar dupla e galopante.” – responde o doutor.

Crônicas & Agudas!

A “pontada na aba da costela”. A “pontada no vazio”. Uma “pontada aqui nessa zona morta entre o beiço, a venta e a orelha”. A “pontada na bexiga” e a “urina dolorosa”. Também, a “pontada nos rins”. “Quando essa pontada piora?” – pergunta o médico. A resposta: “Dói bem mais quando eu puxo o fôlego, tô de respiração curta como suspiro de gato no pelego”.

Há até a “pontada de amor”. Essa é grave e dá alguns desenlaces assustadores. Aflige o peito, naquela zona do coração apaixonado ou ressentido. Pode cravar-se como um punhal, numa única fincada ou como facada de canhoto ou vesgo – uma em cima da outra. Há pontadas que assolam até a alma da criatura – conhece alguma? Pois é, não há vacina e nem ivermectina para pontada de amor. Não creio que que a Anvisa autorize alguma prevenção ou tratamento. Mas nada, absolutamente nada, é um impeditivo para se amar e viver com a melhor e mais luminosa intensidade. Tente escapar das “pontadas”, mas ouse, insista e persista ponteando a sua jornada de vida.

2022.05.24 – A Pontada – Edson Olimpio Oliveira

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Sorria! Sorria, ame e trabalhe. Edson Olimpio Oliveira. Crnicas & Agudas. Jornal Opinio de Viamo. 17 Ma io 2022

Sorria!

Sorria, ame e trabalhe.

[Bandeira branca, amor | Não posso mais | Pela saudade que me invade | Eu peço paz] … [Saudade, mal de amor, de amor | Saudade, dor que dói demais | Vem, meu amor! Bandeira branca eu peço paz] – Max Nunes

Com Crônicas & PontiAgudas consolidamos um modelo, um estilo em que o cronista proseia com o poeta em seus poemas. Assim, esse palco iluminado do Opinião Jornal vem refletindo a prosa de mãos dadas, dedos entrelaçados com a poesia e num bailado que ousa traduzir sentimentos e embalar sonhos do autor e incita seus leitores.

Uma falange significativa e crescente de pessoas abdicou a leitura que persista por mais de alguns parágrafos ou que não se espraie em carinhas e figurinhas prontas. O empobrecimento intelectual ou o horizonte restrito da tela do celular traz uma subnutrição progressiva da mente. Qualquer dos sábios ou pensadores que gravaram seus nomes na civilização humana não dispôs de um fragmento das informações hoje disponíveis para qualquer pessoa ou mínima biblioteca.

[A mesma praça, o mesmo banco | As mesmas flores, o mesmo jardim | Tudo é igual, mas estou triste | Porque não tenho você perto de mim.] … [ Beijei aquela árvore tão linda, onde eu | Com o meu canivete,
um coração eu desenhei | Escrevi no coração meu nome junto ao seu | Ser seu grande amor, então jurei!] – Carlos Imperial

Estamos varando os tempos mais penumbrosos no pós-guerra. O ribombar de nossos corações lateja em nossos ouvidos. Vales de sombras espreitam um número assustador de depressões e suicídios. Desamor e insatisfação são molduras de vidas tristes num galope, num tropel de desesperança. Sorrir mais. Cultivar o bom humor. Jamais se abater com a pancada. Cantar e refletir. Aprender e evoluir. Voltar no tempo – jamais! Certeza do futuro – difícil! O melhor no presente, no aqui e no agora – única e real alternativa.

O medo de amar carimba o passaporte na infelicidade. Ame e ame intensamente. Marque a sua vida e sua trajetória pelo amor que você teve e ofereceu. Se a pessoa amada não correspondeu como você esperava… Você fez a sua parte!

[De que vale tudo isso se você não está aqui | … | Meu amor, há quanto tempo | Eu não falo com você | Isso só me deixa triste ! E sem vontade de viver] … [E o meu amor que é puro | Pode crer, meu bem,
eu juro | É tão grande que duvido | Que outro igual possa haver] – Roberto Carlos

Jamais seremos a flor bela, perfumada e solitária da pradaria do universo sem fim. Somos seres tribais, gregários por natureza, mas ancorados no porto seguro da família – do casal e da sua prole, talvez dos vínculos sanguíneos e muito dos irmãos de jornada. A mão que seca a lágrima e oferece o lenço é do braço que ampara e traz de encontro ao coração tanto na festa quanto na dor.

[Vou seguindo pela vida | me esquecendo de você | Eu não quero mais a morte, | tenho muito o que viver | Vou querer amar de novo | e se
não der, não vou sofrer | Já não sonho, hoje faço com o meu braço o meu viver] – Milton Nascimento

“Bandeira branca, eu peço paz”! No lar, no trabalho, na sociedade. Sei que a paz não é gratuita. Jamais foi uma bênção divina sem o esforço e a contrapartida do merecimento. Bom humor – uma vida mais leve, menos “socos em ponta de faca. Paz – princípios morais, trabalho e vigília permanente. Os textos sagrados mostram os caminhos que somente cada um escolherá.

2022.05.17 – Sorria! Sorria, ame e trabalhe. Edson Olimpio Oliveira

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20 Maio – TÉCNICO DE ENFERMAGEM

Dr. Edson Olimpio Silva de Oliveira

Médico. Cirurgião. Escritor

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Conselho Regional de Medicina RGS – CREMERS

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Viamão – RS

1971 a 2021 – 50 Anos de Medicina

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J que no morro mesmo, quero comida! Edson Olimpio Oliveira. Crnicas & Agudas. Jornal Opinio de Viam o. 10 Maio 2022

“Doutor Edson, – dizia, meu Amigo e padrinho de Crisma, seu Osvaldo Canquerini – fundador do Capão da Porteira’, tem morrido índio nessas tigueras que nunca morreu antes”. E soltava um sorriso matreiro como cavalo de cigano. Gostava de escutá-lo e conviver com ele. Uma fonte de sabedoria, respeito e amor centenário. É um dos privilégios que a vida me deu – Dona Otília, esposa, e Seu Osvaldo Canquerini. E vamos ao causo – adaptação livre pelo cronista.

“Já que não morro mesmo, quero comida!”

Nas Lombas, numa terra de coxilhas entre Santo Antônio da Patrulha e Viamão, residia um idoso e sua numerosa família. Homem bem quisto e respeitado de tomarem a bênção com chapéu na mão. Devoto da padroeira do Capão da Porteira, a Santa Terezinha. O coração já não troteava de marcha batida como cavalo de delegado, estava mais para potro manco. O pulmão, um fole velho que gemia e chiava como caminhão atolado nas estradas da região. O corpo já falquejado e lambido pelo trabalho duro num clima inclemente em que o vento Minuano não respeita alambrado e nem cerro alto.

Consultara e se tratara com vários médicos até ser “desenganado”. Restava-lhe o “doutor Dante”, um respeitado prático local. Xaropes e poções. Comprimidos e benzimentos. Promessas e lavagens intestinais quando o intestino empedrava e os supositórios de glicerina não afrouxavam a bigorna.

Num final de tarde invernosa, ao tirar o leite da vaca Elvira, tombou do banquinho e arroxeou os lábios, derramando o balde de leite. “Vovó acuda!” Gritou o netinho brincando de boizinhos com espigas de milho. Foi um Deus nos acuda e um corre-corre. Deitaram-no na sua velha cama. “Busquem o Seu Dante! – alguém berrou. Família reunida, despacharam volante para chamar os mais distantes A coisa estava osca, russa mesmo. Coisa como briga de foice no escuro. Logo chegaram carroças, carretas, uns a cavalo e muitos a pé. Um cortejo que varava a porteira e os alambrados e se acampavam na despedida final. Dispensaram o vinda do Padre, pois já lhe havia dado mais de uma extrema-unção. Estava abençoado e benzido uma barbaridade para a derradeira viagem para a cidade dos pés juntos ou de onde quem vai não volta.

Com a vela nas mãos e outras espalhadas pelo quarto e casa, as mulheres rezavam o terço e pediam benção de saúde e sobrevida à Deus. Algumas desmaiavam e um filho mais emotivo teve um ‘vago’ e quase engoliu a língua. Uns acudiam aos outros e os outros tomavam chás e homeopatias e eram abanados. “Isso é da vida e de Deus”, “todos vão um dia”, “ele vai pro Céu, é um homem sério e bom”… E bateu a fome no pessoal. Mate com broas e roscas eram insuficientes. Apearam uma manta de charque do varal e logo estavam preparando um arroz carreteiro no fogão de rabo. Mais aipim e batata-doce. A gata Rosada persistia deitada em seus pés na cama e o cusco Pitoco não arredava do lado de seu amigo. Baixaram as tábuas guardadas nos caibros do galpão e o Negro Acrísio, exímio carpinteiro, se agarrou na feitura do ataúde. A noite galopeava no lombo do vento Minuano, que cortava mais que língua de sogra. Esgotaram-se as lágrimas. Roucas gargantas. Nada do velho bolear a perna e passar para o outro lado. Trocaram velas nas mãos (queimadas dos pingos de sebo) do moribundo e esgotaram as rezas conjuntas. O pessoal já dormitava pelos pelegos.

Eis que o galo se empina e larga os primeiros gritos saudando o raiar do sol. Ermelina, a filha dileta, sempre ao lado do “paizinho” foi a primeira a ouvir: – “Já que não morro mesmo, quero comida. Tô com muita fome. Me faz uma sopa de galinha e frita uns ovos com a minha morcilha Até aprontar me faz um mate, menina”. Diz a sabedoria popular que lugar estranho é cemitério – tem altos muros e grandes portões de ferro. Desnecessário! Quem está fora não quer entrar e quem está dentro não pode sair. E seguiu a toada, mais ou menos assim naquela família e com aqueles amigos, pois ninguém além do Pai, Patrão Celestial, sabe o seu momento de subir ou de descer. A criatura, o defunto morre de olhos arregalados até com as pupilas bem dilatadas para enxergar o caminho – será verdade?

2022.05.10 – Quero comida – Eds Olimpio

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Encontro com o Destino! Edson Olimpio Oliveira. 03 Maio 2022.

Encontro com o Destino!

Dicionário Houaiss. Destino: tudo que é determinado pela providência ou pelas leis naturais. Sinônimos: acaso, acerto, casualidade, dita, estrela, fadário, fado, fatalidade, fortuna, lanço, sina, sorte, ventura.

A civilização ocidental tem muitos de seus fundamentos filosóficos ancorados na mitologia grega e no direito romano. Num mundo politeísta, os gregos identificavam divindades, em escala hierárquica, para cada atividade, situação ou clamor humano e as suas interferências no cotidiano. As Moiras eram três irmãs, divindades, encarregadas dos destinos de homens e dos deuses. Associadas ao fiar, tecer o fio da vida de cada criatura. Distribuir o fio e cortá-lo (representando a morte).

Os romanos tinham equivalentes chamadas de Parcas. E as Nornas na mitologia da Escandinávia. O conceito de livre arbítrio sempre existiu em formas e modulações para cada pessoa e época. Na nossa formação cristã-judaica, a força e a obediência divina são exemplares, mas cabendo ao homem escolher o seu caminho. E arcar com os custos de sua decisão e ato.

Crônicas & Agudas!

Na filosofia da reencarnação ou na religiosidade de muitas vidas a cumprir, a criatura volta para recuperar-se, resgatar seus maus feitos, tendo algo como uma agenda a decidir. Entretanto a decisão de evoluir ou iluminar-se continua sendo pessoal e intransferível. Observe que a palavra “intransferível” remonta todas as origens e em qualquer cultura ou religiosidade. Vai em choque, em desacordo e em desagrado, daqueles que atribuem aos outros as suas infelicidades ou agruras. Mesmo quando o resultado é a soma dos erros de uma falange, um grupo ou uma sociedade, ali está encrustado a decisão individual (livre arbítrio), ônus ou bônus pessoal.

“Por que eu?” Ainda: “Por que comigo?” O médico conversa com a adversidade de seu paciente. A fragilidade do corpo pode ou não estar atrelada à fragilidade do espírito. Isso ocorre em variadas, simples ou complexas situações: morte de pessoa amada, diagnóstico de câncer ou de outra grave enfermidade, entre outras. A hierarquia da dor é pessoal. Nenhuma métrica pode avaliar se a minha, a tua, ou o sofrimento de outra pessoa é maior ou menor. Cada coração ama e sofre na luz de sua alma.

Crônicas & Agudas!

Todos e cada um de nós é ligado ao uno – à vida e à morte. Brincamos ao falar que “ninguém vai quando não é a sua hora; o avião é o mais seguro meio de transporte”. Sempre alguém dirá: “Mas se for o dia, a hora do piloto!” Durante uma vida de médico e cirurgião, alguns pacientes diziam: “Orei e pedi muito pelo senhor e por sua equipe, pela enfermagem e por todos do hospital e seus familiares. Se vocês estiverem bem a cirurgia do meu filho (esposa, mãe, …) será bem sucedida.” Meu irmão Eduardo Lopes e eu, como muitos médicos e cirurgiões, fazemos preces nesses “encontros com o destino”. O livre arbítrio do enfermo ou de seus amados estaciona fisicamente antes do bloco cirúrgico. Lá no seu interior está a necessidade da melhor decisão e do melhor trabalho de todos os profissionais – o livre arbítrio de uns no destino do enfermo.

Muito se escreve. Muito se diz ou se silencia. A maternidade física ou espiritual é um formidável e maravilhoso “encontro com o destino”. Deus está ali nos concedendo aquilo que é seu divino privilégio – criar vida! Criar vida! E aqui está a nossa reflexão e entendimento. Ele nos criou e a tudo que existe, mas jamais nos abandonou. Sempre nos proveu para que escolhêssemos nossos destinos e fôssemos responsáveis por eles. A semente da Luz está dentro de cada pessoa. O destino dessa Luz está em cada coração, escaneada por cada mente e eterna como cada alma.

2022.05.03 – Encontro com o Destino – Edson Olimpio Oliveira

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Maio

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A Cabea do Bacalhau! – Edson Olimpio – 26 Abril 2022

A Cabeça do Bacalhau!

Escrevo essa crônica num sábado de Páscoa. Amanhã o Coelho Pascal distribuirá ovinhos e ovões, conforme o poderio monetário da criatura “ovacionada” (cruel essa!). Por que coelho na Páscoa? Se provocar o Google surgirão origens mil. Como a representação da fertilidade, tanto pelo número de crias quanto pelas várias gravidezes anuais da dona coelha. No entanto classificar um homem de “coelho” (caolho – “no bronca”) será ofensiva e deprimente na sua sexualidade.

Há mitos pagãos sobre o coelho comemorar o final do inverno. Orelhas grandes significam inteligência escassa para o jumento e assemelhados. E para o coelho? Ovo de chocolate num mamífero? Era difícil enfrentar as perguntas dos filhos e depois dos netos. Tentava escapar pela tangente, pelos olhares estava claro para eles: “O vovô tá enrolado e não sabe nada de coelho.” Enfim, o espírito pascal se ancora num porto repleto de ensinamentos, percepções e entendimentos que para nós cristãos são fundamentos de nossa existência.

Crônicas & Agudas!

Há dias em que os neurônios se rebelam. Nesses dias em que o peixe, por milenar tradição, está à mesa pronto para ser degustado nas mais diversas e apetitosas configurações. Um paciente, nos tempos de Capivari do Sul, trouxe-me um “ovo de avestruz” (leia-se: ema) e bateu de peito de pé: “Tô criando uns coelhos macanudos e já tão botando ovo de Páscoa. Vô forrar o poncho de tantos pilas”. Colocou pólvora no estrogonofe de camarão.

Até o humor do gaúcho é assim meio abagualado e xucro uma beirada. Aqui o xiru fica palitando os dentes com a ponta da adaga enquanto conta os deitados na peleia e tira proveito até da desgraça para fazer um amigo sorrir e não arriar os ombros nas intempéries da vida. Com essa largada do amigo paciente, quase me caíram os butiás dos bolsos, mas num relance aprumamos uma risada.

Crônicas & Agudas!

Conhece Chester? Não, não é o mordomo do FHC. Chester, aquele bombado frango de Natal. Deve ser um frango de academia, puxador de ferro, um “halterofrangofilista”. Sabe que os pacientes gostam de aplicar nos seus médicos? Sempre tem uma pegadinha. Uma piada de plantão. Um causo sabido e até descabido. Pois é, nesse balanço da carreta sem as abóboras se ajeitarem, o paciente sacou e atirou mirando com o olho esquerdo tipo japonês – de fresta!. “Edinho, tenho uma conhecida que está criando Chester com o marido e vendendo os ovos dele.” – entre um sorriso de político safado. E contou uma estória.

Alguém de “vozes” já viu um Chester no pátio, ciscando e comendo minhocas ou arrastando a asa para uma franga numa cantada funk? Eu nunca vi! Ou alguém ter uma criação de Chester ou desses parrudos assemelhados como fábrica de Hércules e clones do Arnold Schwarzenegger? “Jamé l’amour” – no verbo do Arigó do Lago da Tarumã, em bom francês viamonense.

Crônicas & Agudas!

Bacalhau! Não aquele que se usa no conserto do pneu (manchão). Não o jogador de futebol que joga a meia-boca, nem fede muito e nem cheira demais, entre San Juan e Mendoza, pega um bom contrato e se aposenta – no Colorado tem uma tropa. Nem outros de dicionário espremido – bacalhau, o peixe ícone da culinária portuguesa com certeza e de “nosotros” do outro lado do mar. Salgado ou sem sal. Pensa nuns bolinhos de bacalhau com um vinho ou uma cerveja gelada. Bacalhau à Gomes de Sá ou nas mais variadas versões e diversões, sabores deliciosos e até de comer ajoelhado.

Pois é, onde está a cabeça do bacalhau? Tem que ter. Não é parente da minhoca. O gato não comeu. Esse é outro desses mistérios que me corroem a mente nesse sábado de aleluia e sem um baile para ir. Cadê a cabeça do bacalhau? Quedê? Alguém, algum iluminado ministro do STF já viu e agarrou a cabeça do bacalhau? Embananou de vez. Lascou total.

O doutor Cabeça, meu meio-irmão, passaporte português, cidadania lusitana, escalou-se para clarear o mistério da cabeça do bacalhau. Enquanto isso, aceita mais um bolinho de bacalhau?

2022.04.26 – A Cabeça do Bacalhau – Edson Olimpio Oliveira

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