A Presidenta e a defesa do traficante – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 10 Março 2015

2015 – 03 – 10 Março – A Presidenta e a defesa do traficante – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

A Presidenta e a defesa do traficante

 

É

 uma criatura tão peculiar e inigualável que devemos nos associar ao seu desejo singular de ser chamada de presidenta. E um dos marcantes episódios de sua gloriosa administração dos 39 ministérios e incontáveis secretarias foi retirar da Indonésia o embaixador brasileiro em represália contra a ofensa nacional por executarem um traficante brasileiro. O fato de ser um traficante há mais de 20 anos, julgado e condenado é mero detalhe. Essa despudorada e brutal ofensa ao Brasil deveria ser respondida nos moldes do amigo ditador da Coreia do Norte: – O Brasil declara guerra à Indonésia e vamos invadir as Malvinas deles”. “Eles vão ver o que é bom pra tosse quando a vaca tossir” – imagino no seu discurso em cadeia nacional. E olha que os partidos da sua base entendem de cadeia nacional. Da Indonésia não.

 

Cr & Ag

 

A Indonésia tem essas leis estranhas e absurdas e de execução cruel – pô meu, fala sério, fuzilar o mano! Deveriam mandar o cara para Bali surfar até… morrer de cansaço ou de velho com as narinas entupidas de “talco”. Retirar o embaixador brasileiro e cortar relações com a Indonésia é pouco pela crueldade da lei. Ou só porque ele é brasileiro e votou nela e nele? – Nele quem? – pergunta o distraído. Nele, o cara, o intocável, aquele que nada viu e nada sabe, isento total. Sacou! “O cara não matou ninguém” – claro que não, pois a “droga é coisa do capitalismo e tudo é culpa dos americanos”, sussurrava um assessor do Planalto com pós- graduação na Bolívia de Evo Morales. O Brasil é um país de amor (e sexo – o governo mentiroso nos ferra todos os dias), aqui não há crueldade, todos têm direito à embargos infringentes e advogados do quilate de um Marcio Tomás Bastos e infindáveis recursos e vistas de processo. Todos tem amplo direito à defesa e ao ataque (e meio de campo), como na fila do SUS, na falta de vagas nos hospitais, nos curandeiros cubanos, nas balas perdidas, nos arrastões, nos impostos que bebem teu sangue e violentam tua alma, na inflação, na corrupção…

 

Cr & Ag

 

Faltou sua casa civil ter declarado luto oficial por três dias e bandeira a meio pau no Brasil e nas embaixadas. A crueldade da lei na Indonésia fez a presidenta relegar ao último plano a chacina no jornal francês Charlie Hebdo e no mercado judeu. Também ali a culpa é dos americanos e do capitalismo excludente que não copia a graça na administração socialista da Petrobrás e a inclusão (dos deles) na posse do Brasil. Nem destruíram os vinhos prediletos do ex-presidente, como Romanée Conti. As chacinas francesas que reuniram em repúdio líderes mundiais de todas as nacionalidades, credos, cores e ideologias não sensibilizaram a nossa presidenta, talvez porque ali não estava a honra do Brasil envolvida. Nenhum traficante brasileiro estava envolvido. E nenhum socialista da Petrobrás ou do mensalão. “Vejam a culpa da globalização” tão combatida pelo socialista tupiniquim embarcado na sua camionete Range Rover.

 

Cr & Ag

 

Somos um povo solidário e amoroso, deveríamos durante o Jornal Nacional, em cadeia nacional e na Papuda, na prisão domiciliar ou no indulto de Natal fazer um minuto de silêncio e de oração ao “Pai Lula que está no Brasil, santificado e etecéteras e tal”. Seria o mínimo. E quando as cinzas do “garoto” chegassem ao aeroporto brasileiro da empreiteira e mensaleiros unidos, saíssem em carreata no caminhão do corpo de bombeiros, discursos inflamados e infeccionados da base parlamentar, com vários trios elétricos e escolas de samba. Certamente alguma escola de samba trará esse tema enredo – “menino brasileiro assassinado na Indonésia” alimentado com poposudas verbas públicas. Renderia um filme: “Filho do Brasil fuzilado na Indonésia”. Mais de 60 mil brasileiros mortos anualmente no trânsito e outro tanto na violência urbana fariam posição de sentido nas covas coroadas pela impunidade da justiça nacional. Já estou procurando um canivete que ganhei da avó Adiles para afiar e me preparar para invadir a Indonésia. Quero ser pracinha dessa nova força expedicionária brasileira a ser convocada pela amorosa, sincera, afetuosa e defensora ferrenha da honra nacional e mãezona presidenta. Seria como um PAC contra a Indonésia!

Liberdade e Segurança – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 03 Março 2015

 

2015 – 03 – 03 Março – Liberdade e Segurança – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

Liberdade e Segurança

 

A

jude o cronista em algumas de suas angústias e incertezas. Posso sair do banco contando o dinheiro da minha aposentadoria? Posso deixar as janelas abertas do meu quarto e da minha casa nessas noites de calor terrível? Vou passear no Zoológico e posso dar uma comidinha na boca do leão depois de pular a grade da jaula? Posso estacionar e deixar a chave do carro na ignição enquanto compro no comércio? Posso assistir ao Grenal no meio da torcida organizada do Grêmio com a bandeira do Internacional e fardado com a camiseta colorada? Se o querido amigo e colega psiquiatra Guilhermano escutasse ou lesse essas intenções do cronista, ficaria, no mínimo, preocupado com minha sanidade física e mental. Mas eu bradaria aos quatro ventos – E a minha liberdade? Onde fica a minha liberdade individual? Onde fica o respeito que devem pelo ser humano e cidadão ex-eleitor da Dilma e do Lula?

 

Cr & Ag

 

Várias ocasiões escuto e observo pela TV os casos de mulheres molestadas nos ônibus e nos metrôs. Ou até nos lugares mais variados como shopping centers. A imensa maioria queixa-se do machismo da sociedade. “Os homens não respeitam!” – acusam. Eventualmente algum repórter alude ao “detalhe” da roupa que usam. Isso somente aumenta a indignação. “Eu tenho direito de me vestir como quiser” – explodem. Antes que algum lerdo mental acuse o cronista de defender ou atenuar a culpa do bolinador, assediador, meliante, insistimos na tecla de que a criatura avalie o local onde está e os riscos de sua conduta naquele local. Se eu andasse de moto a 150 km/h sem capacete e bailando entre os carros, isso seria conduta de risco? Correto?

 

Cr & Ag

 

Se você vai a uma festa, sua indumentária será conforme o evento. Se você trabalha numa metalúrgica, proteja-se dos riscos do seu trabalho. Alguém duvida de que vivemos numa sociedade predatória (veja a roubalheira da Petrobrás) e sem segurança real e não a imaginada pelo governo socialista que desarmou o cidadão honesto? A nossa conduta será proporcional ao risco que estaremos expostos. Se a pessoa expõe seu corpo aludindo sua liberdade e exige que o meio ambiente viva e comporte-se pelas suas regras estará sempre exposta, sujeita ao predador mais próximo. Há diversos estudos que mostram que a criatura adota conduta de risco por vontade consciente ou inconsciente. Nada disso absolve ou exime de responsabilidade ou culpa o leão que arrancou o braço do homem ou devorou a criança, mas as feras humanas podem ser mais ardilosas e sua estratégia de posse e destruição bem mais elaborada.

 

Cr & Ag

 

A culpa do sujeito dirigindo bêbado é da autoridade ausente, omissa ou ineficiente. Mas também do bêbado que assume ao volante todos os riscos de seus atos. Nós família temos a obrigação de orientar e até exigir de nossos filhos e netos que aprendam a cuidar-se e evitar situações que possam ser agredidos, injuriados ou até o pior. Mas a pessoa adulta também tem a obrigação principal de saber o mundo em que vive, entender os riscos do local onde transita, trabalha ou se diverte e se mesmo assim não adotar conduta de autopreservação, parte da responsabilidade do que lhe acontecer é sua. Muito sua.

 

Velocidade abusiva.

 

O excesso de velocidade na avenida principal para acesso ao centro de Viamão é escancarado, anormal e criminosa. Veículos pesados como ônibus e caminhões – assustador. Deus é viamonense, senão teríamos mortes diárias ou semanais… A esperança de autoridades atuantes é quase nula. Vejam o som abusivo dos veículos e das lojas! Ou a pichação! E a velocidade, Deus ainda salva!

Flamingos apaixonados

O Amor entre flamingos desenha um coração!

Olho de sogra – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 24 Fevereiro 2015

 

2015 – 02 – 24 Fevereiro – Olho de Sogra – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Olho de Sogra

 

D

izia T. Jordans, o Filósofo do Apocalipse: – Nada é o que parece. E se parece, não é! – assim é o título. Numa época turbulenta de carnaval com sobreviventes na avenida e do governo brasileiro, vamos adoçar a coluna, que também é vertebral, do Opinião. Outra amiga me dizia: – Comparar o olho da minha sogra com o doce é algo desalmado… para o doce. Já açucarei a vida de vocês com ambrosia feita pela avó ou pela dona Alaíde, lá de Mostardas. Enalteci o sagu da sogra Palmira, sem igual e mesmo a gente adorando e repetindo trocentas vezes, ela murmura: – O ponto poderia ser melhor. Se melhorar, seremos assaltados pelo Palácio do Planalto e taxados para parar de comer. Uma das felicidades de ser médico é ser presenteado pelos pacientes amigos e amigas. Pensem coisas boas! Maravilhosas! Já recebi. E não é bazófia ou papo de político. Realidade. Aí está minha secretária Clarice como testemunha ocular e degustativa. Quantas vezes ela também ganha coisas maravilhosas. Presentes com amor, com perfume da gratidão ou do reconhecimento, são graças divinas.

 

Cr & Ag

 

Há uma conhecida doceira viamonense, dona Rosaura, que faz doces com mãos iluminadas. O peso da idade não permite que trabalhe mais profissionalmente. Certos clientes antigos intimam-lhe inicialmente pela estratégia de que “ninguém faz igual à senhora” até chegar ao “se a senhora não fizer essa encomenda eu corto os pulsos ou me atiro da torre da igreja”. Sério! “Muito sério” como diz meu neto Lucas. Houve uma comoção e saiu gemendo da cama para fazer os doces ambicionados. Como sou um privilegiado, a dona Rosaura volta e meia me traz caixas de doces primorosamente adornados. Imagino algo assim que o califa de Bagdá comia. Ou o guru Lula na Granja do Torto ou nos eventos do Pré-Sal.

 

Cr & Ag

 

Vocês iriam desmaiar desidratados de tanto babar se contasse todas as obras de arte que ela faz. Como sou um cara antigo. Bem antigo. Do tempo em que se caminhava à noite pelo centro de Viamão e se conversava nas calçadas da praça com a tranquilidade dos justos. Sou do tempo em que se pintavam as casas para esperar o Natal e a pintura durava todo o ano seguinte. Hoje será destruída na mesma noite por um pichador maldito e impune. Sou do tempo em que as maiores drogas que existiam podiam ser trocadas a cada quatro anos e bolsa da família era uma coisa que as mulheres usavam para adornar sua beleza, passando por gerações e não uma safadeza eleitoral. Sou antigo. Tão antigo nós éramos cidadãos brasileiros e hoje somos meros sobreviventes. Voltando ao caso antes que “a vaca (da presidenta) tussa”.

 

Cr & Ag

 

Quando guri eu ia na “venda do seu Lelé”, antigo armazém ali nas pestanas da velha Borracheira e comprava cocos de verdade. Cabeludos. Com cuidado se fazia um buraco no olho ou no umbigo do coco para beber sua água. Quebrava-se com o machado. Seria olho ou fiel do machado? E raspava-se, ralava-se o coco com as mãos. Perdia várias lascas de dedos nessa tarefa. Tudo valia a pena, nada que um mercurocromo não cicatrizasse. As passas eram gigantes, pretas e doces, abria para retirar as sementes deixando-as em forma de concha ou canoa. Minha mãe Dora gostava que ajudasse. Incentivava. O coco cozinhando no fogão a lenha exalava um perfume que varava fronteiras e vizinhanças. Quando esfriava o necessário era moldado com as mãos umedecidas e colocado no leito das passas. Eu adorava esperar para raspar a panela entre as pernas e sentado na escada. Deus do céu, a cada olho de sogra da dona Rosaura esse universo refloresce em minha alma. E abria as panelinhas de papel para o acabamento e boa apresentação. E a alegria de chamar a gurizada para comermos juntos ou levar numa caixinha como presente para alguém. Somos e fomos felizes. E sabemos!

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Um tempo lembrado – Panca! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 10 Fevereiro 2015

2015 – 02 – 10 Fevereiro – Um tempo lembrado – Panca – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Um tempo lembrado – Panca!

 

C

risto fez de homens das águas seus discípulos mais chegados e principais propagadores   da sua fé. Homens das águas ou homens ligados à água, ao mar. Pescadores. Pescadores de almas! O mar me induz a pensar, matutar, refletir e buscar consciências do presente e cavoucar nas areias do tempo em busca de mariscos ou das iscas que trazem recordações e novas leituras da vida e dos tempos. No alvorecer da profissão de médico ou do ainda estudante de Medicina que após tantos anos longe da terrinha retornava para beber da água do Fiúza, a barbearia do Panca era um desses locais tão singelos quanto sagrados na sua essência. Sem as frescuras pernósticas do politicamente correto, a barbearia era um local em que o ritual do corte de cabelo, da barba escanhoada à navalha congraçava pessoas de todos os naipes e sem ou louros das origens. Resumindo – um berço da democracia. E democracia participativa, onde nenhuma opinião era inútil e qualquer ensinamento, por mais humorado que fosse, trazia a luz da amizade.

 

Cr & Ag

 

Meu tio Álvaro Oliveira era um desses amigos que “batia ponto” diariamente na barbearia do Panca, aqui próxima da caixa d´água. O Panca sempre tinha uma pegadinha comigo: – O doutor sabe qual o melhor remédio para tosse? – esperava eu dizer que não, para que me ensinasse. – Óleo de rícino, doutor! – com um sorriso maroto. – O cara toma óleo de rícino e depois eu duvido ele tossir! É do Panca outro achado: – Qual a profissão que mais tem um Viamão? – esperava um tempo de suspense e aplicava: – É corretor! Olha a turma que anda aqui no centro, no Zeca, na rodoviária com uma pastinha debaixo do braço e dizendo que negocia sítio, chácara, casa, carro, mas que na verdade é um monte de vagal. Muitos casados com professoras que lhes pagam as contas no final do mês e sempre se queixam que o governo paga pouco. Esse corretores tem pro cigarro, pro cafezinho, pra cerveja e ainda correm umas chinas.

 

Cr & Ag

 

O Panca era natural de Mostardas. Na minha infância eu entendia Mostardas como um lugar naquele caminho do Marco Polo para às Índias. Longe barbaridade. Lugar onde os cavalos tirados de lá sempre pastavam com a cabeça virada para sua terra, dizia a tradição. O namoro com a Loi aconteceu na casa do meu tio Zé Uia e da tia Tereza. Zé Uia é outro barbeiro histórico e de incontáveis histórias – era o homem que tinha um “peru treinado” a dançar as músicas no picadeiro do circo. Meu tio Zé Uia transferia a barbearia para a Cidreira na temporada de verão e praia e alugava um bangalô do Hotel Atlântico anexo da estação rodoviária. Ali um grande amor nasceu e o mostardeiro tornou-se um viamonense de coração.

 

Cr & Ag

 

Viamão transferia-se para Cidreira principalmente durante o verão. Seu Cici do Jornal Correio Rural ia para Nazaré e a maioria dos viamonenses no bairro da Viola. Alguns para Pinhal como os Zavarize e a família do seu Calisto Allem. Outros para a Cerquinha, atual Magistério, como seu Hélio Cabeça, pai do ilustre Bebeto Cabeça de longa e permanente vida política nessa terra setembrina. E logo acompanhado dos Scarppetti, como do querido Deco da Farmácia. Quem não conhece seu passado, não executa corretamente seu presente e projeta mal seu futuro. Os conhecimentos farmacológicos do caro Panca salvaram vidas, como do brigadiano que até já tinha comprado corda para se enforcar, pois acometido de persistente “brochura” (disfunção erétil) tinha perdido o gosto, a esperança e a ilusão da vida. Com chás do cipó chamado Nó de Cachorro, fornecido sigilosamente pelos homens das pedreiras de Itapuã, trouxe-lhe “alegria e felicidade e sexo poderoso”, segundo contava a boca larga.

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Os sons da humanidade – Edson Olimpio Oliveira–Crônicas & Agudas–03 Fevereiro 2015

 

2015 – 02 – 03 Fevereiro – Sons da humanidade – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Sons da humanidade

 

A

 necessidade é a mãe da criação. No mais de um milhar de textos publicados em jornal, o cronista esmiúça quadrantes de espaços e de temas que possam fazer o leitor viajar, deleitar-se, relaxar, enfurecer-se até, mas sempre estimular para que seus neurônios trabalhem. Encantamo-nos com os sons das aves. Estuda-se intensamente a linguagem dos golfinhos e assim de tantos outros seres da criação. Entretanto muitos se sentem perturbados em falar ou tratar de sons espontâneos como os produzidos voluntariamente ou não pelo nosso corpo e que são marcas da nossa humanidade. E todos os sons são tão naturais quanto o choro do recém-nascido e o suspiro terminal do moribundo. Do início ao fim e em todos os momentos da vida.

 

Cr & Ag

 

Estávamos no sofá vendo tevê, eu e minha neta Ana Luiza, ela com 4 anos: – vovozinho, a minha barriguinha está com fome! – haja encantamento. Alegrias como somente as crianças produzem. Os roncos da sua barriguinha falavam-lhe – “estou com fome”. Ronca-se ao dormir e quantos outros roncos fazemos! São as vozes corporais que se desnudam em que exercita a meditação. Um magrão de nome Ivécio, lá da minha distante adolescência, emitia arrotos que se ouviam em toda a praça da Borracheira. Outro dia, no banheiro de um posto de gasolina de margem de rodovia, uma criatura gemia e soltava flatos enclausurado naquela solitária latrina. Ninguém geme igual ao outro. Mesmo por dor. “Geme-se sem sentir dor”, diz a música, assim como as palavras vão do “Ah! My God! Oh yes!” ao “vai que é tua Taffarel”. Os sons emitidos na relação amorosa aos sons da batalha pela sobrevivência espelham os sentimentos e o espírito da pessoa.

 

Cr & Ag

 

Somos submissos a um som supremo – o batimento cardíaco. Sonhos do poeta e preocupações do médico, ali está esse senhor símbolo da vida e do amor. Também do desamor em “quem não tem coração”, como o “cruel presidente da Indonésia que não perdoou o brasileiro que só era traficante”. O estalar das juntas gastas ou endurecidas não tem nenhuma mística como do tambor cardíaco que acompanha e emoldura nossas emoções. Da mãe ao ver o filho retornar, ao amante entregue aos braços da amada. Nesses momentos, pouco se escuta os outros sons ou ruídos na nossa existência passageira ou longa enquanto durar. Sons da trivialidade necessária do escovar de dentes, da escova nos cabelos e sua eletricidade aos gargarejos, ali se revela a higiene como os adequados cuidados consigo e com o entorno.

 

Cr & Ag

 

Se “ninguém suspira como ela” (Ops, um cacófato!) os suspiros anexam uma enciclopédia de sentimentos e momentos. Suspirasse por cansaço, fadiga, saudade, melancolia e outros até interrompidos por um soluço. Crises de soluços já levaram muitas pessoas aos médicos, plantões e à forca nos tempos mais remotos. Há ainda quem morra de soluço debaixo da cama ou nos roupeiros e armários. Eis que muitos sons são acompanhados por odores agradáveis ou fedores insuportáveis. Momentos e necessidades, mas sons da nossa humanidade.

Centauro

O homem no supermercado – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 27 Janeiro 2015

2015 – 01 – 27 Janeiro – O homem no supermercado – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

O homem no supermercado

 

H

á homens especializados, outros são incumbidos, alguns vão às compras em épocas ou períodos especiais. As festas de passagem de ano é uma dessas épocas em que encontramos homens de todos os tamanhos e idades empurrando carrinhos de mercado. Qual a semelhança entre um sujeito tipo “carreta de 48 pneus” e o tipo mini? Além de serem homens! Observem o conteúdo dos carrinhos. Os carrinhos das mulheres carregam um pouco de quase tudo, do palito de dentes ao absorvente íntimo, do abacaxi ao creme dental, do inseticida ao sei lá o que mais. Não que não haja homens com espírito feminino, talvez até uma sobrecarga de estrógenos e progesterona circulando pelas veias, pois há aqueles com notas escritas de punho a impressas no computador. Outros mais sofisticados expõem um tablet que nem falta falar. Mas o nosso nicho é outro.

 

Cr & Ag

 

Resolvi fazer uma contagem enquanto esperava no estacionamento do super. Quando atingi o número quinze, entendi que a regra é quase geral. O apreensivo leitor quer saber o mistério dessa pesquisa. Vamos lá. Invariavelmente os carrinhos traziam carvão, carne geralmente costela, gelo e… Cerveja. Fardos de cerveja. Cerveja para cem pessoas sedentas. Criaturas desesperadas como abandonados no Saara. No entanto, a carne talvez para uma família aumentada, umas dez pessoas. Cerveja, carne, gelo e carvão – está pronta a festa de fim de ano. É réveillon completo. Pode faltar carne, jamais a cerveja. Criaram até geladeira especial e colorida para cervejas. Eta capitalismo eficiente!

 

Cr & Ag

 

Entendem porque as empresas fazem tantas propagandas de cerveja? Uma amiga, observadora também, refere que cerveja e absorventes íntimos devem vender aos borbotões. Não entendi bem a relação de um e outro, mas as mulheres têm um sentido mais apurado que o masculino e num relance identificam tudo que outra mulher ostente. Homem não é de ostentar, nem no mercado. Inclusive é solidário com outros homens: – Deu na Globo que vai faltar cerveja esse verão! – o mano do outro lado da gôndola sai na pernada para pegar mais uns fardos. Vá que a Globo (?) acerte e falte cerveja. Um amigo raciocina: – Mulher nunca faltará, até tem excesso, mas cerveja… Mulher ostenta tanto que é capaz de tirar a armadura dos seios para mostrar o silicone novo: – O meu tem 575 ml e é importado da Alemanha. – alfineta. Se fosse chinês ou paraguaio não valia quase nada. E cubano seria desonra total!

 

Cr & Ag

 

Outro tipo de homem em supermercado é o “matador”. A cabeça do homem é do predador do início ao final de carreira. Como cachorro comedor de ovelha na tradição gauchesca que “depois de velho e desdentado ainda quer lamber o pelego”. As criaturas ficam perambulando pelos mercados da Capital enquanto a família está na praia. E ali há o encontro de carrinhos e sugestões, um papo legal talvez e “se rolar uma química” armou-se a tormenta. O caçador esquece-se de que sua cara metade está em algum mercado do litoral e talvez alvejada por outro predador. Coisas da vida. O sujeito se esquece do sal, perde o filho no mercado, mas a cabeça é rápida como político na Petrobrás. Outro matador terrível, esse com respaldo do partido e do governo com tentáculos. O matador do mercado e o político indicado na Petrobrás acham-se impunes, jamais serão descobertos e se forem… “o mundo sempre foi assim” e “todos fazem”, segundo o guru supremo e intangível. E verão, sendo período de reflexão – Pô meu, votá na Diiilma, coisa de jegue! Gasolina sobe! Luz sobe e falta! Água sobe e desaparece! Estrada esburacada e sacanagem atrás da moita multando! O bom humor não salva, mas refresca.

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Olho clínico – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 20 Janeiro 2015

 

2015 – 01 – 20 Janeiro – Olho clínico – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião – http://www.edsonolimpio.com.br

Olho clínico

 

Devagar com o andor que o santo é de barro”, ensina a sabedoria popular e antes que alguém confunda com “olho cínico” que é uma das mais eficazes armas de políticos em campanha ou quando pegos de boca na botija alegando total desconhecimento de qualquer fato consumado ou feto consumido. Menos ainda com o “olho grande ou gordo”, que além de criar muita remela também atrapalha a vida dos outros. O olho clínico seria como o olhar aquilino (da águia) para o reconhecimento das enfermidades dos pacientes ou não e assim ter uma terapêutica mais rápida e eficiente. É como reconhecer o “cego dormindo e o rengo sentado”, ver  aquilo que os outros não veem, coletar sinais e desdobrá-los numa equação ou num algoritmo visando identificar e tratar. É o sonho dos estudantes de Medicina que logo identificam os mestres com essa qualidade e valor inestimável e tendem a imitá-los.

 

Cr & Ag

 

Estavam os estudantes de Medicina no pátio da Santa Casa após sobreviverem ao almoço no Morte Lenta restaurante e lancheria, observando as pessoas como formigas em correição. Eis que um homem todo torto vem com andar de ponto e vírgula. Um dos acadêmicos alveja: – aquilo deve ser sequela de paralisia infantil! – e começou a derramar seu “grande” conhecimento no tema. Outro sacou rápido e atirou: – que nada, ele está com sério problema de colina, certamente uma hérnia de disco – jogando o palito longe. O terceiro: – vocês dois estão errados, vejam que pela idade, o bigode amarelo do fumo, gordo, ele teve um AVC (derrame) e ficou assim torto, fora de esquadro e de prumo. Ninguém mais quis arriscar, principalmente pelo “olho clínico” do colega mais experiente. Alguém propôs uma aposta que aceita foram interpelar o cidadão torto e travado.

 

Cr & Ag

 

O terceiro estudante saiu no ataque ao que o homem torto disse: – não tive nenhum derrame não! Isso logo acelerou a euforia dos outros que precisavam limpar “a honra médica”. Mas o homem torto: – não tive paralisia infantil e nunca sofri da coluna! Diante do espanto geral queriam saber por que ele caminhava torto e de arrasto. A criatura riscou os olhos para todos os lados, como a contar um grave segredo: – Fiz um lanche aí (no Morte Lenta) e logo que caiu no estômago senti uma revolta nas tripas. Me fez mal! Aí fui soltar um peidinho e escapou um caldinho nas cuecas e perna abaixo. A privada da lancheria tá estragada e tô cagado e procurando outra privada para me limpar…

 

Cr & Ag

 

As mulheres tem um tipo peculiar de “olho clínico”, pois ao olhar por 10 segundos para outra mulher elas sabem de tudo que a outra veste com que se maquia, as cores das unhas das mãos e pés, marca do calçado, idade, silicone nos seios… e até se transa bem ou não. Os homens não possuem essa habilidade inata e feminina. A nossa presidentA Dilma também não tem essa qualidade. Não consegue ver o que está errado, nem o certo. Cercou-se de 39 ministros que como “pergunte aos universitários do Sílvio Santos” nada ajudam. O Brasil fica cada vez mais parecido com o homem torto da Santa Casa e os diagnósticos corretos não aparecem aos seus olhos. Nem dos seus “universitários da base aliada”. Mas como na Petrobrás em que autorizou o escândalo na compra da refinaria de Pasadena, a culpa é dos outros e foi enganada. Nós que não votamos ou não repetimos o voto nela não estamos enganados. “Mas tem coisas boas” – dizia um fanático partidário. Certamente, até o estrume das cuecas do homem torto serve para adubo.

Cirurgia

O homem no supermercado – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 27 Janeiro 2015

 

2015 – 01 – 27 Janeiro – O homem no supermercado – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

O homem no supermercado

 

H

á homens especializados, outros são incumbidos, alguns vão às compras em épocas ou períodos especiais. As festas de passagem de ano é uma dessas épocas em que encontramos homens de todos os tamanhos e idades empurrando carrinhos de mercado. Qual a semelhança entre um sujeito tipo “carreta de 48 pneus” e o tipo mini? Além de serem homens! Observem o conteúdo dos carrinhos. Os carrinhos das mulheres carregam um pouco de quase tudo, do palito de dentes ao absorvente íntimo, do abacaxi ao creme dental, do inseticida ao sei lá o que mais. Não que não haja homens com espírito feminino, talvez até uma sobrecarga de estrógenos e progesterona circulando pelas veias, pois há aqueles com notas escritas de punho a impressas no computador. Outros mais sofisticados expõem um tablet que nem falta falar. Mas o nosso nicho é outro.

 

Cr & Ag

 

Resolvi fazer uma contagem enquanto esperava no estacionamento do super. Quando atingi o número quinze, entendi que a regra é quase geral. O apreensivo leitor quer saber o mistério dessa pesquisa. Vamos lá. Invariavelmente os carrinhos traziam carvão, carne geralmente costela, gelo e… Cerveja. Fardos de cerveja. Cerveja para cem pessoas sedentas. Criaturas desesperadas como abandonados no Saara. No entanto, a carne talvez para uma família aumentada, umas dez pessoas. Cerveja, carne, gelo e carvão – está pronta a festa de fim de ano. É réveillon completo. Pode faltar carne, jamais a cerveja. Criaram até geladeira especial e colorida para cervejas. Eta capitalismo eficiente!

 

Cr & Ag

 

Entendem porque as empresas fazem tantas propagandas de cerveja? Uma amiga, observadora também, refere que cerveja e absorventes íntimos devem vender aos borbotões. Não entendi bem a relação de um e outro, mas as mulheres têm um sentido mais apurado que o masculino e num relance identificam tudo que outra mulher ostente. Homem não é de ostentar, nem no mercado. Inclusive é solidário com outros homens: – Deu na Globo que vai faltar cerveja esse verão! – o mano do outro lado da gôndola sai na pernada para pegar mais uns fardos. Vá que a Globo (?) acerte e falte cerveja. Um amigo raciocina: – Mulher nunca faltará, até tem excesso, mas cerveja… Mulher ostenta tanto que é capaz de tirar a armadura dos seios para mostrar o silicone novo: – O meu tem 575 ml e é importado da Alemanha. – alfineta. Se fosse chinês ou paraguaio não valia quase nada. E cubano seria desonra total!

 

Cr & Ag

 

Outro tipo de homem em supermercado é o “matador”. A cabeça do homem é do predador do início ao final de carreira. Como cachorro comedor de ovelha na tradição gauchesca que “depois de velho e desdentado ainda quer lamber o pelego”. As criaturas ficam perambulando pelos mercados da Capital enquanto a família está na praia. E ali há o encontro de carrinhos e sugestões, um papo legal talvez e “se rolar uma química” armou-se a tormenta. O caçador esquece-se de que sua cara metade está em algum mercado do litoral e talvez alvejada por outro predador. Coisas da vida. O sujeito se esquece do sal, perde o filho no mercado, mas a cabeça é rápida como político na Petrobrás. Outro matador terrível, esse com respaldo do partido e do governo com tentáculos. O matador do mercado e o político indicado na Petrobrás acham-se impunes, jamais serão descobertos e se forem… “o mundo sempre foi assim” e “todos fazem”, segundo o guru supremo e intangível. E verão, sendo período de reflexão – Pô meu, votá na Diiilma, coisa de jegue! Gasolina sobe! Luz sobe e falta! Água sobe e desaparece! Estrada esburacada e sacanagem atrás da moita multando! O bom humor não salva, mas refresca.

Roraima 2011 - IMG_1388Roraima 2011 -IMG_1386

Imagens colhidas ao vivo em Boa Vista – Roraima.

Casa na praia: Alegria ou Castigo? – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 13 Janeiro 2015

 

2015 – 01 – 13 Janeiro – Casa de praia II – alegria ou castigo – Edson Olimpio Oliveira    Crônicas & Agudas    Jornal Opinião – http://www.edsonolimpio.com.br

Casa na Praia: Alegria ou Castigo?

 

Segundo o heroico Joãozinho Trinta: – Quem gosta de pobreza é rico, pobre gosta é de riqueza, do bom e do melhor… Outro dia, escutando um esteticista capilar – nome politicamente correto do tradicional barbeiro – deparei-me com fragmentos da vida desse colunista e, quem sabe, de muitos de nós.

 

– Companheiro, to preocupado. Tá chegando os dias das minhas férias e já to perdendo até o sono. – dizia-me. E continuou: – Esse baita verão! Um sol de rachar coco e eu ainda não criei coragem de ir para a orla. O litoral sabe, pois quem tem praia meeesmo é Santa Catarina?

– Mas sei que até compraste uma casa lá pela praia do Magistério… – disse-lhe.

– Comprei mesmo. Esse vai ser o nosso segundo verão lá. É um rancho simples. Fiz mais um quarto pro guri e puxei uma meia-água como garagem, churrasqueira e um banheiro. Dá muito bem pra nós. Sabe como é depois que tu sai de um fusca, cai num Chevette e estaciona com um Gol e já não paga aluguel aqui em Viamão. A gente se prepara prum ranchinho na praia. É o sonho. Mas o verão passado foi um pesadelo, um inferno. – sacudia a cabeça com a fronte franzida como bombacha de magrão.

 

Já imaginando desgraça, quis saber o que acontecera.

 

– Sabe como é família? E pobre o que mais tem é cachorro e parente. É parente que tu nem conhece. Quer dizer, vai conhecer na praia.  – concordei com a cabeça. Começou tendo que levar a sogra e o cunhado junto. A velha até que é legal, pois cozinha muito bem e cuida das crianças na praia. Sabe aquela tesão que dá na gente depois do almoço olhando a nega de biquini? A velha leva as crianças para a sorveteria para dar um tempo e sempre sai se rindo e assobiando. Mas a coitada tem um problema de intestino. Pode comer coisa de rico, mas o que sai… O que sai, meu… O banheiro, a casa e até os vizinhos ficam empestados. Manja carniça de bode? Muito, muuuito pior! Urubu voa de costa. E um dia, ao puxar a cordinha da descarga, a caixa ainda caiu na cabeça da velha e teve que levar seis pontos no cocuruto. Mas ela é de menos. – o olhar perambulava pela sala.

 

– Teve um dia, um domingo, que tinha cinco carros e duas motos lá em casa. Nós somos de cinco e tinha vinte e três pessoas. Vinte e três, contei bem nos dedos das mãos e dos pés. Sabe o Zé, meu irmão, ainda trouxe a família do cunhado e um eletricista que é vizinho dele e outros agregados. O eletricista trouxe um saco de carvão, 6 salsichão e 2 kg de costela magra. A mulher do cara era um dinossauro, uma patrola no tamanho e na fome. A maioria só trouxe a boca e a bunda. Estacionaram mal e conseguiram cair dentro da fossa depois que um carro quebrou a laje e entupiram os dois banheiros. Dei uma prensa e fizemos uma vaquinha para comprar uma carne e uns tomates com batata. Cerveja? Eu tinha um estoque guardado pra todo verão. Tomaram tudo até às 11 da matina. – era uma lamúria de dar dó. E continuou.

 

– De tarde, tinha resto de melancia, uva e gente dormindo em tudo que era canto. A filha do Zé, minha afilhada Dieniffer com dois “f” e o magrão tatuado se fecharam no quarto da velha e a guria gritava que nem petista na chegada do Lula. Tinha rede com três babando dentro. Uma gordinha cor de camarão dava arranco e chamava o hugo no buraco da fossa. A minha nega perdeu um pivô e quase pediu divórcio, ficou de empregada dessa gente toda e ela dizia que eu tinha que escorraçar esse povo. Mas eram parentes meus e dela. Se ela mandasse os dela eu mandaria os meus. Já não via a hora de chegar à noite e esse povo se arrancar. Chegou à noite. Uns foram mais cedo. Outros bem mais tarde para escapar do congestionamento da estrada. Aí quando outros queriam ficar para “ir na segunda de madrugada”, eu sacudi os arreios. Dei um esporro.  Me fiz de doido e corri com as belezas. Alguns não voltaram, felizmente. Outros apareceram, infelizmente. E assim foram as férias na praia… – completou com a face sofredora e despediu-se. (da Série Humor-Tal – reeditado a pedidos)

Meninas na praia

O Sanduba

 

Namoro de praia – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 06 Janeiro 2015

 

2015 – 01 – 06 Janeiro – Namoro de praia – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Namoro de praia

 

A

 sabedoria popular diz que “recordar é viver novamente”. T. Jordans, o Filósofo do Apocalipse, numa de suas obras, crava: – Recordar é manter acesa a chama da vida. Dolorosamente tivemos as notícias de dois colegas, médicos brilhantes e professores singulares, que cavalgam um potro incontrolável chamado “demência”. Ingressaram na ciranda em que a dignidade foge da pessoa e a dor pessoal desaparecerá enquanto aumenta a dor e todo o sofrimento familiar. Alzheimer é um dos nomes técnicos. Daí que ao cronista, vasculhar os baús da existência tem esse gosto renovado e se passar pelo bom humor será muito melhor. E aqui olhando essa imensa lagoa salgada, como o governo da companheira Dilma, aproveitando o dia porque à noite terá alguma falta de luz, vêm as imagens de um final de anos 60 em que o Brasil de coturnos explodia em obras causando inveja aos “hermanos” argentinos.

 

Cr & Ag

 

A testosterona é o caminho mais curto entre o cérebro e a perdição. A mente do homem funciona sem atalhos, prerrogativas, pródromos, preliminares. Quando o olho de tigre do macho bate numa mulher e principalmente de biquíni – lembre-se de uma época em que biquíni ainda era biquíni – há um tsunami hormonal que explode nos testículos e na salivação. Esse preâmbulo, essa explicação introdutória revela o psiquismo masculino: mulher-sexo, mulher-sexo, mulher-sexo… Após uma idade mais longeva (?) há quem introduza a cerveja e o churrasco nessa batalha. Naquela época havia as “moças sérias” e não é porque não rissem, mas era o modelo que as futuras sogras queriam para noras. E as “não sérias” ou aquelas que as futuras sogras jamais queriam para noras. Sirigaitas?

 

Cr & Ag

 

Conseguem imaginar a Cidreira sem as casas desabando, sem lixo para todos os lados, praia limpa? Incrivelmente já foi assim! Caminhava-se a beira das marolas, chutando mariscos (juro que havia!) e tatuíras. Cruzando-se com as gurias, saía uma piscada de olhos, um biquinho beijoqueiro ou um “quetal”. Se viesse um sorriso de resposta, o mundo parava e a testosterona fervia nos canos. Pouca coisa? Que nada, pois era uma época em que os calções de banlom substituíam os “samba-canção” e os maiôs já sem a pudica cortina cobrindo “as partes” dera lugar ao maiô “normal”. E o biquíni desafiava com Leila Diniz grávida e a barrigona na areia de Copacabana. E, às vezes, rolava um bate-papo em que um ou dois corajosos balbuciavam e os demais assistiam cavoucando buracos na areia com o dedão do pé entre suspiros e olhares enviesados. O vocabulário encerra, ainda hoje, algo de fazer inveja aos hieróglifos: – E aí, legal, beleza, sol, sol, da onde… Não havia ainda essa liberação sexual. Anticoncepcional era muito escondido e dava “vômitos, desmaio, dor de cabeça” e outras “desgraças”. E camisinha era Jontex ou condom para os mais letrados

 

Cr & Ag

 

Aconteciam reuniões dançantes no legítimo som de vinil, agora ressuscitado, nas casas ou garagens e nos clubes. Sério! Havia o CPC – Cidreira Praia Clube ou o clube novo e o outro – o clube velho. Era a chance de encostar, “chamar nos queixos”, e, na melhor das hipóteses, um “passeio nos cômoros de areia ou na casinha do salva-vidas”. Nem tudo era somente sexo, havia o namoro sério. Isso se traduzia pelo perfil da criatura, seu berço e principalmente por estabelecer perímetro e fronteiras desde o primeiro sorriso. Sempre foi assim, homem não se mete de pato a ganso com mulher que não quer ou permite. A felicidade do namoro vinha quando a amada recortava esparadrapo fazendo as iniciais do nome do amado, colava no corpo para que esse ao se bronzear mantivesse na pele alva as marcas do amor pretendido ou realizado. O homem sabia que a bela mirava com grinalda e igreja e ele teria que gastar a testosterona em outros campos de batalha.

Viamão já foi assim 2

Viamão já foi assim

Fonte: Viamão já foi assim

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