O Coronel Chimango II–por Vitor Ortiz – Novembro 2014

 

clip_image001

 

O CORONEL CHIMANGO II

 

Numa emboscada, o pai de Acrysio

é assassinado no Passo das Canoas

 

UMA DAS MARCAS DA SOCIEDADE GAÚCHA DO FINAL DO SÉCULO XIX É A VIOLÊNCIA. PREDOMINAVA UMA CULTURA NA QUAL ANDAR ARMADO, EM CASA, NO CAMPO, NO BOLICHO OU NA CIDADE ERA NORMAL. MATAR PODIA SER TÃO NATURAL COMO MORRER. TERRA E PODER ERAM OBJETOS DE DISPUTA COTIDIANA. O ANO DO INCIDENTE QUE VITIMOU MANOEL MARTINS PRATES FOI 1876, OITO DEPOIS DE FINDADA A GUERRA DO PARAGUAI E 17 ANOS ANTES DE ESTOURAR A REVOLUÇÃO FEDERALISTA. OS GAÚCHOS DE ENTÃO VIVIAM DE GUERRA EM GUERRA.

 

O dia 26 de novembro de 1876 era um domingo de corridas de cavalo na cancha da Aldeia dos Anjos. Uma destas, aliás, até hoje existe logo no início da RS 020, entre a estrada antiga para Santo Antônio da Patrulha e o rio Gravataí, logo no acesso aquele município, depois da Free-Way. Esse era um dos programas prediletos dos gaúchos de então. O dia estava raiando, quando Manoel Martins de Oliveira Prates, o pai do Coronel Acrysio Prates (na época um guri de apenas 8 anos)¹, saiu a cavalo com outros gaúchos em direção ao Passo das Canoas, por onde devia seguir para encontrar a festança corriqueira, onde normalmente se varava o dia entre tragos, churrascos, jogos diversos e o famoso pastel de carreira.

 

No grupo, seguiam vários amigos, entre estes o irmão de Manoel, Firmino Prates, Manoel Baptista, Idalino Fernandes, Antônio José da Silva, Argemiro Antunes Morem e seu irmão Theodoro. Este último, então com 45 anos, lavrador, declarou em depoimento posterior, no inquérito sobre o ocorrido, que viu quando foi disparada uma carga de tiros sobre os homens que seguiam um pouco a frente do ponto onde estava, resultando na morte de Manoel Martins Prates. Segundo Theodoro, numa reação instintiva, os homens que seguiam juntos a cavalo, ainda atiraram para os lados, mas não acertaram ninguém.

 

Aparentemente, a emboscada tinha sido uma encomenda e os matadores sumiram nos matos. No entanto, as suspeitas recaíram sobre um sujeito chamado Sesisnando e seu grupo. Esta figura era vista por pessoas consideradas importantes na época – como o Coronel Firmino Ramires de Souza Feijó (da família proprietária do Passo do Feijó, atual Alvorada) e pelo Capitão José da Rocha Vieira – como um matador de aluguel. Eles eram testemunhas de que, na data das eleições anteriormente ocorridas, Sesisnando havia provocado os irmãos Manoel e Firmino na Igreja de Viamão.

 

De acordo com o que testemunhou Theodoro, Manoel e seu irmão Firmino já haviam revelado temer uma emboscada, em particular dos Barcellos, com quem tinham uma inimizade antiga, “animosidade que aumentou quando Diogo Ignácio de Barcellos deu dinheiro para um escravo de Firmino Prates comprar a sua liberdade”².

 

O réu Diogo, por sua vez, pediu a palavra na audiência que se desenrolava dias depois, em 20 de dezembro do mesmo ano, na Casa da Câmara Municipal de Porto Alegre, em cerimônia dirigida pelo juiz substituto em exercício Estácio da Cunha Bitencourt. Segundo o réu, a inimizade com os irmãos Prates já existia entre 13 e 14 anos, mas em nenhum momento os Barcellos atentaram contra a vida deles e que o caso do escravo tinha acontecido há mais de dois anos. Conforme alegou, Manoel Prates tinha muitos outros inimigos, assim como seu irmão Firmino.

 

ANIMOSIDADE NAS ELEIÇÕES

Também testemunharam neste mesmo processo Wenceslau José de Freitas Guimarães, João Antônio da Silva, Manuel Boeira e Francisco de Paula Machado. Porém calou mais forte o depoimento de Mariana Henriqueta que afirmou ter ouvido dos acusados, em particular de Sesisnando e seus companheiros, que pretendiam matar os Prates. Na turma de Sesisnando estavam Zeferino José Alves, Cesário Francisco José Estácio e ainda o preto Antônio, que haviam ficado por três dias na residência de Henriqueta por ocasião das últimas eleições, então recentemente havidas, quando o principal suspeito andava junto de Tristão José de Fraga (que foi depois o primeiro intendente de Viamão do período republicano), conforme testemunho de Wenceslau. Segundo esse outro depoente, Sesisnando era um assassino que se gabava abertamente de já ter matado outras pessoas.

 

No final do processo, os únicos que foram acusados e compareceram à audiência foram os irmãos Zeferino e José Alves. Sesisnando e o petro Antônio não apareceram no julgamento e é provável que tenham fugido, aumentando as suspeitas sobre sua culpa.

 

Segundo Adonis³, Manoel nasceu em 29 de maio de 1829, próximo ao local onde morreu, aos 47 anos, nas imediações do Passo das Canoas. O mesmo autor registrou nos anos 1960 que até aquela data não se sabia ao certo quem havia cometido o crime.

 

OS BARCELLOS INOCENTADOS

Foram denunciados Sesisnando, Francisco Nunes, Zeferino José Alves, o preto Antônio, Polycarpo Leocádio da Conceição, José Antônio Pacheco Filho, Cezário Francisco José Estácio e um menor de 16 anos, chamado Ramires José Alves. No dia 06 de dezembro, foram expedidos mandados de prisão a todos estes réus. O processo registra que Zeferino, por exemplo, estava preso em 18 de dezembro, dois dias antes da audiência.

 

Os irmãos Barcellos, José Ignácio e Diogo, nem chegaram a ir a julgamento, embora as suspeitas de que fossem eles os mandantes. Seu advogado era outro Barcellos, o Dr. Israel Rodrigues, genro da Brigadeira Raphaela Pinto Bandeira. As circunstâncias em que essa rixa entre os Prates e os Barcellos apareceu, anos antes da emboscada, e os motivos, não ficaram esclarecidos no processo. A esposa de Manoel, mãe de Acrysio, Dona Liduína, nascida em 02 de outubro de 1844, era filha Cândido Pinheiro de Barcellos e Fausta Cândida de Moraes, mas nos registros* não aparece o nome dos avós, o que deixa dúvida sobre o fato se ela pertencia a mesma família de Diogo e José Ignácio.

 

NOTAS:

¹Na edição anterior, a coluna nos baseamos no livro de Adonis dos Santos para informar o ano de nascimento de Acrysio Prates como sendo 1877. Outra publicação, o Album Ilustrado do Partido Republicano Castilhista, de 1934, no entanto, diz que ele nasceu em 23 de março de 1868, o que é mais provável. Nesse caso, Acrysio foi intendente pela primeira vez em 1912, aos 44 anos, deixando o cargo aos 52 anos, em 1920. Faleceu em 02 de setembro de 1945, aos 77 anos.

²Processo sumário-1877, Juízo de Direito da 1a. Vara e 2° Distrito Criminal da Comarca de Porto Alegre. Arquivo Público do Estado do RS.

³DOS SANTOS, Adonis. Viamão – vultos do passado e figuras ilustres. Página 161.

*TIM, Octacílio B. e GONZALES, Eugênio (org. e edição). Álbum ilustrado do Partido Republicano Castilhista – RGS. Porto Alegre: Livraria Selbach de J. R. da Fonseca e Cia, 1934.

*Registro de Liduína, vó de Acrysio em http://www.familysearch.org

*Pesquisa: Eliani Vieira

*Ilustração: XICO

*Colaborou: Silvio Terra de Oliveira

 

O Coronel Chimango – Vitor Ortiz – Novembro 2014

 

clip_image001

O CORONEL CHIMANGO

 

O verdadeiro “manda-chuva”

de Viamão

 

O PRINCIPAL OPONENTE POLÍTICO DOS MARAGATOS LIDERADOS POR CHICO MARINHO ERA O CORONEL ACRYSIO PRATES, CHIMANGO, BORGISTA, SEGUIDOR DOS IDEAIS DE JÚLIO DE CASTILHOS. ELE ERA, CONFORME ESCREVEU ADONIS DOS SANTOS, QUEM VERDADEIRAMENTE MANDAVA EM VIAMÃO NA SUA ÉPOCA.

 

Acrysio Martins Prates nasceu em 1868 e faleceu no dia 02 de setembro de 1945, menos de um mês depois das explosões das bombas atômicas em Hiroshima e Nagazaki, no ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial. Sua ligação política familiar com os irmãos Andrade, Crescêncio e Coronel Marcos, e também com Júlio de Castilhos fez dele um conservador republicano, depois borgista e chimango convicto. Como se tratava da elite governante do período, acabou por ocupar importantes postos nos níveis estadual e municipal.

Segundo Adonis dos Santos, o Coronel Acrysio foi coletor estadual e advogou no então Superior Tribunal do Estado. Já em Viamão, foi escrivão do Juizado de Órfãos e Ausentes, delegado de polícia e exerceu o cargo de intendente por dois mandatos, entre 1912 e 1920, justamente no período áureo do PRR (Partido Republicano Riograndense), quando Borges de Medeiros governava o Estado com uma mão de ferro. Período também que coincide, no mundo, com a eclosão e o desenrolar da Primeira Guerra.

Participou da revolução federalista ao lado do tio, Firmino Prates, e ssumiu o cargo de intendente pela primeira vez em 1912, aos 44 de idade. Quando saiu dessa função, tinha 56. Coube a ele a proteção de Viamão durante o levante maragato de 1923. Do lado oposto, o dos libertadores de lenço vermelho liderados por Honório Lemes, que ameaçavam a ordem vigente, estava o também viamonense Chico Arroio. Naquele tempo, em algumas ocasiões, a política colocou em guerra gaúchos contra gaúchos, viamonenses contra viamonenses.

“O Coronel Acrysio Prates foi, na sua época, o mais prestigioso chefe político, influente em todos os setores de atividade, tendo tido sempre um papel saliente e decisivo,” diz Adonis. Em verdade, todas as decisões politicas importantes no nível local, incluindo as nomeações para os cargos do Estado, passavam pelo seu crivo. O PRR praticava uma hierarquia rigorosa, referenciando suas decisões em suas lideranças locais. Ou seja, Borges, quando não decidia sozinho, o que as vezes ocorria nos casos de impasse, só batia o martelo depois de consultar o chefe político do município. Fazia parte da estratégia de consolidação e preservação do poder dos republicanos gaúchos. Vem daí a expressão usada por Adonis em seu livro para enfatizar a liderança do coronel chimango: “em linguagem bastante popular e compreensiva, desejo dizer a todos os homens do presente que o Coronel Acrysio Prates foi, no seu tempo, o verdadeiro manda-chuva de Viamão”, carimbou o memorialista.

Na sua biografia política está também uma posterior passagem pelo Partido Liberal, liderado pelo General Flores da Cunha, depois da extinção do PRR, e pelo PSD (Partido Social Democrático), que sucedeu ao PL.

 

PODER ANCESTRAL

A relação do Coronel Acrysio Prates com o poder era ancestral. Seus pais eram o fazendeiro Manoel Martins de Oliveira Prates, casado com Dona Liduína Cândida de Barcelos. Ela filha de Cândido Pinheiro de Barcellos com Dona Fausta Cândida de Moraes Sarmento. O pai de Acrysio Prates, Manoel, por sua vez, era filho de Zeferina Cândida de Oliveira Prates e de Ignácio Martins de Ávila, este último nascido em Viamão, em 1796, e batizado pelo Coronel Ignácio dos Santos Abreu.

Zeferina de Oliveira Prates, a avó do coronel, era filha do casal Luciano de Souza Prates e Brígida Maria de Oliveira Prates. Seus avós (os de Zeferina) eram Manuel de Souza Gomes e Francisca Rodrigues Prates. Esta última, filha do capitão-mor de Laguna (o cargo mais importante do lugar) João Rodrigues Prates, casado com Isabel Gonçalves Ribeiro, que apesar de não ter integrado o grupo daqueles que emigraram para Viamão, tinha uma sesmaria na região. Acrysio era seu tetraneto. Já os bisavós e trisavós dos pais do coronel eram açorianos, conforme indicam os registros de batismo.

O coronel tem dois filhos vivos, ambos do seu segundo casamento: Terezinha Prates Chiden e Antônio Prates. Terezinha foi diretora da Escola Castelo Branco e é mãe do ex-Prefeito Jorge Prates Chiden, eleito nos anos 90 pelo partido do ex-Governador Leonel Brizola, o PDT (Partido Democrático Trabalhista). O ex-Prefeito Clodoaldo Prates Veiga (da ARENA e PDS), que governou Viamão entre 1968 e 1972, filho de Dona Dalila e do Coronel Mário Veiga, também era neto de Acrysio.

Na próxima edição, vamos mostrar os dois casamentos, os filhos e netos do coronel, além do trágico assassinato do pai, ocorrido quando ele ainda era criança, numa emboscada no Passo das Canoas, próximo à Gravatai.

 

PARENTESCO ANCESTRAL DE ACRYSIO PRATES

Tetravós

João Rodrigues Prates (casado com Isabel Gonçalves Ribeiro).

Ele, Capitão-Mor de Laguna.

Trisavós

Francisca Rodrigues Prates (casada com Manuel de Souza Gomes)

Ela, filha do Capitão-Mor.

Bisavós

Luciano de Souza Prates (casado com Brígida Maria de Oliveira Prates)

Ele, filho de Francisca e Manoel, neto do Capitão-Mor.

Avós

Zeferina Cândida de Oliveira Prates (casada com Ignácio Martins de Avila). Ela, filha de Luciano e Brígida, bisneta do Capitão-Mor.

Pais

Manoel Martins de Oliveira Prates (casado com Liduína Cândida de Barcelos). Ele, filho de Zeferina e Ignácio. Ela, da tradicional família Barcellos, também de Viamão..

NOTAS:

*Ilustração: XICO (a partir de foto cedida por Terezinha Prates Chiden)

*Pesquisa: Eliani Vieira

*Colaborou: Silvio Terra de Oliveira

 

Arte – poema da poetisa Lúcia Barcelos–Novembro 2014

 

Arte

 

Escrevo, porque a escrita abranda a alma
E as palavras vão brotando de um amor tão puro!
Para além da calçada, atrás do pálido muro
Pequenas flores adormecem acalentadas pela noite!
Por testemunhas do poema, lua e estrelas
Que parecem tomar-me os versos
E bordar o firmamento em letras belas!
Eis um sussurro: com tua voz, a brisa passa,
E nessa rede de saudades que me enlaça
O som do mar ao longe a segredar:
São confissões de amor que se estendem pela areia!
Que força de afeição da alma cheia
Quando suspiros profundos espalham-se em toda parte!
O que posso prometer, além da poesia,
Além de dizer que descobri, um dia,
Que a alma exposta, plena de amor, é arte!?

2014 – 40 Anos de Formatura – ATO 1974

 

A vida como ela é! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 18 Novembro 2014

 

2014 – 11 – 18 Novembro – A vida como ela é – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

A vida como ela é!

 

Precisando substituir meu pincel de barbear, fui numa farmácia de rede no litoral. Procurando e não encontrando, solicitei a uma das funcionárias: – Preciso de um pincel de barbear e que seja bem macio! – a jovem muito solícita disse-me: – Chegue aqui no caixa, eles estão ali. De imediato, alcançou-me uma embalagem com o pincel de barbear. A marca do pincel, bem estampada na embalagem, era Condor. Condor é uma marca tradicional até no ramo de pinceis de pinturas em geral. Estiquei um pouco do assunto com a moça que gostou do meu neto Lucas que me acompanhava. Disse-lhe: – Moça esse pincel é de barbear “condor”, veja aqui – apontei com o dedo à marca. Eu queria um bem macio e “sem dor”. Imediatamente a funcionária baixou vários pinceis de barbear da gôndola e examinando as embalagens disse-me: – São todos iguais! Não temos outros tipos. Serve esse para o senhor? – claro que serviu. Como tinha que comprar outras coisas que a família tinha encomendado resolvi parar com qualquer outra brincadeira.

 

Cr & Ag

 

Os cabelos brancos e a idade são, até certo ponto, uma defesa ou uma blindagem contra situações pouco comuns ou até constrangedoras para alguns. Acredito que presentar com roupas íntimas para quem se ama ou quando se deseja apimentar, esquentar ou intensificar uma relação é algo magnífico. Se nunca tive nenhum constrangimento em entrar num departamento feminino de qualquer loja, depois de uma certa e apreciável quilometragem de vida, isso jamais seria empecilho. Estava na seção de roupas íntimas de tradicional magazine da capital examinando e imaginando como a pessoa amada ficaria recheando, sendo o conteúdo principal, com aquelas belas molduras íntimas. Eis que me apercebo que várias clientes (mulheres!) olhavam-me atentamente. Como sou muito tímido (vocês que me conhecem sabem disso!) coloquei uma bela peça na minha frente e perguntei para uma das mais interessadas: – Que tal, vai ficar legal? – a resposta veio rápida como raio: – Ela vai adorar, mas em ti não fica muito bem! – e rimos. As boas risadas nascem da espontaneidade.

 

Cr & Ag

 

Tenho alguns amigos extremamente espirituosos. Outro dia olhávamos uma reportagem de conhecido cartola do futebol nacional que se apresentava com uma novíssima namorada. Esse abonado cartola que pertence àquela elite que governa o país do futebol é famoso por preferir jovens exuberantes de corpo e com eficientes neurônios ginecológicos, geralmente capas de revistas masculinas. O cartola passou dos 7.0 e a beldade nos meigos, mas veteranos de todos os combates de lençol, vinte aninhos. O repórter perguntou-lhe se a diferença de idade de mais de cinquenta anos não atrapalhava. A resposta veio fulminante como voto na Dilma: – Não ligo para detalhes! Ao que meu amigo espirituoso e implacável bateu na marca do pênalti: – Isso é namoro de orelha! Como não entendi, perguntei-lhe o que significa “namoro de orelha”. Implacável como marqueteiro do PT: – Namoro de orelha é o namoro longe do coração, mas perto dos chifres!

 

Cr & Ag

 

A vida é um sobe e desce e estamos nos finais de um ano que “a elite” permanecerá cada vez mais abonada, pois nunca os banqueiros e seus playgrounds bancários faturaram tanto como nesses últimos doze anos do “governo dos pobres”. O mesmo pobre que paga quase 200% de juros no cartão de crédito e raramente receberá mais de 6% na sua poupança (se tiver!). O mesmo pobre que se for cidadão trabalhador ou aposentado depois de 35 anos de trabalho verá seu reajuste bem abaixo da bandidagem nas cadeias ou da vagabundagem de cerveja e taco de bilhar em punho, mas mamando em alguma bolsa populista. Nós que trabalhamos cinco meses do ano e entregamos de mão beijada para distribuir e fazer mágica de sumiço na Petrobrás e só depois é que vai trabalhar para comprar comida, roupas, aluguel, prestações, plano de saúde e de morte, escola e se sobrar – lazer, ficará satisfeito em ser mais solidário ainda com as criaturas fora do seu lar que você obrigatoriamente “ajuda” e para isso vai precisar trabalhar muito mais. Afinal, as empreiteiras não são brasileiras e a Petrobrás não é nossa?

Um país dividido – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 11 Novembro 2014

 

2014 – 11 – 11 Novembro – Um país dividido e mutilado – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Um país dividido e mutilado

 

A

profunda-se o fosso ou o muro que separa literalmente os brasileiros. Nessas últimas eleições, por vontade do partido vencedor, essa chaga amplia-se com ódio crescente numa polarização que em todos os horizontes do planeta separou o socialista/comunista dos demais seres humanos. Está na essência, no âmago, no espírito e no caroço da ideologia socialista/comunista o conflito entre as pessoas e as classes sociais. Nem a família escapa, onde pais entregam filhos e filhos denunciam pais para o regime. A senhora presidenta, como seus partidários, sempre culpam a elite. Qual elite? Certamente não a elite que é condenada na Papuda e recebe as benesses do sistema. Ou a elite dos vinhos de 5 mil dólares a garrafa? Ou a elite que se adonou das empresas públicas, num modelo de “privatização pelo social” de seu grupo? Ou a elite que “não sabe e não viu nada” da roubalheira?

 

Cr & Ag

 

Essa divisão dos brasileiros passa por aqueles que trabalham e pelos que são sustentados, pelos que pagam um terço do que ganham de imposto de renda e pelos que recebem sem trabalhar. Entre os que põem a comida na mesa da sua família pelo suor de seu corpo e por aqueles que teimam em permanecer nos chamados programas sociais renegando empregos. Daqueles que seus filhos pagam escolas e daqueles que destroem escolas. Daqueles que discriminam as pessoas ao preencher formulários oficiais por raça ou cor. Ou daqueles que voltam aos seus lares dando exemplo de trabalho e honra para seus familiares e não se aproveitam das tetas públicas pelo companheirismo ou por qualquer indicação partidária que não contemple a qualidade do indicado. Ou quando o mérito é vencido pelo fisiologismo barato e pelos privilégios.

 

Cr & Ag

 

É um Brasil dividido entre a mentira escancarada e repetida até que receba o lustro falso da verdade e a verdade que teima em sair do lodaçal que tentam afogá-la. Entre aqueles que insistem em acreditar e viver no Brasil e aqueles que vivem “do” Brasil. Entre aqueles que exercitam um projeto de poder e os que desejam um projeto de país mais humano e decente. A Alemanha esteve separada por um real, sólido e sanguinário Muro de Berlim (aniversário de 25 anos da queda). As Coreias também estão divididas pelo poder do aço e do fogo do norte comunista. Não é o capitalismo que separa e afasta. Até o “capitalismo selvagem” da China arrancou da miséria absoluta centenas de milhões de pessoas e agora permite que viagem pelo mundo, como é sabido de todos.

 

Cr & Ag

 

Cidadãos divididos até por uma excrecência chamada de Fator Previdenciário que criada pelos chamados “neoliberais” é mantida e alimentada pelos socialistas e que se fosse ético e bom deveria ser aplicada a todos os trabalhadores tanto do INSS quanto do serviço público. E são esses cidadãos que trabalharam uma vida inteira que são violentados ao aposentarem-se e anualmente nas miseráveis e canalhas correções de suas aposentadorias. Contou-me um secretário de um município histórico da Sumatra que em certa reunião do prefeito com o secretariado para avaliar metas e novas propostas que um “alegre representante do social” apresentou euforicamente a entrada de mais uns milhares de abençoados no “bolsa família” da Sumatra. O prefeito estarrecido com os números e com a alegria da criatura pediu-lhe que repetisse. Logo o prefeito sumatrense disse para a criatura e a plateia que sentia vergonha desse aumento de novos beneficiados e que esperava a diminuição de bolsistas, que estariam trabalhando, produzindo e sentindo-se mais úteis para si, suas famílias e a sociedade. E assim o município não estaria importando mão de obra para o comércio, para a construção civil e tantos outros empregos ocupados por pessoas de outras cidades. O prefeito da Sumatra e a maioria do seu staff (e o povo que trabalha) esperava notícia melhor. Isso seria o reflexo de uma infecção que se alastra como a epidemia zumbi?

Sem medida – Lúcia Barcelos – 23 Novembro 2014

 

Sem medida

 

Existem palavras que possam lhe falar,

Dos segundos todos, dos mil momentos em que fiz

Minha alma se mostrar tanto, e tão feliz?

Nunca tive a sensação de ermo ou deserto,

Sentindo a sutileza do seu coração tão perto

Do meu, preso no peito, cativo de encantamento…

Hoje, essa saudade não consome o pensamento,

A torrente de sonhos, os mil segredos…

Tento alcançar a luz que nos seus olhos via.

Tento imitar um gesto seu, tão amoroso e delicado,

Que fazia a luz parecer mais clara aos nossos dias.

Aqui, os jardins estão saudosos,

A flor mais bela repousa escondida.

Amores perfeitos são regados com águas celestiais,

As nuvens me tomam as mágoas colossais

E as derramam num verso sem medida!

 

Lúcia Barcelos

Auguste de Saint-Hilaire II – Vitor Ortiz e colaboradores Eliani Vieira e Xico

AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE II

clip_image002

O francês conhece os rigores

do Minuano na chegada a Viamão

Depois de percorrer o litoral entre Torres e Tramandaí, onde pernoitou, o viajante chega a Lagoa dos Barros, entre Osório e Santo Antônio da Patrulha, sem identificar exatamente em qual estância pernoita. Ele escreve sobre os butiazeiros, as pastagens, as pessoas e se deslumbra com a “bela vista”.

Ao deixar Tramandaí no dia 13 de junho de 1820, o botânico francês Auguste Saint-Hilaire estava impressionado com os rigores do vento minuano, que já era assim denominado à época, uma referência à tribo indígena predominante no Uruguai e sul do Rio Grande do Sul: “ontem à tarde o vento diminuiu por alguns instantes, tendo recomeçado com grande intensidade para durar toda a noite, e todo o dia, acompanhado de frio excessivo”. Ele vinha descendo pelo litoral desde o dia 5, quando atravessou o Mampituba e chegou a Torres, depois a Tramandaí.

Saint-Hilaire descreve a paisagem que encontra ao adentrar em direção a Viamão: “nos deparamos com uma planície muito uniforme e coberta de uma relva rasa, onde pastavam muitos bovinos. Ali notavam-se também alguns grupos de árvores raquíticas, esparsos”. Por certo ele estava se referindo à região entre o litoral, Osório e o rio Capivari, embora ele não chegue a referir esse rio, o que dá a entender que teria percorrido um caminho mais próximo da Serra do Mar. “O lago e a serra, que avistamos de longe, quebram um pouco a monotonia,” anotou (p.36), complementando: “pouco a pouco os grupos de matos tornam-se mais numerosos e a erva mais espessa”.

Ele registra em seu diário que tais campos, e os que vem atravessando “desde Torres, têm o nome de Campos de Viamão, devido à proximidade da paróquia de mesmo nome" (p.38). Nessa época, em geral, ainda era comum chamarem de Campos de Viamão toda essa região leste do Rio Grande, incluindo Porto Alegre, Gravataí e inclusive o Vale dos Sinos, até Triunfo e a divisa com Rio Pardo. A denominação é a mais antiga para toda a área Norte da Lagoa dos Patos. Para que se possa ter uma idéia, os lagunenses que vieram na tropa de João de Magalhães chegaram a essa região em 1725, quase cem anos antes dessa passagem do botânico.

No dia 15 de junho, o francês se aproxima dos limites atuais do território de Viamão, mas ainda está numa estância que não denomina em seu relato. Saint-Hilaire apenas descreve o que encontra: “uma casinha mal construída, de pau a pique e barro, mas coberta de telhas. Ao redor viam-se várias carroças; aos lados, laranjeiras, currais e algumas casas de negros”. Ali passou a noite. No dia seguinte (16 de junho), ele já está noutra estância, que pelo título do capítulo anotado por Saint-Hilaire, deduzimos chamar-se “Pitangueiras”. Ele anota que, ao conversar com seu hospedeiro, esse explica que a cultura dominante nas cercanias é a mandioca e que a terra é lavrada a arado e semeada a mão.

Depois de ensinar alguns homens que encontrou nesta estância a jogar dominó, ele os descreve: “eram todos brancos e tinham mais ou menos a aparência e os modos dos nossos (franceses) burgueses do campo. Todos traziam calça de algodão ou de lã, botas, esporas de prata, uma jaqueta também de lã e por cima um poncho" (p.38).

Ele registra seu deslumbramento com a paisagem que avista desse ponto:

– Nada é tão belo como os campos hoje percorridos. Os de Curitiba são ondulados e os grupos de araucárias que se vêem nos fundos tornam a paisagem um pouco austera. Aqui o terreno é mais uniforme (…) com pastagens a perder de vista. Todavia nada há de monótono no aspecto desse campo, animado que é por uma multidão de animais de criação, eqüinos e bovinos. Descreve ele, acrescentando que na volta estão moitas de matos e que, de tempos em tempos, no percurso, se notam trechos do lago que os persegue desde de Itapeva. Ele imagina que as muitas lagoas da costa são uma só. Depois foi descobrir que esta última que avistava era a Lagoa dos Barros.

BUTIÁS

Deixando para trás o que agora chama de “Fazenda do Arroio”, o francês registra uma travessia por um “campo semeado de butiás, onde o terreno mostra uma mistura de areia e humus quase preto”. Ele constata que a presença dos butiás coincide com a de outras plantas: “…a Rosácea, a Labíada e a Verbenácea”, por exemplo, não encontradas onde não há butiazeiros. “Onde deixei de encontrar butiás, a terra apresentou-se menos silicosa e os pastos eram principalmente de gramíneas, dispostas em tufos espessos.” Na forma do famoso cocuruto que traí os goleiros nos campos da várzea.

CONTEXTO DA ÉPOCA

Em 1820, Dom João VI ainda está no Rio de Janeiro, cidade declarada por ele como sede do novo Reino de Portugal, Brasil e Algarves, mas estoura em Portugal a Revolução do Porto, que exige o seu retorno. As cortes, uma assembléia do reino que há 120 anos não era convocada, foi chamada para deliberar sobre uma nova constituição. Na prática, a nobreza e as elites portuguesas estavam conspirando para levar de volta a Portugal o centro do reinado, trazido para o Rio de Janeiro com a fuga da família real em 1808. Ao mesmo tempo, “com quase meio século de atraso, Brasil e Portugal eram finalmente capturados pelos ventos soprados nos Estados Unidos (com a independência), em 1776, e na França (com a Revolução Francesa) em 1789,” conforme classifica Laurentino Gomes no livro 1822 – Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para dar errado (p. 86). Ventos estes que colocaram os reis do mundo ocidental em xeque, e alguns em xeque-mate.

DEPOIS DA FUGA, A RECONCILIAÇÃO COM A FRANÇA

Neste ano em que Saint-Hilaire está no Brasil, a França está sob o regime de uma monarquia constitucional, com o trono restaurado a Luís XVI depois da derrota de Napoleão. Dom João, que havia deixado Portugal justamente fugindo de Bonaparte, agora tem muito interesse em melhorar e renovar sua relação com Paris. Essa é uma das razões de ter dado permissão a viagem expedicionária do botânico que nesse momento cruza os Campos de Viamão.

Notas:

*Fonte: SAINT-HILAIRE, Auguste de, Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821). Companhia Editora Nacional. Tradução do original (1839) de Leonam de Azeredo Pena. São Paulo, 1939 (2a. edição). Consulta em Brasiliana Eletrônica (www.brasiliana.com.br).

*Apoio na pesquisa: Eliani Vieira

*Ilustração: Xico

Viamão – Histórias de sua História – Vitor Ortiz e colaboradores: Eliani Vieira e Xico.

Caríssimo Dr. Edson,

Segue o primeiro artigo que, já revisado para outras publicações. Disponibilizo para o seu blog.

Se julgares melhor ir publicando aos poucos, vou enviando os demais à medida em que conseguir revisá-los. Talvez na freqüência de um por semana (não sei se isso é bom pra vc).

Este primeiro revisei agorinha mesmo pra te enviar.

Por favor de os créditos para

PESQUISA: Eliani Vieira e ILUSTRAÇÕES: Xico

Me confirme o recebimento.

Grato

Vítor Ortiz

(51) 9603.8565

 

DA SÉRIE

Viamão – Histórias de sua História

 

Autor: Vítor Ortizclip_image002AUGUSTE DE SAINT-HILAIRE I

 

O botânico francês

que descreveu Viamão de 1820

 

Para ter uma idéia do que havia em Viamão no início do século XIX, época de Dom João VI e Dom Pedro I, vamos visitar a descrição dos então chamados Campos de Viamão narrada pelo expedicionário Auguste de Saint-Hilaire que percorreu o caminho entre Torres, Osório, Tramandaí, Viamão e Porto Alegre há cerca de 200 anos.

 

Uma das delícias do fazer do historiador é a descoberta do passado aparentemente inacessível, o que ocasionalmente é possível, inclusive em detalhes, quando as lentes documentais permitem que o nosso olhar ultrapasse as barreiras cronológicas, como na clássica viagem pelo Túnel do Tempo (seriado que fez grande sucesso na televisão nos anos 70). O túnel do historiador é composto de suas fontes documentais e a sorte é grande quando, para investigar o passado, encontra-se um relato sobre a época que está sendo estudada, produzido por alguém que lá esteve em data remota.

 

É essa uma das riquezas dos registros que o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire fez na obra Viagem ao Rio Grande do Sul, publicada em 1939, na França, parte de todas as anotações deixadas por ele sobre sua longa viagem de seis anos pelo Brasil, onde percorreu desde os sertões nordestinos até o pampa, no extremo sul, incluindo a então Província Cisplatina (Uruguai), entre 1816 e 1822. Para a história de Viamão, os registros de Saint-Hilaire são como a carta de Pero Vaz de Caminha para o Brasil ou, com os devidos descontos, a Odisséia para a história da Grécia clássica. Ou seja, o mais importante, e também antigo, relato escrito sobre o lugar.

 

Durante o século XIX, especialmente os franceses realizaram diversas expedições científicas e artísticas nas américas, continente que, para a Europa, ainda era um mundo novo e pouco conhecido. Saint-Hilaire desembarcou no porto do Rio de Janeiro em 1816, no mesmo ano da Missão Francesa liderada por Joaquin Lebreton (um dos estruturadores do Museu do Louvre na era napoleônica), que por sua vez trouxe consigo diversos artistas renomados na Europa para pintar o Brasil e fundar aqui uma academia de artes e ofícios, a primeira do país, nos moldes de uma universidade, a exemplo da Academie Royale, de Paris. Na órbita de ambos, de Saint-Hilaire e de Lebreton esteve a intermediação direta ou indireta do grande expedicionário alemão Alexandre Humboldt, que auxiliou tanto a um como a outro, intermediando as relações com a corte portuguesa no Brasil para que as iniciativas fossem autorizadas. Humboldt havia realizado uma extraordinária expedição exploratória de pesquisa pela América entre 1799 e 1804, cujos relatos foram sintetizados no memorável livro Viagens intermináveis pela América do Sul, tornando-se um dos europeus mais famosos da época, atuando inclusive como embaixador e como mecenas de importantes artistas..

 

O PAI DO FRIO

Na última etapa de suas viagens pelo Brasil, Auguste Saint-Hilaire percorreu o Rio Grande do Sul e o atual território do Uruguai descrevendo o dia-a-dia da viagem, os detalhes da paisagem, o clima, a gente que encontrou, alguns hábitos como o mate, a vegetação, a economia do gado, as plantações, os povoados e a arquitetura. O marco de sua viagem para este trabalho é sua passagem por Viamão e a descrição pormenorizada que fez das estâncias, da paisagem e inclusive da Igreja Nossa Senhora da Conceição.

 

No dia 05 de junho de 1820, a expedição de Saint-Hilaire ultrapassa o rio Mampituba (que ele anota e explica significar na língua indígena “Pai do Frio”), antigo limite a sul do território português nas américas, entrando na “Capitania do Rio Grande”. Uma légua depois, avista Torres, “chegando aos montes que têm esse nome”. Ele conta que, nessa época, haviam iniciado ali a construção de uma igreja (a de São Domingos, inaugurada em 1824) a partir da idéia de ai instalarem uma paróquia, o que equivalia a criação de um município. Para acessar ao serviço religioso, os moradores de lá tinham que percorrer nessa época cerca de 100km até a paróquia de Nossa Senhora da Conceição do Arroio (atual município de Osório).

 

Ele narra o que percebeu na paisagem dizendo de início que, “de Laguna até aqui (Torres), a costa é muito baixa e muito castigada pela fúria de um mar perigoso para as pequenas embarcações…”. Conta ainda que estavam construindo nesse lugar também um forte, onde trabalhavam 30 prisioneiros da batalha de Taquarembó (dos quais 29 eram índios). Tal batalha, ocorrida naquela época, segundo anotações do próprio botânico, teria resultado na morte de cerca de 500 homens do exército de Artigas e outros 400 presos pelos portugueses. Referindo-se aos índios, Saint-Hilaire diz que a maior parte do grupo mostra traços de sangue espanhol:

 

–       Uns vieram das Missões, outros de Entre-Rios e outros do Paraguai. São baixos, têm o peito de largura exagerada, os cabelos negros e lisos, o pescoço curto… Descreveu-os.

 

LAGOA DO INÁCIO

Seguindo viagem em direção ao Sul, Saint-Hilaire chegou a um “grande lago”, segundo sua descrição, “que chamam de Lagoa do Inácio”. Ele constata que as culturas de plantio no sitio que se localiza na margem oposta é principalmente de subsistência – o milho, a mandioca e o feijão – tendo também o proprietário do sítio uma grande plantação de cana para a produção de água ardente. Afirma ainda ter visto algodoeeiros ao redor das choupanas onde pernoitou.

 

TRAMANDAÍ

No dia 11 de junho ele chega a Tramandaí, cujo nome advém do rio (na verdade um braço que liga uma das lagoas do litoral ao mar) que desemboca no oceano nessa altura do trajeto da viagem. “O terreno é o mesmo de sempre, arenoso e chato, apresentando pastagens semeadas de moitas e cobertas de uma erva espessa e amarelada. Vemos intermitentes trechos do lago, mas depois do Sítio do Inácio as montanhas (da Serra do Mar) se distanciam e tomam a direção sudoeste.”

 

Novamente ele encontra índios aprisionados sendo escoltados em direção a Torres. E observa que, “depois da saída dos jesuítas, os índios das Missões ficaram entregues aos soldados e homens corrompidos, vivendo atualmente da pilhagem, no meio das desordens da guerra, não sendo de admirar que suas mulheres não mais conheçam o pudor” (p. 32).

 

Notas:

1- A Missão Francesa chegou ao Rio em março de 1816 e resultou na criação da Academia Real de Belas Artes no Rio de Janeiro. Fizeram parte do grupo trazido para o Brasil alguns expoentes das artes e ofícios, como o pintor neoclássico Jean-Baptiste Debret, Auguste-Henri-Victor Grandjean de Montigny (arquiteto), Auguste Marie Taunay (escultor), Charles Simon Pradier (gravador), os irmãos Marc e Zepherin Ferrez (escultor e gravador), entre outros mestres de ofício. Sua chegada está relacionada a presença da família real e à transferência da corte para o Brasil em 1808, o que trouxe também a necessidade de estruturação da ex-colônia, copiando o modelo europeu.

 

2- Baseado na obra Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821), segunda edição da tradução de Leonam de Azevedo Pena, Companhia Editora Nacional (1939), disponível no acervo digital da Brasiliana (www.brasiliana.com.br).

 

A dor que aprisiona – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 04 Novembro 2014.

 

2014 – 11 – 04 Novembro – A dor que aprisiona – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

A dor que aprisiona

 

S

e “a dor ensina a gemer” também nos mostra os caminhos de humildade, de fé, de respeito e de mostrar-nos humanos e limitados. A dor é a manifestação de que algo não está bem com nosso corpo. É o sofrimento de algum órgão ou parte do corpo que nos avisa pela dor. No entanto quantas vezes a dor é a enfermidade principal. Mesmo secundária a alguma moléstia, enfermidade ou dano. A dor torna-se a entidade principal, preponderante, sufocante da vida e da liberdade da pessoa. Cada “pé conhece o sapato e local onde lhe aperta”, em outros termos, cada um sabe do seu sofrimento e da dor que lhe acompanha. É comum que o médico peça ao paciente para dar uma nota de 1 a 10 da “sua” dor e em muitas unidades de tratamento a medicação analgésica é disponibilizada por essa nota pessoal. Observe: nota pessoal. Cada pessoa tem os seus limiares de dor ou de suportar a dor. Aquilo absolutamente terrível para uns pode não ser para outros.

 

Cr & Ag

 

Há dores que ofendem ao corpo, outras que laceram a alma. Muitas tiram da pessoa a sua graça e alegria de viver e nesse balanço muitos se digladiam entre sentimentos negativos de vontade de morrer ou de antecipar a morte. Vendo na morte a saída honrosa (ou não) do brutal sofrimento. “Deus dá a cruz de acordo com as costas pode carregar” apregoa a fé cristã. Há momentos em que o sofrimento faz com que a pessoa na dor extrema do corpo lacerado e da alma abandonada perguntar: – “Pai por que me abandonaste!” – o mais puro e evoluído espírito que já singrou esse planeta de dor levantou os olhos aos céus e fez essa pergunta humana. Há que respeitar o sofrimento das pessoas e essa é a condição básica em ser médico. Na origem da palavra está a capacidade e necessidade de aliviar a dor e o sofrimento. Curar é secundário na escala, na hierarquia da dor.

 

Cr & Ag

 

Parece acontecer geralmente o contrário naqueles doentes que já passaram por diversos médicos e outros profissionais da saúde ou até da espiritualidade e infelizmente não encontraram o fim do sofrimento. Muitos desses profissionais, assim como até o sofredor, acham-no “desenganado”. Acumulam-se sacolas de exames, dezenas de receitas, peregrinação sem fim e a cruel companheira (a dor) permanece ao seu lado, na frente e atrás, dentro de si dia e noite, horas sem fim, azedando e tisnando o horizonte do sofredor. Quantas criaturas andam assim perambulando pelos consultórios, clínicas diversas, hospitais, templos religiosos e curandeiros? Quantas pessoas perdem a sua vida pessoal, familiar, profissional e social? E perdem até a fé na espiritualidade por se sentirem abandonados e minimamente aliviados do sofrimento. Essa fase derradeira espelha o pior da degradação da alma diante da dor.

 

Cr & Ag

 

A dor ensina que pudor é contingência da saúde. A enfermidade torna-nos devassáveis a quaisquer mãos, olhos e instrumentos que possam auxiliar no diagnóstico, no alívio do sofrimento e talvez na cura. E são as UTI esses templos que as horas se arrastam interminavelmente, como o companheirismo e irmandade do sofrimento e das visitas esperadas da morte. O lugar que é o último reduto da vida é também a antessala da morte. Travamos a batalha final da grandiosidade da vida e da morte, do valor da saúde e do entendimento que orgulho, riqueza e poder tornam-se meras secreções finais de uma alma sombria diante do retardado, mas inevitável a ser enfrentado, mesmo nos derradeiros momentos, com amor, gratidão e fé. 

Entradas Mais Antigas Anteriores Próxima Entradas mais recentes