Refém do Medo – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 28 Outubro 2014.

2014 – 10 – 28 OUTUBRO – Refém do Medo – Edson Olimpio Silva de Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Refém do Medo

 

O

 medo é uma manifestação natural, um sentimento intrínseco do animal que somos, uma defesa que nos avisa e protege do perigo ou de qualquer coisa que possa nos magoar ou ofender mental e fisicamente. O medo exercitou nossas habilidades e estratégias de sobrevivência entre os dinossauros, nas savanas africanas ou nas selvas de concreto e plástico. Esse é o medo que nos interessa e empurra-nos a evoluir, no entanto em quantas e diversas situações somos vítimas da manipulação interior e exterior desses medos. Evitaremos de aprofundar uma classificação psicológica dos graus do medo e vamos enveredar pelo caminho do medo que nos aprisiona, que nos laça e garroteia, que nos torna submissos e, pior ainda (muito pior!), submissos àqueles que nos manipulam nas brechas das nossas fraquezas.

 

Cr & Ag

 

A mulher que é espancada frequentemente está nesse cenário do medo que constrói fantasias e armadilhas que buscam justificar para si e para os outros as surras que leva. Exemplos de desculpas: “eu tiro ele do sério”; “ele é muito bom, mas quando bebe…”; “está com problemas no serviço”; “ele puxou esse gênio da família dele”; e quantas outras atenuações. A sabedoria popular acredita que até apanhar “vicia” e lembra-se a anedota do português Manuel que morreu e deixou a Maria de viúva depois de quase cinquenta anos de surras. Contam que tempos depois da morte do Manuel os vizinhos escutavam barulhos de surras e a Maria gemendo. Pensaram inicialmente em fantasmas e assombrações até que vencendo seus ‘medos’ foram espiar pelas frestas da casa e viram a Maria jogando os tamancos do Manuel para o alto e aparando-os nas costas já bem lanhadas.

 

Cr & Ag

 

O medo do quarto escuro ou da escuridão faz a criança mais cautelosa e arisca. Logo esse medo pode se transporta para a escola nova ou para uma turma onde será vítima ou mentor do exercício do medo. O medo nas escolas ocupa um magnífico capítulo de variados matizes como o medo de tantos professores em querer disciplinar seus alunos diante do abuso de legislações oriundas da vontade exitosa de mentes que destroem a família, a moral e os pilares do convívio social. Isso não ocorre por mera casualidade, isso está dentro de um contexto em primeiro arrasar as estruturas naturais e vigentes na democracia para a seguir implantar (pelo exercício do medo) as ditaduras. Aumentam os temores de professores, que ainda são realmente professores, de atuarem para educar os jovens privilegiados e intoxicados pelas cotas.

 

Cr & Ag

 

Há cerca de 4 a 5 vezes mais seguranças privados no país do que soldados no Exército. Gasta-se bilhões na segurança privada, do cão ao alarme de penúltima geração. Isso cresce vertiginosamente pela absoluta sensação de insegurança (medo!) das pessoas honestas. As casas tornam-se jaulas que aprisionam o homem e permitem a liberdade das feras. “A Brigada prende e o delegado solta”; “o delegado prende e o juiz solta” – o resumo macabro de tudo isso é que o criminoso será solto. A poucos dias um “estuprador primário” preso em fragrante com seu comparsa foi liberado para “responder em liberdade o processo” pela “autoridade judicial”, noticiou a imprensa. Assim parece que o primeiro estupro é normal para quem o liberou.

 

Cr & Ag

 

Estou enviando essa crônica sem saber o resultado do pleito eleitoral e assim também não sei se o medo venceu ou…

As tormentas e Santa Bárbara – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 21 Outubro 2014.

2014 – 10 – 21 OUTUBRO – Oração de Santa Bárbara – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

As tormentas e Santa Bárbara

 

M

inha amada mãe Dora era católica e sua fé fez milagres. Como com este seu filho que estava “desenganado e mandado do hospital para morrer em casa” sendo essa passagem já conhecida de muitos que me acompanham nestes quase vinte anos de cronista. Estamos numa estação, a Primavera, caracterizada pelas tormentas com chuvas intensas, raios e trovoadas. A Primavera é daquelas damas bipolares e de intensa TPM, pois de um dia luminoso com as flores de cenário e os pássaros em alegre cantoria sendo os atores acompanhados de perfumes. Pois sem mais nem menos, o céu escurece e parece que vai desabar em nossas cabeças ou para lavar nossos pecados. Nasci e morei ali onde é a sede atual do PTB, junto à praça. E minha mãe nas tormentas distribuía panelas e latas para aparar as goteiras do telhado. Um lençol cobria o espelho da penteadeira para não atrair raios. Colocava os filhos sob a sólida mesa da cozinha para proteger caso o telhado desabasse. Queimava um ramo de palmeira abençoado no Domingo de Ramos e com o terço entre os dedos, orava. Guardo no coração essa imagem.

 

Cr & Ag

 

O Domingo de Ramos é o domingo anterior à Páscoa, Desde a véspera, o povo estava em preparativos. Logo uma grandiosa procissão e entre outras devoções, as crianças empunhavam um ramo de palmeira, que ao final na Igreja seria abençoado e guardado nas casas para ser usado nas tormentas atmosféricas. Não recordo da prece usada na época, mas busquei no doutor Google esta oração:

Oração de Santa Bárbara

“Santa Bárbara, que sois mais forte que as torres das fortalezas e a violência dos furacões, fazei que os raios não me atinjam, os trovões não me assustem e o troar dos canhões não me abalem a coragem e a bravura. Ficai sempre ao meu lado para que possa enfrentar de fronte erguida e rosto sereno todas as tempestades e batalhas de minha vida, para que, vencedor de todas as lutas, com a consciência do dever cumprido, possa agradecer a vós, minha protetora, e render graças a Deus, criador do céu, da terra e da natureza: este Deus que tem poder de dominar o furor das tempestades e abrandar a crueldade das guerras. Por Cristo, nosso Senhor. Amém”

 

Cr & Ag

 

Muitos conhecem o ditado popular de a criatura em desespero ou sob ameaça “somente se lembra da Santa Bárbara na hora de tormenta”. O Domingo de Ramos festeja a entrada magnífica de Cristo em Jerusalém, logo após ressuscitar Lázaro. E o mesmo povo alguns dias depois estaria crucificando-O. É uma festa importante na cristandade. No império russo cabia ao tzar encabeçar a procissão até à Igreja. A história da jovem Bárbara que se tornou santa é empolgante, como tantas outras da fé cristã.

 

Cr & Ag

 

Estamos sob uma severa tormenta política. Quanto menos dignidade e ética mais tentam destruir a honra alheia. Princípios de poder a qualquer preço imperam ante um projeto de nação, um modelo de país e de exemplos para as gerações atuais e seguintes. Oremos para que os melhores ganhem, mas oração sem a razão básica e elementar continuaremos elegendo o ruim. Que a próxima segunda feira seja de uma Primavera sem as tormentas e decepções que conhecemos. A busca do acerto em um novo erro é imensamente melhor do que persistir no erro antigo, chafurdando na vergonha dos escândalos intermináveis e do cidadão refém da bandidagem.

 

Parábolas ou Causos – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 14 Outubro 2014

2014 – 10 – 14 OUTUBRO – Parábolas ou Causos – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Parábolas ou Causos

 

Cenário 1. Uma multidão de pessoas estava à beira de um rio traiçoeiro. Precisavam cruzá-lo de qualquer maneira. Poucos barcos e a maioria em mau estado. A elite governante atravessou embarcada numa bela lancha com incontáveis mordomias a bordo. Aos demais distribuíram latinhas para retirarem a água das canoas enquanto atravessavam remando. Alguém disse: – a estrada é ruim, mas tem uma ponte bem lá em baixo. A turma se dividiu, muitos embarcaram nas canoas sabidamente furadas e os demais foram pela estradinha buscar a ponte. A elite governante atravessou em festa o furioso rio. A maioria das canoas furadas naufragou pois os ocupantes não deram conta de esvaziar a água que teimava em entrar. O pessoal da suposta ponte passou trabalho na estrada mal cuidada pela elite governante, mas encontrou o pontilhão e atravessou o rio.

 

Cr & Ag

 

Cenário 2. O novato adentrou os portais do inferno e logo nos primeiros salões encontrou multidões mergulhadas em enormes piscinas de estrume. Mais fétido e cheio de moscas e vermes que você possa imaginar. O novato via aquele pessoal pedir que ninguém se mexesse pois as marolas de estrume logo lhes tapava a cabeça e entrava pela boca e narinas, mesmo estando nas pontas dos pés. Volta e meia alguém sussurrava: – Olha a onda! – e lá vinha mais estrume. Angustiado com a situação o novato perguntou-lhes porque não saiam dali e procuravam outro lugar. A resposta era sempre a mesma: – Neste estamos e conhecemos a merda há mais de uma década e vai que no outro é pior que aqui! – e ficaram ali. Logo nos pavilhões a frente o pessoal fazia bailes funk, bebia uísque 25 anos, comida rolava, mulheres cinco estrelas e tudo de bom, gostoso e luxúria total. E ali o novato ficou para ser seduzido e torturado.

 

Cenário 3. Três amigos viamonenses nos tempos de antanho foram caçar perdizes, cerca de um dia de viagem de Viamão – ou do Capelão. Nas carroças estavam as criaturas, seus cães perdigueiros e o resto da tralha. Um dos amigos tinha fobia. Pior ainda, terror mórbido por cobras. No anoitecer estava um deles defecando escorado num tronco de figueira quando passou-lhe perto uma enorme e roliça cobra preta. Certamente fugindo do cheiro dele. Mais depressa que um corisco, deu uma paulada na cabeça da cobra matando-a. Enquanto terminava a obra sua mente tecia um golpe no medroso amigo. Combinou com o outro. Após a janta e uma conversa apagaram os candeeiros e foram dormir. Esperaram que o medroso começasse a ressonar e deram-lhe uma garfada no pé após deitarem a cobra enrolada aos pés da cama. O medroso acordou-se num griteiro e acenderam um fósforo e viu-se a enorme cobra preta que logo foi triturada e amassada a pauladas pelos “fieis” amigos. Tomado pelo pânico de ter sido picado queria voltar, mas os cavalos estavam soltos no campo. Era choro e ranger de dentaduras e pivôs. Eis que um dos amigos falou que sabia de um antigo remédio que seu avô tomara em semelhante situação. O medroso exigiu que contasse apesar da sua negativa. Seria um chá com verdes e estrume de cachorro. Novamente chorando e com dor já paralisando a perna e outras partes do corpo, exigiu o chá com cocô de cachorro. E como a coisa custasse a ficar ponta na fervura, pegou algumas fezes mais endurecidas e começou a mastigas e comer “para adiantar o efeito”. Ao saber pelos amigos da onça da maldita brincadeira, quase deu morte na caçada e as famílias ficaram inimigas pelo resto dos tempos.

 

Cr & Ag

 

Deus escreve certo pelas linhas tortas que a humanidade traça. A leitura e os ensinamentos dos fatos e episódios da vida são da capacidade de cada criatura. Uma certeza – nem sempre os laureis acadêmicos e os títulos fazem as pessoas mais aptas ou mais nobres. Outra certeza – os vermes habitam e regozijam-se no lixo e nos restos da dor e do sofrimento de suas vítimas.

Peixes & Lágrimas – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 08 Outubro 2014

2014 – 10 – 08 Outubro – Peixes & Lágrimas – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

Peixes & Lágrimas

 

A

ssim como muitos vocês amigos e-leitores dessa sempre magnífica e indispensável (meus trezentos leitores acham!) coluna estou intoxicado pela propaganda eleitoral. Os gases exalados ou eliminados soam como muitas siglas. Escrevo enquanto você ainda coloca o voto na urna eletrônica tão confiável quanto, quanto… Talvez o peixe panga? Não conhece o peixe panga? Você come peixe? Qual? Pois muitas pessoas perguntam ao médico sobre esse tal de “peixe panga” vendido nos mercados. Muitos já consultaram o doutor Google e trazem lendas urbanas ou realidades assustadoras. Os caminhos de uma vida mais saudável passam necessariamente pela mudança de hábito alimentar e a ingestas de peixes e frutos do mar estão nessas prioridades. Sabe-se que esse peixe é importado do Vietnam, sendo fundamental nas divisas econômicas daquele país. É vendido aqui no Brasil muito mais barato que a grande maioria dos outros.

 

Cr & Ag

 

Diz-se que os volumes importados são maiores do que 50% da maioria dos pescados nacionais. Muitos acreditam estar contaminados por metais pesados e outras substância tóxicas além de possuir um parasita com potencial danoso ao ser humano se consumido em carnes mal cozidas ou mal assadas. Alega-se que uma pesquisa da Proteste de 2012 não encontrou nada desabonador e que três missões do governo brasileiro visitaram o Vietnam e liberaram a importação e consumo. Aqui está o nó da questão. Há diferenças nos veículos e nos alimentos vendidos na comunidade europeia e nos Estados Unidos em relação ao Brasil. Para pior aqui. As nossas autoridades e o nosso governo são confiáveis? Ou não controlam ou dizem que nada sabiam. Não passam três meses sem que um novo escândalo do leite aconteça no Rio Grande do Sul. E quantas indústrias precisam ser fiscalizadas? E controlarão a produção num país do outro lado do mundo?

 

Cr & Ag

 

Lembrem-se das próteses de silicone francesas que usavam silicone ou outros produtos inadequados? Várias dezenas de milhares foram colocadas no Brasil. Deu em que além do prejuízo dos pacientes? E estavam autorizadas e liberadas pelo nosso governo. Ainda mais produtos vindos de um país socialista ou comunista na sua origem antiamericana. Esse governo preza mais a sua ideologia do que a saúde dos brasileiros. A mesma ideologia que sustenta ditaduras, como em Cuba, retirando da lei a avaliação real de “médicos” escravos trazidos para cá ou que discursa na ONU defendendo o terrorismo.

 

Cr & Ag

 

Há três tipos de lágrimas, segundo o Filósofo do Apocalipse: as lágrimas de dor, as lágrimas de alegria e as “lágrimas de crocodilo”. Há candidatos e cãodidatos. Você está derramando alguma lágrima? Qual delas? O que está ruim ainda pode piorar? Ou irá melhorar? Ou as lágrimas são pela absoluta perda de esperança nessas criaturas que buscam o poder pelo poder de locupletar-se e aos acólitos e partidos? Santa Catarina está em chamas aqui ao nosso lado. O caos da segurança pública! Onde não existem mais delinquentes ou bandidos e sim membros da comunidade em mais uma vergonhosa manipulação da mídia e do politicamente correto. País em que o governo valoriza mais o bandido julgado e condenado do que o cidadão que trabalhou e contribuiu toda sua vida para o INSS e para o Brasil… Vejam as aposentadorias do cidadão normal e trabalhador e compare com… Você sabe!

Na responsabilidade de educar – Amor e Dor – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 30 Setembro 2014

2014 – 09 – 30 Setembro – Na responsabilidade de educar – Amor e Dor! – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas

 

Na responsabilidade de educar – Amor e Dor!

 

A

precio muito conversar com pessoas anônimas, com gente do povo, sem os cuidados de estarem conversando com um médico e menos ser uma conversa dirigida como consulta. Assim tenho feito por toda a existência. Estando em outras cidades, com as pessoas do ponto do ônibus ou do metrô e com os taxistas e outros motoristas profissionais. Esses são criaturas excepcionais para termos uma visão do local, da região e de sua gente. Já cozinhamos vários temas desses personagens em outras crônicas. Outro dia, em deslocamento de hotel para aeroporto com um motorista já idoso, falávamos um pouco de tudo – futebol, política, prédios pichados, congestionamentos de trânsito – quando ele veio com o tema da educação dos filhos e alusão à “lei da palmada”. Contou que foi caminhoneiro e viajou por todo o Brasil. Tiveram dois filhos, ele e a esposa. Enquanto falava, olhava-me pelo espelho retrovisor interno como se não bastassem as minhas respostas e considerações e precisa-se ver meu rosto. Isso também me oferecia uma visão, um panorama e detalhes da vida repartida naquele breve caminho.

 

Cr & Ag

 

Contava-me que um dos filhos fora tranquilo e maduro para sua idade, enquanto o outro forçava caminhos sombrios, com maus e péssimos amigos e companhias. Horas de conversas, orientações, exemplos da família e de outras pessoas e fazia por estender as paradas em casa para que o rapaz mudasse de trajetória. Nada parecia funcionar. Um dos amigos preferenciais do jovem era viciado em drogas e sabidamente ladrão. No retorno de uma das suas viagens, encostou o caminhão com um mau pressentimento e uma angústia no peito. Logo perguntou pelos filhos. Um estava em casa lendo ou estudando e o outro estava sumido. Saiu em desespero a procurá-lo. Encontrou-o com o mau amigo e haviam roubado dois cavalos.

 

Cr & Ag

 

Fez devolver os cavalos e levou-o para casa. Ali chegando, retirou a cinta da cintura e passou a sová-lo. Contando a surra, vi seus olhos marejarem de lágrimas e a face contorcida de dor. – Ele gritava que iria embora de casa. Disse-lhe que poderia ir, mas que não voltasse nunca mais, pois se não quisesse estudar e trabalhar como o irmão e toda a família, que só lhe servia conviver com viciados e ladrões, que ele não impedia. O rapaz foi para seu quarto e ele disse trancar-se no banheiro e chorar como nunca na sua vida. O tempo que se seguiu foi de muito sofrimento para todos. Num pequeno complemento, disse-lhe que dói muito mais em nós do que nos filhos qualquer puxão de orelha, mais ainda uma surra.

 

Cr & Ag

 

O rapaz continuou em casa. Começou a estudar com mais dedicação e pediu um trabalho. Ele conseguiu um serviço na empresa de um amigo com o detalhe de que ele pagava o salário, mas que o jovem nunca soubesse. Que achasse ser como qualquer dos outros empregados apesar de ser menor de idade. Conta com alegria que gostaria que os filhos seguissem outras profissões, mas que os dois eram caminhoneiros como ele foi. São homens de respeito, trabalhadores e bem quistos, bons esposos e melhores pais. Disse que o filho antes problemático conta para todos que a sova que o pai lhe deu lhe o trouxe à razão e tirou-o de uma vida que já estaria morto na droga e no crime se nela continuasse. Demonstrando para todos o reconhecimento ao pai. Fez uma analogia final: – certas porcas rodam com facilidade no parafuso, mas outras têm que lubrificar muito e usar várias ferramentas para dar o aperto certo.

Vivemos uma era muito ruim para nosso povo e nossa pátria. Os exemplos são escassos nos líderes e nas autoridades. A impunidade grassa virulentamente. A lei é de levar vantagem e não ter limites ou fronteiras. A mentira é institucional. Ser honesto é um “defeito” quando tantos são criminosos de todos os naipes e cores.

Orgulho e Vergonha – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 23 Setembro 2014

2014 – 09 – 23 SETEMBRO – Orgulho e Vergonha – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

Orgulho e vergonha

 

Q

uase tudo é uma questão de medida. O remédio tem a dose curativa e alguns até a dose fatal. Há também aquela dose que não fede nem cheira, sem qualquer efeito real. Assim são com nossas emoções e com nossos sentimentos. Devemos buscar o equilíbrio seja na balança da deusa Themis, ou nos sentimentos, ou na vida em qualquer cenário. O orgulho é visto com uma aureola pecaminosa, mas nem sempre deve ser assim. O orgulho é uma das manifestações mais humanas. Real e estimulante. Sentimos orgulho quando nosso time vence ou sagra-se campeão. Orgulhamo-nos de nossas origens, do pampa gaúcho e das nossas tradições. Orgulho aflora nas vitórias da pessoa, da família ou da pátria. O orgulho se verte em lágrimas e na voz embargada quando um Ayrton Senna ou um Pelé é vencedor e ali sentimos como sendo cada um de nós. O orgulho anabolizado, excessivo, exacerbado transmuta-se naquilo odiosamente entendido como soberba. A soberba embrutece o coração e ensombrece a alma de seu portador.

 

Cr & Ag

 

O orgulho é primário. A vergonha é secundária. Tanto no vocabulário a letra “o” antecede a letra “v” como na vida. Alguém acometido de vergonha dificilmente sentirá um orgulho pleno e sem culpa. A vergonha tende a espreitar os caminhos, evita exteriorizar-se à luz do dia, fica no subterrâneo existencial da alma. O torcedor dessa “pátria de chuteiras” evita sair com a camiseta do seu time após uma goleada ou outro resultado constrangedor. Vários até sonegam serem torcedores do time tal. Desviam do assunto futebol e embarcam em qualquer outra canoa menos furada que a sua.

 

Cr & Ag

 

 Proponho um singelo exercício – você tem uma pessoa muito íntima e descobre que ela é criminosa, igual aos outros criminosos. Continuará sentindo orgulho daquela criatura? Ou vergonha? Mesmo naqueles casos que a força do “amor” empurre-o para incontáveis justificativas para explicar, referendar ou atenuar seus crimes, qual seria a sua atitude? Agora se transfira para a política brasileira. Um brilhante advogado observou que certas siglas partidárias não mais ostentam no peito e empunham bandeiras com a graça e a liberdade orgulhosa de outros tempos. É uma realidade. Até o presente, políticos consagrados pelo voto e por seguidores de suas promessas não tem a mesma exposição. Teriam vergonha de suas legendas partidárias? Ou o orgulho em alto e notável sonoridade ao dizer-se “sou de tal partido”. Onde estão? “Tão tudo mocozado por aí!” – entrega um conhecido mecânico.

 

Cr & Ag

 

 Getúlio Vargas, Juscelino, Jango, Brizola, os presidentes da ditadura militar e muitos outros trazem a marca da simpatia ou da antipatia por seu governo ou ideologia, nunca pela honestidade e do maremoto de escândalos e de corrupção. Tudo que fizeram, fazem e farão em prol do socialismo/comunismo no Brasil e nada do gênero descoberto e provado com os presidentes da ditadura. Realidade. Governos que privilegiam a desonestidade, que premiam a criminalidade e castigam o brasileiro e a brasileira que entregaram vidas de trabalho e contribuições para a previdência oficial. Esses brasileiros têm seus desmilinguidos proventos de aposentadoria diminuir ano a ano além de ser extorquido pelo “fator previdenciário” no ato funesto de aposentar-se. Para muitos é impraticável retirar a cangalha do pescoço. Vários pela ideologia, outros pelos cargos de confiança ou aboletados pelo poder. Infelizmente nem todos sentem o odor fétido do seu mau hálito, do chulé ou da bunda suja apesar de transformarem a vida dos outros a sua volta num inferno. Quem negocia e pactua com coisa-ruim cheira a enxofre. Há que acredite que pactuar com o diabo ou aceitar suas regras é “normal, todos fazem, ou vale pela governabilidade”.

Entre San Juan e Mendoza – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 16 Setembro 2014

2014 – 09 – 16 SETEMBRO – “Entre San Juan e Mendoza” – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

 

“Entre San Juan e Mendoza”

 

S

into-me um privilegiado por muitas coisas, mas especialmente por desfrutar de tempo para conviver com meus netos. São três. Dois residem em Roraima. E o Lucas está aqui residindo no apartamento ao lado. Estamos na transição do encantamento pela tecnologia que mistura deslumbramento pelas suas infinitas possibilidades como pelo sufocamento da imersão em bytes e redes sociais. Assim as pessoas pouco conversam dentro e fora dos lares. Até as necessidades profissionais sucedem-se em reuniões virtuais. Grandes telas iluminadas pelos cômodos das casas e nas paredes de restaurantes, bares ou qualquer local de convivência captam e mesmerizam a atenção. Pais que se “aliviam” de conviver com os filhos permitem o uso e abuso dos jogos eletrônicos enquanto escapam da aspereza diária da vida e dos relacionamentos e transferem para alguma hora ou dia incerto as suas responsabilidades e deveres inalienáveis da paternidade.

 

Cr & Ag

 

O cronista ao ser lido e digerido intelectualmente pelos leitores permite-se ingressar nas suas “linhas do tempo”, aproveitando o gancho do “face”. A leitura extensiva até de escassa quilometragem como uma singela crônica é raramente efetuada. Testes revelam que os assíduos frequentadores das redes deliciam-se mais por imagens ou curtíssimas frases – muitas simplórias – do que pelo esforço humano da leitura seguida de raciocínio, discussão interna e externa e do entendimento. Felizmente muitos de nós carregamos nos “discos rígidos” ou nos escaninhos do amor transmitido principalmente pelos pais e irmãos as frases, estórias, relatos diversos, contos, episódios, experiências e uma infinidade de recordações conscientes e inconscientes que perfazem e constituem aquilo que somos ou que deixamos de ser.

 

Cr & Ag

 

A frase título “entre San Juan e Mendoza” era usada pelo meu pai Aldo para significar a indecisão. A hesitação em optar entre alguma coisa. Eu construí uma estória em que imaginava um padre que cuidava dos seus fieis em duas cidades, San Juan e Mendoza. Uma cidade torcia pelo Grêmio e outra para o Internacional. Rivais. Não se afinavam. E o padre ali como algodão entre cristais. Eis que o padre resolveu fazer uma capela, uma igreja exatamente no meio do caminho, assim obrigando a que todos viessem aos cultos e cerimônias, misturando-se. Logo deixariam parcialmente a rivalidade, pois os vínculos afetivos iriam se intrometer e acalmar a fúria e o ódio separatório. E gremistas e colorados casariam entre si e seus filhos…

 

Cr & Ag

 

Está se lambendo e espumando nos cantos da boca, sossegue um pouco.  Não enveredarei pela disputa eleitoral e o San Juan e Mendoza de cada eleitor do Brasil espoliado por mentirosos de plantão e gatunos… A construção dessas personalidades familiares e sociais, que somos direta ou indiretamente responsáveis, trilha o caminho que a humanidade perfaz desde tempos imemoriais. Inclusive antes das cavernas onde os sons guturais já tinham um significado e uma intenção. Trazemos cargas genéticas e espirituais que vêm para serem buriladas, aperfeiçoadas, iluminadas. Responsabilidade. Tarefa vital. Chamemos ou interpretemos com palavras, gestos, atitudes e finalmente a pergunta: – que pessoas deixaremos para a humanidade e para o planeta? Estendendo: – que mundo deixaremos para os nossos descendentes?

 

 

 

 

De mal com a vida – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – 09 Setembro 2014

2014 – 09 – 09 Setembro – De mal com a vida – Edson Olimpio Oliveira – Crônicas & Agudas – Jornal Opinião

De mal com a vida

 

A riqueza de uma língua não está nas ervilhas do vocabulário, mas na profusão criativa de termos que adornam e aperfeiçoam os significados e expressam o íntimo e as necessidades das pessoas. Num certo restaurante, aguardava à fila para pagar a conta do almoço. Uma distinta senhora a minha frente dirigiu-se para a idosa de cabelos mal oxigenados e com a cara de réu e disse-lhe: – Venho ao seu restaurante a algum tempo e quero elogiar o bufê e o atendimento, além do maior cuidado com os pratos. A idosa de cabelos tubianos como cavalo de índio, olhou-lhe com cara de poucos e escassos amigos e sequer um “muito obrigado” saiu de seus lábios. A distinta senhora, já com seus familiares, contou o fato. Um atribuiu como grossura e outro acompanhante como ela está de mal com a vida.

 

Cr & Ag

 

Todos temos aqueles dias que levantamos de pé trocado ou que o azedume, até por causas inconscientes, arruína a jornada diária na proporção da capacidade e habilidade de cada um em não levar para seu ambiente de trabalho ou para o trato com as outras pessoas as suas broncas e desajustes. Muitos conseguem. Outros infelizmente não. Um certo médico era famoso por suas luas. “Ele é de lua, mas é um bom médico!” – diziam pacientes muito pacientes. Se me entendem. Uma funcionária do Bloco Cirúrgico afetada pelo humor agressivo do colega, sussurrou para outra funcionária: – Anda descornado! – de um jeito ou de outro a cadeia ou a corrente negativa já atingiu outra pessoa. Quem?

 

Cr & Ag

 

Dormir com os pés destapados ou para fora da cama também extradita a situação salobra. Essas situações são frequentes quando a condição da azeda, amarga criatura ou de maus bofes é de superioridade hierárquica ou de poder e mando sobre os demais. E muitos desses demais tornam-se suas vítimas eventuais ou de rotina. Ninguém suporta os reclamões ou o mau humor refratário. Sintam que certas correntes ideológicas, já que estamos em época eleitoral, e segmentos profissionais são de características as dores e os sofrimentos que sempre são causados pelos outros – eximem-se da culpa! – atrapalham e emperram as suas existências e da sociedade. Trazem o ateísmo nos corações de aço, pois rejeitam um mundo ou uma sociedade com patrões e empregados. Quem rejeita patrão, logo rejeita Deus, o maior de todos os patrões?

 

Cr & Ag

 

Há criaturas que se aprazem de transferir o fel de suas veias e contaminar o mundo com sua virulência sempre exigindo dos outros o cumprimento de suas responsabilidades e deveres e descontentes com a lei para todos. São cronicamente “perseguidos”, principalmente por sua personalidade deletéria e o assédio do lado negro da força. Sim! São criaturas que o tempo está nublado ou tormentoso a sua volta e geralmente com pouca sorte na vida ou explorados por alguém ou pelo sistema. A enfermidade ou a doença mental de alguns jamais servirá de desculpa absoluta.

 

Cr & Ag

 

Se está de fiofó azedo, que vá adoça-lo! Se o motivo está no sexo, trate-se. Se a causa é ideológica, amadureça ou espere renascer. Sempre será ruim pagar as contas dos outros, seja pelo estado de mal com a vida, seja por supostas dívidas de ancestrais desde o descobrimento do Brasil-zil- zil que nos imputam como responsáveis, das diferenças sociais dos vagabundos convictos ou de quem nunca fez realmente por merecer.

Pedaços – Lúcia Barcelos – Setembro 2014

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Pedaços

 

Talvez a sombra que me segue saiba dos meus passos,
Nas horas em que o sol me abraça e que me aquece.
E neste andar o suor escorre pelos braços,
E neste pensar se pensa o que jamais se esquece!
E os ventos que noutro tempo ouvia,
Talvez durmam nestas horas cálidas…
E quando olho para a areia quente vejo vagos traços
De uma vida toda que antes eu vivia.
Calam-se, no campo, algumas flores pálidas,
Enquanto as agulhas da memória bordam poesia!
Mas eis que de repente o vento pode despertar,
Apesar da sutileza dos meus passos,
E tudo, em versos soltos, transformar,
Ao desfazer este poema em pedaços!

 

Lúcia Barcelos

Negro José – Edson Olimpio Oliveira – Memória

Negro José!

 

 

 

A chuva inclemente, como um mandado divino, tentava lavar o sangue derramado numa guerra insana. Insana como qualquer guerra. Essa ainda era pior. Dizimou durante mais de uma década os sonhos de irmãos numa arena sem limites geográficos nítidos a não ser os marcados pelas patas dos cavalos, pelas rodas das carroças e carretas puxadas por bois e homens, pelas furnas cavadas pelos petardos da artilharia, pelas trincheiras transformadas em covas rasas abrigando mutilados e pelas covas plantadas quando tempo havia para sepultar os mortos…  O inverno invadiu o mês de dezembro afugentando o verão tal qual uma carga de cavalaria rasgando a várzea barrenta. O frio e a chuva deprimiam ainda mais um povo que contava seus mortos e aguardava em vão o retorno de algum filho sobrevivente. Numa guerra não há vencedores, todos perdem. Alguns perdem mais. Outros perdem menos. Se é que seja possível medir a dor de almas dilaceradas.

 

 

 

Negro José. Esse era o nome com que era chamado por quem ainda tinha uma réstia de respeito. Para muitos era somente o Negro. Um dos caminhos de acesso ou saída de Viamão passava pela localidade onde está Gravataí. Ali estava uma muralha natural, o rio e o alagadiço pantanoso de suas margens. Ali um poderoso e rico estancieiro mantinha uma balsa e negros escravos para fazer a travessia segura. E para tal cobrava – a portagem. A guerra exigiu que fossem republicanos ou imperialistas. Deviam tomar lado. A família dividiu-se e com eles esboroou-se a riqueza. Os negros libertos foram formar ombros com os lanceiros negros. E o ainda jovem José, ficou cuidando da mãe e da irmã e principalmente em manter a travessia do rio sempre aberta.

 

A sua força física crescia e se comparava aos esforços dos bois que tracionavam as cordas da balsa. A todos os viajantes ele servia sem exigir nenhum pagamento. Entendia no corpo e na alma a miséria que banhava a terra. Dias e noites. Invernos e verões. Ali estava ele em plantão permanente para seu sagrado ofício. Conquistou o respeito necessário de homens que viam inimigos em qualquer sombra. Transportava militares, ricos e pobres, fugitivos e pessoas de todos os confins.

 

Numa noite, abrigava no galpão logo na barranca do rio um grupo de combatentes farrapos, quando chegou um pelotão de imperiais comandados por um emissário do imperador que trazia propostas de paz na bagagem. Deu-lhes pouso também, abrigando-os da tormenta infernal. Foi somente com sua coragem e dignidade aliadas a um corpo privilegiado pela natureza que impediu mortes em sua casa. Mas o embate trouxe-lhe um ferimento por estocada de adaga que penetrou em seu tórax. Daí em diante sua saúde nunca mais foi a mesma. Por ter salvado o emissário real que depois se soube ser parente do imperador, recebeu uma carta do império com sua alforria e de toda a família e ainda uma gleba de terras onde vivia. E foi mantendo vivo esse importante emissário que a paz foi encaminhada e alinhavada.

 

Nenhum de seus irmãos retornou para casa. A mãe morreu com o coração partido pelo sofrimento. A única irmã casou-se e foi morar na fronteira com o Uruguai. Ficaram ele e a esposa e as cicatrizes da guerra. A guerra findara no papel assinado, mas continuava em muitas mentes. Continuava transportando homens e animais e livrando-os dos atoleiros movediços e mortais que continuavam a engolir os audazes e afoitos.

 

Negro José recebeu um presente a longo tempo ansiado – a gravidez da esposa. O pulmão ferido respirava com muito mais ardor. Os novos dias corriam céleres. Suas largas risadas se misturavam com a música dos sinos diferentes colocados nos dois extremos seguros da travessia. A alegria retornou estrepitosa. Eis que certa noite a dama de negro veio ao seu humilde lar. A amada esposa sentia dores lancinantes e logo um jorro de sangue encharcou seu leito. Montou cavalo e foi em busca desesperada do médico ou da parteira. Encontrou a parteira. A velha acudiu-lhe com a máxima presteza. Os esforços desesperados não conseguiram salvar mãe e filho. O véu da morte cobriu sua vida. Somente a fé e o trabalho o mantinham vivo na triste solidão.

 

Persignava-se como sua mãe lhe havia ensinado desde criança e como sua esposa querida sempre fazia antes do sono. A tristeza reabriu a ferida de seu pulmão. Um sangue escuro tingia o seu escarro. Acessos de tosse cortavam suas noites e destruíam o descanso. Persistia em seu ofício a qualquer hora e em qualquer clima. A vida lhe fugia lentamente. A tuberculose corroia seu corpo e os músculos antes poderosos eram tragados pela moléstia. Definhava. Em curtos sonhos encontrava seus amores sepultos.

 

Negro José terminara uma oração ajoelhado perante um antigo crucifixo de madeira e bronze. Era noite de natal. No povoado próximo as casas tentavam se iluminar e as pessoas dirigiam-se à igreja para a Missa do Galo guiados pelos badalos da torre cristã. Havia chovido torrencialmente nas duas últimas semanas. Um vento frio extemporâneo cortava as faces e mãos descobertas. Ali estava ele em sua tarimba coberto com uns pelegos velhos. Batem à porta. Toc, toc, toc. Três pancadas leves e uma pausa. Novamente três pancadas e nova pausa. Seus ouvidos jamais pregaram peças confundindo o chamado de pessoas com o açoite do vento ou o rumor das folhagens. Levantou-se. Abriu a porta. Ali estava um menino de cerca de cinco a sete anos de idade. Pele alva. Cabelos negros encaracolados. Olhos claros, quase azuis. Andrajoso. O menino falou-lhe:

 

— Negro José, preciso passar para o outro lado.

 

Negro José sentia que a sua voz trazia algum tipo de sentimento ou mensagem que sua mente não conseguiu traduzir. Mas essa também nunca foi sua preocupação principal, precisava executar o seu ofício. A noite em breu só permitia escutar os ruídos dos sinos e da correnteza do rio alimentado pela chuvarada. Colocou o menino na canoa que usava para o transporte de pessoas isoladas e cabresteada por uma longa corda que ele tracionava com a força de seu corpo. O menino segurando o candeeiro que iluminava seu rosto sereno. Negro José fazia uma força descomunal para avançar cada metro de rio. Nem a balsa pesava tanto. Perguntava-se se seria a fraqueza da tísica ou da correnteza do rio. Jamais havia forcejado tanto.

 

As mãos calejadas de uma vida dedicada ao rio começaram a sangrar. Dores atrozes desciam pelos braços escorridos do seu sangue. Olhava o menino e dizia para si mesmo:

– Tenho que vencer, a vida dele depende de mim.

 

A tosse turvava-lhe mais a visão. Conseguiu chegar à outra margem. O alagamento no sarandizal ainda fazia restar mais uns dois quilômetros à segurança fora do pantanal traiçoeiro. Extenuado. Ofegante e sangrando. Teria que fazer o resto do caminho até o sino a pé. Paroxismos musculares jogaram sua face na lama. Levantou-se buscando energias derradeiras e colocando o menino abraçado às suas costas reiniciou a jornada. O céu abriu-se e uma estrela cintilante e solitária surgiu como a marcar o local do som do sino. Cada passo fazia suas pernas penetrarem mais fundo na água e na lama pegajosa. A criança às suas costas parecia pesar toneladas. O sino continuava a chamá-lo. A estrela limpava sua retina e buscava algum equilíbrio num velho bastão de angico. O sangue escorria das mãos do negro tingindo o bastão de rubro. Eis que um tapete prateado formado pela luz da estrela solitária abriu-se a sua frente na derradeira subida. O peso desapareceu. O menino pesava agora como qualquer outro menino. A luz iluminava pessoas que agrupadas esperavam a sua chegada.

 

– Quem seriam elas? – perguntava-se. Estranhamente não sentia mais qualquer dor. A estrela pareceu descer do céu.

 

Negro José escutou a voz do menino: – Negro José, vais conhecer o meu Pai e a minha Mãe.

 

— Eis meu Pai! Eis minha Mãe! – disse-lhe novamente o menino.

 

Negro José viu um senhor de longa barba branca e uma senhora muito bela envolta num manto prateado e logo vindo por detrás deles, com os braços abertos para abraçá-lo seus irmãos, sua mãe e sua amada esposa com seu filho nos braços.

 

 

 

Dia seguinte, Negro José foi encontrado morto com o velho crucifixo de madeira e bronze enrolado nas mãos ensangüentadas com dedos entrelaçados em posição de oração. Uma infinidade de pássaros o rodeava na terra e no céu. Um sarandi abriu-se em flores brancas e perfumadas. O local passou a ser conhecido como Passo dos Negros e o povoado como Aldeia dos Anjos, hoje Gravataí. E sempre que alguém necessita de uma travessia segura e faz uma prece aos céus, a mão forte de um negro surge para conduzi-lo.

 

 

 

 

 

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